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06/04/2015

NÃO É O FIM DO MUNDO, MAS PODE ACONTECER ANTES DO FIM DO MÊS


Zeca Baleiro tem uma música (Drumembeis) na qual um dos seus versos diz assim: “Tá todo mundo com medo do fim do mundo / mas pior que fim do mundo / para mim é o fim do mês.” O que representa essa declaração? Que as preocupações cotidianas são aquelas que tomam conta de nossas vidas. Estamos mais preocupados em garantir o próximo fim do mês do que em garantir a continuação da espécie humana. Que estamos mais preocupados com a água da geladeira do que a do reservatório. Que pouco importa o mundo todo se o meu emprego estiver garantido. Que pouco importa o atentado terrorista desde que não atentem contra meu quintal.
Vivemos atualmente, como população de um país, Brasil, e como humanidade, uma série de problemas cuja novidade se encontra no grau de sua escala e no real perigo que representam para a vida humana na forma como ela se encontra hoje sendo experimentada. Isso significa que, nosso modo de vida pode acabar a qualquer instante, vivemos sob ameaças constantes, a forma como vivemos é uma bomba prestes a explodir. O motivo? Muitos problemas que hoje afetam o Brasil podem ser vistos em outras partes do mundo. E problemas que já afetam outras partes do mundo logo chegarão por aqui. Problemas para os quais não estamos preparados para enfrentar e pior, não estamos nos preparando para enfrentá-los. Não são problemas que virão, são problemas que ai já se encontram em andamento. Ao listá-los e ao verificar a gravidade de cada um, somado a inércia geral em não querer perceber. Ou, fazendo de conta que eles não são problemas e se são, não nos dizem respeito, temos uma equação cujo resultado se apresenta perigoso. A lista dos problemas que se anunciam não é difícil de fazer, assim como não é um mistério para ninguém. Mas qual o motivo de não prestarmos atenção? É que estamos preocupados com o fim do mês.


Colapso econômico
Vivemos na iminência de um colapso econômico. Nossa economia se baseia em um parâmetro de relação cujo dois dos seus principais componentes não fecham uma conta exata: a dívida e o crédito. É possível entender a linha fina na qual todo nosso modo de vida se sustenta se entendermos que há mais dívidas no mercado do que crédito para pagá-las. Se for somado as dívidas pessoais, institucionais, empresariais e estatais, há mais dívida no mundo que recursos financeiros para pagá-las. Vivemos na iminência de uma falência geral, para tanto basta chegar um momento no qual não se tenha como pagar as dívidas.


Escassez de água
Quando se fala em escassez de água pode parecer um assunto batido ou do qual todos já tem consciência e esclarecimento sobre a relevância de compreender os riscos que corremos. O problema é que não é isso que acontece. Bem pelo contrário, não se encontra em andamento nenhum programa sério para encarar o problema.
O Brasil é um bom exemplo do descaso geral de como o problema da água vem sendo tratado: desperdícios os mais variados e contaminação pelos mais diversos tipos de produtos definem a forma irresponsável como tratamos a água por aqui. Mas vale lembra que isso acontece no mundo todo.


Crescimento populacional em um mundo de recursos finitos
Outra conta que não estamos fazendo é a da relação entre recursos finitos e crescimento populacional.
A população brasileira mais do que dobrou em menos de cinquenta anos. Se formos analisar esse crescimento em termos mundiais a questão fica ainda mais grave. O que assistimos é o consumo cada vez mais rápido dos recursos naturais por um número cada vez maior de pessoas.
Se somarmos escassez de água e crescimento populacional o quadro fica delicado: devemos entender que para sobrevivermos dependemos de produtos, alimentícios ou não, vindos das mais diversas partes do mundo, esses produtos precisam ser produzidos e depois transportados, o que temos é uma bola de neve que só cresce. Muitos desses produtos demandam água ou a poluem. Água que precisamos em maior quantidade a cada ano por conta do aumento populacional. Uma população que consome cada vez mais, o que leva a diminuição dos recursos naturais e que polui a água em ritmo também crescente.


Um mundo sustentado pelo petróleo
Chegamos ao limiar de uma era – a era do petróleo. Criamos toda uma civilização dependente de um produto natural finito e que agora aponta para seu final. O mais grave aqui é que não há alternativa viável que o substitua, ou seja, não existe nenhum outro recurso que consiga fazer aquilo que o petróleo faz com o grau de sua abrangência e velocidade.
Para avaliar o significado do fim do petróleo e do impacto que isso causará basta pensar em apenas cinco setores do nosso modo de vida cuja presença dele é significativa, para não dizer fundamental em alguns: remédios, fertilizantes, comidas, produtos plásticos e combustíveis.


Terrorismo nuclear
Diz respeito a posse de armas nucleares por grupos terroristas. Um problema para o qual poucos dão atenção, mas cujo perigo é real e devastador. Um perigo que não exclui ninguém.


Vivemos na eminência de uma crise energética. Vivemos na eminência de uma pandemia. Vivemos na eminência de um  colapso da produção e distribuição de alimentos. Agora fico imaginando o seguinte: se uma greve de caminhoneiros desestabilizou nosso modo de vida, o que dizer de problemas realmente graves, como a falta de combustível? Se a maior cidade do país passa pela crise mais séria de sua história em termos de falta de água e nada de relevante está sendo feito, o que dizer do resto do país? A resposta é simples, mas assustadora: não estamos preparados, seja individual ou coletivamente, para enfrentar os problemas que virão.



