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06/04/2015

NÃO É O FIM DO MUNDO, MAS PODE ACONTECER ANTES DO FIM DO MÊS


Zeca Baleiro tem uma música (Drumembeis) na qual um dos seus versos diz assim: “Tá todo mundo com medo do fim do mundo / mas pior que fim do mundo / para mim é o fim do mês.” O que representa essa declaração? Que as preocupações cotidianas são aquelas que tomam conta de nossas vidas. Estamos mais preocupados em garantir o próximo fim do mês do que em garantir a continuação da espécie humana. Que estamos mais preocupados com a água da geladeira do que a do reservatório. Que pouco importa o mundo todo se o meu emprego estiver garantido. Que pouco importa o atentado terrorista desde que não atentem contra meu quintal.
Vivemos atualmente, como população de um país, Brasil, e como humanidade, uma série de problemas cuja novidade se encontra no grau de sua escala e no real perigo que representam para a vida humana na forma como ela se encontra hoje sendo experimentada. Isso significa que, nosso modo de vida pode acabar a qualquer instante, vivemos sob ameaças constantes, a forma como vivemos é uma bomba prestes a explodir. O motivo? Muitos problemas que hoje afetam o Brasil podem ser vistos em outras partes do mundo. E problemas que já afetam outras partes do mundo logo chegarão por aqui. Problemas para os quais não estamos preparados para enfrentar e pior, não estamos nos preparando para enfrentá-los. Não são problemas que virão, são problemas que ai já se encontram em andamento. Ao listá-los e ao verificar a gravidade de cada um, somado a inércia geral em não querer perceber. Ou, fazendo de conta que eles não são problemas e se são, não nos dizem respeito, temos uma equação cujo resultado se apresenta perigoso. A lista dos problemas que se anunciam não é difícil de fazer, assim como não é um mistério para ninguém. Mas qual o motivo de não prestarmos atenção? É que estamos preocupados com o fim do mês.


Colapso econômico
Vivemos na iminência de um colapso econômico. Nossa economia se baseia em um parâmetro de relação cujo dois dos seus principais componentes não fecham uma conta exata: a dívida e o crédito. É possível entender a linha fina na qual todo nosso modo de vida se sustenta se entendermos que há mais dívidas no mercado do que crédito para pagá-las. Se for somado as dívidas pessoais, institucionais, empresariais e estatais, há mais dívida no mundo que recursos financeiros para pagá-las. Vivemos na iminência de uma falência geral, para tanto basta chegar um momento no qual não se tenha como pagar as dívidas.


Escassez de água
Quando se fala em escassez de água pode parecer um assunto batido ou do qual todos já tem consciência e esclarecimento sobre a relevância de compreender os riscos que corremos. O problema é que não é isso que acontece. Bem pelo contrário, não se encontra em andamento nenhum programa sério para encarar o problema.
O Brasil é um bom exemplo do descaso geral de como o problema da água vem sendo tratado: desperdícios os mais variados e contaminação pelos mais diversos tipos de produtos definem a forma irresponsável como tratamos a água por aqui. Mas vale lembra que isso acontece no mundo todo.


Crescimento populacional em um mundo de recursos finitos
Outra conta que não estamos fazendo é a da relação entre recursos finitos e crescimento populacional.
A população brasileira mais do que dobrou em menos de cinquenta anos. Se formos analisar esse crescimento em termos mundiais a questão fica ainda mais grave. O que assistimos é o consumo cada vez mais rápido dos recursos naturais por um número cada vez maior de pessoas.
Se somarmos escassez de água e crescimento populacional o quadro fica delicado: devemos entender que para sobrevivermos dependemos de produtos, alimentícios ou não, vindos das mais diversas partes do mundo, esses produtos precisam ser produzidos e depois transportados, o que temos é uma bola de neve que só cresce. Muitos desses produtos demandam água ou a poluem. Água que precisamos em maior quantidade a cada ano por conta do aumento populacional. Uma população que consome cada vez mais, o que leva a diminuição dos recursos naturais e que polui a água em ritmo também crescente.


