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20/06/2014

Um lugar para os adultos – Infância e liberdade

O texto vai para meu sobrinho Tales (de 7 anos) 
que inaugurou sua carreira como filosofo com a seguinte reflexão:
"Pai, como ocorreu isso de surgir o nome das coisas? 
Acho que talvez tudo nem tem nome, é nós que 
inventamos  um nome para aquela coisa sem nome".



Os adultos não param de querer encontrar um lugar para infância, não param de querer determinar quais são os lugares devidos para experiência da infância, não param de querer definir o que é a infância. É nesse sentido que a figura da infância encontra-se carregada de clichês e estereótipos. Fruto de um adulto geralmente cansado de si mesmo, pesado por carregar o mundo em suas costas, condicionado pela época e pela cultura (capitalista, no nosso caso), tais figuras, em sua maioria, definem a infância como a matéria-prima para modelagem de um futuro adulto, geralmente pensado como sendo melhor do que o adulto que aí se encontra. A partir daí, todo um conjunto de aparatos foram e são pensados e usados no processo de modelagem da infância: escolas, pedagogias, psicologias, investimentos, políticas, assistências, arranjos e mais arranjos, para fazer com que as crianças cheguem a ser adultos felizes.
Há várias figuras e imagens que são associadas à infância. Uma delas geralmente associa infância com liberdade. Se pensarmos a imagem da infância como experiência da liberdade, só podemos empreendê-la de fato e seriamente, se entendermos o encontro da liberdade com a infância como o momento no qual não se precisa criar coisa alguma, como um momento de pura esterilidade, nenhuma pressão interior ou exterior para se fazer coisa alguma, para se ser coisa alguma, nenhum projeto, nada para conquistar, nenhum lugar para ir, nenhum movimento a ser feito, nada para ser criado, nada para ser destruído. De saída, percebe-se que se um adulto quer viver assim, logo ele é comparado a um louco. Daí que para se ser adulto, silencia-se a infância e distancia-se da liberdade.
Que tal se fizéssemos um exercício ao contrário: propor um lugar para os adultos tendo a infância como referência. Pensar não para que a criança venha a ser o adulto do futuro, mas para que o adulto possa a vir a ser a criança do amanhã. Partamos do pressuposto que afirmar que as definições da infância criadas pelos adultos se devem ao fato destes se encontrarem inquietos diante do mundo, atormentados pelo mundo, tormento que é fruto do aprendizado dado pelo mundo e tal relação com o mundo seria a causa do amadurecimento tão associada à figura do adulto - o adulto é alguém maduro. Se assim é, por que não, tal qual uma criança, abrir espaço para a imaturidade em um mundo de não formação? Por que ao invés de ensinarmos as crianças, não fazemos com que os adultos desaprendam?
É uma violência pensarmos a infância como vinculada a um progresso, como algo que passará e nunca mais será recuperado ou que podemos moldá-la para que se torne o adulto que não conseguimos ser. É uma violência projetarmos na infância um futuro inalcançável ou desejar por meio dela a recuperação de um paraíso que o adulto perdeu. Como diz Jorge Larrosa: “a criança não é nem antiga nem moderna, não está nem antes nem depois, mas agora, atual, presente. Seu tempo não é linear, nem evolutivo, nem genético, nem dialético, nem sequer narrativo. A criança é um presente inatual, intempestivo...” Que os adultos parem de querer encontrar um lugar para a infância, parem de querer determinar quais são os lugares devidos para a experiência da infância. É triste constatar que a infância só é experimentada como liberdade nos intervalos em que o adulto não está por perto ou quando este morre.