Alexsandro

06/08/2014

Realizar é diferente de conformar



No mundo da autoajuda, da motivação e da teologia da prosperidade o apelo a ideia de "realizar” é uma constante. Vemos uma infinidade de sugestões e dicas de como fazê-lo:
 - O caminho para a realização de seus sonhos pode não ser nada fácil. Muitas vezes, significa sacrifícios difíceis e decisões cheias de riscos e inseguranças envolvidos. Para muitos é a coisa mais difícil da vida. Ainda assim, podemos ver diariamente exemplos de pessoas que não deixaram esses fatores serem maiores do que a vontade de conseguir o que desejam;
 - Aprender a transformar os sonhos em realidade pode parecer muito difícil, mas garante sua satisfação pessoal;
 - [5, 6, 7, um milhão de] Passos para realizar seus sonhos profissionais;
 - [5, 6, 7, um milhão de] Dicas para realizar seus sonhos e superar limites;
 - A crença de ser capaz de seguir adiante e realizar seu desejo é fundamental para que isso aconteça;
 - Entre em contato com a essência do que está buscando. Entre em contato com o sentimento que a realização do sonho trará à sua vida, e perceberá que seu sonho pode ter muitas formas de se transformar em realidade;
 - Cuide da sua autoestima. Você precisa sentir-se valioso e merecedor do sonho que quer realizar;
 -[5, 6, 7, um milhão de] Dicas para perder o medo e realizar seus sonhos;
 Existe até uma "Calculadora dos sonhos". Nela se pode calcular quanto custa um sonho. O idealizador afirmar que saber quanto custa é o primeiro passo para torná-lo real. A calculadora é ideal para aqueles sonhos que envolvem custos financeiros: comprar um carro, fazer uma viagem, comprar um imóvel, fazer uma cirurgia plástica, etc.

Não sei se agindo assim estamos realizando algo. Tenha a impressão que parece mais conformação que realização. Isso porque conformar é desejar aquilo que está sendo oferecido e colocar aquilo como prioridade. É por isso que muito daquilo que é apresentado como realização não passa de uma busca por conformação. A ação que parte de uma forma preestabelecida e conveniente. É colocar a ação em uma fôrma. Agir em direção ao estabelecido. Quando ouvimos frases do tipo: “estou realizando um sonho”; o sentido pode ser traduzido assim: “estou conformando minha vida ao que foi estabelecido como desejável. Desejei o desejável e agora fui recompensado”.
Por sua vez podemos pensar a realização, o realizar, como uma ação que tenta se esquivar do desejável, que tenta ir além do estabelecido.
A palavra realizar vem do latim reallis acrescida do sufixo izare (implementar, colocar em prática).
Podemos entender Realizar como a ação de criar algo para além do campo da realidade.
Vamos por parte e iniciemos fazendo uma distinção entre “real” e e “realidade”. O “real” pode ser entendido como tudo que existe; tudo, independentemente de termos contato ou não, de sabermos de sua existência ou não. Tudo que faz parte da nossa “realidade” faz parte do “real”, mas muito daquilo que faz parte do “real” não faz parte da nossa “realidade”. Nossa “realidade” é apenas um fragmento do “real”. Quando desejamos algo o fazemos dentro da nossa “realidade” conhecida, para além dela não conseguimos pensar. Podemos intuir que existe algo maior, mas dificilmente conseguimos conceber o que seja. Além desse fato advém também que nunca nos relacionamos com o mundo em si, mais sempre interpretamos o mundo. Nossa “realidade” é, por definição, o mundo segundo nossa interpretação. Uma interpretação que é sempre construída por conjuntos de valores e significados que constituem nossa cosmovisão.
Nós podemos inserir coisas no “real”? Sim, quando criamos. Um poema não era real até o poeta escrevê-lo. Um personagem de uma ficção não existia até ser descrito por um autor. No ato de criação podemos “realizar”, por algo na “realidade”, e, por consequência, no “real”.
Assim, realizar pode ser entendida como a ação de por algo diferente no mundo, de criar. Criação como uma experiência singular. Realizar é, neste sentido, uma experiência artística. Um mergulho no caos, emergindo com um sentido novo, uma expressão nova, um modo novo de fazer. É olhar em volta e sentir que aquilo que o status quo oferece não é suficiente, que há mais para além dele. É sentir o instinto de criação pulsando forte.

Só há realização quando há criação. Na conformação não há criação, no máximo reprodução. Só nos realizamos quando criamos.  


Alexsandro


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13/04/2014

O abuso e o excesso de obediência

Nossas interpretações e críticas são sempre construídas a partir de quem manda. É desta forma, por exemplo, que se fala muito contra o Estado e sua forma de governo sobre nós, contra os diversos tipos de lideres que se encontra em empresas, igrejas, escolas, etc.. As criticas são sempre construídas tendo como referência principal quem manda. ¿E se invertêssemos a lógica e afirmássemos que o problema não é abuso ou excesso de poder, mas o abuso e o excesso de obediência? ¿Será que parte dos nossos problemas em ajustar melhor a vida em sociedade não se encontra na nossa excessiva obediência a qualquer forma externa de governo sobre nós?

¿A desresponsabilização de si diante da vida fica mais fácil quando temos a quem culpar por nossos infortúnios?¿ Parte da nossa aceitação em se deixar governar e, como consequência, nossa excessiva obediência, adviria do pensamento de que a obediência a outro tira de quem obedece as responsabilidades? A ideia é bem simples: obedecer para ter a quem culpar quando algo sair errado, desta forma a culpa será de quem deu a ordem e não de quem obedeceu. ¿Essa não seria uma forma covarde de viver?


Alexsandro

19/01/2014

O mundo distópico de Harrison Bergeron

"Harrison Bergeron" é um conto de Kurt Vonnegut. Foi publicado pela primeira vez em 1961. A história se passa em uma América distópica, no ano de 2081. É uma ficção científica cheia de ironia e crítica, sobretudo ao autoritarismo e o que ele usa para cooptar e controlar, no caso do conto vemos a ideia de igualdade sendo usada com esse intento.

