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12/01/2014

O "eu" como farsa

A ideia de ser quem se deseja ser é uma farsa. Uma farsa época-cultural. Ninguém nunca foi e nunca será quem deseja ser. O motivo é bem simples: esse “ser” que nasceria da nossa vontade e independente de qualquer determinação e que produziria o “eu” é pura ficção, alienação ou crença; todo e qualquer “eu” nada mais é que produção em massa e serial na linha de montagem de toda e qualquer cultura que necessite da noção de “eu” para se manter. 
É simples assim, a noção de “eu” é um produto cultural como qualquer outro e enquanto tal exerce uma força de pressão avassaladora sobre todos, sujeitando todos às suas determinações. Assumimos o “eu” que a cultura deseja. A conclusão a que se pode chegar é mais simples ainda: o “eu” é uma forma de assujeitamento cultural e como tal se encontra a serviço das mais diversas instituições que compõem uma sociedade.
Logo, uma sociedade na qual todos produzem o “eu” que deseja ser é uma impossibilidade. Se cada um fizesse nascer o “eu” que deseja a sociedade não se manteria, pois o caos tomaria conta.

P. S. 1: Quer ver o mundo tomado pelo caos? Crie e seja o “eu” que deseja.

P. S. 2: Há os resistentes, aqueles que tentam ser outra coisa que não um “eu”, mas esse serão classificados sob diversas designações conforme a época e o contexto cultural e para contê-los existem várias instituições de repressão, reeducação, segregação e/ou eliminação.

Alexsandro

05/09/2011

10 notas antipatrióticas ou por uma vida para além da Pátria e do Estado

Nota 1
Todo patriotismo é coisa inventada e imposta.


Nota 2
Onde há Estado a noção de Pátria se faz necessário. A construção da lealdade ao Estado passa pela construção da obediência patriótica. Tudo aquilo que é usado para definir a pátria, o espírito patriótico, é usado para assegurar a permanência do Estado. A Pátria compartilhada legitima a unificação política do Estado. É sobre a bandeira da Pátria que o Estado é defendido.


Nota 3
Um Estado, um sentimento patriótico – o estabelecimento de um padrão de sentimentos que devem ser vividos e experimentados. Os traços culturais são usados para construir a noção de Pátria.
A construção do conceito de Pátria passa pela eliminação da alteridade. Pátria é uma noção reacionária. O discurso patriótico é coercitivo. Se não se tiver pela Pátria um amor fiel corre-se o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado um herege.


Nota 4
Patriocentrismo - o fenômeno que coloca a pátria como centro do universo, uma derivação do etnocentrismo e sociocentrismo.
O etnocentrismo alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos, xenofobias. Um de seus maiores problema se encontra na desqualificação do outro. O etnocentrismo é uma característica comum a diversas sociedades. Seu limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro.
O patriocentrismo possui um traço comum com o etnocentrismo: uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma percepção auto-referencial - os membros de uma sociedade percebem-se não apenas diferente, mas superiores.
Um outro problema é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista dado pela visão patriótica. Internamente ao Estado tal noção dominante e tida como superior pode levar a não aceitação das discordâncias e a censura destas. Tal visão é absorvida pelo sujeito que passa a considerar esta visão como estando ligada a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito deixa de compreender sua própria situação e passa a compreender tudo pela visão da pátria e do Estado. Ele só compreende a pátria na perspectiva dela mesma. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O sujeito perde a sua singularidade em prol de uma identificação com elementos que lhes são exteriores e estranhos. Não compreende que muito daquilo que ele venera foi construído em momentos que lhes são totalmente distantes, tanto no tempo quanto no espaço, e em circunstâncias das quais ele desconhece e que não teve nenhuma participação. – um exemplo são os símbolos patrióticos.


Nota 5
O que alimenta tal atitude patriótica é a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral a incapacidade de compreender e de conceber a pátria como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime patriótico. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica somada a condenação a qualquer tipo de crítica fazem do patriocentrismo uma atitude arrogante, fundado em idéias preconcebidas que constrói seus discursos tendo por base pressupostos arbitrários, caprichosos e injustos.
Tais comportamentos morais e afetivos que definem e caracterizam o afeto patriótico são de extrema relevância para compreensão de como se constroem os instrumento de sedimentação dos sujeitos em um Estado, ao Estado, sobretudo para compreensão dos estudos sobre os estados de ânimos sociais, agitações ou controle dessas agitações. Assim, a noção de Pátria serve como tensor que se estende entre o Estado e os sujeitos.


