31/08/2009

Civilização e hipocrisia

Existem infinitamente mais homens que aceitam a civilização como hipócritas do que homens verdadeiramente e realmente civilizados, e é lícito até perguntarmo-nos se um certo grau de hipocrisia não será necessário à manutenção e à conservação da civilização, dado o reduzido número de homens nos quais a tendência para a vida civilizada se tornou uma propriedade orgânica.
Sigmund Freud



Hipocrisia, hipocrisia

Para que servem esses píncaros elevados da filosofia, em cima dos quais nenhum ser humano se pode colocar, e essas regras que excedem a nossa prática e as nossas forças? Vejo frequentes vezes proporem-nos modelos de vida que nem quem os propõe nem os seus auditores têm alguma esperança de seguir ou, o que é pior, desejo de o fazer. Da mesma folha de papel onde acabou de escrever uma sentença de condenação de um adultério, o juiz rasga um pedaço para enviar um bilhetinho amoroso à mulher de um colega. Aquela com quem acabais de ilicitamente dar uma cambalhota, pouco depois e na vossa própria presença, bradará contra uma similar transgressão de uma sua amiga com mais severidade que o faria Pórcia.
E há quem condene homens à morte por crimes que nem sequer considera transgressões. Quando jovem, vi um gentil-homem apresentar ao povo, com uma mão, versos de notável beleza e licenciosidade, e com outra, a mais belicosa reforma teológica de que o mundo, de há muito àquela parte, teve notícia.
Assim vão os homens. Deixa-se que as leis e os preceitos sigam o seu caminho: nós tomamos outro, não só por desregramento de costumes, mas também frequentemente por termos opiniões e juízos que lhes são contrários.

Michel de Montaigne



29/08/2009

O valor de todas as coisas



No final das contas, o valor de todas as coisas é igual a zero. Sou eu quem determina valor de qualquer coisa. Mas ao assim fazer devo ter claro que o faço para tornar a vida menos vazia do que ela realmente é.


Alexsandro

04/05/2009

Canalha, cínico ou fraco? Escolha seu perfil.

Levando em consideração o comportamento das pessoas quando estão reunidas em grupos, Jacques Lacan classificou três tipos:

Os Canalhas
aqueles ou aquelas que assumem o lugar do outro, ou seja, que pretendem ter o comando sobre o objeto do desejo dos outros. Os canalhas tentam impor as regras aos que o cercam, tenta modelá-las.

Os Cínicos
só pensam no próprio prazer, mas não tentam impor aos outros (aliás, eles não dão muita bola para os outros).

Os Fracos
dóceis, crédulos, concordantes, os fracos se deixam englobar no discurso do outro a ponto de ser engolido por ele, pois são suficientemente instáveis para se deixarem levar por quem quiser dar uma de chefe.