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Harrison Bergeron
Por Kurt Vonnegut (1961)


O ano era 2081, e todos finalmente eram iguais. Eles não eram apenas iguais diante de Deus e da lei, eles eram iguais em todos os sentidos. Ninguém era mais esperto do que ninguém. Ninguém era mais bonito do que ninguém. Ninguém era mais forte ou mais rápido do que qualquer outra pessoa. Toda essa igualdade devia-se aos Decretos 211º, 212º e 213º da Constituição e também pela incansável vigilância dos agentes do Nivelador Geral (NG).
Entretanto, algumas coisas não iam muito bem. Era Abril e muitos estavam ansiosos por ainda não ser primavera. E foi nesse mês que os homens do NG levaram Harrison, de 14 anos, filho de George e Hazel Bergeron. Foi trágico, mas George e Hazel não podia pensar sobre o que estava acontecendo, para eles era difícil fazer isso. Hazel tinha uma inteligência perfeitamente média, o que significava que ela não poderia pensar em nada muito complicado, exceto em coisas muito pontuais. George possuía uma inteligência acima do normal, por isso tinha de usar um pequeno rádio em seu ouvido. Ele foi obrigado por lei a usá-lo todo o tempo. Ligado a um transmissor do governo, emitia um sinal que produzia um ruído a cada vinte segundos ou menos. Sua finalidade era manter as pessoas como George sem a vantagem injusta de terem cérebros mais capazes que os dos demais. 
George e Hazel estavam assistindo televisão. Havia lágrimas nas bochechas de Hazel, mas ela não tinha claro o que se passava.
Na tela da televisão bailarinas dançavam. 
A campainha soou na cabeça de George. Seus pensamentos fugiram em pânico, como bandidos de um alarme. 
--Essa foi uma dança muito bonita, disse Hazel. 
--Hein? Disse George. 
--Essa dança, foi bonita, disse Hazel. 
--Sim, disse George.
Ele tentou pensar um pouco sobre as bailarinas. Elas não eram realmente muito boas – não fizeram nada melhor do que qualquer outra pessoa teria feito. Elas estavam sobrecarregadas com pesos amarrados em seus corpos e sacos de chumbo fino, e os seus rostos estavam mascarados, de modo que ninguém via um gesto livre e gracioso ou um rosto bonito, nada que pudesse fazer com que alguém se sentisse diferente. Tais apetrechos niveladores tinha por função fazer com que todas se sentissem iguais.
Dentro George nascia uma pequena sensação, uma vaga noção de que talvez as “boas” dançarinas não merecessem ser prejudicadas daquela forma pelos pesos niveladores em seus corpos e que elas deveriam dançar livremente. Mas tal pensamento não foi muito longe, um ruído do seu rádio de ouvido invadiu seus pensamentos. 
George fez uma careta. Assim como fizeram duas das oito bailarinas. 
Hazel o viu estremecer. Não tendo nenhuma noção do que se passava, ela perguntou a George que som era aquele. 
-- Soou como se alguém tivesse batido numa garrafa de leite com um martelo de borracha, disse George.
-- Eu acho que seria realmente interessante se todos pudessem ouvir sempre sons diferentes, disse Hazel com um pouco de inveja e continuou: 
-- Todas as coisas que eles poderiam ouvir.
-- Hum, disse George.
-- Só que, se eu fosse o Nivelador Geral, você sabe o que eu faria? disse Hazel. Hazel, com um ar de autoridade muito próximo ao exibido por Daina Moon Glampers, assistente muito próxima do Nivelador Geral. 
-- Se eu fosse Diana Moon Glampers, disse Hazel, eu colocaria sons de sinos no domingo, apenas badaladas, em honra da religião.
-- Mas eu poderia pensar se fosse apenas sinos, disse George
-- Bem, talvez fazê-los bem alto, disse Hazel e continuou:
-- Eu acho que seria um bom Nivelador Geral.
-- Bom, como qualquer outra pessoa, disse George.
-- Porque não melhor do que o normal? disse Hazel.
-- Certo, disse George.
Neste momento ele começou a pensar sobre seu filho anormal que agora estava na cadeia. E quando uma imagem de Harrison começou a se formar em sua mente, explodiu uma saudação de 21 tiros na cabeça fazendo-o parar com o devaneio.
-- Querido! disse Hazel, o que foi, você está com sono?
Um ar de cansado tomou conta de George, ele ficou pálido e começou a tremer, enquanto lágrimas enchiam seus olhos vermelhos.
Duas das oito bailarinas desabaram no chão do estúdio enquanto seguravam seus sacos niveladores.
-- De repente você parece tão cansado, disse Hazel. Por que você não se deita no sofá, pode descansar o seu saco nivelador sobre os travesseiros.
Ela estava se referindo aos 47 quilos de chumbo fino em um saco de lona que foi trancado em volta do pescoço de George.
-- Vá em frente e descanse a bolsa um pouco, disse ela. Eu não me importo se você não for igual a mim por um momento.
George segurou o saco com as mãos. 
--Eu não me importo, disse ele. Eu não os noto mais. São uma parte de mim.
-- Você parece tão cansado ultimamente usando os sacos, disse Hazel. Se houvesse alguma forma de fazemos um pequeno buraco no fundo do saco para deixar cair apenas algumas bolas de chumbo. Apenas algumas.
-- São dois anos de prisão e multa de dois mil dólares por cada bola que eu deixar cair, disse George. Isso não me parece um bom negócio.
-- Se você pudesse ficar sem eles, mesmo que fosse por pouco tempo, depois do trabalho, quando você chega em casa, disse Hazel.
-- Entenda que não compete a ninguém decidir sobre isso. Você acabou de descrever uma forma de romper a lei. Se eu posso romper com a lei, disse George, então outras pessoas poderiam tentar fazer o mesmo em cada lugar e logo estaríamos de volta à idade das trevas, com todo mundo competindo contra todos. Você não iria gostar que isso acontecesse, não é mesmo?
-- Eu odiaria isso, disse Hazel.
-- Aí está, disse George. Se as pessoas começassem a romper com a lei um pouco de cada vez, o que você acha que poderia acontece com a sociedade?
Se Hazel não era capaz de chegar a uma resposta para esta pergunta, George não poderia fornecer. Uma sirene soava em sua cabeça.
-- Reconheço que tudo poderia desabar, disse Hazel.
-- O que seria? George disse inexpressivamente.
-- A sociedade, disse Hazel incerta. Não foi isso que você acabou de dizer?
-- Quem sabe? disse George.
O programa de televisão foi subitamente interrompido por um boletim de notícias. Não ficou claro, em primeiro lugar, do que se tratava o boletim, uma vez que o locutor, como todos os locutores, tinha um sério problema de dicção que o impedia de fala com desenvoltura. Por cerca de meio minuto e em um estado de grande excitação, o locutor tentou dizer "Senhoras e Senhores". Quando finalmente desistiu, entregou o boletim para uma das bailarinas de ler.
-- Está tudo bem. Disse Hazel disse sobre o locutor. Ele tentou. Isso é o que importa. Ele tentou fazer o melhor que podia com o que Deus lhe deu. Acho que ele deveria ter um aumento do seu salário por tenta de forma tão obstinada.
-- Senhoras e Senhores, disse a bailarina, começando a leitura do boletim. 
Ela, a bailarina, devia ser extraordinariamente bonita, pois a máscara que usava era horrível. E era fácil ver que ela era a mais forte e mais graciosa de todos os dançarinos, pois os pesos niveladores que usava eram tão grandes como aqueles usados pelos homens mais fortes. E ela teve que pedir desculpas por conta de sua voz, que era uma voz muito injusta para uma mulher se comparada as outras. Sua voz era luminosa, melódica e quente, atemporal. 
