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19/01/2014

O mundo distópico de Harrison Bergeron

"Harrison Bergeron" é um conto de Kurt Vonnegut. Foi publicado pela primeira vez em 1961. A história se passa em uma América distópica, no ano de 2081. É uma ficção científica cheia de ironia e crítica, sobretudo ao autoritarismo e o que ele usa para cooptar e controlar, no caso do conto vemos a ideia de igualdade sendo usada com esse intento.

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Harrison Bergeron
Por Kurt Vonnegut (1961)


O ano era 2081, e todos finalmente eram iguais. Eles não eram apenas iguais diante de Deus e da lei, eles eram iguais em todos os sentidos. Ninguém era mais esperto do que ninguém. Ninguém era mais bonito do que ninguém. Ninguém era mais forte ou mais rápido do que qualquer outra pessoa. Toda essa igualdade devia-se aos Decretos 211º, 212º e 213º da Constituição e também pela incansável vigilância dos agentes do Nivelador Geral (NG).
Entretanto, algumas coisas não iam muito bem. Era Abril e muitos estavam ansiosos por ainda não ser primavera. E foi nesse mês que os homens do NG levaram Harrison, de 14 anos, filho de George e Hazel Bergeron. Foi trágico, mas George e Hazel não podia pensar sobre o que estava acontecendo, para eles era difícil fazer isso. Hazel tinha uma inteligência perfeitamente média, o que significava que ela não poderia pensar em nada muito complicado, exceto em coisas muito pontuais. George possuía uma inteligência acima do normal, por isso tinha de usar um pequeno rádio em seu ouvido. Ele foi obrigado por lei a usá-lo todo o tempo. Ligado a um transmissor do governo, emitia um sinal que produzia um ruído a cada vinte segundos ou menos. Sua finalidade era manter as pessoas como George sem a vantagem injusta de terem cérebros mais capazes que os dos demais. 
George e Hazel estavam assistindo televisão. Havia lágrimas nas bochechas de Hazel, mas ela não tinha claro o que se passava.
Na tela da televisão bailarinas dançavam. 
A campainha soou na cabeça de George. Seus pensamentos fugiram em pânico, como bandidos de um alarme. 
--Essa foi uma dança muito bonita, disse Hazel. 
--Hein? Disse George. 
--Essa dança, foi bonita, disse Hazel. 
--Sim, disse George.
Ele tentou pensar um pouco sobre as bailarinas. Elas não eram realmente muito boas – não fizeram nada melhor do que qualquer outra pessoa teria feito. Elas estavam sobrecarregadas com pesos amarrados em seus corpos e sacos de chumbo fino, e os seus rostos estavam mascarados, de modo que ninguém via um gesto livre e gracioso ou um rosto bonito, nada que pudesse fazer com que alguém se sentisse diferente. Tais apetrechos niveladores tinha por função fazer com que todas se sentissem iguais.
Dentro George nascia uma pequena sensação, uma vaga noção de que talvez as “boas” dançarinas não merecessem ser prejudicadas daquela forma pelos pesos niveladores em seus corpos e que elas deveriam dançar livremente. Mas tal pensamento não foi muito longe, um ruído do seu rádio de ouvido invadiu seus pensamentos. 
George fez uma careta. Assim como fizeram duas das oito bailarinas. 
Hazel o viu estremecer. Não tendo nenhuma noção do que se passava, ela perguntou a George que som era aquele. 
-- Soou como se alguém tivesse batido numa garrafa de leite com um martelo de borracha, disse George.
-- Eu acho que seria realmente interessante se todos pudessem ouvir sempre sons diferentes, disse Hazel com um pouco de inveja e continuou: 
-- Todas as coisas que eles poderiam ouvir.
-- Hum, disse George.
-- Só que, se eu fosse o Nivelador Geral, você sabe o que eu faria? disse Hazel. Hazel, com um ar de autoridade muito próximo ao exibido por Daina Moon Glampers, assistente muito próxima do Nivelador Geral. 
-- Se eu fosse Diana Moon Glampers, disse Hazel, eu colocaria sons de sinos no domingo, apenas badaladas, em honra da religião.
-- Mas eu poderia pensar se fosse apenas sinos, disse George
-- Bem, talvez fazê-los bem alto, disse Hazel e continuou:
-- Eu acho que seria um bom Nivelador Geral.
-- Bom, como qualquer outra pessoa, disse George.
-- Porque não melhor do que o normal? disse Hazel.
-- Certo, disse George.
Neste momento ele começou a pensar sobre seu filho anormal que agora estava na cadeia. E quando uma imagem de Harrison começou a se formar em sua mente, explodiu uma saudação de 21 tiros na cabeça fazendo-o parar com o devaneio.
-- Querido! disse Hazel, o que foi, você está com sono?
Um ar de cansado tomou conta de George, ele ficou pálido e começou a tremer, enquanto lágrimas enchiam seus olhos vermelhos.
Duas das oito bailarinas desabaram no chão do estúdio enquanto seguravam seus sacos niveladores.
-- De repente você parece tão cansado, disse Hazel. Por que você não se deita no sofá, pode descansar o seu saco nivelador sobre os travesseiros.