Um mundo sustentado pelo petróleo
Chegamos ao limiar de uma era – a era do petróleo. Criamos toda uma civilização dependente de um produto natural finito e que agora aponta para seu final. O mais grave aqui é que não há alternativa viável que o substitua, ou seja, não existe nenhum outro recurso que consiga fazer aquilo que o petróleo faz com o grau de sua abrangência e velocidade.
Para avaliar o significado do fim do petróleo e do impacto que isso causará basta pensar em apenas cinco setores do nosso modo de vida cuja presença dele é significativa, para não dizer fundamental em alguns: remédios, fertilizantes, comidas, produtos plásticos e combustíveis.


Terrorismo nuclear
Diz respeito a posse de armas nucleares por grupos terroristas. Um problema para o qual poucos dão atenção, mas cujo perigo é real e devastador. Um perigo que não exclui ninguém.


Vivemos na eminência de uma crise energética. Vivemos na eminência de uma pandemia. Vivemos na eminência de um  colapso da produção e distribuição de alimentos. Agora fico imaginando o seguinte: se uma greve de caminhoneiros desestabilizou nosso modo de vida, o que dizer de problemas realmente graves, como a falta de combustível? Se a maior cidade do país passa pela crise mais séria de sua história em termos de falta de água e nada de relevante está sendo feito, o que dizer do resto do país? A resposta é simples, mas assustadora: não estamos preparados, seja individual ou coletivamente, para enfrentar os problemas que virão.



Alexsandro

21/09/2013

Satisfação efervescente e refrescante


O controle das formas de expressão é a melhor maneira de subjugar os sujeitos. Alguém sem informação não consegue pensar para além do pouco que conhece. Quanto mais limitado mais miserável. Tornar-se um pouco culto não é questão de arrogância ou privilegio, é abrir-se para a possibilidade de criação de novas formas de ser e ver o mundo no qual estamos inseridos. Sem isso estamos fadados a uma vida pobre e limitada.
Há interesses sacanas, gananciosos e mesquinhos por trás da promoção de uma cultura mercadológica, isso todos sabemos (ou deveríamos saber), entretanto, o maior problema se encontra no fato de que com ela nossas medidas de comparação ficaram embaralhadas, ou seja, estamos confundindo e deixando de lado aquilo que possibilita vida plena, alegre, aberta, criativa, espontânea, vibrante, ligada a nossa capacidade de inventar a cada momento um modo de ser e fazer de cada um desses momentos de nossas vidas uma experiência que nos tornaria pessoas melhores, melhores no sentido de nos levar para além daquilo que somos, com aquilo que nos deixa momentaneamente satisfeitos, numa espécie de satisfação efervescente e refrescante, tal qual propaganda de pasta de dente ou refrigerante.


Alexsandro


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01/09/2013

Cardápio de gente



A fragmentação de cada um de nós acontece de forma cada vez mais inusitada.
Vejamos, por exemplo, a confusão que fazemos entre comprar e encontrar. 
Olhamos uns para os outros, nos analisamos, questionamos e intentamos escolher aquele(s) que fará(m) parte de nossas vidas a partir de critérios tais como: gostos, interesses, altura, cor da pele, dos olhos, dos cabelos, estilo musical preferido, grau de instrução... Achamos que se assim fizermos teremos uma via garantida para que nossa escolha dê certo. Depois de uma lista razoável de critérios eletivos escolhemos ou somos escolhidos como em um cardápio. Não é a pessoa inteira que é vista e entendida, é um recorte, um fragmento. O nó da questão se encontra no fato de acharmos que agindo assim nossas escolhas serão seguras. Sonhamos que nossas escolhas se darão como numa experiência de compra, guiado por um cardápio de opções, que é exatamente o contrário do encontro. O encontro acontece sem que tenhamos a menor ideia do que estamos encontrando, logo ele implica que nossas opções não serão levadas em consideração. Todo encontro envolve surpresas.

Alexsandro




11/03/2013

Capitalismo Mundial Integrado e nossas formas de luta

O Capitalismo Mundial Integrado e sua ordem econômica estabeleceram no mundo o cruel, nefasto, arrogante, criminoso, violento e podre mandamento de vender, vender e vender – vende-se de tudo, compra-se de tudo.
O mundo virou um campo de guerra – luta-se por espaço (de mercado); concorrer virou prática comum – concorre-se por tudo. Alguns falam que isto já é a Quarta Guerra Mundial. (a Terceira foi a Guerra Fria):
- O argumento principal para justificar esta guerra é a necessidade de investir;
- O campo de batalha é o mercado;
- As armas são os arsenais financeiros;
- A meta é conquistar o mundo inteiro para transformá-lo em produto – mercadoria;
- O resultado até agora desta guerra é a morte de milhões de pessoas a cada instante.