-- Desculpe-me, ela disse, e começou de novo, tentando disfarçar sua voz para não chamar atenção.
-- Harrison Bergeron, de quatorze anos, disse ela tentando parecer rouca, acaba de escapar da prisão, onde foi detido por suspeita de conspiração para derrubar o governo. Ele é um gênio e um atleta, e está sem seus apetrechos niveladores, por isso deve ser considerado como extremamente perigoso.
Uma fotografia de Harrison Bergeron apareceu na tela, primeiro mostrou seu rosto de frente, em seguida de perfil, depois de corpo inteiro. A foto mostrava o comprimento total de Harrison contra um fundo graduado em metros e centímetros. Ele tinha exatamente dois metros de altura.
O resto da aparição de Harrison foi para fazer dele um monstro e sobre seus apetrechos niveladores. Jamais havia nascido alguém com tantas vantagens. Ele superava os obstáculos mais rápido do que os homens do Nivelador Geral poderiam pensa-los. 
Em vez de um radinho no ouvido para provocar uma deficiência mental, ele usava um tremendo par de fones de ouvidos e óculos com lentes grossas onduladas. Os óculos tinham a intenção de fazê-lo não só meio cego, mas para dar-lhe agudas dores de cabeça, além de toda sucata que foi pendurada em cima do seu corpo. Normalmente havia certa simetria, um asseio militar quanto às deficiências provocadas pelos apetrechos em detrimento das pessoas fortes, mas Harrison parecia um ferro-velho ambulante. Usava o peso de uns três homens. E para compensar sua boa aparência os homens do Nivelador Geral faziam-no usar uma bola de borracha vermelha no nariz, além das sobrancelhas raspadas e seus dentes brancos cobertos por adesivos pretos.
-- Se você ver esse rapaz, disse a bailarina, não, eu repito, não... – falava como quem tentava argumentar.
De repente houve um barulho de uma porta sendo arrancada de suas dobradiças.
Gritos e gritos de consternação vieram do aparelho de televisão. A fotografia de Harrison Bergeron na tela saltou de novo e de novo, como se dançasse ao som de um terremoto. 
George Bergeron identificou corretamente o terremoto, como não deveria ser, pois como muitos, deveria ter sido apenas um momento no qual sua própria casa tinha dançado com a mesma melodia ruim. 
-- Meu Deus, disse George, deve ser Harrison!
O lampejo de realidade logo explodiu de sua mente pelo som de um acidente de carro em sua cabeça provocado por seu apetrecho nivelador.
Quando George conseguiu abrir os olhos novamente a fotografia de Harrison tinha ido embora. A vida e a respiração de Harrison encheu a tela.
O barulho dos seus apetrechos tilintavam como sucata e contrastavam com sua enorme cara de palhaço. Harrison parou no centro do estúdio. A maçaneta da porta do estúdio que, fora arrancada a pouco, ainda estava em sua mão. Bailarinas, técnicos, músicos e locutores se encolheram de joelhos diante dele esperando para morrer.
-- Eu sou o Imperador! Exclamou Harrison. Vocês ouviram? Eu sou o Imperador! Todos devem fazer o que eu dizer! Ele bateu o pé e o estúdio tremeu.
-- Mesmo eu estando assim, aleijado, mancando, enojado, sou um governante maior do que qualquer homem que já viveu! Agora observem eu me tornar o que eu posso me tornar! Gritou ele.
Harrison rasgou as alças do seu apetrecho nivelador como papel de seda molhado, rasgou as tiras feitas para suportar 2500 quilos. Os pesos niveladores de Harrison caíram no chão.
Harrison empurrou seus polegares sob a barra do cadeado que prendia seu arnês à cabeça. A haste estalou como aipo. Harrison esmagou seus fones de ouvido e óculos contra a parede.
Jogou fora o nariz de borracha, revelando um homem impressionante, um Thor, deus do trovão.
-- Vou agora escolher minha imperatriz! Ele disse olhando para as pessoas encolhidas.
-- Que uma das mulheres ouse reivindicar seu lugar como minha companheira e seu trono!
Um momento se passou, em seguida, uma bailarina se levantou, balançando como um salgueiro.
Harrison arrancou o nivelador mental de sua orelha, quebrou seus niveladores físicos como quem parte um biscoito fino. Por fim, lhe tirou a máscara.
Ela era incrivelmente bonita.
-- Agora, disse Harrison tomando-lhe a mão, vamos mostrar a todos o significado da palavra dança?
-- Música, ele ordenou.
Os músicos voltaram para as suas cadeiras e Harrison os livra dos seus niveladores de desvantagens.
-- Toquem o seu melhor e eu vou fazer de você barões, duques e condes, disse ele.
A música começou. Soou normal, boba, algo falso. Mas Harrison apontou para dois músicos, acenou-lhes com um cassetete dizendo que a música deveria ser tocada como eles tocavam. Ele bateu de volta em suas cadeiras.
A música começou de novo e foi muito melhor.
Harrison e sua imperatriz apenas ouviam a música com um ar solene, enquanto ouviam era como se sincronizassem seus batimentos cardíacos. Eles mudaram os seus pesos para seus dedos. Harrison colocou suas mãos grandes na cintura fina da menina, deixando-a sentir a leveza que logo seria dela. E então, em uma explosão de alegria e graça, ela se lançou no ar! Não foram só as leis da terra que foram abandonadas naquele momento, mas a lei da gravidade e as leis do movimento como um todo.
Eles cambalearam, giraram, giraram, pularam, saltaram, deram cambalhotas e giraram. Eles dançavam como borboletas diante da lua.
O teto do estúdio era de trinta metros de altura, mas a cada salto eles chegavam mais perto dele. Tornou-se evidente a sua intenção de beijar o teto. E eles o beijaram.
E então, neutralizando a gravidade com amor e pura vontade, permaneceram suspensos a algumas polegadas do chão, e eles se beijaram por um longo, longo tempo.
Foi então que Diana Moon Glampers, a Niveladora representante do governo, entrou no estúdio com uma espingarda de cano duplo calibre dez. Ela disparou duas vezes, e o imperador e a imperatriz foram mortos antes de caírem no chão.
Diana Moon Glampers carregou a arma novamente. Ela apontou para os músicos e disse-lhes que tinham dez segundos para colocarem de volta seus apetrechos niveladores novamente.
Foi então que o tubo de televisão dos Bergeron queimou.
Hazel virou-se para comentar sobre o apagão para George. Mas George tinha ido para a cozinha pegar uma lata de cerveja.
George voltou com a cerveja, fez uma pausa, enquanto um sinal saindo do seu apetrecho auricular o sacudiu para cima. E então ele se sentou novamente. 
-- Você estava chorando? Perguntou a Hazel.
-- Sim, disse ela .
-- Por qual motivo? Perguntou ele.
-- Eu esqueci, disse ela. Alguma coisa muito triste na televisão.
-- O que foi? disse ele.
-- É todo o tipo de confusão na minha mente, disse Hazel.
-- Esqueça as coisas tristes, disse George.
-- É o que eu sempre faço, disse Hazel.
-- Essa é minha garota, disse George. Ele fez uma careta. Ouve o som de uma arma de rebitagem em sua cabeça.
-- Caramba. Eu poderia dizer que esse era diferente, disse Hazel.
-- Você pode dizer isso de novo, disse George .
--Caramba, disse Hazel, Eu poderia dizer que esse era diferente.