Ela estava se referindo aos 47 quilos de chumbo fino em um saco de lona que foi trancado em volta do pescoço de George.
-- Vá em frente e descanse a bolsa um pouco, disse ela. Eu não me importo se você não for igual a mim por um momento.
George segurou o saco com as mãos. 
--Eu não me importo, disse ele. Eu não os noto mais. São uma parte de mim.
-- Você parece tão cansado ultimamente usando os sacos, disse Hazel. Se houvesse alguma forma de fazemos um pequeno buraco no fundo do saco para deixar cair apenas algumas bolas de chumbo. Apenas algumas.
-- São dois anos de prisão e multa de dois mil dólares por cada bola que eu deixar cair, disse George. Isso não me parece um bom negócio.
-- Se você pudesse ficar sem eles, mesmo que fosse por pouco tempo, depois do trabalho, quando você chega em casa, disse Hazel.
-- Entenda que não compete a ninguém decidir sobre isso. Você acabou de descrever uma forma de romper a lei. Se eu posso romper com a lei, disse George, então outras pessoas poderiam tentar fazer o mesmo em cada lugar e logo estaríamos de volta à idade das trevas, com todo mundo competindo contra todos. Você não iria gostar que isso acontecesse, não é mesmo?
-- Eu odiaria isso, disse Hazel.
-- Aí está, disse George. Se as pessoas começassem a romper com a lei um pouco de cada vez, o que você acha que poderia acontece com a sociedade?
Se Hazel não era capaz de chegar a uma resposta para esta pergunta, George não poderia fornecer. Uma sirene soava em sua cabeça.
-- Reconheço que tudo poderia desabar, disse Hazel.
-- O que seria? George disse inexpressivamente.
-- A sociedade, disse Hazel incerta. Não foi isso que você acabou de dizer?
-- Quem sabe? disse George.
O programa de televisão foi subitamente interrompido por um boletim de notícias. Não ficou claro, em primeiro lugar, do que se tratava o boletim, uma vez que o locutor, como todos os locutores, tinha um sério problema de dicção que o impedia de fala com desenvoltura. Por cerca de meio minuto e em um estado de grande excitação, o locutor tentou dizer "Senhoras e Senhores". Quando finalmente desistiu, entregou o boletim para uma das bailarinas de ler.
-- Está tudo bem. Disse Hazel disse sobre o locutor. Ele tentou. Isso é o que importa. Ele tentou fazer o melhor que podia com o que Deus lhe deu. Acho que ele deveria ter um aumento do seu salário por tenta de forma tão obstinada.
-- Senhoras e Senhores, disse a bailarina, começando a leitura do boletim. 
Ela, a bailarina, devia ser extraordinariamente bonita, pois a máscara que usava era horrível. E era fácil ver que ela era a mais forte e mais graciosa de todos os dançarinos, pois os pesos niveladores que usava eram tão grandes como aqueles usados pelos homens mais fortes. E ela teve que pedir desculpas por conta de sua voz, que era uma voz muito injusta para uma mulher se comparada as outras. Sua voz era luminosa, melódica e quente, atemporal. 
-- Desculpe-me, ela disse, e começou de novo, tentando disfarçar sua voz para não chamar atenção.
-- Harrison Bergeron, de quatorze anos, disse ela tentando parecer rouca, acaba de escapar da prisão, onde foi detido por suspeita de conspiração para derrubar o governo. Ele é um gênio e um atleta, e está sem seus apetrechos niveladores, por isso deve ser considerado como extremamente perigoso.
Uma fotografia de Harrison Bergeron apareceu na tela, primeiro mostrou seu rosto de frente, em seguida de perfil, depois de corpo inteiro. A foto mostrava o comprimento total de Harrison contra um fundo graduado em metros e centímetros. Ele tinha exatamente dois metros de altura.
O resto da aparição de Harrison foi para fazer dele um monstro e sobre seus apetrechos niveladores. Jamais havia nascido alguém com tantas vantagens. Ele superava os obstáculos mais rápido do que os homens do Nivelador Geral poderiam pensa-los. 
Em vez de um radinho no ouvido para provocar uma deficiência mental, ele usava um tremendo par de fones de ouvidos e óculos com lentes grossas onduladas. Os óculos tinham a intenção de fazê-lo não só meio cego, mas para dar-lhe agudas dores de cabeça, além de toda sucata que foi pendurada em cima do seu corpo. Normalmente havia certa simetria, um asseio militar quanto às deficiências provocadas pelos apetrechos em detrimento das pessoas fortes, mas Harrison parecia um ferro-velho ambulante. Usava o peso de uns três homens. E para compensar sua boa aparência os homens do Nivelador Geral faziam-no usar uma bola de borracha vermelha no nariz, além das sobrancelhas raspadas e seus dentes brancos cobertos por adesivos pretos.
-- Se você ver esse rapaz, disse a bailarina, não, eu repito, não... – falava como quem tentava argumentar.
De repente houve um barulho de uma porta sendo arrancada de suas dobradiças.
Gritos e gritos de consternação vieram do aparelho de televisão. A fotografia de Harrison Bergeron na tela saltou de novo e de novo, como se dançasse ao som de um terremoto. 