O Capitalismo Mundial Integrado moldou-se na nossa cultura e se inscreveu em todos os cantos, todas as brechas, todas as pregas das nossas vidas. Fez simbiose com os nossos lençóis, nossas colheres e pratos. Adentrou nossos banhos. Colonizou nossos vinhos e virou nossa embriagues. Ele é o plugue dos nossos aparelhos, eletrônicos ou musculares, a poluição no ar, o som alto do carro do vizinho, as grades nas janelas, o arame farpado da cerca na chácara, o fio elétrico que corre sobre o muro, a conversa idiota daquela estudante de direito que acha que seus direitos devem ser preservados em nome da sua individualidade mesquinha e inconsequente. Ele se encontra na margarina que lambuza o pão. Ele é o pau derrotado daqueles que ejaculam em nome de um prazer sem ética ou estética (um prazer rejeitado até pelas bactérias). Ele invade os úteros para produzir filhos legítimos para a produção e o consumo. Diante dele e contra ele todas as formas de luta são aceitáveis:

Todas as formas da luta são aceitáveis. Com a condição de se inserirem num movimento coletivo que denuncie, simultaneamente, as finalidades do sistema liberal, as múltiplas conivências que este tece com o mundo jornalístico, o enclausuramento de nossas vidas na ótica unidimensional da produção-consumo, a uniformização cultural e econômica do planeta e as ações dos homens, ou aparelhos de poder, que não cessam de despolitizar os cidadãos para melhor subjugá-los. Se não, valem tanto quanto se abster. (François Brune)

Devemos ter em mente também que toda luta e todo processo de libertação começa e passa pelo corpo. Liberdade significa libertar o corpo daquilo que o amarra. Sem um corpo a liberdade não faz sentido algum. Veja, por exemplo, que muitos acham que o ciberespaço é a grande nova fronteira humana a ser explorada como espaço de libertação. Mas, infelizmente, “o ciberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.” (Hakim Bey)

¿Se nos apegamos tanto a simulacros não seria justamente devido a miséria de vida que levamos no mundo “real”?  Por conta disso e mais do que nunca a reflexão de Nietzsche sobre nossos combates e nossa forma de combater nunca foi tão válida:
É preciso estudar as misérias dos homens, incluindo entre essas misérias as ideias que eles têm quanto aos meios para combatê-las.

Vejo que esse sistema não pode suportar muita coisa, dai sua fragilidade em cada canto, mas ao mesmo tempo essa é sua força de repressão, como não pode suportar muito, muda, deixa de ser e passa a ser outra coisa. ¿Quem pode combater facilmente algo assim? ¿Poderá as crianças combater o sistema? Sim, até elas podem. Não há lugar exclusivo para o combate, nem lutadores específicos. Ou, como disse uma vez Deleuze, “acredito que bastaria apenas que elas (as crianças) fossem ouvidas em seus protestos para explodir todo o conjunto do sistema de ensino”.

Gosto de acreditar que pensar também é uma forma de luta. Vejo que pensar e escrever são formas de por uma revolução em movimento. Por isso gosto desta reflexão do Saramago que diz:

"Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma."


Alexsandro

19/11/2010

O que motiva a escolha de uma prática religiosa?

O que levaria, por exemplo, alguém escolher uma prática religiosa como o pentecostalismo? Muitos estudiosos responderam a tal questão tendo em mente que a busca por tais grupos acontecia, sobretudo, por motivos que traziam em suas variáveis a ênfase na formação de redes sociais, onde a troca de bens e serviços fluía entre os membros da congregação. A afiliação a uma igreja possibilitaria as pessoas criarem laços de relações, contatos intergrupais (e até extragrupais) na medida em que existiriam elos que as ligariam conjuntamente. Desta forma os mais predispostos para conversão seriam justamente aqueles para quem a religião possibilitasse não apenas as recompensas extre-terrenas, mas, principalmente, uma sobrevivência social.