Nota 6
Tal sentimento de Pátria não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo encontra-se inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo da imagem do outro, deve acontecer.
O homem da pátria acredita saber diferenciar o justo do injusto, o bem do mal. Ele procura respeitar as instituições e exige que os outros façam o mesmo, ele é um soldado sem farda. Ele se crer fazendo sua parte para manutenção da lei, da ordem e da paz social; ele também se ver como um homem trabalhador e honesto, que oferece a sua força de trabalho para o desenvolvimento e futuro do seu país; acredita na ascensão social, que se fizer sua parte para o bom funcionamento da pátria há de prosperar junto com ela. Daí que o patriota alimento sua capacidade de julgamento sempre na mesma direção: tudo aquilo que for diferente do seu ponto de vista deve ser condenado; tudo aquilo que não girar em torno das suas convicções é uma oposição que deve ser excomungada; tudo aquilo que for diferente é uma ameaça em potencial à conservação e manutenção da sociedade. Ele identifica aquilo que é a pátria com aquilo que é "bom" para todos, independentemente de quem se trata – a vida é a pátria, homens e mulheres são a pátria, o social é a pátria; e tudo que assim não for dever ser renegado.


Nota 7
A pátria não é um acontecimento natural. É algo que possui uma temporalidade, que pode ser datada em termos do seu nascimento e morte. Os traços geográficos que a delineia foram rabiscados pelo desenrolar das tramas históricas, na maioria das vezes produto de lutas e mesquinharias. Imagens, falas, sentimentos, expressões de vidas, línguas, corpos, sensações, vegetações, animais, paisagens, foram juntados, costurados, colados na especificidade e particularidade de um momento, a eles se juntaram discursos, sentidos foram criados, passando a afetar uma cosmovisão. A pátria é uma produção, não do seu povo, mas, das relações de poder a ela subjacentes. O povo foi uma de suas capturas. Ele é um de seus reféns. Assim como o é a natureza, as crenças, os valores e todos os produtos culturais nascidos das relações entre os sujeitos.
Quem olha do presente para o passado é levado a acreditar que a pátria é fruto de um processo coerente e ordenado, que ela é o produto final e glorioso de sua própria evolução. Somos levados a esquecer que as inúmeras práticas vividas e discursos pronunciados em termos patrióticos assim o foram na dispersão do tempo e do espaço, enfim, o ajuntamento das práticas e dos discursos que dão forma a pátria não são frutos de um acontecimento lógico, controlado, calculado ou previsível.
O surgimento da pátria é fruto do silenciamento de uma multiplicidade de vozes, do apagamento de uma multiplicidade de imagens e práticas. Vozes e praticas que foram recortadas em seus múltiplos dizeres e fazeres, que foram selecionadas e moduladas para que, em seguida, fossem reapropriadas para servirem ao propósito “maior”: elementos constituintes de uma pátria-mãe. É por conta disto que devemos questionar sobre como foi e como é possível uma pátria, a que preço ela se tornou e se torna possível.


Nota 8
A idéia de pátria como algo natural ou desde sempre ai acaba por encobrir o fato de ser ela um produto político e que enquanto tal deve ser compreendida. Apoderando-se de símbolos, de fatos e de expressões a pátria vai reagir e funcionar a partir de uma totalidade maior: o Estado-nação. Movendo-se dentro deste espaço nacional, delimitado por suas fronteiras, descobrimos assim um jogo entre o artificial e o artifício: se o Estado é artificial, a Pátria é um artifício deste. (Pensemos o artificial como sendo um produto de uma época, fruto de circunstâncias de época.)
O discurso patriótico é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor a um futuro promissor.
Onde devemos procurar a origem da pátria? No emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Pátria não possui essência. A identidade que ela faz nascer é artificial, como qualquer identidade, como qualquer processo de identificação.
O desmonte da noção de Estado é correlato ao desmonte da noção de Pátria. Questionar o Estado só faz sentido se questionarmos a noção de Pátria.