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24/09/2013

É dificil

¿O que eu posso dizer? Não sei. Não é tarefa fácil enfrentar situações como essa. Veja, se a pessoa não sabe e não sabe que não sabe. E não quer mesmo saber. Não é fácil chegar até ela e explicar aquilo que ela não entende e não quer mesmo entender. E na maioria dos casos não adiante insistir, querer argumentar, discutir. Uma discussão não é suficiente para tirá-la deste estado. Não tem como provar para ela que as coisas que estão sendo ditas possuem um significado que poderiam fazer com que ela entendesse o mundo de outra forma. O motivo principal é que ela não tem interesse ou capacidade de compreender o que está sendo dito. Daí, ela vai entender outra coisa, noutro nível, confundindo tudo, trocando os argumentos e o que eles significam.
Não mudamos nossas perspectivas sem que aconteça, e aconteça em nós, um evento que ponha em movimento nosso estado de letargia. Em muitos casos, mesmo em pessoa que percebem, nem que seja uma mínima fração, a precariedade de sua situação, ainda assim é mais forte o desejo de que tudo continue como se encontra. Não é competência nossa fazer com que ela deixe suas perspectivas. A ação de lermos o mundo de forma diferente e com outros argumentos, quem sabe, mais elaborados, não é razão suficiente para ela, logo, também não deve ser para nós. E se a situação dela for cômoda, ai é que todo esforço correrá um risco maior de ser inútil.
De sua parte você pode questionar: "¿Poxa, mas não devemos combater as inverdades, as visões de mundo que enganam ou são enganosas, que prejudicam o próprio mundo e o nosso estar juntos como sociedade? ¿Não deveríamos fazer nossa parte e denunciar as falsas profecias e equívocos?"
Bem, de novo eu não sei o que dizer. De certo que não podemos impingir nele toda a culpa, há uma sociedade da qual fazemos parte e ele sozinho não é responsável pela conjuntura atual; ele e nós somos apenas uma vírgula em um imenso texto de fatos e acontecimentos. Um mar de conhecimentos moldou o que somos nos últimos séculos. E no meio deste mar há conhecimentos que são mais razoáveis e outros que são puro lixo. Só que nem todos sabem disso. O que é fruto de uma falha na nossa educação. Alimento a ideia de que todos nós deveríamos ser preparados e nós mesmos deveríamos nos preparar para o debate aberto e honesto. As diferentes perspectivas que os conhecimentos possibilitam deveriam ser expostas em igualdade de condições e a escolha sobre qual conhecimento queremos deveria ter por base o mérito e não a força ou a trapaça.
Outra coisa, não que sirva de consolo, mas nunca existiu um momento dourado do conhecimento para humanidade ou uma era de ouro da convivência, na qual todos se entendessem e o mundo fosse, para homens e mulheres, um lugar lúcido e sensato. Lucidez e sensatez não são virtudes fáceis de alcançar e muito menos de manter.


