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30/03/2017

A DIREITA É UMA FÁBRICA DE FAVELAS


Apesar da clara pecha reducionista presente no binômio direita e esquerda como se fossem, o que não são, dois campos claros e de fácil compreensão para além da simples orientação maniqueísta, esta metáfora bipolar nos serve como um recurso de batalha para separar as distintas intenções presentes no campo de guerra da atual política brasileira.
Desde o início da redemocratização a direita no Brasil não tinha rosto nem nome, poucos ou ninguém queria se identificar com ela. Era, no máximo, denominado de conservador ou tradicional, empresário ou empreendedor, moralista ou pessoa de bem, mas não de direita.
Hoje, entretanto, podemos dizer que a máscara caiu e agora podemos ver o seu rosto mais nitidamente. Ela foi filmada e fotografada, ela fez seu próprio self e publicou espontaneamente nas redes sociais, ela foi à TV e fez discurso, escreveu artigos para revistas e jornais e fez comentários em blogs. Dizer que a direita não possui uma agenda com um pilar básico de qualquer partido de direita já não cola. Essa agenda caminha a passos largos, associada ao modelo conversador, cujo debate se atrela a temas como família, drogas, abortos, estado mínimo, total liberdade e não interferência nas atividades individuais, etc.
Como é típico, a direita no Brasil não quer ser associada à ditadura, quer ser vista como libertadora e democrática. Faz uso de velhos clichês e argumentos rasos: continua afirmando que os países mais a direita do espectro político são os mais ricos do mundo. Que liberdade econômica não é sinônimo de escravidão nem de pobreza, que no capitalismo todos enriquecem juntos, mesmo que uns mais e outros menos. Outro ponto que gostam de ressaltar, velho chavão de sabor amargo, é que querem conservar as instituições, sendo elas a democracia, o estado de direito, a constituição, a liberdade econômica, a moral, a ética, a família e a religião, mas nunca discutem o caráter destas instituições, tratam-nas como coisas em si, desde sempre aí e puras e inocentes por natureza.
Sim, a direita brasileira sempre foi conservadora, como gostam de dizer, mas também elitista, preconceituosa, antipopular e uma fábrica de favelas. E isso vem ficando cada dia mais claro por nossas terras.

                                                                                                                                          Alexsandro

23/11/2014

AOS QUE CLAMAM POR DITADURA


Você é um FASCISTA. É assim mesmo que você pode ser definido. É, existe um conceito para definir as atitudes, as ideias, as crenças e ações que emana de você. Sabendo ou não, você se encontra alinhado com coisas que sempre representaram o pior que a humanidade produziu.
Você traz consigo um ar de autoritarismo. Confunde adversário com inimigo.
No seu caso e no caso do Brasil, isso tem uma explicação: como povo e como cidadãos (conceitos delicados e difíceis) não entendemos bem o que é o espaço político. Isso também tem uma explicação: nossa história, sobretudo a mais recente, foi pautada por um clima muito ruim, o da ditadura militar, que como toda ditadura, só se sustentava na base de produzir inimigos, reais ou imaginários. Enfim, e para nossa tristeza, nosso “caráter nacional” traz esse ranço, um sabor amargo de totalitarismo que já deveríamos ter cuspido fora, mas que alguns ainda insistem em manter na boca. Sabor que na boca de alguém como você é mais amargo ainda. E isso fica claro quando clama por um poder que venha para destruir o outro, no nosso caso, o caso do Brasil, um outro que nunca te ameaçou, que apenas pensa diferente e que quer vive bem, assim como você quer viver bem. Você pede por uma ditadura como se ela fosse trabalhar em teu nome e para você. Como se ela fosse transformar tua vida para melhor enquanto destrói a do outro. Mas saiba que as coisas não são assim tão simples. Há muito mais coisas implicadas no teu desejo por uma ditadura. Saiba que todo fascista se encontra oscilando entre dois extremos feios e perigosos: a xenofobia e o ufanismo.
Fascista, xenófobo e ufanista não são emblemas bons de ter, a não ser que você realmente queira ser uma pessoa ruim. E como sabemos que muita gente só é boa por falta de opção, tenho muito medo que queira ser ruim e que apenas ainda não teve oportunidade para isso e que sonhar por uma ditadura seja sonhar pela oportunidade de colocar sua maldade para fora. Se você quer ser esse tipo de pessoa, sinto muito por você e por mim. Sobretudo por mim, que a partir de agora corro perigo convivendo com você. Você é ameaçador, você é um risco a minha vida e a vida de todos aqueles que amo e que compartilham comigo o mesmo modo de viver e as mesmas crenças.
Mas se você não quer ser o tipo ruim de pessoa que todo fascista é, sugiro uma coisa: procure entender melhor o país no qual vive. Seus fenômenos e acontecimentos. Pesquise sua história. Saia do seu circulo vicioso, da sua zona de conforto. O país no qual vivemos, assim como todos os países, é cheio de contradições. Ele tem coisas boas e ruins, alegres e tristes. Há pessoas maravilhosas que o habita. Mas há também pessoas muito ruins, por isso, procure ficar alerta para não acabar fazendo parte desse grupo.
Procure entender as razões pelas quais chegamos a esse estado de coisas. O mundo passa por mudanças profundas, mudanças que afetam todos nós. 
Digo-te mais: o maior problema do Brasil hoje é a existência de uma mentalidade presente em todos nós, uma mentalidade que nos faz acreditar que as soluções dos nossos problemas serão fáceis e virão de algum ser iluminado, que com uma varinha mágica transformará a todos em pessoas felizes e incorruptíveis. O problema é que falamos a língua dos fingidos, daqueles que dizem uma coisa e fazem outra. Falamos a língua dos capitalistas achando que falamos a língua dos anjos.
Digo-te mais ainda: desqualificar outros seres humanos por conta de uma região geográfica é naturalizar questões que estão muito aquém deste reducionismo medíocre. Desqualificar outros seres humanos só por que eles pensam diferente é agir como um idiota. Da mesma forma que achar que se faz parte do povo eleito ou que mora na melhor região geográfica do mundo é não entender que todos os recortes que produzem as fronteiras foram frutos de processos dolorosos que deixaram um rastro de sangue e dor que você insiste em querer reproduzir e perpetuar. Insiste na presença de um poder autoritário, insistir que uma separação entre lados que sofrem os mesmos problemas te colocaria no melhor dos lados é não entender que o principal fator das separações é justamente a incapacidade de um lado entender as razões e prioridades do outro, mas agindo de forma intransigente não te fará uma pessoa melhor e, muito menos, não fará nosso mundo e nosso viver juntos melhor. 
Não seja intransigente, só os xenófobos, ufanistas e fascistas são intransigentes.
Corrupção não se combate com ditadura, com totalitarismo, com nazismo, com fascismo. Corrupção se combate com a participação das pessoas nos órgãos das administrações públicas, com a circulação de informações, com pessoas informando e sendo informada. Corrupção se combate não sendo corrupto. Corrupção se combate com amigos unidos formando um só povo, pois amigos não roubam e não desejam o mal para os amigos.
CONTRA UM MUNDO DE FASCISTAS, UM MUNDO DE AMIGOS.



