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27/03/2015

ALHO, CEBOLA E BEIJO NA BOCA, OU, UMA ÉPOCA DE IRONIAS




Talvez estejamos vivendo numa época na qual a ironia seja sua maior representante. Afinal, é ou não é irônico vermos as seguintes situações?

- Corruptos lutando contra a corrupção.
- Infelizes oferecendo receitas para a felicidade.
- Idiotas que se dizem donos do melhor conhecimento. (Não importa qual seja o tema)
- Honestos que enganam qualquer um. (Desde que o produto seja vendido, a quem importa ser honesto)
- Intolerantes falando de amor ao próximo.
- Mortais que falam de amor eterno.
- Hipócritas gritando que acreditam. (Em que? Sabe-se lá o que.)
- Gente livre que afirma não haver alternativa.
- Gente presa que afirma ser livre.
- Estudantes que não estudam.
- Amantes que não amam.
- Justiceiros do injusto.
- Fracassados que falam em sucesso.
- Burocratas que pregam espontaneidade.
- Gente que afirma que paga um alto preço para ser como é, mas que, ironicamente, venderam-se por muito pouco.
- Conformistas que falam em revolução.
- Rebeldes em Ferraris.
- Aventureiros de escritórios.
- Vagabundos que trabalham.
- Gente ruim que é vista como boa.
- Gente boa que é vista como ruim.
- Gente que tem a capacidade de defender duas crenças ou ideias contraditórias, ou seja, é capaz de defender uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo, chegando a incrível situação de saber que está errada, mas se convence de que está certa.

Tais ironias se devem a muitos fatores, mas também não deixa de ser irônico o fato de que a mais de cinquenta anos George Orwell tenha cunhado o termo “duplipensar” como tentativa de definir esse jogo de incoerências tão recorrentes na vida moderna.
Duplipensar é, no entendimento do próprio Orwell:
“Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.”



Alexsandro

08/06/2014

Um ato de covardia a mais ou o círculo vicioso do silêncio





Em grande parte das vezes evitamos expressar opiniões e sentimentos a respeito de muitas coisas, a exemplo de muitas coisinhas miúdas do dia a dia, por supormos, as vezes com razão, que ao fazê-lo causaríamos constrangimentos e desconfortos para nós e/ou para outros. Assim, evitamos expor e guardamos silenciosamente sentimentos e ideias.
Além das nossas ideias e sentimentos há outras ideias e outros sentimentos mais poderosos que os nossos que também fazem um percurso silencioso na sociedade (crenças, valores, formas de ser e viver e noções a respeito de vários temas).
O curioso é perceber que quando algumas dessas ideias ou sentimentos vazam para fora do silêncio surge no ar uma sensação de alívio ao se perceber que não se foi o único a pensar ou sentir daquela forma.
Momentos assim também revela nosso medo, nossa condescendência, nossa falta de vontade em querer se comprometer com posturas que fariam nosso ambiente social ser abalado, positiva ou negativamente, afinal, nunca sabemos antes do ocorrido. E como não sabemos preferimos lidar com a dúvida em silêncio, negamos o debate, o dialogo, a discussão, acreditando que assim nosso barquinho não precisará enfrentar nenhuma tempestade.

Sim, somos falsos, mentirosos, preguiçosos, covardes, negamos que nossa compreensão das coisas se faça expostas e ouvidas e discutidas. Acreditamos em nossas próprias mentiras (ou fazemos de conta) e nas mentiras dos outros (ou fazemos de conta). Nossa imaginação é prodigiosa em criar desculpas para nós manter quietos quando queremos ficar quietos (e quase sempre desejamos ficar quietos).




Alexsandro



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05/03/2014

Relações face a face e relações “on line”

O conceito básico de socialização implica no processo que, entre outras coisas, é ensinado a alguém como se comportar dentro da sociedade. Diz respeito ao processo pelo qual alguém ensina a alguém como se relacionar com os outros. Pode parecer estranho para muitos, mas ninguém nasce sabendo o que fazer com a própria vida e como proceder diante dos outros que povoam suas relações e com os quais se compartilhará a vida, isso precisa ser aprendido. Por isso todos nós tivemos mentores que nos disseram como lidar com a vida e com os outros (se foram bons ou maus mentores é outra história). Desta forma o acesso a sociedade e ao convívio com os outros teve e tem um custo, além de ser um processo longo e trabalhoso, houve e há sobre cada um de nós um investimento emocional e material significativo cujo saldo final é o esforço que temos de fazer para viver em grupo e tornar o estar junto uma experiência boa. 
A questão é: com o advento das relações “on line” como fica tal esforço?
Toda vida em sociedade foi mantida e ainda é baseada nas relações face a face. Este tipo de relação é determinada por papeis sociais que são anteriores aos sujeitos. Elas, as relações face a face, até certo ponto (e um ponto bem profundo), esperam de todos os envolvidos um compromisso significativo e significante, tornando a todos coadjuvantes de sua dinâmica. Elas dão e elas cobram. Dela os sujeitos fazem parte de maneira compulsória. Nas relações face a face desfazer laços é extremamente complicado, doloroso e arriscado. As relações face a face são eventos difíceis: manter uma postura, assumir posições, expressar sentimentos, encarar os outros, nem sempre é fácil ou segue no rumo das nossas expectativas.
A ideia de que a vida baseada na relação face a face deve ser adorável o tempo todo não tem como se sustentar. 
Nas relações “on line”, por outro lado, existe a possibilidade de escolher até onde vai a participação e o envolvimento. Conectar e desconectar são a lógica dinâmica deste tipo de relação. Pela facilidade de conectar e desconectar, e sendo este o seu maior atrativo, o poder de manejar a possibilidade de desconectar-se sempre que algo não está do agrado faz dela uma relação com pouco ou sem nenhum compromisso. Se é fácil fazer contatos, adicionar amigos, mais fácil ainda é desfazer-se deles.
Na relação “on line” o compromisso é tão fluido e a exigência de compromisso é tão insignificante que a tecla “Delete” funciona como uma varinha mágica nos momentos que é se é envolvido pelos sentimentos de nojo, enfado ou aborrecimento com alguém ou com algo. Desta maneira tais relações se mantêm não apenas porque colocam as relações no limite da superficialidade, mas também porque delas é mais fácil escapar. 
O pressuposto da relação “on line” é ideia de que a vida deve ser adorável o tempo todo. 