24/04/2009

Uma nota necessária sobre a esquizofrenização da sociedade e a depressão

O modo de produção e de reprodução da vida hoje em nossa sociedade, o modelo de vida nela instalado e em funcionamento é, potencialmente, depressivo e causador de depressão. Neste sentido a depressão é algo bem maior do que um problema individual, dessa ou daquela pessoa. Neste sentido a depressão não deve ser vista como um problema pessoal. Deve ser entendida como um vírus, uma bactéria, como uma doença externa ao sujeito, que, sem defesas ou com baixa imunidade, permite que ela se instale em seu corpo.
Há uma espécie de esquizofrenização da sociedade em pleno curso e não enxergar esse processo é se colocar à disposição, a qualquer momento, para a instalação em si de processos depressivos e/ou esquizofrenizantes (cuja distinção aqui não tem importância alguma). Diante desse fato, pode ser que uma pessoa acometida de depressão já não possua - sozinha - condições de se dar conta de que é mais uma vítima (sem vitimismo, sem infantilização, e sem excluir a responsabilidade pessoal pelo gerenciamento ou alienação do gerenciamento de sua própria vida). O fato é que a pessoa com depressão, tende a acreditar que o problema que gerou a depressão foi criado por ela mesma (o que pode só em parte ser verdadeiro, digo isso com o intuito de não excluir as responsabilidades que cada um tem, pelo menos, por deixar instalar a dita cuja em seu corpo).
Uma única pessoa não conseguiria o grande feito de criar o que se conhece hoje por depressão. Tal criação só é possível social e coletivamente, dentro de espirais de produção e de reprodução da vida nos moldes em que pôde escolher para reger esta mesma vida social coletiva. Acontece que a espiral coletiva que nos move e que se encontra sob a égide do capital, do grande e sacro mercado, do salve-se quem puder, do tombo no outro para subir e de procedimentos congêneres, não poderia deixar de produzir venenos psíquicos nocivos à saúde mental. Então, quando se fala em esquizofrenização em curso, é mais ou menos isso: produção em massa de depressivos e esquizofrenicos e um milhão de outras doenças psíquicas. É uma grande máquina de esquizofrenizar e deprimir.
Fala-se comumente que tais problemas decorrem de uma falta de adaptação social, mas, ao contrário, afirmamos que é o excesso de adaptação social (a gosto e/ou a contragosto), o inicio e a causa de tais problemas - só alguém esquizofrenizado consegue se ajustar plenamente ao tipo de sociedade corrente.
Acredito que este tema passa também por uma desconfiança que as pessoas possam ter quanto ao seu próprio poder de poder escolher quem querem ser. O que nos remete ao problema da identidade. Vivemos em um ambiente de identidades esfaceladas e neste sentido, muito mais suscetíveis às investidas esquizofrenizantes e depressivas do capital.
Um primeiro movimento autônomo pode ser a saída das armadilhas do mercado, qual seja, uma critica cética que busque transgredir as leis do mercado, rompendo com a idéia de esquizofrenia e de depressão.

23/04/2009

"Eu não as condeno à morte"

Eu compreendo, também, porque as pessoas sentem minha escrita como uma agressão. Elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte. Na realidade, sou bem mais ingênuo do que isso. Eu não as condeno à morte. Simplesmente suponho que já estejam mortas.

Michel Foucault

01/03/2009

Como explicar o surgimento de tudo

Dizer que a solução para o problema do surgimento de tudo pode ser resolvida com Deus, algo que cria, magicamente, tudo e pronto, pode parecer simples, mas não é. Responder qualquer pergunta com a afirmação de que foi Deus e assim ter a solução para todos os problemas, acaba não sendo a melhor saida. Colocando o problema do surgimento de tudo numa 'caixa preta' chamada Deus, acabamos criando um problema pior : "Como Deus apareceu?" Devemos entender que Deus é algo muito complexo, pois ele tem o poder e energia para criar tudo, e se pensarmos bem veremos que isso é algo realmente espantoso! Então, Deus é algo muito mais complexo do que o próprio Universo, já que o Universo foi criado por ele. Enfim, acabamos por trocar um problema mais simples -o do Surgimento do Universo - por um outro - o do surgimento de Deus - que é mais complicado. Desta forma, ao invés de simplificar estamos complicando. Podemos tentar escapar desta questão - do surgimento de Deus - dizendo que"as pessoas não podem entende-lo" ou que "ele sempre existiu". Mas a questão seguinte é: devemos fugir desse problema ou não? Devemos entender que a primeira resposta (que não podemos entende-lo) é um modo de fugir do problema levantado, é o mesmo que dizer: “Esqueça, não pense sobre isso!” E fazendo isso apenas trocamos um problema complicado - da origem do Universo - por um outro muito mais complicado e agora insolúvel - da origem de Deus. Dizer que ele sempre existiu também não refresca. Se precisamos de algo, mais complicado e complexo que o Universo, que precise que sempre tenha existido, para explicarmos a origem do universo, então é mais fácil supormos que o próprio Universo sempre tenha existido, pois ele é mais simples do que Deus. Se as coisas se passam dessa forma quando buscamos uma explicação para origem do Universo, a idéia de Deus atrapalha mais do que ajuda. Sobretudo se levarmos em consideração que isso é apenas uma introdução às contradições que aparecem quando se coloca Deus para explicar as coisas. Agora, se partirmos de um universo simples, que começou apenas com partículas simples, então a ciência já dá conta de explicar como apareceram o Sol, a vida, etc... Pelo menos no ponto em que nos encontramos, tudo fica mais fácil de entender sem a noção de Deus.