Alexsandro


11/05/2014

Politização dos corpos


Deveríamos nos perguntar o motivo pelo qual se fala e se comenta tanto sobre sexo numa sociedade cuja quantidade de problemas (políticos, econômicos, sociais, educacionais, religiosos, esportivos, etc.) ultrapassa a nossa capacidade de administra-los. Sim, hoje falar de sexo desvia nossa atenção de tudo aquilo que é importante na nossa vida, até mesmo o próprio sexo, pois não falamos dele como forma de expressão criativa de nosso desejo, falamos dele de forma vulgar e mesquinha, diminuída e pobre, tal qual a forma como ele é praticado pela imensa maioria das pessoas. 
Aldous Huxley intuiu algo que pode ser resumido no seguinte trecho do seu livro  Admirável Mundo Novo: 
"Tal é a finalidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar". [...] "À medida que diminui a liberdade política e econômica, a liberdade sexual tende a aumentar em compensação". Assim, jogos eróticos são estimulados desde a infância [...].
Muito já foi discutido sobre o livro e sobre o tema, mas muito ainda há para ser discutido, basta pensarmos em temas como: sexualização da infância, sexualização das mercadorias, sexualização das doenças, etc.
Traduzindo: ao invés de nos preocuparmos com a política da vida da nossa sociedade, uma preocupação que deveria ser compartilhada por todos, afinal, nossas vidas, seja no espaço privado ou público, são expressões políticas de ser e de viver e, da mesma forma, ao invés de politizarmos e estetizarmos nossas práticas sexuais, tornando-as mais ricas e menos preconceituosas, assistimos ao que Huxley intuiu: a armação de um jogo no qual desviamos toda nossa atenção para mesquinharias corporais que, como idiotas, chamamos de “nossas práticas sexuais”, achando que elas tem a ver com erotismo, quando, na verdade, não passam de pobres expressões de um corpo colonizado por uma biopolítica do desejo que toma todas as suas forças para torná-lo, sobretudo, um corpo produtor no sistema econômico, enquanto o faz acreditar que sua satisfação se encontra em plena realização. Um corpo que não expressa uma política do desejo para além do que é submetido é um corpo sendo mortificado. 