George Bergeron identificou corretamente o terremoto, como não deveria ser, pois como muitos, deveria ter sido apenas um momento no qual sua própria casa tinha dançado com a mesma melodia ruim. 
-- Meu Deus, disse George, deve ser Harrison!
O lampejo de realidade logo explodiu de sua mente pelo som de um acidente de carro em sua cabeça provocado por seu apetrecho nivelador.
Quando George conseguiu abrir os olhos novamente a fotografia de Harrison tinha ido embora. A vida e a respiração de Harrison encheu a tela.
O barulho dos seus apetrechos tilintavam como sucata e contrastavam com sua enorme cara de palhaço. Harrison parou no centro do estúdio. A maçaneta da porta do estúdio que, fora arrancada a pouco, ainda estava em sua mão. Bailarinas, técnicos, músicos e locutores se encolheram de joelhos diante dele esperando para morrer.
-- Eu sou o Imperador! Exclamou Harrison. Vocês ouviram? Eu sou o Imperador! Todos devem fazer o que eu dizer! Ele bateu o pé e o estúdio tremeu.
-- Mesmo eu estando assim, aleijado, mancando, enojado, sou um governante maior do que qualquer homem que já viveu! Agora observem eu me tornar o que eu posso me tornar! Gritou ele.
Harrison rasgou as alças do seu apetrecho nivelador como papel de seda molhado, rasgou as tiras feitas para suportar 2500 quilos. Os pesos niveladores de Harrison caíram no chão.
Harrison empurrou seus polegares sob a barra do cadeado que prendia seu arnês à cabeça. A haste estalou como aipo. Harrison esmagou seus fones de ouvido e óculos contra a parede.
Jogou fora o nariz de borracha, revelando um homem impressionante, um Thor, deus do trovão.
-- Vou agora escolher minha imperatriz! Ele disse olhando para as pessoas encolhidas.
-- Que uma das mulheres ouse reivindicar seu lugar como minha companheira e seu trono!
Um momento se passou, em seguida, uma bailarina se levantou, balançando como um salgueiro.
Harrison arrancou o nivelador mental de sua orelha, quebrou seus niveladores físicos como quem parte um biscoito fino. Por fim, lhe tirou a máscara.
Ela era incrivelmente bonita.
-- Agora, disse Harrison tomando-lhe a mão, vamos mostrar a todos o significado da palavra dança?
-- Música, ele ordenou.
Os músicos voltaram para as suas cadeiras e Harrison os livra dos seus niveladores de desvantagens.
-- Toquem o seu melhor e eu vou fazer de você barões, duques e condes, disse ele.
A música começou. Soou normal, boba, algo falso. Mas Harrison apontou para dois músicos, acenou-lhes com um cassetete dizendo que a música deveria ser tocada como eles tocavam. Ele bateu de volta em suas cadeiras.
A música começou de novo e foi muito melhor.
Harrison e sua imperatriz apenas ouviam a música com um ar solene, enquanto ouviam era como se sincronizassem seus batimentos cardíacos. Eles mudaram os seus pesos para seus dedos. Harrison colocou suas mãos grandes na cintura fina da menina, deixando-a sentir a leveza que logo seria dela. E então, em uma explosão de alegria e graça, ela se lançou no ar! Não foram só as leis da terra que foram abandonadas naquele momento, mas a lei da gravidade e as leis do movimento como um todo.
Eles cambalearam, giraram, giraram, pularam, saltaram, deram cambalhotas e giraram. Eles dançavam como borboletas diante da lua.
O teto do estúdio era de trinta metros de altura, mas a cada salto eles chegavam mais perto dele. Tornou-se evidente a sua intenção de beijar o teto. E eles o beijaram.
E então, neutralizando a gravidade com amor e pura vontade, permaneceram suspensos a algumas polegadas do chão, e eles se beijaram por um longo, longo tempo.
Foi então que Diana Moon Glampers, a Niveladora representante do governo, entrou no estúdio com uma espingarda de cano duplo calibre dez. Ela disparou duas vezes, e o imperador e a imperatriz foram mortos antes de caírem no chão.
Diana Moon Glampers carregou a arma novamente. Ela apontou para os músicos e disse-lhes que tinham dez segundos para colocarem de volta seus apetrechos niveladores novamente.
Foi então que o tubo de televisão dos Bergeron queimou.
Hazel virou-se para comentar sobre o apagão para George. Mas George tinha ido para a cozinha pegar uma lata de cerveja.
George voltou com a cerveja, fez uma pausa, enquanto um sinal saindo do seu apetrecho auricular o sacudiu para cima. E então ele se sentou novamente. 
-- Você estava chorando? Perguntou a Hazel.
-- Sim, disse ela .
-- Por qual motivo? Perguntou ele.
-- Eu esqueci, disse ela. Alguma coisa muito triste na televisão.
-- O que foi? disse ele.
-- É todo o tipo de confusão na minha mente, disse Hazel.
-- Esqueça as coisas tristes, disse George.
-- É o que eu sempre faço, disse Hazel.
-- Essa é minha garota, disse George. Ele fez uma careta. Ouve o som de uma arma de rebitagem em sua cabeça.
-- Caramba. Eu poderia dizer que esse era diferente, disse Hazel.
-- Você pode dizer isso de novo, disse George .
--Caramba, disse Hazel, Eu poderia dizer que esse era diferente.