Alexsandro


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19/04/2014

O doce sabor do não entender





Vamos fazer um exercício de pensamento... A presença de deuses na história humana deriva de vários fatores, mas dois dos elementos principais para criação de deuses foram e são o medo e a necessidade de sentido para vida (viver para o nada parece estranho), mesmo que este sentido contenha alguma forma de dominação, ou seja, me submeto a algo, mas ganho um sentido para viver. Vamos pensar, por exemplo, o deus judaico-cristão. Quando analisamos seus atributos - Onipotência, Onipresença e Onisciência - percebemos que eles amarram os principais elementos da vida humana, ou seja, eles dão respostas e suportes para o medo e o sentido para vida pois trabalham com uma fórmula perfeito, qual seja, consegue unir poder e saber em uma só criatura – o poder para resolver o problema da morte e o saber que conteria as respostas para o sentido da vida.
Por sua vez pensar a Humanidade através da Evolução deixa para nós o problema de resolver o medo e o sentido da vida.
Nós somos natureza, a natureza se encontra em nós. Fazemos parte dela e ela de todos nós. Assim se move em nós o desejo de nunca se desligar dela. Queremos com ela estar conectados o tempo todo. Só que isso exige muito empenho de todos nós, exige uma potencia de criação tremenda, demanda todo nosso tempo. Viver passa a significar estar vivo e ter de inventar tudo para que a vida ganhe significado, sabendo que qualquer que seja o significado ele será artificial, ficcional e sem justificativa transcendental, sobrando apenas o desejo de querer permanecer na natureza e realizar-se nela e por ela em um exercício de potenciação de si e empoderamento de si constante. Logo, pensar a Humanidade através da Evolução tem muito mais heroísmo humano do que pensá-la por via da Criação. Talvez até mesmo seja por isso que não se deseja que as pessoas conheçam essa história. Pois é bem possível que quanto mais as pessoas tiverem conhecimento de quanto somos capazes de feitos incríveis, talvez mais elas desejem se libertar de seus opressores. (Aqui entra em questão a relação opressor X oprimido que não é uma relação fácil de ser entendida - qualquer um pode fazer parte tanto de um grupo quanto do outro, sem contar o fato de que a opressão pode ser desejada -e sempre é - e se encontrar camuflada nos discursos que, em aparência, são libertadores.)
Para aqueles que foram, que estão e que serão oprimidos (e todos nós corremos o risco) vale ter em mente como é o doce sabor da estupidez do não entender, como bem disse Clarice Lispector:

E era bom. 'Não entender' era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não entender não tinha fronteiras e levara ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Alexsandro


13/04/2014

O abuso e o excesso de obediência

Nossas interpretações e críticas são sempre construídas a partir de quem manda. É desta forma, por exemplo, que se fala muito contra o Estado e sua forma de governo sobre nós, contra os diversos tipos de lideres que se encontra em empresas, igrejas, escolas, etc.. As criticas são sempre construídas tendo como referência principal quem manda. ¿E se invertêssemos a lógica e afirmássemos que o problema não é abuso ou excesso de poder, mas o abuso e o excesso de obediência? ¿Será que parte dos nossos problemas em ajustar melhor a vida em sociedade não se encontra na nossa excessiva obediência a qualquer forma externa de governo sobre nós?

¿A desresponsabilização de si diante da vida fica mais fácil quando temos a quem culpar por nossos infortúnios?¿ Parte da nossa aceitação em se deixar governar e, como consequência, nossa excessiva obediência, adviria do pensamento de que a obediência a outro tira de quem obedece as responsabilidades? A ideia é bem simples: obedecer para ter a quem culpar quando algo sair errado, desta forma a culpa será de quem deu a ordem e não de quem obedeceu. ¿Essa não seria uma forma covarde de viver?