Não que discorde totalmente desta forma de perceber o fenômeno religioso nesses tempos que caracterizam o inicio do século XXI. Digo apenas que não é mais suficiente pensar os fenômenos religiosos que atualmente presenciamos com a mesma fundamentação, uma vez que o eclodir de um número cada vez maior de igrejas não representa uma tentativa de volta a coletividade, mas, isso sim, uma acentuação do individualismo. Não representa uma reação contrária aos efeitos da modernidade sobre a sociedade, mas a acentuação de certos fenômenos característico da própria modernidade, motivados sobretudo pelas não realizações das promessas desta mesma modernidade. Não é também uma procura mística, é algo racional. É correto entender que pode haver em certas pessoas a necessidade de experimentarem alguma forma de relação mística com um sobrenatural, mas o que assistimos nessa proliferação de igrejas é outra coisa, diz respeito a uma experiência que tem como base os ímpetos e desejos individuais e consumistas, não a busca de um coletivo de relações geridas por um sistema religioso.


Alexsandro

02/10/2010

A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A sociedade da decepção é o título de um dos livros de Gilles Lipovetsky e o tema central é o que o próprio título indica: como a decepção se tornou uma das marcas distintiva da nossa experiência.
Abaixo segue uma citação do livro no qual ele surpreende ao afirmar que nos decepcionamos nem tanto por desejamos os bens materiais que os outros possuem e não podemos ter. Superamos essa fase ou estamos em vias de superar, no entanto, ainda continuamos a desejar (ou invejar) bens não-comercializados (aquilo que o dinheiro não compra). "A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável".


"Ao fim e ao cabo, o mau uso dos bens públicos desperta mais indignação do que o uso de bens particulares. Com efeito, de que os consumidores se queixam mais freqüentemente? Dos engarrafamentos de trânsito, das praias superlotadas, do processo de descaracterização da paisagem natural por obra das construtoras de edifícios ou da invasão de turistas, da repugnante promiscuidade nos transportes coletivos, do barulho dos vizinhos, etc. Em outras palavras, o que gera decepção não é tanto a falta de conforto pessoal, mas a desagradável sensação de desconforto público e a constatação do conforto alheio.
Não surpreende, portanto, que seja no âmbito dos serviços, baseado no relacionamento entre as pessoas, que a decepção é mais freqüente. Manifestações de crítica são muito comuns contra o corpo docente das instituições de ensino, contra o mau funcionamento da Internet, contra o despreparo da classe médica...
Mas, em outra perspectiva, entretanto, convém não esquecer que, diferentemente do que ocorria no passado, os elos entre as pessoas e a esfera do consumo estão cada vez mais entranhados. Muito daquilo que compramos, não o fazemos com a finalidade de granjear a estima deste ou daquele, mas sobretudo visando a nós mesmos, isto é, tendo como objetivo aperfeiçoar os nossos meios de comunicação com o semelhante, melhorar o desempenho físico e a saúde do corpo, buscar sensações vibrantes e variadas formas de emoção, vivenciando experiências sensitivas ou estéticas. É nessa acepção que o espírito de consumo em benefício do outro, típico das antigas sociedades de classe, retrocede, dando lugar ao consumo para si. Em resumo, o consumo individualista emocional assume agora a dianteira em relação ao consumismo ostentador de classe. Simultaneamente, a tendência dominante é aceitar com maior naturalidade que outros possuam algo que não temos, porque a atenção de cada indivíduo está hoje mais voltada para a sua própria experiência íntima do que para o desempenho dos demais. Ao contrário dos primórdios da era democrática, que muito contribuiu para a disseminação do sentimento de inveja, na atual fase do hiperindividualismo consumista, muito mais raramente nos deparamos com aquele indivíduo que se dilacera interiormente por falta de poder aquisitivo para comprar o mesmo automóvel de alta qualidade do vizinho. A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável, mas aquela provocada pelos bens materiais diminui."
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A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A decepção é uma experiência humana universal desde sempre. Nas sociedades antigas, ela era restrita. Primeiro porque o desejo era mais limitado, existia uma cultura da resignação, resumida na expressão “é a vida”. E, depois, havia a religião, que limitava a decepção. A sociedade moderna fez explodir o sentimento da decepção. A democracia abriu o desejo das pessoas. Ela cria frustrações porque não suporta a desigualdade. E a era hipermoderna, que vivemos hoje, acelerou mais ainda a decepção, que agora está em todos os lugares, em todos os níveis sociais. Na política, por exemplo. As pessoas, em todos os países, estão sempre decepcionadas com a política. Com a globalização, não há mais a esperança revolucionária. É a era do direito do homem, e este é sempre inferior ao desejo. A escola. Antes ela tinha a virtude de permitir a ascensão social. Mas hoje temos jovens muito qualificados que trabalham em coisas que não correspondem a essa qualificação – e isso gera decepção.
As pessoas podem até se declarar felizes, mas isso não significa grande coisa. Há outros indicadores como a ansiedade no trabalho e com os filhos, taxas de suicídio e casos de depressão e dependência, que mostram como a sociedade de bem-estar é uma sociedade de frustrações. Depois dos anos 60, desenvolveu- se a idéia de que o consumismo cria a decepção porque mostra o que você não vai ter. Ou que você seria forçosamente frustrado porque, quando tem uma coisa, já sonha com outra, como se isso levasse a pessoa a uma decepção permanente.
O consumo de bens materiais não é tão produtor de decepções. Os objetos têm um valor pela novidade. Não é porque você não tem um Jaguar que o seu carro modesto não o satisfaz. Você pode gostar da sua casa, sem que ela seja um castelo. O consumo cultural é o que decepciona. Veja, por exemplo, a televisão. Ela é feita para ser um espetáculo, mas se você fica zapeando é porque o espetáculo não o satisfaz. O zapping é uma permanente decepção. A decepção mais forte, mais intensa, a mais cruel é a que você tem com outras pessoas. Então se engana quem culpa o consumo pela infelicidade. O que dá frustração é a individualização do mundo, é a relação com os outros e consigo mesmo.
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19/03/2010