Alexsandro

11/11/2012

Expectativa

A expectativa é a ansiedade pelo prever, pela possibilidade de determinar, de instituir o futuro. A expectativa se liga a noção e a sensação de controle. É a eliminação da surpresa, do devir. A expectativa lida com o futuro de forma ansiosa. Ela gera um canibalismo do tempo presente, o tempo presente sendo devorado, o nosso próprio tempo sendo devorado por nós mesmos. Como devoradores do tempo, para nós ele já não flui, ele é algo que deve ser ultrapassado. Para ultrapassarmos o tempo, o devoramos. É assim que a expectativa paralisa e esvazia o presente, exaure, cega, estreita e fecha os horizontes.


Alexsandro

11/06/2012

Devotos do trabalho



O credo que alimenta nossos dias encontra-se baseado na ideia de que o trabalho melhora a vida, que por meio dele as condições de vida de homens e mulheres se tornarão melhores. Isso é apenas um credo, um dogma, não há um grama de garantia em tal promessa. Funciona como funcionaram uma vez as promessas religiosas, baseia-se na fé. E tal como a religião, o medo é um dos seus principais combustíveis. Apenas que o medo da danação eterna foi substituído pelo medo do desemprego e pela falta de um pouco de conforto em vida. Se antes a submissão a Deus representava a promessa de um paraíso, hoje a submissão ao empregador representa a nova opressão e a nova esperança de dias melhores. O amor à religião foi substituído pelo amor ao trabalho. Os santos agora são os empresários. Os padres ou pastores foram substituídos por gerentes e diretores. O empregado é o fiel devoto. A esperança de promoção no trabalho é o emblema da submissão.
De joelhos ralados segue a massa submissa cantando em coro os hinos de sua vida de rebanho.

Alexsandro

20/11/2011

Como um morango podre para a torta


Sempre sou questionado sobre minha trajetória acadêmica e como observo o universo universitário e escolar. Bem, por onde começa? Vejamos...
Infelizmente a maioria dos frequentadores (chamo de frequentadores porque muitos não são mais do que isso) das salas de aulas não faz a menor ideia do papel social que os tocam. Não tenho certeza, mas parto do pressuposto que para que alguém possa ser chamado de acadêmico alguns predicados essa pessoa deveria apresentar:

1. Certo esclarecimento e consciência a respeito do papel social do curso que pretendeu fazer;
2. Um pouco de disciplina monástica para ser gasta em sala e nos seus estudos extraclasse;
3. Interesse por aquilo que decidiu aprender, afinal ele decidiu aprender algo sobre algo;
4. Esclarecimento sobre o universo profissional do qual pretende fazer parte, e;
5. Paciência.

Infelizmente, viver tudo isso não é para todos. Muitos são idiotas "eletronizados", cujo cérebro ficou emergido durante algum tempo em uma panela com vinagre. Uma pandilha de gente sem um pingo de educação que tratam a aula como balada regada a música ruim.
Não, muitos não são pessoas ruins, pelo contrário. Mas são engolidos pelo hálito fedorento da mediocridade que exala um tsunami de babaquices que inunda de barulho o universo que deveria ressoar com ecos de ciências e filosofias.
Criatividade, maluquice genial, rebeldia ativa, força de vida que provoca vontade de pensar o diferente ou o que ai está? Não, nada disso é visível entre os frequentadores. Só dor, afinal eles frequentam a dor - frequentador(es). Muitos nem sabem, mas estão construindo para si um fim que só pode ser melancólico: passar o resta da vida falando mal do curso que frequentaram, com o agravante de não saberem do que estão falando.
Algumas vezes quando a coisa começa a funcionar, chega o morango podre da torta. Estão mais preocupados em bater papo em voz alta e mandar mensagens via celular do que ouvir o que está sendo discutido na sala. O pior é que tem gente que acha que é bonito ser idiota. Pena que não exista um programa tipo fotoshop para cérebros. Eu sei que é feio chutar cachorro morto, mas existem coisas que são indefensáveis e um pouco de honestidade intelectual faz muita falta.
Do lado dos professores há muitos que parecem que foram alimentados com suquinho de merda e bolacha de dejetos radioativos. Fazem das aulas um teatro para piadas que só servem para matar o tempo e frases de autoajuda que não deveriam ser pronunciadas no espaço na academia, a não ser que fossem para serem ridicularizadas.
A conclusão? Qualquer um que tenha esperança em um futuro grandioso para humanidade é porque nunca frequentou uma sala de aula, se o fizesse cortaria os pulsos com uma faca de açougueiro suja de sangue de boi. O espírito intelectual de muitos frequentadores é tão cheio de vontade de vida quanto um cadáver de frango rodando em um forno.

05/09/2011

10 notas antipatrióticas ou por uma vida para além da Pátria e do Estado

Nota 1
Todo patriotismo é coisa inventada e imposta.


Nota 2
Onde há Estado a noção de Pátria se faz necessário. A construção da lealdade ao Estado passa pela construção da obediência patriótica. Tudo aquilo que é usado para definir a pátria, o espírito patriótico, é usado para assegurar a permanência do Estado. A Pátria compartilhada legitima a unificação política do Estado. É sobre a bandeira da Pátria que o Estado é defendido.


Nota 3
Um Estado, um sentimento patriótico – o estabelecimento de um padrão de sentimentos que devem ser vividos e experimentados. Os traços culturais são usados para construir a noção de Pátria.
A construção do conceito de Pátria passa pela eliminação da alteridade. Pátria é uma noção reacionária. O discurso patriótico é coercitivo. Se não se tiver pela Pátria um amor fiel corre-se o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado um herege.


Nota 4
Patriocentrismo - o fenômeno que coloca a pátria como centro do universo, uma derivação do etnocentrismo e sociocentrismo.
O etnocentrismo alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos, xenofobias. Um de seus maiores problema se encontra na desqualificação do outro. O etnocentrismo é uma característica comum a diversas sociedades. Seu limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro.
O patriocentrismo possui um traço comum com o etnocentrismo: uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma percepção auto-referencial - os membros de uma sociedade percebem-se não apenas diferente, mas superiores.
Um outro problema é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista dado pela visão patriótica. Internamente ao Estado tal noção dominante e tida como superior pode levar a não aceitação das discordâncias e a censura destas. Tal visão é absorvida pelo sujeito que passa a considerar esta visão como estando ligada a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito deixa de compreender sua própria situação e passa a compreender tudo pela visão da pátria e do Estado. Ele só compreende a pátria na perspectiva dela mesma. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O sujeito perde a sua singularidade em prol de uma identificação com elementos que lhes são exteriores e estranhos. Não compreende que muito daquilo que ele venera foi construído em momentos que lhes são totalmente distantes, tanto no tempo quanto no espaço, e em circunstâncias das quais ele desconhece e que não teve nenhuma participação. – um exemplo são os símbolos patrióticos.