Alexsandro

10/07/2011

A Ordem e a Diferença

Em um mundo como o nosso, como lidar com os problemas? Violência pelas ruas, fundamentalismo e intolerância racial e/ou religiosa, delinqüências dos mais variados tipos... Uma sensação angustiante de insegurança: as ruas como um campo de batalha (saio, não sei se volto), tráfico, militarismo, epidemias, desemprego, trabalho escravo e outros mais... Em uma sociedade assim, quem não sonha com ordem?
Mas como estabelecer ordem em um mundo recheado de diferenças, em um mundo cheio de interesses no mais das vezes conflitantes? Como conciliar as diferenças? Como estabelecer uma relação com elas? Devemos reconhecer que existem aqueles que se enquadram perfeitamente a certa lógica de funcionamento das coisas, mas que existem também aqueles que não se encaixam a modos de existências impostos por certa conjuntura social. Só esse fato já demonstra a dificuldade ou mesmo a impossibilidade de se estabelecer uma ordem total valida para todos. Sobretudo se essa ordem significar tornar todos um só, fazendo existir apenas uma forma de compreender o mundo, uma forma de encarar a vida, uma forma de oferecer sentido a vida, com todos acreditando nas mesmas coisas, fazendo as mesmas coisas e sempre do mesmo jeito. Em um mundo que deseja ordem (se é que realmente deseja), o maior empecilho passa a ser a diferença, principalmente a diferença expressada pelo outro, pelos outros. O outro que não compreende o mundo como compreendo, o outro que encara a vida de outra forma, que busca outro sentido para a vida, que acredita em outras coisas, que faz outras coisas de outro jeito.
Em um mundo como o nosso, em uma sociedade como a nossa, as pessoas, as relações, os acontecimentos, as formas de pensamentos, as mentalidades, as expressões culturais não se ajustam com perfeição, não se harmonizam com facilidade, nem tudo se enquadra, nem todos se conformam, abrindo um leque de dificuldades para um equilíbrio e harmonização diante da complexidade existente, qual seja: as diferenças se expressam.
Sonhamos, talvez, com um mundo perfeito, com pessoas perfeitas, uma sociedade da harmonia e da pureza, um paraíso encarnado. A história do homem se encontra cheia de propostas e projetos para a construção de tal sociedade. Propostas e projetos esses que foram levados a cabo em nome da construção de um mundo melhor. O interessante aqui é percebermos que a consolidação de tais propostas e projetos passou sempre pela busca e pelo o estabelecimento de uma ordem. E no estabelecimento da ordem uma questão sempre apareceu: o que fazer com o diferente, com a diferença? A resposta, se levarmos em conta a história das sociedades, foi dada na forma de três maneiras de lidar com a diferença: primeira, acabar com a diferença destruindo-a, matando-a; segunda, transformar a diferença para que ela se torne igual, assim a diferença deixa de existir e a ordem é promovida e, por fim, expurgar a diferença, exilando-a ou impedindo o contato.
O estabelecimento da sociedade soviética no início do século passado, as intenções nazistas, o processo de mundialização da sociedade capitalista através do mercado e tudo que este vem promovendo - guerras, má distribuição de bens, intolerância étnica, religiosa e política, miséria e destruição das culturas nativas e regionais - são maneiras de lidar e tentar destruir, transformar ou distanciar o diferente e as diferenças.
As características do mundo atual e a maneira como nele vivemos, testemunham o quão fragilizado é esse nosso mundo e o quanto nos encontramos fragilizados. Uma fragilidade que nos desnorteia a tal ponto que chegamos a acreditar que sozinho, digo, como indivíduos solitários, daremos conta dos problemas que nos afligem (desemprego, insegurança, condições de vida precárias, etc.), ou que cabe ao setor público resolver problemas individuais e privados, ou ainda, que devemos impor aqueles que são diferentes de nós as soluções que encontramos para vida. É equivocado pensar que as respostas que possuo são suficientes para responder as questões que se apresentam atualmente.  As respostas que possuo, no máximo servem para resolver os meus problemas pessoais (e olhe lá se servem mesmo). Também é um equivoco pensar problemas pessoais como problemas de ordem pública. Sim, a solução para varias questões pessoais passam pela questão coletiva - a segurança e a liberdade individual, por exemplo, só pode ser produto do trabalho coletivo, mas não podemos perder de vista que publico e privado são dois setores diferentes da sociedade. A privatização das soluções e dos meios para se resolver os problemas que dizem respeito à sociedade como um todo está fadado ao fracasso se continuarmos a acreditar que os problemas privados são mais importantes que os problemas coletivos. A solução dos problemas individuais, sim, passa pela solução dos problemas sociais e esses, por sua vez, só podem ser resolvidos coletivamente. Precisamos entender o espaço publico como um espaço social e coletivo, como um espaço político. Precisamos reaver este espaço político, e em seguida precisamos entender que este espaço é um espaço de manifestação das diferenças, dos diferentes. É de suma importância entender este fato.
O desejo de ordem não a constrói. E nesse sentido, negar o diferente e as diferenças, não é a melhor forma de viver o presente e muito menos de encarar o porvir. Negar ao diferente que ele se manifeste é negar a possibilidade à própria vida. O sonho de uma sociedade em ordem não deve passar pela destruição da diferença, por sua assimilação ou pelo seu distanciamento.
Não somos todos iguais e esse fato deve ser compreendido. Com prudência e coragem, precisamos nos colocar a disposição para enfrentar o diferente e a diferenças que se apresentam a cada dia, não para superá-lo ou superá-las, mas para aprender a conviver e quem saber construir uma sociedade que seja expressão de todos.
Precisamos assumir nossos erros e a partir daí criticar e denunciar as formas de pensamento, as crenças, os valores, as formas de vida que concebem as coisas e, sobretudo, a sociedade, negando as diferenças ou vendo nelas uma aberração. Se quisermos fazer uma oposição séria e conseqüente ao mundo que se apresenta, se procuramos uma vida mais digna e verdadeiramente de qualidade, devemos fazer isso de uma maneira totalmente nova. Por que não começar abrindo mão do discurso de poder: de tentar está sempre do lado certo, de acreditar que estamos sempre do lado certo? Não podemos defender com toda fúria posicionamentos que podem destruir a todos nós, que impossibilitam o estabelecimento de qualquer diálogo. Se continuarmos residindo em um sádico desejo de poder, na sádica ilusão de acreditar que estamos sempre certo, se assim agimos, estamos colaborando para que o caos aumente.

Alexsandro

04/03/2011

Mate amargo para jovens e crianças

Mais uma cidade brasileira adota o toque de recolher: Matelandia - PR. Mais uma vez o alvo são crianças e jovens. A desculpa é a mesma que foi usada em outros municípios: "Queremos um município mais tranqüilo e formar cidadãos de bem", justifica a autora do projeto, a vereadora Líria Perini Carnetti. Em outro momento ela afirma: “Com a aprovação e aplicação desta Lei, colheremos os resultados em pouco tempo. O que precisamos é proteger nossas crianças e adolescentes dos abusos causados por uma vida desregrada, alcoolismo e consumo de drogas”.
A opinião de outros vereadores que votaram favoravelmente não é diferente:
Não tenho dúvida que esta é uma ação educadora, para que as famílias e a escola consigam formar bons cidadãos. Esta Lei é um instrumento, principalmente para os pais que não tem domínio sobre os filhos, recorram a este recurso para manter seus filhos longe dos perigos das ruas. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) regulamenta que os adolescentes a partir dos doze anos que cometerem infrações podem receber advertência e ainda serem punidos com até três anos de reclusão, o problema é que só se fala em direitos da criança e adolescente, pois os deveres são mal interpretados. (Edson Alves - Vereador)

Poderemos encontrar problemas na aplicabilidade, mas contamos com o apoio do Executivo e do Judiciário. (Eliete Ponciano Pinto - Vereadora)

Como educadora, tenho consciência da dificuldade em conduzir os adolescentes. A sugestão é que esta Lei seja fixada nas escolas para o conhecimento de orientadores e alunos, para um melhor entendimento da comunidade. (Kátia Duarte - Vereadora)