Alexsandro

10/07/2011

A Ordem e a Diferença

Em um mundo como o nosso, como lidar com os problemas? Violência pelas ruas, fundamentalismo e intolerância racial e/ou religiosa, delinqüências dos mais variados tipos... Uma sensação angustiante de insegurança: as ruas como um campo de batalha (saio, não sei se volto), tráfico, militarismo, epidemias, desemprego, trabalho escravo e outros mais... Em uma sociedade assim, quem não sonha com ordem?
Mas como estabelecer ordem em um mundo recheado de diferenças, em um mundo cheio de interesses no mais das vezes conflitantes? Como conciliar as diferenças? Como estabelecer uma relação com elas? Devemos reconhecer que existem aqueles que se enquadram perfeitamente a certa lógica de funcionamento das coisas, mas que existem também aqueles que não se encaixam a modos de existências impostos por certa conjuntura social. Só esse fato já demonstra a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de se estabelecer uma ordem total valida para todos. Sobretudo se essa ordem significar tornar todos um só, fazendo existir apenas uma forma de compreender o mundo, uma forma de encarar a vida, uma forma de oferecer sentido a vida, com todos acreditando nas mesmas coisas, fazendo as mesmas coisas e sempre do mesmo jeito. Em um mundo que deseja ordem (se é que realmente deseja), o maior empecilho passa a ser a diferença, principalmente a diferença expressada pelo outro, pelos outros. O outro que não compreende o mundo como compreendo, o outro que encara a vida de outra forma, que busca outro sentido para a vida, que acredita em outras coisas, que faz outras coisas de outro jeito.
Em um mundo como o nosso, em uma sociedade como a nossa, as pessoas, as relações, os acontecimentos, as formas de pensamentos, as mentalidades, as expressões culturais não se ajustam com perfeição, não se harmonizam com facilidade, nem tudo se enquadra, nem todos se conformam, abrindo um leque de dificuldades para um equilíbrio e harmonização diante da complexidade existente, qual seja: as diferenças se expressam.
Sonhamos, talvez, com um mundo perfeito, com pessoas perfeitas, uma sociedade da harmonia e da pureza, um paraíso encarnado. A história do homem se encontra cheia de propostas e projetos para a construção de tal sociedade. Propostas e projetos esses que foram levados a cabo em nome da construção de um mundo melhor. O interessante aqui é percebermos que a consolidação de tais propostas e projetos passou sempre pela busca e pelo o estabelecimento de uma ordem. E no estabelecimento da ordem uma questão sempre apareceu: o que fazer com o diferente, com a diferença? A resposta, se levarmos em conta a história das sociedades, foi dada na forma de três maneiras de lidar com a diferença: primeira, acabar com a diferença destruindo-a, matando-a; segunda, transformar a diferença para que ela se torne igual, assim a diferença deixa de existir e a ordem é promovida e, por fim, expurgar a diferença, exilando-a ou impedindo o contato.
O estabelecimento da sociedade soviética no início do século passado, as intenções nazistas, o processo de mundialização da sociedade capitalista através do mercado e tudo que este vem promovendo - guerras, má distribuição de bens, intolerância étnica, religiosa e política, miséria e destruição das culturas nativas e regionais - são maneiras de lidar e tentar destruir, transformar ou distanciar o diferente e as diferenças.
As características do mundo atual e a maneira como nele vivemos, testemunham o quão fragilizado é esse nosso mundo e o quanto nos encontramos fragilizados. Uma fragilidade que nos desnorteia a tal ponto que chegamos a acreditar que sozinho, digo, como indivíduos solitários, daremos conta dos problemas que nos afligem (desemprego, insegurança, condições de vida precárias, etc.), ou que cabe ao setor público resolver problemas individuais e privados, ou ainda, que devemos impor aqueles que são diferentes de nós as soluções que encontramos para vida. É equivocado pensar que as respostas que possuo são suficientes para responder as questões que se apresentam atualmente.  As respostas que possuo, no máximo servem para resolver os meus problemas pessoais (e olhe lá se servem mesmo). Também é um equivoco pensar problemas pessoais como problemas de ordem pública. Sim, a solução para varias questões pessoais passam pela questão coletiva - a segurança e a liberdade individual, por exemplo, só pode ser produto do trabalho coletivo, mas não podemos perder de vista que publico e privado são dois setores diferentes da sociedade. A privatização das soluções e dos meios para se resolver os problemas que dizem respeito à sociedade como um todo está fadado ao fracasso se continuarmos a acreditar que os problemas privados são mais importantes que os problemas coletivos. A solução dos problemas individuais, sim, passa pela solução dos problemas sociais e esses, por sua vez, só podem ser resolvidos coletivamente. Precisamos entender o espaço publico como um espaço social e coletivo, como um espaço político. Precisamos reaver este espaço político, e em seguida precisamos entender que este espaço é um espaço de manifestação das diferenças, dos diferentes. É de suma importância entender este fato.
O desejo de ordem não a constrói. E nesse sentido, negar o diferente e as diferenças, não é a melhor forma de viver o presente e muito menos de encarar o porvir. Negar ao diferente que ele se manifeste é negar a possibilidade à própria vida. O sonho de uma sociedade em ordem não deve passar pela destruição da diferença, por sua assimilação ou pelo seu distanciamento.
Não somos todos iguais e esse fato deve ser compreendido. Com prudência e coragem, precisamos nos colocar a disposição para enfrentar o diferente e a diferenças que se apresentam a cada dia, não para superá-lo ou superá-las, mas para aprender a conviver e quem saber construir uma sociedade que seja expressão de todos.
Precisamos assumir nossos erros e a partir daí criticar e denunciar as formas de pensamento, as crenças, os valores, as formas de vida que concebem as coisas e, sobretudo, a sociedade, negando as diferenças ou vendo nelas uma aberração. Se quisermos fazer uma oposição séria e conseqüente ao mundo que se apresenta, se procuramos uma vida mais digna e verdadeiramente de qualidade, devemos fazer isso de uma maneira totalmente nova. Por que não começar abrindo mão do discurso de poder: de tentar está sempre do lado certo, de acreditar que estamos sempre do lado certo? Não podemos defender com toda fúria posicionamentos que podem destruir a todos nós, que impossibilitam o estabelecimento de qualquer diálogo. Se continuarmos residindo em um sádico desejo de poder, na sádica ilusão de acreditar que estamos sempre certo, se assim agimos, estamos colaborando para que o caos aumente.