Não sabemos o que fazer com o mal e com a violência


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O que fazer com a violência? De onde vem tanto mal? São duas das questões mais importantes com a qual nos deparamos ultimamente. Sua importância cresce quando nos damos conta que não temos uma resposta satisfatória para nenhuma das duas.
Nosso ritmo de vida é instável, intranqüilo, inseguro, desconfortável, estamos a ponto de desmoronar. Acontecimentos traumáticos passaram a ser a regra. Tranqüilidade é uma exceção. Como chegamos a este estado de coisas? Como deixamos florescer uma sociedade pontilhada por tantas relações perversas?
Vivemos uma época contra-utópica. Nossos sonhos e projetos individuais são uma demonstração clara do nosso fracasso enquanto coletividade. Não sabemos conceber a vida para além das paredes de nossas casas (para os que têm casa). Usamos como desculpas para apaziguar nossa angústia séries e mais séries de conquistas tecnológicas. Festejamos tais conquistas como uma vantagem do nosso ímpeto insaciável e sempre a procura de mais. Não percebemos que o que acontece de fato é uma impossibilidade de nos encontrarmos satisfeitos, que perdemos completamente qualquer noção de limite, seja ele ético, moral, econômico, político ou estético.
Repito, somos a contra-utopia de uma sociedade vivida coletivamente. A prova é o florescimento da sociedade de consumo, do consumidor e seus desejos irrealizáveis. Nós nos encontramos em um tipo de sociedade que nos promete de tudo, mas, que ao mesmo tempo, tudo nos nega, sobretudo se não formos consumidores vorazes.
Nosso estilo de vida foi em parte construído tendo como um dos seus pilares a esperança no futuro. Assistimos, talvez, ao fim desse sonho quando percebemos que nossa capacidade de imaginar um mundo, não apenas melhor, mas diferente, se tornou uma tarefa imensamente difícil.
A explosão cotidiana de violência, seja nas grandes ou nas pequenas demonstrações, é indicador da nossa atual impossibilidade de construir, nem tanto um futuro, mas um presente que nos seja satisfatório. Não se tem ao certo uma definição e uma clareza do que de fato toda essa explosão de violência significa. Um clima de imprecisão quanto ao seu sentido faz do nosso tempo uma época caracterizada pela ausência de definição do que seria o mal. O vemos, o sentimos, o vivemos, mas não somos capazes de combatê-lo. E essa incapacidade revela nossa fragilidade.
Nossa violência não possui uma contrapartida, não sabemos lutar contra ela, não sabemos como amenizá-la. Ela não se apresenta como um estágio no qual precisamos passar para chegarmos a algo melhor. É uma violência que só leva a mais violência. Não há uma distinção clara e plausível entre os violentos e os não violentos. Testemunhamos um estado de indefinição, de ambigüidades, presentes no cotidiano, de oposições gratuitas, de violências sem direção, que se expressam das mais diversas formas, acabando por criar situações às vezes insuportáveis para alguns ou para muitos.