Tais argumentos são de uma superficialidade sem tamanho. Enxergam os problemas mais não as causas. O que assistimos é o fracasso dos pais em criarem relações satisfatórias com os filhos; o fracasso do estado em criar condições dignas de convívio - como não existem programas advindos do estado para resolver problemas que atingem a sociedade de maneira avassaladora, criminaliza-se as práticas cotidianas dos indivíduos; a perda do espaço público - afinal, a quem pertence as ruas?, e, finalmente, a criminalização de experiências da infância e da juventude para garantir uma vida tranqüila para adultos e velhos.
Tais atitudes tomadas por juízes, e no novo caso, proposta pela vereadora Líria Perini Carnetti, contradizem todos os princípios constitucionais que vigoram no atual Estado Democrático de Direito em nosso país. Para citar alguns: o princípio de liberdade do indivíduo; o princípio da isonomia - que indica que todos possuem direitos iguais e ressalva o direito a diferença de cada um; o princípio da legalidade.
Diz-se muito que o problema é de segurança e que caberia ao Estado criar tal condição para a sociedade. Mas infelizmente o Estado se mostra incapaz de garanti-la. E a questão se torna ainda mais grave quando levamos em consideração o lamentável grau de corrupção das nossas instituições de segurança pública. (Das nossas instituições publicas como um todo). Tais medidas buscam resolver problemas sociais com ações repressoras - como não se combate efetivamente o crime, penaliza-se o cidadão comum. São propostas e soluções que possuem o mesmo significado de outras medidas que os Estados vêm implementando: redução da maioridade penal, a política da tolerância zero, a expurgação de mendigos e camelôs dos centros das cidades e torturas de presos.
Historicamente a aplicação do toque de recolher como medida tomada pelo Estado nunca deriva de atitudes democráticas e libertadoras. Sua efetivação sempre aponta na direção de um pensamento fascista. Não foi a toa que os nazistas na Alemanha usaram contra judeus e que norte-americanos usaram contra imigrantes japoneses e seus descendentes (1933 e 1945). Também nos Estado Unidos, durante a década de 1950, os cidadãos afro-americanos sofreram o mesmo tipo de restrição durante a vigência da Lei Jim Crow, que restringia as liberdades e direitos civis dos afro-americanos. Em casos mais recentes testemunhamos seu uso em Israel contra civis palestinos (2005).
Por conta destes fatos devemos promover uma crítica radical contra o toque de recolher. Faz-se necessário ficarmos atentos e buscarmos esclarecimento e esclarecermos a juventude e a todos sobre o que está por trás deste espetáculo de mentiras e hipocrisias que representa tal proposta. Ele nada resolve de fato, apenas camufla o problema e reforça a repressão, enquanto deixa os verdadeiros culpados pela miséria da sociedade à solta.
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31/01/2011

Anonimato

É certo que o mundo não necessita de outros messias, gurus, lideres, estrelas pops. É por conta disso que o anonimato vem se mostrando uma condição revolucionária bastante eficaz. Seu efeito rizomático faz dele uma condição de resistência que parece ser mais eficaz e menos vulnerável as seduções capitalistas.
Alexsandro

16/11/2010

Por uma ética antipatriótica

Não há noção de Pátria que não traga uma dose exagerada de idolatrias, doutrinas e farsas. Todo ato de adoração à Pátria é um ato de adoração aos crimes que foram cometidos para que esta aparecesse e se mantivesse.
Quem ama uma Pátria faz de tudo para que outros também a amem. Não há fervor patriótico sem uma gama considerável de intolerância, fé cega, intransigência ou proselitismo.
A Pátria é uma assassina em potencial. Há na história humana dois motivos pelos quais mais se matou ou se morreu: por um deus ou por uma pátria. Devoção fervorosa e sangue. Gemidos e hinos. Fé religiosa e devoção patriótica se igualam no número de vítimas que fizeram. Os mais violentos crimes foram e são cometidos em nome de uma ortodoxia, religiosa ou política, não importa.
Daí o patriota e o fanático religioso se confundirem. E por serem como são, eles são um perigo. Os melhores e mais eficazes assassinos podem ser encontrados entre os patriotas e fanáticos religiosos: morrem e matam em nome de uma crença, de uma ficção.
A pátria é um conjunto de signos: honrar uma pátria, fazer guerras por uma pátria. Não perceber que por causa dela a vida deixa de criar, que o sangue que ela faz correr e o sangue que ela exige em nome de "proteção" é o mesmo sangue que poderia estar sendo dirigido para uma vida mais cheia de possibilidades.
O que alimenta tal atitude patriótica é a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral. A incapacidade de compreender e de conceber a pátria como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer análise sobre as implicações de se viver sob um regime patriótico. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica, somada a condenação a qualquer tipo de crítica, fazem do “patriocentrismo” uma atitude arrogante, fundada em idéias preconcebidas, tendo seus discursos calcados em pressupostos arbitrários, caprichosos e injustos.


Alexsandro

15/11/2010

Uma lição foucaultiana

Se for verdade que há sempre algum poder presente em qualquer empreendimento de saber e que não é possível desfazer essa relação, então qual a saída? Como tirar o poder do saber? Como deixar o saber apenas nele mesmo? Cairemos sempre nessa teia? Não sei. Talvez isso não seja possível. E se ao invés de lutarmos para acabar com a relação saber-poder fizéssemos exatamente o contrário, ou seja, disseminássemos o máximo possível a informação (o saber) que o poder encontra-se presente em todas as relações? Que o trabalho de produção do saber é também um trabalho de produção de poder?
Se o trabalho de produção do saber nunca estará completo, logo, o poder nunca terá uma forma definida. Se a produção do saber, e junto com ela a arte de pensar e a arte de escrever, sempre estarão em curso, também estaremos sempre no meio do labirinto do poder, um inelutável labirinto de paredes móveis, mas sem saída.
Se o saber é sempre algo em produção (uma produção infinita) e se o poder é um labirinto, como então se mover nesse labirinto sem ser esmagado por suas paredes móveis?
Talvez a resposta seja: continuar pensando. E junto com o pensar, escrever. Ou dito de outra forma: construir. Construir frases. Ir do início ao fim de uma página. Trabalho braçal. O trabalho de escrita deve atravessar o escritor pelo meio, desmontá-lo e reconstruí-lo em cada frase, tornando-o sempre outro. Outro sempre fugidio, sempre de difícil compreensão para o poder, sempre buscando ser “incapturável”. Ensinando-lhe não apenas novas maneiras de compreensão e entendimento, mas também produzir formas de confundir. Como? Produzindo um saber para outro poder na medida em que este faça ruir a base daquele saber que é imprescindível a manutenção do poder estabelecido.