Alexsandro

15/09/2013

Todo funcionário do mês é um pouco Bob Esponja

A noção de funcionário do mês é uma das noções mais horrendas e safadas já inventada pelo mundo corporativo, e para mim não há ninguém que represente tal figura melhor que o Bob Esponja.
Acredito que todos sabem quem é Bob Esponja Calça Quadrada, a esponja do mar amarela que trabalha numa lanchonete chamada Siri Cascudo, de propriedade do Seu Siriguejo, um siri-patrão que só pensa em dinheiro.
Como todos devem saber, Bob Esponja ama fazer hambúrgueres de siri. O que o torna um empregado ideal, o sonho de qualquer patrão? Vejamos algumas características desse que é sempre e em qualquer lugar o funcionário do mês.
Bob Esponja se encontra sempre disposto para trabalhar, mesmo não recebendo o miserável salário a que tem direito, ele chega até mesmo a abrir mão dele para continuar trabalhando. Tal condição vem do seu desapego às coisas materiais. Para muita gente, até para mim, essa é uma qualidade admirável, mas no mundo do mercado é uma das principais portas de entrada da exploração patrão-empregado. Todo patrão adoraria ter empregados que não pensam em dinheiro, que não pensam em possuir coisas, pois assim estariam dispostos a trabalhar apenas pelo prazer de fazer o que gostam, enquanto o patrão continuaria a engrandecer seus cofres com lucros e mais-valia. Com a mesma intensidade Bob Esponja demonstra uma imensa adoração ao lugar de trabalhos, o Siri Cascudo, a ponto de dá a própria vida por ele. É ou não outro sonho de qualquer patrão ter um empregado assim?
Mas para mim não tem como lembrar o Bob Esponja, a noção de funcionário do mês sem lembrar de Trilussa e seu poema “A focinheira”:

- Sabe que sou fiel e afeiçoado,
dizia o Cão ao Homem, e disposto a tudo,
mesmo a ser sacrificado cumprindo as suas ordens.
Isto posto, quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido,
apático e traidor por natureza?
O Homem responde: - Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.
- Já que assim é, o dito pelo não dito!
Corrige o Cão, desculpe-me a besteira.
E, deste aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira...

Alexsandro
 
 
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16/09/2012

Crenças




Alimentamos falsas crenças quanto ao nosso modo de vida, muitas delas ainda derivadas de um nada sutil etnocentrismo. Acreditamos que vivemos no melhor modo de vida já inventado, que precisamos apenas encontrar o melhor jeito de dela tirar proveito. Isso é crença, não é fato. Somos fervorosos fiéis de nossas crenças culturais, fazemos delas verdades universais. Como acontece em muitas crenças, nossas crenças culturais têm seus seguidores fundamentalistas. Algumas pessoas se apegam tanto a elas que qualquer um que as critique será tido como herege. Em um ambiente assim, alguém que consegue imaginar outros ambientes culturais como ambientes possíveis e até mesmo como ambientes mais viáveis se comparados ao nosso será visto como louco, como alguém sem senso de realidade.
Vemos-nos presos a cenários pré-fabricados, embalados a vácuo e vendidos em cômodas prestações. Trocamos nossa capacidade de criar vida pelo ritual diária de seguir crenças que nos fazem simular que estamos vivendo. Ao invés de uma vida abundante de criatividade seguimos uma imensa procissão de passos cadenciados. ¿Não sei, mas a capacidade de imaginar outros cenários possíveis não deveria ser parte integrante de nossa vida?
 
 
Alexsandro

05/09/2011

Quem age por hábito, não faz escolhas.


Vivemos um tempo de escolhas. Precisamos escolher. Entre escolhas possíveis, precisamos escolher uma. A nossa forma de escolha exige julgamento, avaliação: é a tomada de decisão. Quem age por hábito, não faz escolhas.

25/08/2011

Só vejo cadáveres diante de mim

Como é lamentável ver quanta gente é nada mais que um grande caixão carregando verdades mortas. Vidas em ruína que não percebem a arbitrariedade dos fatos humanos, mas que teimam em afirmar uma posição diante do mundo como se fossem verdadeiros bastiões da lucidez. Uma lucidez cadavérica, tola, embriagada de superstições, preconceitos e desinformação. São sombras que não atualizaram o espírito. Crêem-se imortais, eternas, mas são de fato estrangeiras do seu tempo, refugiadas de si mesmo, em um campo de concentração de verdades que extirpou suas idiossincrasias. Sem lucidez, não sabem do seu tempo, não sabem de si, não sabem da vida. São fascistas errantes, sem singularidade, sem tempo, sem propósito próprio, que buscam reconhecimento dos seus pares, nulidades sem voz e sem sensação, moscas mortas na rede elétrica das certezas efêmeras.
Não se desligam das grandes ilusões. Acham que vão preencher a história com alguma grande realização. Que vão conseguir ultrapassar o grande abismo da idiotice e entrar no reino dos sábios e da lucidez. Acreditam que vão conquistar algo e fazer suas vidas saírem do nada no qual se encontram.
São órfãos que não entenderam a força da arbitrariedade das verdades e das culturas e procuram um pai para a humanidade. Querem verdades adequadas às suas capacidades de compreensão. Querem um fundamento racional diante do caótico. Querem uma vocação metafísica para si e para humanidade. Querem controlar o tempo. Enquanto isso não vêem os grãos da ampulheta caindo sobre cada verdade que já foi um dia fonte de sabedoria e alucinação.