Alguns constroem abrigos para se proteger do mundo exterior (os condomínios fechados estão virando uma estranha necessidade sob o argumento da segurança) e, do outro lado, aqueles que se encontram a mercê da insegurança e da impossibilidade de ter alternativa, para estes não resta outra saída que a de encarar a realidade que se apresenta. Se em outros momentos os muros foram usados para proteção de todos contra aqueles que vinham de longe, contra os estranhos de outras terras, contra aqueles que falavam línguas estranhas, agora ele protege do estranho que fala a mesmo língua, vive na mesma cidade, talvez coma até o mesmo tipo de comida, vista o mesmo tipo de roupa, freqüente a mesma igreja ou coisa parecida. Somos, vivemos e formamos um mundo de estranhos entre nós. E esse não reconhecimento do outro gera e estabelece relações cínicas, distantes, superficiais, em que uma das prerrogativas principais é não se deixar envolver por esse outro que não se reconhece.
Para conter a onda de perversidade e maldade alguns clamam por mais leis, mais regras sociais, mais força repressiva, mais rigidez no trato com os “desajustados”, os “perigosos”, os “ameaçadores”, os “malvados”. Mas, no limite extremo, precisamos explicar de onde vem tanto mal, ele não pode ser gratuito. Mas aí nossos discursos fracassam. Não temos uma explicação plausível que convença e que indique um caminho que nos proteja de tanto mal. Fracassamos em explicar o mal, fracassamos em lidar com o mal. Fracassamos.
E nesse limite um cenário trágico se esboça: um cenário no qual violência e medo se misturam, se tornam os ingredientes que temperam a existência dos indivíduos. Neste cenário muitos acabam buscando no recolhimento de suas experiências respostas para as questões do mundo e do mal, mergulham, então, no universo do “auto” - auto-inspeção, autoproblematização, auto-realização, auto-monitoramento, auto-avaliação, auto-recuperação, auto-ajuda, etc. O irônico é que ao proceder assim o indivíduo acredita que está realmente determinando sua vida, que está livremente escolhendo, que essa será a melhor opção possível para ele.
Consumo e recolhimento tornam-se as balizas para esse indivíduo. Os seus sonhos passam pela possibilidade de consumir algo. Seu recolhimento significa de fato abster-se do mundo, torna-se, neste sentido, imperceptível, invisível, intocável. Neste clima só cabe a ele esperar que alguma solução para o problema da maldade caia do céu ou de onde quer que seja – o perigo aqui é que este sujeito quase sempre se encontra pronto para aceitar qualquer tipo de solução, até mesmo as mais fascistas e totalitárias.
A questão quanto ao que fazer com a violência e, quem sabe, a resposta sobre como superá-la, só pode advir, só pode ser entendida, só pode ser discutida com a ampliação de nossa compreensão do que ocorre em nossa sociedade e de como ela funciona, e tal tarefa é urgente. Mas não podemos medir o que se passa a partir de uma perspectiva tosca e medíocre. Para aqueles que só vêem “o lado bom” faz-se necessário um alerta: tal otimismo pode ser fruto exatamente de um afastamento do mundo, de um recolhimento frente às questões do mundo. Já para aqueles que não vêem saída, para aqueles que acreditam que estamos próximos do fim, lembro que é preciso estabelecer novas metas, ou mesmo acabar com todas as metas, principalmente aquelas oriundas de uma sociedade que inviabiliza qualquer ação de conjunto, que sufoca qualquer sentido ou perspectiva que não aquelas do mercado e do consumo.

Alexsandro A. Oliveira


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