Resumindo: aceitar que não tem como fugir da relação saber-poder e fazer uso dela, tramando uma produção de saber-poder sempre contestatória.


Alexsandro
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04/11/2010

A queda do Muro de Berlin e a queda dos pêlos pubianos




Em muitos momentos do século XX os filmes pornográficos estavam ligados não apenas às práticas libidinosas como também às criticas a repressão, sobretudo a repressão da própria libido como expoente de uma repressão geral da sociedade. Larry Flint foi um dos personagens símbolo dessa postura anarco-porno dos anos de 1970. Em muitos roteiros, por trás de muita sacanagem sexual, existiam também sacanagens políticas. Enrabar uma loira peituda, o grande símbolo da cultura americana, era um ato simbólico de enrabar os Estados Unidos. Estávamos em meio à guerra fria. Mas, como todos sabem, os Estados Unidos venceram a guerra. E a grande imagem dessa vitória, que é também uma vitória do capitalismo, é a queda do muro de Berlin. No campo da sexualidade, o equivalente pornografico da hegemonia capitalista e americana é a queda dos pêlos pubianos. Tais quedas representaram o avanço da hegemonia americana e capitalista sobre as práticas políticas cotidianos. Assim como a queda do muro de Berlin representou um golpe nas utopias políticas do século XX, a queda dos pêlos pubianos aparece como o novo símbolo desse controle sobre o corpo e suas práticas.
Se nos anos de 1950 os filmes com a “família feliz” era o sonho dourado que saia dos cinemas e invadia os projetos pessoais, hoje percebemos que os filmes pornôs deixaram de ser lixo cinematográfico e viraram referências para muitas das práticas cotidianas. É curioso perceber que sua influência vai desde seios siliconados, pêlos depilados, práticas, posturas e posições sexuais, até a invasão do imagético cotidiano de todos em termos de relações (afetivas e sexuais) possíveis.
Alexsandro
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09/09/2010

Simples assim

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A palavra "Candidato" deriva do latim "Candidus" que significa branco, brilhante, alvo, puro.
A história é mais ou menos assim. Quem desejasse ser eleito a algum posto público, na Roma clássica, tinha de provar que era puro de alma para merecer os votos dos concidadãos. Neste sentido, os pretendentes apresentravam-se em público sempre vestidos de branco, a cor da pureza. Daí o "Candidatus", de "Candidus, que em latim quer dizer branco. Ou seja, o "Candidatus" era o pretendente a cargo público que se vestia de branco para provar pureza de intenções.
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A 'Politeia' e a 'Idioteia'

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Idiota
A palavra idiota deriva da antiga Grécia e nominava aquelas pessoas que não estavam integradas na vida pública grega. Referia-se aqueles que não se interessavam ou não participavam dos assuntos públicos. Devemos ter em mente que a vida pública era de grande importância para os gregos e alguém que dela não participava não era visto com bons olhos. Neste sentido, o termo acabou assumindo um significado pejorativo.
A raiz da palavra se encontra em ἴδιος (ídios), que significava o que era privado, particular, pessoal, aquilo que é próprio.
Com a mesma raiz encontramos termos como “idiossincrasia” que diz do temperamento, do caráter, daquilo que nos distingue dos demais, o que é próprio de um individuo ou de uma coletividade.
Temos ainda “idioma” (em grego ἰδίωμα , propriedade privada), fazendo referência a língua própria de um povo ou comum a vários.
Assim, idiota era alguém que se preocupava apenas consigo e com seus interesses privados ou particulares, sem dar atenção aos assuntos públicos ou políticos. Devemos ter em mente que na vida greco-romana a política assumiu um grande significado para os homens livres. Não é sem motivos que a palavra idiota assumiu uma conotação pejorativa, se tornando um insulto devido ao fato de que ser um idiota, ou seja, ser alguém que só se preocupa com suas próprias coisas, passou a ser alguém que trazia em si a insígnia da desonra de não participar da vida pública.

Um pouco mais

Desde os gregos, a referência inicial para pensarmos o intrincado da experiência humana se encontra nos conceitos de família (oikos) e de cidade (polis).
A fronteira entre a família e a cidade tinha como referencia a fronteira entre aquilo considerado privado e aquilo considerado público. O chão político (politeia) possuía conotação diferente do chão privado (idioteia). O espaço da "politeia" era reservado ao homem livre, que se definia por dois princípios: senhor da sua casa (superior aos demais que dele dependiam), mas, não mais que um igual entre os homens livres na comunidade política. Este espaço era também entendido como o espaço lingüístico, o espaço da palavra. Por sua vez, mulheres, crianças, escravos, enfim, os que não eram considerados livres, circulavam no espaço da "idioteia", delineavam seus movimentos no espaço privado, que era entendido como o espaço da não-palavra.
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28/08/2010

Apontamentos sobre os ciganos: a diferença causando repúdio







1. A palavra cigano é uma denominação vulgar para “rom” (ou “roma”, no plural). Constituem um povo de tradição nômade. Algumas interpretações mais aceitas indicam que são de origem indiana. Seja como for, o que os caracterizam atualmente é, sobretudo, a ausência de uma referencia histórica a algum país de origem. O problema que esse fato causa para eles é a falta de uma identidade de Estado ou cidadã que lhes possibilitem o reconhecimento como grupo étnico.