Alexsandro

07/10/2010

Eu sou a minha queixa

É habitual que a expressão da queixa exagere em muito a dor, até o ponto em que a dor acaba se conformando ao exagero da queixa, aumentando o sofrimento. É comum as pessoas acreditarem tanto em suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A causa primordial de toda queixa é a preguiça de viver. Viver dá trabalho, uma vez que a cada minuto surge um fato novo, uma surpresa, um inesperado que exige correção de rota na vida.
oda queixa é narcísica.
Todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do tempo: um dia do calor, outro dia do frio. Do trabalho: porque é muito ou porque é pouco. Do carinho: "que frieza" ou "que melação". Da prova: "dificílima" ou "fácil demais", E dos políticos, e da mulher, e do marido, e dos filhos, e dos tios, avós, primos; do pai e da mãe, enfim, de ter nascido. A queixa é solidária, serve como motivo de conversa, desde o espremido elevador até o vasto salão. A queixa é o motor da união dos grupos, é sopa de cultura social - quem tem uma queixa sempre encontra um parceiro. A queixa chega a ser a própria pessoa, seu carimbo, sua identidade: "Eu sou a minha queixa".
Jorge Forbes
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11/04/2010

Para não jazermos na estática do nada


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Faço minhas as palavra de um texto presente em um panfleto acadêmico que trazia as reflexões de alguém sobre seus professores e colegas de sala, sobre o processo educativo que estava vivenciando: “Lamento por alguns terem que se calar, num lugar onde deveriam dar voz! Lamento pelos que tem que aprender algo daqueles que não acreditam no que ensinam! Lamente pelos que não percebem, pelos que não se movem, pelos que não lamentam. Lamento pela “...energia abandonada...” “...a força desaproveitada...”, “...a transcendência que se não realiza...” pelos “que podendo mover milhões de mundos, jazem no estático do nada”.
Para não jazermos na estática do nada pensemos a educação como algo que tem de nos ferir e trespassar. Se aquilo que estamos estudando ou ensinando não nos acorda com uma pancada na cabeça, por que o estamos estudando ou ensinando? Porque nos faz felizes? Para encontrar felicidade? Seríamos felizes precisamente se não tivéssemos escolas ou educação. A espécie de educação que nos torna felizes é a espécie de educação que não nos desperta para nada. Nós precisamos de uma educação que nos afetem como um desastre, que nos magoem profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para uma floresta longe de todos. Uma ação educativa tem que ser como um machado quebrando o mar de gelo que há dentro de nós. Uma ação educativa só vale se funcionar como uma metralhadora giratória contra a sociedade (capitalista) que nos capturou - é a educação a serviço de sua extinção, isto é, da salvação, isto é, da nossa salvação. É a educação como possibilidade de vivenciar a libertação do pensamento e da vida em ato.

Alexsandro A. Oliveira
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19/03/2010

Não sabemos o que fazer com o mal e com a violência


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O que fazer com a violência? De onde vem tanto mal? São duas das questões mais importantes com a qual nos deparamos ultimamente. Sua importância cresce quando nos damos conta que não temos uma resposta satisfatória para nenhuma das duas.
Nosso ritmo de vida é instável, intranqüilo, inseguro, desconfortável, estamos a ponto de desmoronar. Acontecimentos traumáticos passaram a ser a regra. Tranqüilidade é uma exceção. Como chegamos a este estado de coisas? Como deixamos florescer uma sociedade pontilhada por tantas relações perversas?
Vivemos uma época contra-utópica. Nossos sonhos e projetos individuais são uma demonstração clara do nosso fracasso enquanto coletividade. Não sabemos conceber a vida para além das paredes de nossas casas (para os que têm casa). Usamos como desculpas para apaziguar nossa angústia séries e mais séries de conquistas tecnológicas. Festejamos tais conquistas como uma vantagem do nosso ímpeto insaciável e sempre a procura de mais. Não percebemos que o que acontece de fato é uma impossibilidade de nos encontrarmos satisfeitos, que perdemos completamente qualquer noção de limite, seja ele ético, moral, econômico, político ou estético.
Repito, somos a contra-utopia de uma sociedade vivida coletivamente. A prova é o florescimento da sociedade de consumo, do consumidor e seus desejos irrealizáveis. Nós nos encontramos em um tipo de sociedade que nos promete de tudo, mas, que ao mesmo tempo, tudo nos nega, sobretudo se não formos consumidores vorazes.
Nosso estilo de vida foi em parte construído tendo como um dos seus pilares a esperança no futuro. Assistimos, talvez, ao fim desse sonho quando percebemos que nossa capacidade de imaginar um mundo, não apenas melhor, mas diferente, se tornou uma tarefa imensamente difícil.
A explosão cotidiana de violência, seja nas grandes ou nas pequenas demonstrações, é indicador da nossa atual impossibilidade de construir, nem tanto um futuro, mas um presente que nos seja satisfatório. Não se tem ao certo uma definição e uma clareza do que de fato toda essa explosão de violência significa. Um clima de imprecisão quanto ao seu sentido faz do nosso tempo uma época caracterizada pela ausência de definição do que seria o mal. O vemos, o sentimos, o vivemos, mas não somos capazes de combatê-lo. E essa incapacidade revela nossa fragilidade.
Nossa violência não possui uma contrapartida, não sabemos lutar contra ela, não sabemos como amenizá-la. Ela não se apresenta como um estágio no qual precisamos passar para chegarmos a algo melhor. É uma violência que só leva a mais violência. Não há uma distinção clara e plausível entre os violentos e os não violentos. Testemunhamos um estado de indefinição, de ambigüidades, presentes no cotidiano, de oposições gratuitas, de violências sem direção, que se expressam das mais diversas formas, acabando por criar situações às vezes insuportáveis para alguns ou para muitos.
Alguns constroem abrigos para se proteger do mundo exterior (os condomínios fechados estão virando uma estranha necessidade sob o argumento da segurança) e, do outro lado, aqueles que se encontram a mercê da insegurança e da impossibilidade de ter alternativa, para estes não resta outra saída que a de encarar a realidade que se apresenta. Se em outros momentos os muros foram usados para proteção de todos contra aqueles que vinham de longe, contra os estranhos de outras terras, contra aqueles que falavam línguas estranhas, agora ele protege do estranho que fala a mesmo língua, vive na mesma cidade, talvez coma até o mesmo tipo de comida, vista o mesmo tipo de roupa, freqüente a mesma igreja ou coisa parecida. Somos, vivemos e formamos um mundo de estranhos entre nós. E esse não reconhecimento do outro gera e estabelece relações cínicas, distantes, superficiais, em que uma das prerrogativas principais é não se deixar envolver por esse outro que não se reconhece.
Para conter a onda de perversidade e maldade alguns clamam por mais leis, mais regras sociais, mais força repressiva, mais rigidez no trato com os “desajustados”, os “perigosos”, os “ameaçadores”, os “malvados”. Mas, no limite extremo, precisamos explicar de onde vem tanto mal, ele não pode ser gratuito. Mas aí nossos discursos fracassam. Não temos uma explicação plausível que convença e que indique um caminho que nos proteja de tanto mal. Fracassamos em explicar o mal, fracassamos em lidar com o mal. Fracassamos.
E nesse limite um cenário trágico se esboça: um cenário no qual violência e medo se misturam, se tornam os ingredientes que temperam a existência dos indivíduos. Neste cenário muitos acabam buscando no recolhimento de suas experiências respostas para as questões do mundo e do mal, mergulham, então, no universo do “auto” - auto-inspeção, autoproblematização, auto-realização, auto-monitoramento, auto-avaliação, auto-recuperação, auto-ajuda, etc. O irônico é que ao proceder assim o indivíduo acredita que está realmente determinando sua vida, que está livremente escolhendo, que essa será a melhor opção possível para ele.
Consumo e recolhimento tornam-se as balizas para esse indivíduo. Os seus sonhos passam pela possibilidade de consumir algo. Seu recolhimento significa de fato abster-se do mundo, torna-se, neste sentido, imperceptível, invisível, intocável. Neste clima só cabe a ele esperar que alguma solução para o problema da maldade caia do céu ou de onde quer que seja – o perigo aqui é que este sujeito quase sempre se encontra pronto para aceitar qualquer tipo de solução, até mesmo as mais fascistas e totalitárias.
A questão quanto ao que fazer com a violência e, quem sabe, a resposta sobre como superá-la, só pode advir, só pode ser entendida, só pode ser discutida com a ampliação de nossa compreensão do que ocorre em nossa sociedade e de como ela funciona, e tal tarefa é urgente. Mas não podemos medir o que se passa a partir de uma perspectiva tosca e medíocre. Para aqueles que só vêem “o lado bom” faz-se necessário um alerta: tal otimismo pode ser fruto exatamente de um afastamento do mundo, de um recolhimento frente às questões do mundo. Já para aqueles que não vêem saída, para aqueles que acreditam que estamos próximos do fim, lembro que é preciso estabelecer novas metas, ou mesmo acabar com todas as metas, principalmente aquelas oriundas de uma sociedade que inviabiliza qualquer ação de conjunto, que sufoca qualquer sentido ou perspectiva que não aquelas do mercado e do consumo.