Alexsandro

04/03/2011

Mate amargo para jovens e crianças

Mais uma cidade brasileira adota o toque de recolher: Matelandia - PR. Mais uma vez o alvo são crianças e jovens. A desculpa é a mesma que foi usada em outros municípios: "Queremos um município mais tranqüilo e formar cidadãos de bem", justifica a autora do projeto, a vereadora Líria Perini Carnetti. Em outro momento ela afirma: “Com a aprovação e aplicação desta Lei, colheremos os resultados em pouco tempo. O que precisamos é proteger nossas crianças e adolescentes dos abusos causados por uma vida desregrada, alcoolismo e consumo de drogas”.
A opinião de outros vereadores que votaram favoravelmente não é diferente:
Não tenho dúvida que esta é uma ação educadora, para que as famílias e a escola consigam formar bons cidadãos. Esta Lei é um instrumento, principalmente para os pais que não tem domínio sobre os filhos, recorram a este recurso para manter seus filhos longe dos perigos das ruas. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) regulamenta que os adolescentes a partir dos doze anos que cometerem infrações podem receber advertência e ainda serem punidos com até três anos de reclusão, o problema é que só se fala em direitos da criança e adolescente, pois os deveres são mal interpretados. (Edson Alves - Vereador)

Poderemos encontrar problemas na aplicabilidade, mas contamos com o apoio do Executivo e do Judiciário. (Eliete Ponciano Pinto - Vereadora)

Como educadora, tenho consciência da dificuldade em conduzir os adolescentes. A sugestão é que esta Lei seja fixada nas escolas para o conhecimento de orientadores e alunos, para um melhor entendimento da comunidade. (Kátia Duarte - Vereadora)

Tais argumentos são de uma superficialidade sem tamanho. Enxergam os problemas mais não as causas. O que assistimos é o fracasso dos pais em criarem relações satisfatórias com os filhos; o fracasso do estado em criar condições dignas de convívio - como não existem programas advindos do estado para resolver problemas que atingem a sociedade de maneira avassaladora, criminaliza-se as práticas cotidianas dos indivíduos; a perda do espaço público - afinal, a quem pertence as ruas?, e, finalmente, a criminalização de experiências da infância e da juventude para garantir uma vida tranqüila para adultos e velhos.
Tais atitudes tomadas por juízes, e no novo caso, proposta pela vereadora Líria Perini Carnetti, contradizem todos os princípios constitucionais que vigoram no atual Estado Democrático de Direito em nosso país. Para citar alguns: o princípio de liberdade do indivíduo; o princípio da isonomia - que indica que todos possuem direitos iguais e ressalva o direito a diferença de cada um; o princípio da legalidade.
Diz-se muito que o problema é de segurança e que caberia ao Estado criar tal condição para a sociedade. Mas infelizmente o Estado se mostra incapaz de garanti-la. E a questão se torna ainda mais grave quando levamos em consideração o lamentável grau de corrupção das nossas instituições de segurança pública. (Das nossas instituições publicas como um todo). Tais medidas buscam resolver problemas sociais com ações repressoras - como não se combate efetivamente o crime, penaliza-se o cidadão comum. São propostas e soluções que possuem o mesmo significado de outras medidas que os Estados vêm implementando: redução da maioridade penal, a política da tolerância zero, a expurgação de mendigos e camelôs dos centros das cidades e torturas de presos.
Historicamente a aplicação do toque de recolher como medida tomada pelo Estado nunca deriva de atitudes democráticas e libertadoras. Sua efetivação sempre aponta na direção de um pensamento fascista. Não foi a toa que os nazistas na Alemanha usaram contra judeus e que norte-americanos usaram contra imigrantes japoneses e seus descendentes (1933 e 1945). Também nos Estado Unidos, durante a década de 1950, os cidadãos afro-americanos sofreram o mesmo tipo de restrição durante a vigência da Lei Jim Crow, que restringia as liberdades e direitos civis dos afro-americanos. Em casos mais recentes testemunhamos seu uso em Israel contra civis palestinos (2005).
Por conta destes fatos devemos promover uma crítica radical contra o toque de recolher. Faz-se necessário ficarmos atentos e buscarmos esclarecimento e esclarecermos a juventude e a todos sobre o que está por trás deste espetáculo de mentiras e hipocrisias que representa tal proposta. Ele nada resolve de fato, apenas camufla o problema e reforça a repressão, enquanto deixa os verdadeiros culpados pela miséria da sociedade à solta.
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31/01/2011