Nota 5
O que alimenta tal atitude patriótica é a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral a incapacidade de compreender e de conceber a pátria como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime patriótico. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica somada a condenação a qualquer tipo de crítica fazem do patriocentrismo uma atitude arrogante, fundado em idéias preconcebidas que constrói seus discursos tendo por base pressupostos arbitrários, caprichosos e injustos.
Tais comportamentos morais e afetivos que definem e caracterizam o afeto patriótico são de extrema relevância para compreensão de como se constroem os instrumento de sedimentação dos sujeitos em um Estado, ao Estado, sobretudo para compreensão dos estudos sobre os estados de ânimos sociais, agitações ou controle dessas agitações. Assim, a noção de Pátria serve como tensor que se estende entre o Estado e os sujeitos.


Nota 6
Tal sentimento de Pátria não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo encontra-se inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo da imagem do outro, deve acontecer.
O homem da pátria acredita saber diferenciar o justo do injusto, o bem do mal. Ele procura respeitar as instituições e exige que os outros façam o mesmo, ele é um soldado sem farda. Ele se crer fazendo sua parte para manutenção da lei, da ordem e da paz social; ele também se ver como um homem trabalhador e honesto, que oferece a sua força de trabalho para o desenvolvimento e futuro do seu país; acredita na ascensão social, que se fizer sua parte para o bom funcionamento da pátria há de prosperar junto com ela. Daí que o patriota alimento sua capacidade de julgamento sempre na mesma direção: tudo aquilo que for diferente do seu ponto de vista deve ser condenado; tudo aquilo que não girar em torno das suas convicções é uma oposição que deve ser excomungada; tudo aquilo que for diferente é uma ameaça em potencial à conservação e manutenção da sociedade. Ele identifica aquilo que é a pátria com aquilo que é "bom" para todos, independentemente de quem se trata – a vida é a pátria, homens e mulheres são a pátria, o social é a pátria; e tudo que assim não for dever ser renegado.


Nota 7
A pátria não é um acontecimento natural. É algo que possui uma temporalidade, que pode ser datada em termos do seu nascimento e morte. Os traços geográficos que a delineia foram rabiscados pelo desenrolar das tramas históricas, na maioria das vezes produto de lutas e mesquinharias. Imagens, falas, sentimentos, expressões de vidas, línguas, corpos, sensações, vegetações, animais, paisagens, foram juntados, costurados, colados na especificidade e particularidade de um momento, a eles se juntaram discursos, sentidos foram criados, passando a afetar uma cosmovisão. A pátria é uma produção, não do seu povo, mas, das relações de poder a ela subjacentes. O povo foi uma de suas capturas. Ele é um de seus reféns. Assim como o é a natureza, as crenças, os valores e todos os produtos culturais nascidos das relações entre os sujeitos.
Quem olha do presente para o passado é levado a acreditar que a pátria é fruto de um processo coerente e ordenado, que ela é o produto final e glorioso de sua própria evolução. Somos levados a esquecer que as inúmeras práticas vividas e discursos pronunciados em termos patrióticos assim o foram na dispersão do tempo e do espaço, enfim, o ajuntamento das práticas e dos discursos que dão forma a pátria não são frutos de um acontecimento lógico, controlado, calculado ou previsível.
O surgimento da pátria é fruto do silenciamento de uma multiplicidade de vozes, do apagamento de uma multiplicidade de imagens e práticas. Vozes e praticas que foram recortadas em seus múltiplos dizeres e fazeres, que foram selecionadas e moduladas para que, em seguida, fossem reapropriadas para servirem ao propósito “maior”: elementos constituintes de uma pátria-mãe. É por conta disto que devemos questionar sobre como foi e como é possível uma pátria, a que preço ela se tornou e se torna possível.


Nota 8
A idéia de pátria como algo natural ou desde sempre ai acaba por encobrir o fato de ser ela um produto político e que enquanto tal deve ser compreendida. Apoderando-se de símbolos, de fatos e de expressões a pátria vai reagir e funcionar a partir de uma totalidade maior: o Estado-nação. Movendo-se dentro deste espaço nacional, delimitado por suas fronteiras, descobrimos assim um jogo entre o artificial e o artifício: se o Estado é artificial, a Pátria é um artifício deste. (Pensemos o artificial como sendo um produto de uma época, fruto de circunstâncias de época.)
O discurso patriótico é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor a um futuro promissor.
Onde devemos procurar a origem da pátria? No emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Pátria não possui essência. A identidade que ela faz nascer é artificial, como qualquer identidade, como qualquer processo de identificação.
O desmonte da noção de Estado é correlato ao desmonte da noção de Pátria. Questionar o Estado só faz sentido se questionarmos a noção de Pátria.