2. O preconceito contra os ciganos estimulou o surgimento de uma série de lendas contra eles: chegou-se a buscar na Bíblia elementos para aparentá-los a Caim e considerá-los amaldiçoados. Outra lenda aponta-os como aqueles que teriam fabricado os pregos da crucificação de Jesus de Nazaré.

3. Porajmos - Significa "devorar", é um termo cunhado pelo povo cigano Rom para descrever a tentativa do regime Nazista de exterminá-los. O fenômeno tem sido pouco estudado se comparado ao Holocausto judeu. Uma explicação para o esquecimento do extermínio cigano pelos nazistas se encontra no fato das comunidades ciganas serem menos estruturadas e organizadas do que outras que também sofreram com o regime nazista.

4. Atualmente o povo ciganos é o mais discriminado da Europa. (Sim, mais do que judeus e mulçumanos)
"O preconceito contra eles sempre existiu na Europa ocidental, sobretudo porque eles levam um modo de vida diferenciado, não tolerado pelo europeu. É uma cultura que o europeu não consegue apreender, porque baseada no oposto do que estamos acostumados, ou seja, em um máximo de estabilidade possível."
(Jean-Yves Camus, especialista em extrema-direita do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas - IRIS)


5. Situação dos Ciganos na Europa ( o que segue são apenas exemplos de medidas tomadas contra os ciganos em alguns paises)

França
Parabéns a França por ser o berço da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, sistematizados em dezessete artigos e um preâmbulo, nos quais os ideais libertários e liberais da Revolução Francesa estão inscritos e por dar prova do seu valor na forma das ações do seu atual presidente Nicolas Sarkozy e seus ataques contra os ciganos, no caso, aqueles que vivem na França.

Itália
O governo italiano é outro que se coloca contra os ciganos. O governo passou a registrá-los, recolhendo impressões digitais, e a propor indenizações para a saída voluntária dos ciganos em situação ilegal do país. O "incentivo" compreendia 400 euros e uma passagem de avião para o país de origem. O ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, membro da Liga do Norte, o principal partido de extrema-direita, pretende expulsar qualquer cigano que não seja domiciliado ou que dependa do sistema social do país.

Alemanha
A Alemanha incentiva a partida voluntária e promove expulsões regulares de ciganos tidos como ilegais.

Reino Unido
Nas últimas eleições para primeiro-ministro, uma das promessas de campanha do candidato conservador David Cameron, vencedor do pleito, foi a de reforçar a legislação contra a ocupação ilegal de terrenos vazios, visando, nas entrelinhas, à comunidade cigana. O projeto prevê a criação de um novo delito através do qual os policiais serão autorizados a prender pessoas que se recusam a deixar um terreno ocupado ilegalmente.

República Checa
As violências com ciganos fazem parte do cotidiano, inclusive por parte do governo. O Estado checo chegou a obrigar crianças ciganas a freqüentar centros para doentes mentais.
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Notícia da Rádio e Televisão de Portugal (RTP) sobre os ciganos
-Apenas aúdio-




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23/06/2010

Não tão simples assim

Como a presença de uma cultura estrangeira – filmes, novelas, imprensa - prejudica no desenvolvimento da identidade de uma outra nação?

Devemos entender que a cultura não é estática, ela encontra-se sempre em movimento: invenções dos mais diversos tipos, a difusão espontânea ou forçada de aspectos culturais de uma sociedade para outra, são exemplos dos mecanismos que possibilitam a dinâmica cultural. Há, com certeza, mudanças em todos os sentidos, algumas possibilitam melhoras e outras pioras nas relações sociais. Mas sempre há conflitos, sobretudo em tornos dos interesses envolvidos. E mais, o conceito de identidade não é um conceito fácil de ser trabalhado. Sobre a importância e as implicações do conceito de identidade eu tenho mais perguntas que respostas: será que o que determina um comportamento é a ligação com uma identidade? Quais as implicações dos regulamentos que cada identidade traz na construção das relações? Será que aquilo que dá sentido ao que somos se encontra vinculado a obediência a um conjunto de códigos de um grupo específico, uma ideologia, uma crença, uma política? Será que é a identidade que nos permite viver? Quando paro e tento perceber como as relações estão se apresentando, como as formas de vida estão sendo experimentadas, penso que a maneira como os sujeitos, os grupos e as sociedades organizadas em torno das identidades são mais produtores de desordens do que aqueles sistemas que estão tentando se organizar e se desenvolver fora deste esquema de identificação.


A indústria cultural promove ou prejudica a formação da cultura popular?