Anonimato

É certo que o mundo não necessita de outros messias, gurus, lideres, estrelas pops. É por conta disso que o anonimato vem se mostrando uma condição revolucionária bastante eficaz. Seu efeito rizomático faz dele uma condição de resistência que parece ser mais eficaz e menos vulnerável as seduções capitalistas.
Alexsandro

24/01/2011

A Importância da Autoridade - Sigmund Freud

Foi Freud quem disse: "É inútil alongar-me demoradamente sobre a importância da autoridade. São muito poucas as pessoas civilizadas capazes de uma existência perfeitamente autónoma ou tão-só de juízo independente. Não nos é possível representar em toda a sua amplitude a necessidade de autoridade e a fraqueza interior dos seres humanos."
É dolososo ter de concordar com ele, mas ele tem razão. Ainda mais se entendermos que civilizar é por homens e mulheres sob o julgo do adestramento.
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26/11/2010

A montagem do território é correlata à montagem da fronteira


De início é válido esclarecer que a noção de território aqui trabalhada tem na definição construída por Guattari a referência primeira:

“a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que o delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quando a um sistema percebido no seio de qual um sujeito se sente ‘em casa’. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos.

A noção de território demandaria o estabelecimento de recortes. A linha do recorte estabelecerá uma fronteira que definirá um dentro e um fora. Tudo aquilo que é usado para definir o ‘dentro’, o espírito do ‘de dentro’, será usado para assegurar a permanência do ‘fora’. A fronteira estabelecida legitima a unificação política de um território. Um território definido e definidor: um território que passa a afetar e que circunscreve o estabelecimento de alteridades: afetividade territorializada estabelecendo padrões de sensações e sentimentos que devem ser vividos e experimentados; território definindo alteridades a partir das noções ‘dentro’ e ‘fora’.
Mas como nasce um território? Do e no emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Lembrando que o discurso que faz nascer um território é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor para um futuro promissor. O território e a fronteira não possuem essência. A configuração que assumem é artificial. No movimento de territorialização, que pode ser de identificação ou de conceituação, tudo no entorno, tudo com que entra em contato será afetado.
Há os movimentos. Um território nasce dos movimentos. Movimentos de transformação. Eles são inevitáveis. Embora muito se lute para represá-los ou reprimi-los. Os movimentos de transformação se fazem pela e na destruição, na demolição, no desfazer, no diluir, no evaporar de certos mundos, de certas configurações culturais, de certas relações sociais, de certos sentidos. Sentidos que se vão, que se perdem, que deixam de ser, que somem, e no reverso, sentidos que vêm, se acham, que passam a ser, que aparecem. Um ambiente que se tornou ultrapassado para expressão de afetos. Afetos que requerem novos traçados, novos territórios. São afetos ganhando vida, assumindo a vida, dando vida. E no trajeto que segue, estratégias vão sendo requeridas, fronteiras vão sendo estabelecidas.
O estabelecimento de um território acontece tentando eliminar a alteridade. Como em um ato fágico, devorar para integrar. E para aqueles que não se territorializaram, a ação êmica, vomitar para expulsar. Questionar a fronteira é correr risco - o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado não pertencente ao território.
Vale lembrar que tal sentimento de pertencimento não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo se encontra inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo, da imagem do outro, deve acontecer. Os comportamentos morais e afetivos definem e caracterizam o afeto dos sujeitos ao território. O problemático aqui é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista imediatos ligados a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito pode deixa de compreender sua própria situação a partir do momento em que ele só compreende o território e a fronteira na perspectiva ‘do dentro’. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O estabelecimento da fronteira pode significar o estabelecimento de um limite entre a percepção de si (o de dentro) e a percepção do outro (o de fora). Tal limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro. Uma percepção auto-referencial que vai à direção de uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma imagem do outro, pejorativa e falsa.
A desqualificação do outro alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos e xenofobias. O que alimenta tais atitudes é, sem dúvida, a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção da alteridade, do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral. A incapacidade de compreender e de conceber a alteridade como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime de fronteira. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica, somada a condenação de qualquer tipo de crítica, fazem da fronteira um espaço de atitudes arrogantes, fundado em idéias preconcebidas, de circulação de discursos arbitrários, caprichosos e injustos.
Alexsandro