Nota 9
Haveria em nós um instinto de idolatria? É provável. Para dar vida aos nossos interesses projetamos sobre a face da terra os nossos sonhos, forjamos o tempo e nele inserimos a história, nossa história ou aquilo que consideramos como nossa história. Nela mesma, toda terra é neutra, suas fronteiras são acidentes geográficos, os contornos que traça não visa determinar estados morais. Mas o homem estabeleceu sobre ela determinações estranhas à natureza e às forças que a anima. Assim, como idolatras, passamos a adorar os objetos ridículos da nossa própria criação. É interessante constatar que entre a ficção e a evidência todo entusiasmo do homem recai sobre a primeira. Se há uma fonte sobre a terra de onde jorra o mal, ela não é outra se não esta capacidade de ficcionar e de levar a ficção às últimas conseqüências, dar às ficções humanas um caráter de absoluto. A pátria se soma a tantas outras ficções que idolatramos e a tantos outros falsos absolutos.
Não há noção de pátria que não traga uma dose exagerada de idolatrias, doutrinas e farsas. Todo ato de adoração à pátria é um ato de adoração aos crimes que foram cometidos para que esta aparecesse e se mantivesse. Quem ama uma pátria faz de tudo para que outros também a amem. Não há fervor patriótico sem uma quantidade considerável de intolerância, fé cega, intransigência ou proselitismo.
A pátria é uma assassina em potencial. Há na história humana dois motivos pelos quais mais se matou ou se morreu: por um deus ou por uma pátria. Devoção fervorosa e sangue. Gemidos e hinos. Fé religiosa e devoção patriótica se igualam no número de vítimas que fizeram. Os mais violentos crimes foram e são cometidos em nome de uma ortodoxia, religiosa ou política, não importa.
Daí o patriota ser um fanático fervoroso. E por ser assim, ele é um perigo. Os melhores e mais eficazes assassinos pode ser encontrados entre os patriotas e fanáticos: morrem e matam em nome de uma crença, de uma ficção.
A pátria é um conjunto de signos: honrar uma pátria, fazer guerras por uma pátria. Não perceber que por causa dela a vida deixa criar, que o sangue que ela faz correr, o sangue que ela exige, em nome de "proteção", é o mesmo sangue que poderia está sendo dirigido para uma vida mais cheia de possibilidades.


Nota 10
A pátria se consagra em um despotismo dos princípios: ela se coloca como sendo e tendo o ideal correto a ser seguindo; ela consagrou o futuro como um alojamento de bem-aventuranças para aqueles que a legitimam; ela faz parecer que a segurança reside por detrás de seus muros. A pátria se quer no plural: ‘Nós’. E nesse ‘Nós’ ecoa uma forma de fascismo. Dentro dela as instituições visam gerenciar a boa conduta, o porte correto, a regulamentação das opções. Ela quer ser percebida como o paraíso, ela concorre com o paraíso celestial. Artesã de espíritos ardentes, não perdoa aqueles que vivem sem as suas verdades. Um sujeito desprovido da crença patriótica é um ser estranho à pátria. Ela demanda certezas, impõe convicções, elimina as dúvidas e os duvidosos.
As convicções patrióticas se estabelecem como forças dominadoras - debaixo de sua bandeira se esconde uma arma.


Alexsandro

04/03/2011

Mate amargo para jovens e crianças

Mais uma cidade brasileira adota o toque de recolher: Matelandia - PR. Mais uma vez o alvo são crianças e jovens. A desculpa é a mesma que foi usada em outros municípios: "Queremos um município mais tranqüilo e formar cidadãos de bem", justifica a autora do projeto, a vereadora Líria Perini Carnetti. Em outro momento ela afirma: “Com a aprovação e aplicação desta Lei, colheremos os resultados em pouco tempo. O que precisamos é proteger nossas crianças e adolescentes dos abusos causados por uma vida desregrada, alcoolismo e consumo de drogas”.
A opinião de outros vereadores que votaram favoravelmente não é diferente:
Não tenho dúvida que esta é uma ação educadora, para que as famílias e a escola consigam formar bons cidadãos. Esta Lei é um instrumento, principalmente para os pais que não tem domínio sobre os filhos, recorram a este recurso para manter seus filhos longe dos perigos das ruas. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) regulamenta que os adolescentes a partir dos doze anos que cometerem infrações podem receber advertência e ainda serem punidos com até três anos de reclusão, o problema é que só se fala em direitos da criança e adolescente, pois os deveres são mal interpretados. (Edson Alves - Vereador)

Poderemos encontrar problemas na aplicabilidade, mas contamos com o apoio do Executivo e do Judiciário. (Eliete Ponciano Pinto - Vereadora)

Como educadora, tenho consciência da dificuldade em conduzir os adolescentes. A sugestão é que esta Lei seja fixada nas escolas para o conhecimento de orientadores e alunos, para um melhor entendimento da comunidade. (Kátia Duarte - Vereadora)

Tais argumentos são de uma superficialidade sem tamanho. Enxergam os problemas mais não as causas. O que assistimos é o fracasso dos pais em criarem relações satisfatórias com os filhos; o fracasso do estado em criar condições dignas de convívio - como não existem programas advindos do estado para resolver problemas que atingem a sociedade de maneira avassaladora, criminaliza-se as práticas cotidianas dos indivíduos; a perda do espaço público - afinal, a quem pertence as ruas?, e, finalmente, a criminalização de experiências da infância e da juventude para garantir uma vida tranqüila para adultos e velhos.
Tais atitudes tomadas por juízes, e no novo caso, proposta pela vereadora Líria Perini Carnetti, contradizem todos os princípios constitucionais que vigoram no atual Estado Democrático de Direito em nosso país. Para citar alguns: o princípio de liberdade do indivíduo; o princípio da isonomia - que indica que todos possuem direitos iguais e ressalva o direito a diferença de cada um; o princípio da legalidade.
Diz-se muito que o problema é de segurança e que caberia ao Estado criar tal condição para a sociedade. Mas infelizmente o Estado se mostra incapaz de garanti-la. E a questão se torna ainda mais grave quando levamos em consideração o lamentável grau de corrupção das nossas instituições de segurança pública. (Das nossas instituições publicas como um todo). Tais medidas buscam resolver problemas sociais com ações repressoras - como não se combate efetivamente o crime, penaliza-se o cidadão comum. São propostas e soluções que possuem o mesmo significado de outras medidas que os Estados vêm implementando: redução da maioridade penal, a política da tolerância zero, a expurgação de mendigos e camelôs dos centros das cidades e torturas de presos.
Historicamente a aplicação do toque de recolher como medida tomada pelo Estado nunca deriva de atitudes democráticas e libertadoras. Sua efetivação sempre aponta na direção de um pensamento fascista. Não foi a toa que os nazistas na Alemanha usaram contra judeus e que norte-americanos usaram contra imigrantes japoneses e seus descendentes (1933 e 1945). Também nos Estado Unidos, durante a década de 1950, os cidadãos afro-americanos sofreram o mesmo tipo de restrição durante a vigência da Lei Jim Crow, que restringia as liberdades e direitos civis dos afro-americanos. Em casos mais recentes testemunhamos seu uso em Israel contra civis palestinos (2005).
Por conta destes fatos devemos promover uma crítica radical contra o toque de recolher. Faz-se necessário ficarmos atentos e buscarmos esclarecimento e esclarecermos a juventude e a todos sobre o que está por trás deste espetáculo de mentiras e hipocrisias que representa tal proposta. Ele nada resolve de fato, apenas camufla o problema e reforça a repressão, enquanto deixa os verdadeiros culpados pela miséria da sociedade à solta.
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31/01/2011