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05/09/2011

10 notas antipatrióticas ou por uma vida para além da Pátria e do Estado

Nota 1
Todo patriotismo é coisa inventada e imposta.


Nota 2
Onde há Estado a noção de Pátria se faz necessário. A construção da lealdade ao Estado passa pela construção da obediência patriótica. Tudo aquilo que é usado para definir a pátria, o espírito patriótico, é usado para assegurar a permanência do Estado. A Pátria compartilhada legitima a unificação política do Estado. É sobre a bandeira da Pátria que o Estado é defendido.


Nota 3
Um Estado, um sentimento patriótico – o estabelecimento de um padrão de sentimentos que devem ser vividos e experimentados. Os traços culturais são usados para construir a noção de Pátria.
A construção do conceito de Pátria passa pela eliminação da alteridade. Pátria é uma noção reacionária. O discurso patriótico é coercitivo. Se não se tiver pela Pátria um amor fiel corre-se o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado um herege.


Nota 4
Patriocentrismo - o fenômeno que coloca a pátria como centro do universo, uma derivação do etnocentrismo e sociocentrismo.
O etnocentrismo alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos, xenofobias. Um de seus maiores problema se encontra na desqualificação do outro. O etnocentrismo é uma característica comum a diversas sociedades. Seu limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro.
O patriocentrismo possui um traço comum com o etnocentrismo: uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma percepção auto-referencial - os membros de uma sociedade percebem-se não apenas diferente, mas superiores.
Um outro problema é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista dado pela visão patriótica. Internamente ao Estado tal noção dominante e tida como superior pode levar a não aceitação das discordâncias e a censura destas. Tal visão é absorvida pelo sujeito que passa a considerar esta visão como estando ligada a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito deixa de compreender sua própria situação e passa a compreender tudo pela visão da pátria e do Estado. Ele só compreende a pátria na perspectiva dela mesma. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O sujeito perde a sua singularidade em prol de uma identificação com elementos que lhes são exteriores e estranhos. Não compreende que muito daquilo que ele venera foi construído em momentos que lhes são totalmente distantes, tanto no tempo quanto no espaço, e em circunstâncias das quais ele desconhece e que não teve nenhuma participação. – um exemplo são os símbolos patrióticos.