REBELDIA



Bob Cuspe
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A rebeldia esteve presente desde o inicio da civilização e estará até seu fim.


Polar

15/11/2010

Uma lição foucaultiana

Se for verdade que há sempre algum poder presente em qualquer empreendimento de saber e que não é possível desfazer essa relação, então qual a saída? Como tirar o poder do saber? Como deixar o saber apenas nele mesmo? Cairemos sempre nessa teia? Não sei. Talvez isso não seja possível. E se ao invés de lutarmos para acabar com a relação saber-poder fizéssemos exatamente o contrário, ou seja, disseminássemos o máximo possível a informação (o saber) que o poder encontra-se presente em todas as relações? Que o trabalho de produção do saber é também um trabalho de produção de poder?
Se o trabalho de produção do saber nunca estará completo, logo, o poder nunca terá uma forma definida. Se a produção do saber, e junto com ela a arte de pensar e a arte de escrever, sempre estarão em curso, também estaremos sempre no meio do labirinto do poder, um inelutável labirinto de paredes móveis, mas sem saída.
Se o saber é sempre algo em produção (uma produção infinita) e se o poder é um labirinto, como então se mover nesse labirinto sem ser esmagado por suas paredes móveis?
Talvez a resposta seja: continuar pensando. E junto com o pensar, escrever. Ou dito de outra forma: construir. Construir frases. Ir do início ao fim de uma página. Trabalho braçal. O trabalho de escrita deve atravessar o escritor pelo meio, desmontá-lo e reconstruí-lo em cada frase, tornando-o sempre outro. Outro sempre fugidio, sempre de difícil compreensão para o poder, sempre buscando ser “incapturável”. Ensinando-lhe não apenas novas maneiras de compreensão e entendimento, mas também produzir formas de confundir. Como? Produzindo um saber para outro poder na medida em que este faça ruir a base daquele saber que é imprescindível a manutenção do poder estabelecido.

Resumindo: aceitar que não tem como fugir da relação saber-poder e fazer uso dela, tramando uma produção de saber-poder sempre contestatória.


Alexsandro
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08/06/2010

Pastor, lobo, ovelha - Atitudes em relação ao poder

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Três atitudes comuns dos indivíduos em relação ao poder:
- Se identificar com o poder: "EU SOU O PODER"
Os que se identificam com o poder são os Pastores;
- Ser contra o poder: "EU SOU CONTRA O PODER"
Os que são contra o poder são os Lobos;
- Aceitar o poder: "EU SOU A FAVOR DO PODER"
As massas submissas ao poder são as ovelhas.

Não se encontrou ainda uma saída para essa relação recorrente entre o poder, as massas e a solidão dos indivíduos singulares. Ninguém consegue ver ou definir o poder, mas uns se identificam com ele, outros o contestam e há ainda os que decidem obedece-lo.
Esse é o cenário pastoral do poder. E para encontrarmos uma porta de saída deste cenário patético, é preciso antes entender melhor os valores que estão por detrás desses três elementos recorrentes.