Anonimato

É certo que o mundo não necessita de outros messias, gurus, lideres, estrelas pops. É por conta disso que o anonimato vem se mostrando uma condição revolucionária bastante eficaz. Seu efeito rizomático faz dele uma condição de resistência que parece ser mais eficaz e menos vulnerável as seduções capitalistas.
Alexsandro

26/11/2010

A montagem do território é correlata à montagem da fronteira


De início é válido esclarecer que a noção de território aqui trabalhada tem na definição construída por Guattari a referência primeira:

“a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que o delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quando a um sistema percebido no seio de qual um sujeito se sente ‘em casa’. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos.

A noção de território demandaria o estabelecimento de recortes. A linha do recorte estabelecerá uma fronteira que definirá um dentro e um fora. Tudo aquilo que é usado para definir o ‘dentro’, o espírito do ‘de dentro’, será usado para assegurar a permanência do ‘fora’. A fronteira estabelecida legitima a unificação política de um território. Um território definido e definidor: um território que passa a afetar e que circunscreve o estabelecimento de alteridades: afetividade territorializada estabelecendo padrões de sensações e sentimentos que devem ser vividos e experimentados; território definindo alteridades a partir das noções ‘dentro’ e ‘fora’.
Mas como nasce um território? Do e no emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Lembrando que o discurso que faz nascer um território é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor para um futuro promissor. O território e a fronteira não possuem essência. A configuração que assumem é artificial. No movimento de territorialização, que pode ser de identificação ou de conceituação, tudo no entorno, tudo com que entra em contato será afetado.
Há os movimentos. Um território nasce dos movimentos. Movimentos de transformação. Eles são inevitáveis. Embora muito se lute para represá-los ou reprimi-los. Os movimentos de transformação se fazem pela e na destruição, na demolição, no desfazer, no diluir, no evaporar de certos mundos, de certas configurações culturais, de certas relações sociais, de certos sentidos. Sentidos que se vão, que se perdem, que deixam de ser, que somem, e no reverso, sentidos que vêm, se acham, que passam a ser, que aparecem. Um ambiente que se tornou ultrapassado para expressão de afetos. Afetos que requerem novos traçados, novos territórios. São afetos ganhando vida, assumindo a vida, dando vida. E no trajeto que segue, estratégias vão sendo requeridas, fronteiras vão sendo estabelecidas.
O estabelecimento de um território acontece tentando eliminar a alteridade. Como em um ato fágico, devorar para integrar. E para aqueles que não se territorializaram, a ação êmica, vomitar para expulsar. Questionar a fronteira é correr risco - o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado não pertencente ao território.
Vale lembrar que tal sentimento de pertencimento não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo se encontra inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo, da imagem do outro, deve acontecer. Os comportamentos morais e afetivos definem e caracterizam o afeto dos sujeitos ao território. O problemático aqui é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista imediatos ligados a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito pode deixa de compreender sua própria situação a partir do momento em que ele só compreende o território e a fronteira na perspectiva ‘do dentro’. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O estabelecimento da fronteira pode significar o estabelecimento de um limite entre a percepção de si (o de dentro) e a percepção do outro (o de fora). Tal limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro. Uma percepção auto-referencial que vai à direção de uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma imagem do outro, pejorativa e falsa.
A desqualificação do outro alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos e xenofobias. O que alimenta tais atitudes é, sem dúvida, a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção da alteridade, do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral. A incapacidade de compreender e de conceber a alteridade como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime de fronteira. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica, somada a condenação de qualquer tipo de crítica, fazem da fronteira um espaço de atitudes arrogantes, fundado em idéias preconcebidas, de circulação de discursos arbitrários, caprichosos e injustos.
Alexsandro

25/11/2010

SOBRE A MEDIOCRIDADE E A REVOLTA

Um dos nossos problemas, assim me parece — é a questão da mediocridade. Não estou empregando esta palavra em sentido condenatório, mas é fato óbvio que a grande maioria de nós é medíocre. Poderá alguma técnica, religiosa ou mecânica, libertar-nos dessa mediocridade? Ou não deve, antes, haver uma revolta contra toda técnica?...
Nossa mentalidade é o resultado das influências; ela está condicionada por influências. E condicionados que estamos e sujeitos a influências várias, dizemos: “Escolherei uma determinada influência, um guru, escolherei o que é bom, o que é nobre; e cultivarei por meio de vários exercícios, de vários métodos, tal excelência”. Todavia, não obstante isso, nossa mente continua a ser uma mente influenciada, controlada, moldada, mente que luta para alcançar um fim predeterminado; e essa mente jamais pode achar-se em revolta, pode? Pois, no mesmo instante em que se revolta, essa mente se vê num estado de caos. A mente medíocre, pois, nunca pode estar revoltada, sendo capaz unicamente de passar de um estado condicionado para outro, de uma influência para outra.
Não deveria a mente estar sempre revoltada, para compreender as influências que a assaltam incessantemente, interferindo, controlando, moldando? Um dos fatores da mente medíocre não é o medo constante que a domina e, também, o estado de confusão em que se acha, em virtude do qual ela deseja ordem, consistência, deseja uma fórmula, um modelo pelo qual possa ser guiada, controlada; e, entretanto essas fórmulas, essas várias influências geram contradições no individuo, geram confusão no indivíduo. Estás condicionado como hinduísta ou como muçulmano; outro está condicionado pela idéia de “ser nobre” ou por idéias econômicas ou religiosas. Qualquer escolha entre diferentes influências denota sempre um estado de mediocridade. A mente que escolhe entre duas influências e começa a viver em conformidade com a influência preferida, continua a ser medíocre, não é verdade? Pois essa mente nunca se acha num estado de revolta, e a revolta é essencial para que se possa descobrir algo.