Segundo teóricos como Adorno e Horkheimer os produtos advindos da indústria cultural tendem a fetichização e são consumidos porque são considerados um sucesso e não pelo fato de possuírem alguma qualidade estética intrínseca, o que seria ruim. Entretanto, e isso é um ponto delicado dessa teoria, tal forma de pensar pode desaguar em um elitismo tão perigoso quanto aquilo que tenta combater, pois ao comparar a passividade do consumidor à uma atitude reflexiva saída de uma “cultura erudita” eles desconsideram o fato de que essa produção pode e é apropriada em diversos sentidos pelo consumidor.
A arte não tem a função de salvar nada nem ninguém, ela não possui um significado por si, para que ela adquira sentido devemos valorá-la. Sendo assim, gosto de entender a arte como algo que deve ser fonte de vida e de força, não de fraqueza e coisas melosas.
Em tempos no qual a mídia e grande parte dos artistas servem apenas a eles mesmos, o controle das formas de expressão é a melhor maneira de subjugar os sujeitos. Alguém sem informação não consegue pensar para além do pouco que conhece. Quanto mais miserável é o meu mundo, mais limitado eu sou. Tornar-se ao menos um pouco culto é abrir-se para a possibilidade de criação de novas formas de ser e ver o mundo no qual estamos inseridos. Sem isso estamos fadados a uma vida pobre. Muitos precisariam de aulas para compreender a riqueza do que é dito, por exemplo, em um filme como Matrix, que é produto da indústria cultural.
É certo que há muitos interesses sacanas, gananciosos e mesquinhos por trás da promoção de uma cultura mercadológica, isso todos sabemos (ou deveríamos saber), entretanto, o maior problema se encontra no fato de que com ela nossas medidas de comparação ficaram embaralhadas, ou seja, estamos confundindo aquilo que possibilita vida com aquilo que nos deixa satisfeitos (numa espécie de satisfação efervescente e refrescante). Mas o problema é muito maior, tem a ver com a forma como o capital está consumindo nossas vidas. Numa sociedade como a nossa, na qual a maioria das pessoas vive como escravos em trabalhos desconfortáveis e sem significado algum além do salário, em função rotineiras e cansativas, tendo que refazer isso durante a semana, o mês, o ano inteiro, em média oito horas por dia, não vai fazer tudo isso com prazer e alegria. E mesmo que o salário seja bom ele não ameniza o sofrimento dessa rotina. Pessoas que se encontram numa situação assim, quando param para descansar ou relaxam procuram um entretenimento fácil. Infelizmente a grande maioria das pessoas, independentemente da idade, satisfazem-se com coisas idiotas e porcarias fáceis de consumir.


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Como a educação fundamental influência na formação cultural de uma nação?

Eu diria que a educação fundamental influência de forma expressiva. A educação transmite os aspectos que são interessantes para manutenção da nação e eu não consigo dissociar nação de Estado, ou seja, a educação cumpre o papel que o Estado lhe dar. O Estado transmite aquilo que lhe possibilita exercer um controle mais fácil. A educação cumpre o seu papel, e o papel dela numa sociedade como a nossa é servir de mecanismo de controle – controle das ações, do saber, do pensamento, etc. Tenhamos por um momento como referência as escolas. A gente se engana quando pensa que o tipo de educação que recebemos nas escolas traz em si alguma função libertadora ou esclarecedora no sentido de tornar cada sujeito alguém capaz de entender claramente o que se passa no mundo e o que determina nossa relação com ele. É Foucault quem fala dos corpos dóceis. E as escolas funcionam como fábricas de corpos dóceis. Para que se entenda melhor, um corpo dócil é um corpo que se fábrica conforme as necessidades do Estado e do seu funcionamento. Com a utilização de certas ações disciplinares um corpo pode ser manipulado, treinado e controlado e o que temos é um corpo submisso e exercitado. Essa disciplina que produz corpos dóceis é uma forma de dominação. Por meio de métodos coercitivos, disciplinares obtém-se um corpo tanto mais obediente quanto útil. Teríamos uma sociedade diferente se não existissem escolas no formato disciplinar e docilizante. Se seria uma sociedade melhor, não há como responder.


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08/06/2010

Pastor, lobo, ovelha - Atitudes em relação ao poder

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Três atitudes comuns dos indivíduos em relação ao poder:
- Se identificar com o poder: "EU SOU O PODER"
Os que se identificam com o poder são os Pastores;
- Ser contra o poder: "EU SOU CONTRA O PODER"
Os que são contra o poder são os Lobos;
- Aceitar o poder: "EU SOU A FAVOR DO PODER"
As massas submissas ao poder são as ovelhas.

Não se encontrou ainda uma saída para essa relação recorrente entre o poder, as massas e a solidão dos indivíduos singulares. Ninguém consegue ver ou definir o poder, mas uns se identificam com ele, outros o contestam e há ainda os que decidem obedece-lo.
Esse é o cenário pastoral do poder. E para encontrarmos uma porta de saída deste cenário patético, é preciso antes entender melhor os valores que estão por detrás desses três elementos recorrentes.


Os lobos são os que não aceitam ser usado ou usar os outros, os que recusam as relações de dominação e vivem o poder apenas enquanto capacidade, potência ou vontade de poder. Suas relações são pautadas pela interatividade e pela amizade sem interesse. Amam a liberdade e são muito generosos. Alguns se deixam usar pelos pastores e viram cães-pastores.

As ovelhas trocam afeto por manipulação. O valor de troca no espírito de rebanho se dá tanto horizontalmente, na forma de solidariedade entre as ovelhas, como verticalmente, consolando piedosamente o pastor em sua altiva solidão. Elas amam o pastor para que ele as defenda. São elas que dominam o pastor, mas, dissimuladas, fingem que é ele que as domina. Elas usam enquanto fingem serem usadas e só desejam se divertir. Transformam tudo em espetáculo e em divertimento. Algumas se apaixonam platonicamente pelos lobos e se tornam ovelhas negras.

Os pastores são que não estabelecem trocas horizontais e se identificam com o poder. Usam e são usados entre si com impessoalidade e parcimônia, em grande hierarquias piramidais de sub-pastores. Embora se considerem senhores e protetores das ovelhas, são escravizados pela bajulação do rebanho e usados como espantalhos contra a liberdade dos lobos.


Podemos, a partir desse quadro, enunciar duas proposições políticas:

1. Um coletivo terá mais ou menos liberdade dependendo da permuta e revezamento dos papéis. Se os pastores forem sempre pastores; os lobos, lobos; e as ovelhas, ovelhas; o grupo será opressor para todos. Mas se ao contrário, todos tomarem consciência de seu papel principal e se esforçarem para se comportar através dos outros dois papéis, criando um revezamento dessas 'funções' no interior do coletivo, então, haverá crescimento individual e compreensão mútua e o grupo se constituirá em um espaço de liberdade e aprendizado. As ovelhas são boazinhas, os lobos são maus e os pastores pairam acima do bem e do mal; as ovelhas precisam admitir suas maldades, os lobos reconhecer que também são filhos de Deus, e os pastores têm que aprender que não estão em condição de julgar aos outros. Quando todos os participantes de um grupo conseguem se identificar com os três papéis de forma harmoniosa afirma-se que o sistema está em equilíbrio qualitativo.
2. Um coletivo terá mais ou menos segurança dependendo de como os papéis estejam distribuídos proporcionalmente no grupo. Ovelhas demais petrificam os grupos em posturas conservadores, ovelhas de menos geram conflitos intermináveis. Quando encontramos os papéis distribuídos de forma proporcional em relação às suas funções diz-se que o grupo está em um equilíbrio quantitativo.