Nota 5
O que alimenta tal atitude patriótica é a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral a incapacidade de compreender e de conceber a pátria como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime patriótico. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica somada a condenação a qualquer tipo de crítica fazem do patriocentrismo uma atitude arrogante, fundado em idéias preconcebidas que constrói seus discursos tendo por base pressupostos arbitrários, caprichosos e injustos.
Tais comportamentos morais e afetivos que definem e caracterizam o afeto patriótico são de extrema relevância para compreensão de como se constroem os instrumento de sedimentação dos sujeitos em um Estado, ao Estado, sobretudo para compreensão dos estudos sobre os estados de ânimos sociais, agitações ou controle dessas agitações. Assim, a noção de Pátria serve como tensor que se estende entre o Estado e os sujeitos.


Nota 6
Tal sentimento de Pátria não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo encontra-se inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo da imagem do outro, deve acontecer.
O homem da pátria acredita saber diferenciar o justo do injusto, o bem do mal. Ele procura respeitar as instituições e exige que os outros façam o mesmo, ele é um soldado sem farda. Ele se crer fazendo sua parte para manutenção da lei, da ordem e da paz social; ele também se ver como um homem trabalhador e honesto, que oferece a sua força de trabalho para o desenvolvimento e futuro do seu país; acredita na ascensão social, que se fizer sua parte para o bom funcionamento da pátria há de prosperar junto com ela. Daí que o patriota alimento sua capacidade de julgamento sempre na mesma direção: tudo aquilo que for diferente do seu ponto de vista deve ser condenado; tudo aquilo que não girar em torno das suas convicções é uma oposição que deve ser excomungada; tudo aquilo que for diferente é uma ameaça em potencial à conservação e manutenção da sociedade. Ele identifica aquilo que é a pátria com aquilo que é "bom" para todos, independentemente de quem se trata – a vida é a pátria, homens e mulheres são a pátria, o social é a pátria; e tudo que assim não for dever ser renegado.


Nota 7
A pátria não é um acontecimento natural. É algo que possui uma temporalidade, que pode ser datada em termos do seu nascimento e morte. Os traços geográficos que a delineia foram rabiscados pelo desenrolar das tramas históricas, na maioria das vezes produto de lutas e mesquinharias. Imagens, falas, sentimentos, expressões de vidas, línguas, corpos, sensações, vegetações, animais, paisagens, foram juntados, costurados, colados na especificidade e particularidade de um momento, a eles se juntaram discursos, sentidos foram criados, passando a afetar uma cosmovisão. A pátria é uma produção, não do seu povo, mas, das relações de poder a ela subjacentes. O povo foi uma de suas capturas. Ele é um de seus reféns. Assim como o é a natureza, as crenças, os valores e todos os produtos culturais nascidos das relações entre os sujeitos.
Quem olha do presente para o passado é levado a acreditar que a pátria é fruto de um processo coerente e ordenado, que ela é o produto final e glorioso de sua própria evolução. Somos levados a esquecer que as inúmeras práticas vividas e discursos pronunciados em termos patrióticos assim o foram na dispersão do tempo e do espaço, enfim, o ajuntamento das práticas e dos discursos que dão forma a pátria não são frutos de um acontecimento lógico, controlado, calculado ou previsível.
O surgimento da pátria é fruto do silenciamento de uma multiplicidade de vozes, do apagamento de uma multiplicidade de imagens e práticas. Vozes e praticas que foram recortadas em seus múltiplos dizeres e fazeres, que foram selecionadas e moduladas para que, em seguida, fossem reapropriadas para servirem ao propósito “maior”: elementos constituintes de uma pátria-mãe. É por conta disto que devemos questionar sobre como foi e como é possível uma pátria, a que preço ela se tornou e se torna possível.