Jiddu Krishnamurti









04/11/2010

A queda do Muro de Berlin e a queda dos pêlos pubianos




Em muitos momentos do século XX os filmes pornográficos estavam ligados não apenas às práticas libidinosas como também às criticas a repressão, sobretudo a repressão da própria libido como expoente de uma repressão geral da sociedade. Larry Flint foi um dos personagens símbolo dessa postura anarco-porno dos anos de 1970. Em muitos roteiros, por trás de muita sacanagem sexual, existiam também sacanagens políticas. Enrabar uma loira peituda, o grande símbolo da cultura americana, era um ato simbólico de enrabar os Estados Unidos. Estávamos em meio à guerra fria. Mas, como todos sabem, os Estados Unidos venceram a guerra. E a grande imagem dessa vitória, que é também uma vitória do capitalismo, é a queda do muro de Berlin. No campo da sexualidade, o equivalente pornografico da hegemonia capitalista e americana é a queda dos pêlos pubianos. Tais quedas representaram o avanço da hegemonia americana e capitalista sobre as práticas políticas cotidianos. Assim como a queda do muro de Berlin representou um golpe nas utopias políticas do século XX, a queda dos pêlos pubianos aparece como o novo símbolo desse controle sobre o corpo e suas práticas.
Se nos anos de 1950 os filmes com a “família feliz” era o sonho dourado que saia dos cinemas e invadia os projetos pessoais, hoje percebemos que os filmes pornôs deixaram de ser lixo cinematográfico e viraram referências para muitas das práticas cotidianas. É curioso perceber que sua influência vai desde seios siliconados, pêlos depilados, práticas, posturas e posições sexuais, até a invasão do imagético cotidiano de todos em termos de relações (afetivas e sexuais) possíveis.
Alexsandro
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30/10/2010

Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores)

A família infantiliza a criança de uma maneira monstruosa. Quando não é o bibelozinho da casa ou o xodozinho, é o reverso disso, o monstrinho, o idiota bobão que não sabe nada, que não tem nada a dizer, que não presta para nada. Em outro extremo nós encontramos crianças de 5 anos sobrevivendo pelas ruas na companhia de outras crianças. Em tribos indígenas meninas de 12 anos possuem as mesmas responsabilidades dos adultos. Não entendam que desejo que esses exemplos sejam nosso parâmetro, não se trata disso, trata-se de outra coisa. Trata-se de entender que nós paralisamos as crianças. Elas poderiam estar rendendo mil vezes mais do que estão rendendo, mas não estão. E a culpa é da família. É da F-A-M-Í-L-I-A! ! !
A criança responde a educação que recebe: se for tratada como bobona, ela vai agir como bobona, se for tratada como alguém cheia de potenciais, ela responderá como tal. Os pais são os parâmetros. E, ao contrário do que se imagina ou se fala, pais e mães brasileiros são uma lastima: um número absurdo de pais são alcoólatras, outros tantos são ausentes. As mães são as maiores propagadoras de preconceitos, dos mais variados tipos. A família é a primeira e maior inimiga à qual as crianças têm de sobreviver.
Vencemos muitos momentos ruins. Talvez é chegada a hora de começarmos a maior batalha enfrentada por homens e mulheres: vencer pai e mãe.
Alexsandro
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26/10/2010

A inteligente arte de não ler

Gosto muito de um pequeno artigo que li já faz um tempo - "Os cinco livros que mais me influenciaram". Ele é de fato uma entrevista na qual Derrick Jensen falar sobre livros e leituras. Interrogado sobre qual livro o fez perceber que alguma coisa estava errada com o planeta, o sistema político, o sistema econômico, etc. Assim respondeu ele:

Não foi um livro. Foi a destruição de lugar após lugar que eu amava. E foi a completa insanidade de uma cultura onde tantas pessoas trabalham em trabalhos que elas odeiam... A própria cultura me convenceu de que alguma coisa estava errada, ao ser tão extraordinariamente destrutiva da felicidade humana, e, muito mais importante, do próprio mundo.

O que ele quis dizer? Na continuação de sua argumentação ele nos faz entender, entre outras coisas, que não é qualquer leitura que faz bem ou que vale a pena. Fazer todo mundo ler pode parecer uma atitude correta, mas depende muito daquilo que será lido, caso contrário, não vai fazer muito diferença. Enfim, de nada adianta trocar o analfabetismo por outra visão estreita do mundo. Uma “boa formação” (e eu não tenho certo o que isso significa) depende também do que se lê. Por exemplo, citar um livro como "O Código Da Vinci" como referência de boa leitura não me parece uma boa postura. Tal questão já nos remete a uma arte muito estranha e pouco falada: a arte de não ler. É o filósofo Schopenhauer quem dirá:

"... no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público, o tempo todo, com panfletos políticos ou literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para tolos sempre encontra um grande público..."

Após fazer essa dura crítica, ele sugere que por conta do nosso pouco tempo, devemos voltar nosso interesse

"para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e de todos os povos, para os homens que se destacaram em relação ao resto da humanidade e que são apontados pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais."

A preocupação aqui é com o fato simples que muitas vezes esquecemos, qual seja, ler livros ruins emburrece. Sobretudo quando temos claro que muitos daqueles livros só foram escritos para serem vendidos, pouco importando seus conteúdos. Ou como ele diz em forma de crítica a esse mercado editorial: “Nove décimos de toda a nossa literatura atual não possui outro objetivo senão o de extrair algum dinheiro do bolso do público.” Dizendo de outra forma, o fato de ter sido impresso não significa que seja de boa qualidade ou que mereça ser lido. O interesse financeiro, independente da qualidade, acontece abertamente.
O gesto da leitura não é um gesto fácil. O gesto da escrita não é um gesto fácil. E em um contexto que é regido pela máxima de que uma “imagem vale mais do que mil palavras”, não é fácil competir com isso, sobretudo quando ela gera o engano de se achar que "imagem" e "palavra" competem entre si, quando, de fato, uma completa a outra. Neste sentido, uma leitura se torna significativa quando temos capacidade de refletirmos sobre o que foi lido. Além do mais, há leituras que precisam de uma preparação, precisamos das chaves para abrir e fechar cada página. Assim, a crítica em forma de conselho de Schopenhauer ainda possui a mesma vitalidade de quando foi escrita a mais ou menos uns 150 anos:

“Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.”