19/02/2009

O animal confinado de Amauri

O animal que é colocado à força em um cativeiro reage agressivamente contra essa situação. Entretanto, quando ele está, de alguma forma, adaptado ao cativeiro, apenas come, bebe água, dorme muito. Nessa situação, o animal apenas sobrevive. Embora esteja livre das ameaças dos predadores, esse animal apresenta comportamentos muito diferentes dos que vivem livremente. Limitado pela arquitetura do cativeiro, a sua força não encontra a via suficiente para agir e modificar o ambiente. Enquanto sobrevive no cativeiro, ele não passa pelas experiências fundamentais de procurar o seu alimento, de voar, de enfrentar riscos, de fugir do que o amedronta, de explorar o seu ambiente, de inventar soluções para os problemas que sempre surgem no seu habitat. Com o passar do tempo, esse animal torna-se inevitavelmente entediado porque praticamente tudo que acontece no ambiente artificial em que habita é previsível - as condições em que vive impedem que o imprevisto surja como uma abertura para a sua ação. Em suma, o animal que vive no cativeiro é incapaz de criar um mundo próprio. As tentativas de introduzir nos cativeiros objetos que provocam um mínimo de imprevisto para estimular os sentidos do animal, de maneira que ele possa ter alguma ação, apenas funcionam como paliativos... Já o animal homem, escondido sob o invólucro da racionalidade, busca o confinamento voluntariamente. Ele sobrevive enclausurado no mundo artificial arquitetado para que a sua força seja continuamente impedida de vazar. No seu cotidiano, ele desloca-se de um cativeiro a outro, o que lhe dá uma aparência de “liberdade”: seja no transporte público, no seu local de trabalho, nos estabelecimentos de ensino ou na sua própria casa, a potência do seu corpo de criar as conexões com outros corpos é continuamente refreada. Tal como o animal que sobrevive no cativeiro, o homem experimenta, na maioria das vezes, uma violência contra o seu próprio corpo, realizada dentro dos espaços modernos de confinamento – violência que é autorizada por leis que visam o seu “bem-estar”. Assim é produzido um indivíduo covarde, resignado, inofensivo e, evidentemente, muito fácil de ser enganado. Diante dessa violência, é inevitável que o seu corpo passe a reagir através de vários sintomas que apontam para uma degradação acelerada. Uma vida assim exige respiro e alívio. Constituída por seres aprisionados que amam o poder, a máquina social que organiza os indivíduos dentro dos espaços de confinamento também oferece os paliativos necessários para combater o tédio que os assola, de modo a mantê-los distraídos antes que esses sofredores destruam o funcionamento do perverso sistema de reprodução de seres atrofiados. Consumidor voraz das quinquilharias reproduzidas sob medida para os doentes, o homem-confinado padece cada vez mais porque nem sequer pode imaginar que a criação de um mundo próprio corresponde à liberdade de efetuação da sua natureza – liberdade que se exprime em um corpo apto a fazer, na maioria das vezes, as coisas que somente lhe interessa; liberdade que se exprime em um indivíduo que ama o risco, que dá boas-vindas ao imprevisto, que cria as suas próprias condições de sobrevivência ao inventar os atalhos no mundo em que vive. Antes a ação do que a crença em uma ideologia... Pois somente enquanto vive, o homem é capaz de desprezar os engodos que servem para aliviar, de modo efêmero, o desespero dos confinados.


Amauri Ferreira
(http://amauriferreira.blogspot.com)

05/02/2009

Nietzsche e a afirmação da vida



"Deus está morto" não trata apenas de ateísmo, mas da necessidade de romper a "moral de rebanho", ou seja, romper com as verdades tidas como inquestionáveis e o que é aceito por imposição, abrindo espaço para uma vida onde as potencialidades humanas sejam vividas em sua plenitude.


A máxima "tornar-se aquilo que se é" indica a tarefa de pensar por si mesmo.