Nota 8
A idéia de pátria como algo natural ou desde sempre ai acaba por encobrir o fato de ser ela um produto político e que enquanto tal deve ser compreendida. Apoderando-se de símbolos, de fatos e de expressões a pátria vai reagir e funcionar a partir de uma totalidade maior: o Estado-nação. Movendo-se dentro deste espaço nacional, delimitado por suas fronteiras, descobrimos assim um jogo entre o artificial e o artifício: se o Estado é artificial, a Pátria é um artifício deste. (Pensemos o artificial como sendo um produto de uma época, fruto de circunstâncias de época.)
O discurso patriótico é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor a um futuro promissor.
Onde devemos procurar a origem da pátria? No emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Pátria não possui essência. A identidade que ela faz nascer é artificial, como qualquer identidade, como qualquer processo de identificação.
O desmonte da noção de Estado é correlato ao desmonte da noção de Pátria. Questionar o Estado só faz sentido se questionarmos a noção de Pátria.


Nota 9
Haveria em nós um instinto de idolatria? É provável. Para dar vida aos nossos interesses projetamos sobre a face da terra os nossos sonhos, forjamos o tempo e nele inserimos a história, nossa história ou aquilo que consideramos como nossa história. Nela mesma, toda terra é neutra, suas fronteiras são acidentes geográficos, os contornos que traça não visa determinar estados morais. Mas o homem estabeleceu sobre ela determinações estranhas à natureza e às forças que a anima. Assim, como idolatras, passamos a adorar os objetos ridículos da nossa própria criação. É interessante constatar que entre a ficção e a evidência todo entusiasmo do homem recai sobre a primeira. Se há uma fonte sobre a terra de onde jorra o mal, ela não é outra se não esta capacidade de ficcionar e de levar a ficção às últimas conseqüências, dar às ficções humanas um caráter de absoluto. A pátria se soma a tantas outras ficções que idolatramos e a tantos outros falsos absolutos.
Não há noção de pátria que não traga uma dose exagerada de idolatrias, doutrinas e farsas. Todo ato de adoração à pátria é um ato de adoração aos crimes que foram cometidos para que esta aparecesse e se mantivesse. Quem ama uma pátria faz de tudo para que outros também a amem. Não há fervor patriótico sem uma quantidade considerável de intolerância, fé cega, intransigência ou proselitismo.
A pátria é uma assassina em potencial. Há na história humana dois motivos pelos quais mais se matou ou se morreu: por um deus ou por uma pátria. Devoção fervorosa e sangue. Gemidos e hinos. Fé religiosa e devoção patriótica se igualam no número de vítimas que fizeram. Os mais violentos crimes foram e são cometidos em nome de uma ortodoxia, religiosa ou política, não importa.
Daí o patriota ser um fanático fervoroso. E por ser assim, ele é um perigo. Os melhores e mais eficazes assassinos pode ser encontrados entre os patriotas e fanáticos: morrem e matam em nome de uma crença, de uma ficção.
A pátria é um conjunto de signos: honrar uma pátria, fazer guerras por uma pátria. Não perceber que por causa dela a vida deixa criar, que o sangue que ela faz correr, o sangue que ela exige, em nome de "proteção", é o mesmo sangue que poderia está sendo dirigido para uma vida mais cheia de possibilidades.


Nota 10
A pátria se consagra em um despotismo dos princípios: ela se coloca como sendo e tendo o ideal correto a ser seguindo; ela consagrou o futuro como um alojamento de bem-aventuranças para aqueles que a legitimam; ela faz parecer que a segurança reside por detrás de seus muros. A pátria se quer no plural: ‘Nós’. E nesse ‘Nós’ ecoa uma forma de fascismo. Dentro dela as instituições visam gerenciar a boa conduta, o porte correto, a regulamentação das opções. Ela quer ser percebida como o paraíso, ela concorre com o paraíso celestial. Artesã de espíritos ardentes, não perdoa aqueles que vivem sem as suas verdades. Um sujeito desprovido da crença patriótica é um ser estranho à pátria. Ela demanda certezas, impõe convicções, elimina as dúvidas e os duvidosos.
As convicções patrióticas se estabelecem como forças dominadoras - debaixo de sua bandeira se esconde uma arma.


Alexsandro

26/11/2010

A montagem do território é correlata à montagem da fronteira


De início é válido esclarecer que a noção de território aqui trabalhada tem na definição construída por Guattari a referência primeira:

“a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que o delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quando a um sistema percebido no seio de qual um sujeito se sente ‘em casa’. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos.