A experiência da leitura tem a ver com o sentido que damos a essa leitura. Cada linha que lemos deveria nos remeter a linhas de vida. Deveriam funcionar como um mecanismo de desentrave – um mecanismo que vai abrindo novos territórios, nos desalojando, nos tirando da zona de conformo e nos fazendo pensar e ver de uma maneira totalmente outra. Se assim não for, digo, é uma leitura inútil.
Alexsandro
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20/10/2010

Pode parecer estranho, mas professor tem que estudar

A crença na afirmação de que ser professor é um dom, não faz mais sentido. O magistério é uma profissão e, como todas as outras, requer empenho. Isso significa que professor não funciona por inspiração, professor tem que estudar e estudar muito. Professor que não estuda, que não lê, e quando digo ler, estou falando de boas leituras, leituras teóricas dos conteúdos, deveria comprar uma corda e se enforcar (opa! escapou), digo, deveria procurar fazer outra coisa.
No momento em que escrevo esse texto ( pouco depois da meia noite), um vizinho idiota passa com o som do carro a toda altura, fazendo todos nós ouvirmos uma música também idiota, provando para todo nós o quão idiota ele é, e eu fico me perguntando, quem educou esse idiota? Esse homem obrigatoriamente passou por uma escola, pode até ter feito um curso superior, e eu pergunto: o que saiu errado? Não sei. Podemos pensar em mil respostas, inventar mil desculpas, mas uma delas infelizmente tem a ver com o nosso tipo de educação escolar e com a formação dos professores que se encontram nessas mesmas escolas.
Somos parte de uma sociedade violenta, corrupta, ignorante e infeliz. As provas estão por todos os lados, basta abrir os olhos e olhar. Nossa cultura é um desastre. Nosso sistema de ensino é medíocre. Nossa política é suja. Nossa economia é um crime. O nosso modelo de família é um poço de neuroses. E a educação escolar que deveria servir para nos tornar melhores, pessoas melhores, não está fazendo isso. De fato, o que estamos testemunhando é um roubo. As escolas estão roubando a vida das crianças e dos adolescentes. A maior parte do tempo gasto na escola é puro desperdício. Troca-se a infância pelo que? Por algo muito ruim. Milhões de crianças têm gastado milhões de horas nas escolas para se tornarem o que? Um neurótico com diploma é a mesma coisa que um neurótico sem diploma. O estudo, no modelo como ele se apresenta hoje, é puro desperdício de tempo. O que nossos anos de estudos nos fizeram compreender? Quais as coisas realmente significativas que aprendemos, a ponto de mudarmos nossa forma de ver o mundo e sua complexidade? Ou, como dirá José Ângelo Gaiarsa: “O que restou em você depois de quinze anos de perda de tempo, sentado em uma cadeira, fazendo sabe-se lá o quê? Quinze anos de tortura e tédio, cujo conteúdo poderia ser aprendido em um ano, se alguém estivesse interessado nesse sentido.”
Alexsandro
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18/10/2010

As grandes feridas narcisicas

Foram três as grandes “feridas narcísicas” sofridas pela humanidade, segundo Sigmund Freud. A primeira, a perda de nossa ilusão de estarmos no centro do cosmos gerada pelas descobertas de Copérnico e o reconhecimento pleno do heliocentrismo; a segunda, a “degradante” descoberta darwiniana da evolução das espécies, que deu a nosso narcisismo a “má notícia” de que não somos criaturas saídas das mãos de um deus, mas meros descendentes dos primatas, macacos melhorados; e, em terceiro lugar, a própria psicanálise freudiana, que mostrou que “o ego não é rei em sua própria casa” e escancarou o quanto o comportamento humano é guiado mais por impulsos inconscientes e pulsões biológicas do que por princípios racionais.
Mas a ferida narcísica que o proprio Freud inflingiu talvez seja mais profunda do que ele mesmo previu: sua teoria a respeito da religião e das raízes da necessidade psicológica da fé também representam ferimentos severos à auto-imagem de todos os Narcisos que queriam continuar a crer que são os “favoritos da Criação” e que havia um “plano divino” dedicado a construir a felicidade humana… Como diz Freud numa frase inesquecível, dum pessimismo à la Schopenhauer, “somos tentados a pensar que não entrou no plano da ‘Criação’ a idéia de que o homem fosse feliz”…
A Natureza, para um ateu de lucidez tão implacável como era Freud, jamais foi vista através da névoa distorcedora do idealismo ou do antropomorfismo. A Natureza, para o Pai da Psicanálise, evidentemente não é criação de um Deus Onipotente, Bom e Sábio. Não é algo que esteja aí para nos “agradar”, nos deleitar, nos receber calidamente em seu seio. Nem está “do nosso lado”, pronta a atender nossos desejos e preces. Seria uma ilusão humanizá-la, sentimentalizá-la, “encantá-la” e supor nela intenções, desejos, desígnios e vontades. Para Freud, a Natureza, na verdade, é um imenso aglomerado de Forças e Energias que, em sua totalidade, escapa totalmente ao nosso controle. “Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente”, aponta ele, antes de enveredar por exemplos ilustrativos:

“os elementos, parecem escarnecer de qualquer controle humano; a terra, que treme, se escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a água, que inunda e afoga tudo num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que se lhes antepõe; as doenças, que só recentemente identificamos como sendo ataques oriundos de outros organismos, e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será. É com essas forças que a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização.” (O Futuro de Uma Ilusão, pg. 96)

Jacques Lacan, em seu Discurso aos Católicos, sublinhou que o pensamento de Freud, como já começamos a suspeitar, não concebe uma Natureza que possua “desvelos humanistas” ou que seja “sensível” aos sofrimentos e aos prazeres humanos. Ela é indiferente.

“Não, a reflexão de Freud não é humanista. Nada permite aplicar-lhe esse termo” (pg. 34), afirma Lacan. “A realidade física é totalmente inumana. (…) Sabemos o que cabe à terra e ao céu, ambos são vazios de Deus…” (pg. 40) Lacan sugere mesmo que à Freud “a própria dor parece-lhe inútil. Para ele, o mal-estar da civilização resume-se nisto: tanto sofrimento para um resultado cujas estruturas terminais são antes agravantes…” (pg. 34) [LACAN, O Triunfo da Religião, precedido de Discurso Aos Católicos. RJ: Jorge Zahar, 2005.]