Alexsandro A. Oliveira


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06/02/2010

Sinais de que você não é feliz ou como identificar uma pessoa infeliz

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Se você não respeita os outros, você não é feliz.
Se você se preocupa com a forma como os outros são ou como os outros vivem, você não é feliz.
Se você acha que merece certas coisas por um motivo ou outro, mas não tem, você não é feliz.
Se você se considera alguém superior aos outros, você não é feliz.
Se você se presta a considerar como importante coisas mesquinhas, você não é feliz.
Se você se presta a alimentar qualquer tipo de preconceito, você não é feliz.
Se você perde facilmente o controle das suas emoções, você não é feliz.
Se você por algum motivo sente inveja, você não é feliz.
Se você humilha ou é humilhado constantemente, você não é feliz.
Se você age violentamente com muita facilidade, você não é feliz.
Se você vive para provar algo para os outros ou para você mesmo, você não é feliz.
Se você enxerga facilmente os defeitos dos outros, você não é feliz.
Se você se sente incomodado na presença de alguém diferente de você, você não é feliz.
Se você acha que tem que defender a ferro e fogo seu modo de ser e viver, você não é feliz.
Se você é imaturo, você não é feliz.
Se você é egoísta, você não é feliz.
Se você vive para dar satisfação aos outros, você não é feliz.
Se você é pouco tolerante, você não é feliz.
Se você não estiver satisfeito com o que tem ou com o que é, você não é feliz.
Se você acha que falta alguma coisa na sua vida, você não é feliz.
Se você vive situações constrangedoras constantemente, você não é feliz.
Se você se subordina a alguém ou a alguma situação constantemente, você não é feliz.
Se você é uma pessoa burra, você não é feliz.
Se você tem algum vício, você não é feliz.
Se você não entende e não procura entender o que se passa ao seu redor, você não é feliz.
Se você é ansioso, você não é feliz.

Alexsandro

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26/01/2010

O valor de todas as coisas (2)

Os depoimentos foram retirados do livro "No Logo", de Naomi Klein:



Em nossas instalações de fabricação, administração e distribuição, temos uma filosofia específica - as câmeras fazem com que as pessoas honestas continuem honestas.
Leo Myers, engenheiro de segurança e sistema de vigilância da Mattel, explicando o uso entusiástico pela empresa de sistemas de vigilância sobre sua força de trabalho global, 1990


Semana sim, semana não, retiro da prateleira o que não acho que seja de qualidade Wal-Mart.
Teresa Staton, gerente da loja Wal-Mart em Cheraw, na Carolina do Sul, sobre a prática da cadeia de censurar revistas com capas provocativas, The Wall Street Journal, 22 de outubro de 1997


Não existe tanta angústia, é apenas consumismo desenfreado.
CEO da MTV Tom Freston, descrevendo o conteúdo da MTV indiana, junho de 1997


É terrível dizer isso, mas com muita freqüencia as roupas mais empolgantes são as das pessoas mais pobres.
Estilista Christian Lacroix na Vogue, abril de 1994


Acordo toda manhã, pulo no chuveiro, olho para o símbolo e ele me sacode para o dia. É para me lembrar a cada dia de como tenho de agir, isto é, 'Just do it'.
Empresário da internet de 24 anos Carmine Colletion sobre sua decisão de tatuar a logo da Nike no seu umbigo, dezembro de 1997




P.S.: Tais depoimentos demonstram como o capitalismo penetrou no mundo e isso me assustam verdadeiramente.


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