A noção de território demandaria o estabelecimento de recortes. A linha do recorte estabelecerá uma fronteira que definirá um dentro e um fora. Tudo aquilo que é usado para definir o ‘dentro’, o espírito do ‘de dentro’, será usado para assegurar a permanência do ‘fora’. A fronteira estabelecida legitima a unificação política de um território. Um território definido e definidor: um território que passa a afetar e que circunscreve o estabelecimento de alteridades: afetividade territorializada estabelecendo padrões de sensações e sentimentos que devem ser vividos e experimentados; território definindo alteridades a partir das noções ‘dentro’ e ‘fora’.
Mas como nasce um território? Do e no emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Lembrando que o discurso que faz nascer um território é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor para um futuro promissor. O território e a fronteira não possuem essência. A configuração que assumem é artificial. No movimento de territorialização, que pode ser de identificação ou de conceituação, tudo no entorno, tudo com que entra em contato será afetado.
Há os movimentos. Um território nasce dos movimentos. Movimentos de transformação. Eles são inevitáveis. Embora muito se lute para represá-los ou reprimi-los. Os movimentos de transformação se fazem pela e na destruição, na demolição, no desfazer, no diluir, no evaporar de certos mundos, de certas configurações culturais, de certas relações sociais, de certos sentidos. Sentidos que se vão, que se perdem, que deixam de ser, que somem, e no reverso, sentidos que vêm, se acham, que passam a ser, que aparecem. Um ambiente que se tornou ultrapassado para expressão de afetos. Afetos que requerem novos traçados, novos territórios. São afetos ganhando vida, assumindo a vida, dando vida. E no trajeto que segue, estratégias vão sendo requeridas, fronteiras vão sendo estabelecidas.
O estabelecimento de um território acontece tentando eliminar a alteridade. Como em um ato fágico, devorar para integrar. E para aqueles que não se territorializaram, a ação êmica, vomitar para expulsar. Questionar a fronteira é correr risco - o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado não pertencente ao território.
Vale lembrar que tal sentimento de pertencimento não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo se encontra inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo, da imagem do outro, deve acontecer. Os comportamentos morais e afetivos definem e caracterizam o afeto dos sujeitos ao território. O problemático aqui é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista imediatos ligados a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito pode deixa de compreender sua própria situação a partir do momento em que ele só compreende o território e a fronteira na perspectiva ‘do dentro’. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O estabelecimento da fronteira pode significar o estabelecimento de um limite entre a percepção de si (o de dentro) e a percepção do outro (o de fora). Tal limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro. Uma percepção auto-referencial que vai à direção de uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma imagem do outro, pejorativa e falsa.
A desqualificação do outro alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos e xenofobias. O que alimenta tais atitudes é, sem dúvida, a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção da alteridade, do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral. A incapacidade de compreender e de conceber a alteridade como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime de fronteira. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica, somada a condenação de qualquer tipo de crítica, fazem da fronteira um espaço de atitudes arrogantes, fundado em idéias preconcebidas, de circulação de discursos arbitrários, caprichosos e injustos.
Alexsandro

23/06/2010

Como a educação fundamental influência na formação cultural de uma nação?

Eu diria que a educação fundamental influência de forma expressiva. A educação transmite os aspectos que são interessantes para manutenção da nação e eu não consigo dissociar nação de Estado, ou seja, a educação cumpre o papel que o Estado lhe dar. O Estado transmite aquilo que lhe possibilita exercer um controle mais fácil. A educação cumpre o seu papel, e o papel dela numa sociedade como a nossa é servir de mecanismo de controle – controle das ações, do saber, do pensamento, etc. Tenhamos por um momento como referência as escolas. A gente se engana quando pensa que o tipo de educação que recebemos nas escolas traz em si alguma função libertadora ou esclarecedora no sentido de tornar cada sujeito alguém capaz de entender claramente o que se passa no mundo e o que determina nossa relação com ele. É Foucault quem fala dos corpos dóceis. E as escolas funcionam como fábricas de corpos dóceis. Para que se entenda melhor, um corpo dócil é um corpo que se fábrica conforme as necessidades do Estado e do seu funcionamento. Com a utilização de certas ações disciplinares um corpo pode ser manipulado, treinado e controlado e o que temos é um corpo submisso e exercitado. Essa disciplina que produz corpos dóceis é uma forma de dominação. Por meio de métodos coercitivos, disciplinares obtém-se um corpo tanto mais obediente quanto útil. Teríamos uma sociedade diferente se não existissem escolas no formato disciplinar e docilizante. Se seria uma sociedade melhor, não há como responder.