Os lobos são os que não aceitam ser usado ou usar os outros, os que recusam as relações de dominação e vivem o poder apenas enquanto capacidade, potência ou vontade de poder. Suas relações são pautadas pela interatividade e pela amizade sem interesse. Amam a liberdade e são muito generosos. Alguns se deixam usar pelos pastores e viram cães-pastores.

As ovelhas trocam afeto por manipulação. O valor de troca no espírito de rebanho se dá tanto horizontalmente, na forma de solidariedade entre as ovelhas, como verticalmente, consolando piedosamente o pastor em sua altiva solidão. Elas amam o pastor para que ele as defenda. São elas que dominam o pastor, mas, dissimuladas, fingem que é ele que as domina. Elas usam enquanto fingem serem usadas e só desejam se divertir. Transformam tudo em espetáculo e em divertimento. Algumas se apaixonam platonicamente pelos lobos e se tornam ovelhas negras.

Os pastores são que não estabelecem trocas horizontais e se identificam com o poder. Usam e são usados entre si com impessoalidade e parcimônia, em grande hierarquias piramidais de sub-pastores. Embora se considerem senhores e protetores das ovelhas, são escravizados pela bajulação do rebanho e usados como espantalhos contra a liberdade dos lobos.


Podemos, a partir desse quadro, enunciar duas proposições políticas:

1. Um coletivo terá mais ou menos liberdade dependendo da permuta e revezamento dos papéis. Se os pastores forem sempre pastores; os lobos, lobos; e as ovelhas, ovelhas; o grupo será opressor para todos. Mas se ao contrário, todos tomarem consciência de seu papel principal e se esforçarem para se comportar através dos outros dois papéis, criando um revezamento dessas 'funções' no interior do coletivo, então, haverá crescimento individual e compreensão mútua e o grupo se constituirá em um espaço de liberdade e aprendizado. As ovelhas são boazinhas, os lobos são maus e os pastores pairam acima do bem e do mal; as ovelhas precisam admitir suas maldades, os lobos reconhecer que também são filhos de Deus, e os pastores têm que aprender que não estão em condição de julgar aos outros. Quando todos os participantes de um grupo conseguem se identificar com os três papéis de forma harmoniosa afirma-se que o sistema está em equilíbrio qualitativo.
2. Um coletivo terá mais ou menos segurança dependendo de como os papéis estejam distribuídos proporcionalmente no grupo. Ovelhas demais petrificam os grupos em posturas conservadores, ovelhas de menos geram conflitos intermináveis. Quando encontramos os papéis distribuídos de forma proporcional em relação às suas funções diz-se que o grupo está em um equilíbrio quantitativo.

Mas será que é 'liberdade' e 'segurança' que realmente procuramos nos grupos? Na verdade, o que é certo que cada um dos papéis sonha em eliminar os outros dois:

- a ditadura do proletariado, quando as massas tomam o poder, é equivalente ao império do rebanho;
- a tecnodemocracia das elites corresponde ao projeto neo-liberal dos pastores;
- e o sonho da alcatéia hacker, à utopia dos lobos.

Porém, também é certo que um papel não sobrevive sem os outros. Isso fica claro quando descobrimos as funções a que esses papéis ridículos estão associados.


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11/04/2010

Para que serve uma teoria


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Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante... É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. E curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica. E o poder que por natureza opera totalizações e você diz exatamente que a teoria por natureza é contra o poder. Desde que uma teoria penetra em determinado ponto, ela se choca com a impossibilidade de ter a menor conseqüência prática sem que se produza uma explosão, se necessário em um ponto totalmente diferente. Por este motivo a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou a reforma é elaborada por pessoas que se pretendem representativas e que têm como ocupação falar pelos outros, em nome dos outros, e é uma reorganização do poder, uma distribuição de poder que se acompanha de uma repressão crescente. Ou é uma reforma reivindicada, exigida por aqueles a que ela diz respeito, e aí deixa de ser uma reforma, é uma ação revolucionária que por seu caráter parcial está decidida a colocar em questão a totalidade do poder e de sua hierarquia.

Deleuze

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