Não importa o quanto a Civilização avance, pois, com seu séquito de novos conhecimentos científicos e novas tecnologias; a Natureza “inumana” está sempre presente como um poder superior e ameaçador, desencadeando tempestades, terremotos, tsunamis e chuvas de cometa capazes de, por vezes, reduzir à pó milênios de árduo trabalho humano ou mesmo extinguindo espécies inteiras de animais. Descobrir-se em meio a um mundo natural tão hostil certamente gera tormentos psíquicos e crises de valor, como Freud aponta: “A auto-estima do homem, seriamente ameaçada, exige consolação; a vida e o universo devem ser despidos de seus terrores; ademais, sua curiosidade pede uma resposta.” (O Futuro de Uma Ilusão, Os Pensadores, pg. 96)

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02/10/2010

A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A decepção é uma experiência humana universal desde sempre. Nas sociedades antigas, ela era restrita. Primeiro porque o desejo era mais limitado, existia uma cultura da resignação, resumida na expressão “é a vida”. E, depois, havia a religião, que limitava a decepção. A sociedade moderna fez explodir o sentimento da decepção. A democracia abriu o desejo das pessoas. Ela cria frustrações porque não suporta a desigualdade. E a era hipermoderna, que vivemos hoje, acelerou mais ainda a decepção, que agora está em todos os lugares, em todos os níveis sociais. Na política, por exemplo. As pessoas, em todos os países, estão sempre decepcionadas com a política. Com a globalização, não há mais a esperança revolucionária. É a era do direito do homem, e este é sempre inferior ao desejo. A escola. Antes ela tinha a virtude de permitir a ascensão social. Mas hoje temos jovens muito qualificados que trabalham em coisas que não correspondem a essa qualificação – e isso gera decepção.
As pessoas podem até se declarar felizes, mas isso não significa grande coisa. Há outros indicadores como a ansiedade no trabalho e com os filhos, taxas de suicídio e casos de depressão e dependência, que mostram como a sociedade de bem-estar é uma sociedade de frustrações. Depois dos anos 60, desenvolveu- se a idéia de que o consumismo cria a decepção porque mostra o que você não vai ter. Ou que você seria forçosamente frustrado porque, quando tem uma coisa, já sonha com outra, como se isso levasse a pessoa a uma decepção permanente.
O consumo de bens materiais não é tão produtor de decepções. Os objetos têm um valor pela novidade. Não é porque você não tem um Jaguar que o seu carro modesto não o satisfaz. Você pode gostar da sua casa, sem que ela seja um castelo. O consumo cultural é o que decepciona. Veja, por exemplo, a televisão. Ela é feita para ser um espetáculo, mas se você fica zapeando é porque o espetáculo não o satisfaz. O zapping é uma permanente decepção. A decepção mais forte, mais intensa, a mais cruel é a que você tem com outras pessoas. Então se engana quem culpa o consumo pela infelicidade. O que dá frustração é a individualização do mundo, é a relação com os outros e consigo mesmo.
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15/08/2010

Custo de oportunidade

Em economia o "Custo de Oportunidade" representa o custo associado a uma determinada escolha medido em termos da melhor oportunidade perdida. Explicando. Representa o valor que atribuímos à melhor alternativa entre outras possíveis - se escolho "a" ao invés de "b" é por considerar a primeira alternativa mais "vantajosa" que a segunda dentro de determinada situação. Mas, ao fazer tal escolha, perco aquilo que adviria caso tivesse escolhido a segunda alternativa.
Para além do seu sentido econômico e no sentido que aqui empregamos, o custo de oportunidade está diretamente relacionado com o fato das nossas escolhas estarem sempre entre alternativas possíveis. Ou melhor, sempre que escolhemos o fazemos por termos mais de uma alternativa, caso contrário não seria escolha, seria determinação ou algo parecido. Como somos levados a escolher o tempo todo, essas escolhas implicam em abrirmos mãos de determinadas oportunidades ou possibilidades em detrimento de outras, o que traz como conseqüência a existência de um custo de oportunidade sempre que tomamos uma decisão, sempre que escolhemos. Enfim, escolhas implicam em ganhos e perdas. Resta-nos avaliar se o que perdemos compensa o que ganhamos e vice e versa, se aquilo que ganhamos compensa o que perdemos.
Mais um ponto. O custo de oportunidade representa o valor associado à melhor alternativa não escolhida. O que significa? Significa que há de se levar em consideração também o fato de que a alternativa escolhida pode não trazer os benefícios que a alternativa não escolhida traria - quando escolho "a" posso estar deixando de lado benefícios que seriam mais vantajosos casa tivesse escolhido "b". O que temos é que o custo de oportunidade diz respeito também ao maior benefício que não foi obtido na escolha, ou seja, a escolha não trouxe o beneficio esperado e pior, a outra alternativa seria de fato a melhor.
Por que escolhemos algumas coisas e não outras? Por que atribuímos valor a isso e não aquilo? O que me leva a viver de uma maneira e não de outra? São questões que levam em consideração critérios de valor. Tais critérios que usamos para valorar algo estão relacionados de alguma maneira com o custa de oportunidade que vislumbramos ao escolhermos algo. O ponto central da questão se encontra exatamente nos critérios que usamos para escolher. Serão eles critérios que me possibilitarão a melhor escolha? E mais, o que seria uma boa escolha? Estamos realmente capacitados para avaliarmos entre alternativas possíveis? Será que estamos sobretudo prontos para avaliações críticas?
Alexsandro
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14/08/2010

Qual o perigo que corremos diante de tanta mediocridade advinda do mundo artistico?

A vida humana é uma experiência que em grande parte dela estamos em busca de respostas para os mais diversos dilemas e problemas. É uma vida em busca de respostas para que ela própria possa ser experimentada da maneira mais plena possível, ou seja, buscamos respostas para tentar expandir a vida, renovando-a e fortalecendo-a cada instante.
A par deste fato devemos procura entender o perigo que corremos ao sermos seduzidos por obras de arte medíocres, qual seja, o de perdemos a dimensão criativa da arte em nossas próprias vidas, essa característica que a torna tão necessária para todos nós, sobretudo a uma vida que deseja a todo instante superar o momento, as forças que a constrange, as adversidade ambientes. Devemos entender que a arte, em suas diversas formas de expressão é o laboratório das experimentações para novas possibilidades de sermos outros e outras para além daquilo que se encontra determinado pela média do ambiente no qual circulamos.
Alexsandro
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