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08/06/2010

Pastor, lobo, ovelha - Atitudes em relação ao poder

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Três atitudes comuns dos indivíduos em relação ao poder:
- Se identificar com o poder: "EU SOU O PODER"
Os que se identificam com o poder são os Pastores;
- Ser contra o poder: "EU SOU CONTRA O PODER"
Os que são contra o poder são os Lobos;
- Aceitar o poder: "EU SOU A FAVOR DO PODER"
As massas submissas ao poder são as ovelhas.

Não se encontrou ainda uma saída para essa relação recorrente entre o poder, as massas e a solidão dos indivíduos singulares. Ninguém consegue ver ou definir o poder, mas uns se identificam com ele, outros o contestam e há ainda os que decidem obedece-lo.
Esse é o cenário pastoral do poder. E para encontrarmos uma porta de saída deste cenário patético, é preciso antes entender melhor os valores que estão por detrás desses três elementos recorrentes.


Os lobos são os que não aceitam ser usado ou usar os outros, os que recusam as relações de dominação e vivem o poder apenas enquanto capacidade, potência ou vontade de poder. Suas relações são pautadas pela interatividade e pela amizade sem interesse. Amam a liberdade e são muito generosos. Alguns se deixam usar pelos pastores e viram cães-pastores.

As ovelhas trocam afeto por manipulação. O valor de troca no espírito de rebanho se dá tanto horizontalmente, na forma de solidariedade entre as ovelhas, como verticalmente, consolando piedosamente o pastor em sua altiva solidão. Elas amam o pastor para que ele as defenda. São elas que dominam o pastor, mas, dissimuladas, fingem que é ele que as domina. Elas usam enquanto fingem serem usadas e só desejam se divertir. Transformam tudo em espetáculo e em divertimento. Algumas se apaixonam platonicamente pelos lobos e se tornam ovelhas negras.

Os pastores são que não estabelecem trocas horizontais e se identificam com o poder. Usam e são usados entre si com impessoalidade e parcimônia, em grande hierarquias piramidais de sub-pastores. Embora se considerem senhores e protetores das ovelhas, são escravizados pela bajulação do rebanho e usados como espantalhos contra a liberdade dos lobos.


Podemos, a partir desse quadro, enunciar duas proposições políticas:

1. Um coletivo terá mais ou menos liberdade dependendo da permuta e revezamento dos papéis. Se os pastores forem sempre pastores; os lobos, lobos; e as ovelhas, ovelhas; o grupo será opressor para todos. Mas se ao contrário, todos tomarem consciência de seu papel principal e se esforçarem para se comportar através dos outros dois papéis, criando um revezamento dessas 'funções' no interior do coletivo, então, haverá crescimento individual e compreensão mútua e o grupo se constituirá em um espaço de liberdade e aprendizado. As ovelhas são boazinhas, os lobos são maus e os pastores pairam acima do bem e do mal; as ovelhas precisam admitir suas maldades, os lobos reconhecer que também são filhos de Deus, e os pastores têm que aprender que não estão em condição de julgar aos outros. Quando todos os participantes de um grupo conseguem se identificar com os três papéis de forma harmoniosa afirma-se que o sistema está em equilíbrio qualitativo.
2. Um coletivo terá mais ou menos segurança dependendo de como os papéis estejam distribuídos proporcionalmente no grupo. Ovelhas demais petrificam os grupos em posturas conservadores, ovelhas de menos geram conflitos intermináveis. Quando encontramos os papéis distribuídos de forma proporcional em relação às suas funções diz-se que o grupo está em um equilíbrio quantitativo.

Mas será que é 'liberdade' e 'segurança' que realmente procuramos nos grupos? Na verdade, o que é certo que cada um dos papéis sonha em eliminar os outros dois:

- a ditadura do proletariado, quando as massas tomam o poder, é equivalente ao império do rebanho;
- a tecnodemocracia das elites corresponde ao projeto neo-liberal dos pastores;
- e o sonho da alcatéia hacker, à utopia dos lobos.

Porém, também é certo que um papel não sobrevive sem os outros. Isso fica claro quando descobrimos as funções a que esses papéis ridículos estão associados.


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