Mas será que é 'liberdade' e 'segurança' que realmente procuramos nos grupos? Na verdade, o que é certo que cada um dos papéis sonha em eliminar os outros dois:

- a ditadura do proletariado, quando as massas tomam o poder, é equivalente ao império do rebanho;
- a tecnodemocracia das elites corresponde ao projeto neo-liberal dos pastores;
- e o sonho da alcatéia hacker, à utopia dos lobos.

Porém, também é certo que um papel não sobrevive sem os outros. Isso fica claro quando descobrimos as funções a que esses papéis ridículos estão associados.


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11/04/2010

Para que serve uma teoria


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Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante... É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. E curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica. E o poder que por natureza opera totalizações e você diz exatamente que a teoria por natureza é contra o poder. Desde que uma teoria penetra em determinado ponto, ela se choca com a impossibilidade de ter a menor conseqüência prática sem que se produza uma explosão, se necessário em um ponto totalmente diferente. Por este motivo a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou a reforma é elaborada por pessoas que se pretendem representativas e que têm como ocupação falar pelos outros, em nome dos outros, e é uma reorganização do poder, uma distribuição de poder que se acompanha de uma repressão crescente. Ou é uma reforma reivindicada, exigida por aqueles a que ela diz respeito, e aí deixa de ser uma reforma, é uma ação revolucionária que por seu caráter parcial está decidida a colocar em questão a totalidade do poder e de sua hierarquia.

Deleuze

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04/05/2009

Canalha, cínico ou fraco? Escolha seu perfil.

Levando em consideração o comportamento das pessoas quando estão reunidas em grupos, Jacques Lacan classificou três tipos:

Os Canalhas
aqueles ou aquelas que assumem o lugar do outro, ou seja, que pretendem ter o comando sobre o objeto do desejo dos outros. Os canalhas tentam impor as regras aos que o cercam, tenta modelá-las.

Os Cínicos
só pensam no próprio prazer, mas não tentam impor aos outros (aliás, eles não dão muita bola para os outros).

Os Fracos
dóceis, crédulos, concordantes, os fracos se deixam englobar no discurso do outro a ponto de ser engolido por ele, pois são suficientemente instáveis para se deixarem levar por quem quiser dar uma de chefe.



24/04/2009

Uma nota necessária sobre a esquizofrenização da sociedade e a depressão

O modo de produção e de reprodução da vida hoje em nossa sociedade, o modelo de vida nela instalado e em funcionamento é, potencialmente, depressivo e causador de depressão. Neste sentido a depressão é algo bem maior do que um problema individual, dessa ou daquela pessoa. Neste sentido a depressão não deve ser vista como um problema pessoal. Deve ser entendida como um vírus, uma bactéria, como uma doença externa ao sujeito, que, sem defesas ou com baixa imunidade, permite que ela se instale em seu corpo.
Há uma espécie de esquizofrenização da sociedade em pleno curso e não enxergar esse processo é se colocar à disposição, a qualquer momento, para a instalação em si de processos depressivos e/ou esquizofrenizantes (cuja distinção aqui não tem importância alguma). Diante desse fato, pode ser que uma pessoa acometida de depressão já não possua - sozinha - condições de se dar conta de que é mais uma vítima (sem vitimismo, sem infantilização, e sem excluir a responsabilidade pessoal pelo gerenciamento ou alienação do gerenciamento de sua própria vida). O fato é que a pessoa com depressão, tende a acreditar que o problema que gerou a depressão foi criado por ela mesma (o que pode só em parte ser verdadeiro, digo isso com o intuito de não excluir as responsabilidades que cada um tem, pelo menos, por deixar instalar a dita cuja em seu corpo).
Uma única pessoa não conseguiria o grande feito de criar o que se conhece hoje por depressão. Tal criação só é possível social e coletivamente, dentro de espirais de produção e de reprodução da vida nos moldes em que pôde escolher para reger esta mesma vida social coletiva. Acontece que a espiral coletiva que nos move e que se encontra sob a égide do capital, do grande e sacro mercado, do salve-se quem puder, do tombo no outro para subir e de procedimentos congêneres, não poderia deixar de produzir venenos psíquicos nocivos à saúde mental. Então, quando se fala em esquizofrenização em curso, é mais ou menos isso: produção em massa de depressivos e esquizofrenicos e um milhão de outras doenças psíquicas. É uma grande máquina de esquizofrenizar e deprimir.
Fala-se comumente que tais problemas decorrem de uma falta de adaptação social, mas, ao contrário, afirmamos que é o excesso de adaptação social (a gosto e/ou a contragosto), o inicio e a causa de tais problemas - só alguém esquizofrenizado consegue se ajustar plenamente ao tipo de sociedade corrente.
Acredito que este tema passa também por uma desconfiança que as pessoas possam ter quanto ao seu próprio poder de poder escolher quem querem ser. O que nos remete ao problema da identidade. Vivemos em um ambiente de identidades esfaceladas e neste sentido, muito mais suscetíveis às investidas esquizofrenizantes e depressivas do capital.
Um primeiro movimento autônomo pode ser a saída das armadilhas do mercado, qual seja, uma critica cética que busque transgredir as leis do mercado, rompendo com a idéia de esquizofrenia e de depressão.