Nota 9
Haveria em nós um instinto de idolatria? É provável. Para dar vida aos nossos interesses projetamos sobre a face da terra os nossos sonhos, forjamos o tempo e nele inserimos a história, nossa história ou aquilo que consideramos como nossa história. Nela mesma, toda terra é neutra, suas fronteiras são acidentes geográficos, os contornos que traça não visa determinar estados morais. Mas o homem estabeleceu sobre ela determinações estranhas à natureza e às forças que a anima. Assim, como idolatras, passamos a adorar os objetos ridículos da nossa própria criação. É interessante constatar que entre a ficção e a evidência todo entusiasmo do homem recai sobre a primeira. Se há uma fonte sobre a terra de onde jorra o mal, ela não é outra se não esta capacidade de ficcionar e de levar a ficção às últimas conseqüências, dar às ficções humanas um caráter de absoluto. A pátria se soma a tantas outras ficções que idolatramos e a tantos outros falsos absolutos.
Não há noção de pátria que não traga uma dose exagerada de idolatrias, doutrinas e farsas. Todo ato de adoração à pátria é um ato de adoração aos crimes que foram cometidos para que esta aparecesse e se mantivesse. Quem ama uma pátria faz de tudo para que outros também a amem. Não há fervor patriótico sem uma quantidade considerável de intolerância, fé cega, intransigência ou proselitismo.
A pátria é uma assassina em potencial. Há na história humana dois motivos pelos quais mais se matou ou se morreu: por um deus ou por uma pátria. Devoção fervorosa e sangue. Gemidos e hinos. Fé religiosa e devoção patriótica se igualam no número de vítimas que fizeram. Os mais violentos crimes foram e são cometidos em nome de uma ortodoxia, religiosa ou política, não importa.
Daí o patriota ser um fanático fervoroso. E por ser assim, ele é um perigo. Os melhores e mais eficazes assassinos pode ser encontrados entre os patriotas e fanáticos: morrem e matam em nome de uma crença, de uma ficção.
A pátria é um conjunto de signos: honrar uma pátria, fazer guerras por uma pátria. Não perceber que por causa dela a vida deixa criar, que o sangue que ela faz correr, o sangue que ela exige, em nome de "proteção", é o mesmo sangue que poderia está sendo dirigido para uma vida mais cheia de possibilidades.


Nota 10
A pátria se consagra em um despotismo dos princípios: ela se coloca como sendo e tendo o ideal correto a ser seguindo; ela consagrou o futuro como um alojamento de bem-aventuranças para aqueles que a legitimam; ela faz parecer que a segurança reside por detrás de seus muros. A pátria se quer no plural: ‘Nós’. E nesse ‘Nós’ ecoa uma forma de fascismo. Dentro dela as instituições visam gerenciar a boa conduta, o porte correto, a regulamentação das opções. Ela quer ser percebida como o paraíso, ela concorre com o paraíso celestial. Artesã de espíritos ardentes, não perdoa aqueles que vivem sem as suas verdades. Um sujeito desprovido da crença patriótica é um ser estranho à pátria. Ela demanda certezas, impõe convicções, elimina as dúvidas e os duvidosos.
As convicções patrióticas se estabelecem como forças dominadoras - debaixo de sua bandeira se esconde uma arma.


Alexsandro

18/06/2011

Precisamos livrar a educação da tutela do Estado e de seus feitores

Há um aforismo do Nietzsche, presente no livro Crepúsculo dos Ídolos, na qual ele comenta sobre a educação superior alemã de sua época. O que chama atenção em tal reflexão é justamente o fato dele ter como referência a noção de educação superior, desejando nos fazer refletir, junto com ele, o que entendemos por educação superior, o que entendemos por educadores de uma educação superior. Logo no início do aforismo lemos:


O que há de principal para toda a educação superior perdeu-se na Alemanha: a finalidade tanto quanto o meio para a finalidade. Esqueceu-se do fato de que a meta é a própria educação, a própria formação, e não “o império”: o fato de que se precisava de educadores para alcançar essa meta – e não professores ginasiais e eruditos universitários...Educadores são necessários, educadores que sejam eles mesmos educados, espíritos superiores e nobres, que mostrem seu valor a cada instante, através da palavra e do silêncio, culturas que se tornaram maduras e doces. – Não estes brutescos eruditos que os ginásios e as universidades oferecem hoje em dia à juventude como “amém superior”. Faltam educadores, descontadas as exceções das exceções, a primeira condição prévia da educação: daí a decadência da cultura alemã.


a finalidade tanto quanto o meio para a finalidade: a palavra meio diz respeito a educação e esta se perdeu, está perdida, assim como a sua finalidade. Mas a que finalidade deveria servir a educação? Logo em seguida ele emenda: a meta é a própria educação, a própria formação, e não “o império”. Nietzsche, já naquela época estava informando que toda a educação existente naquele momento estava voltada não para uma formação de um “espírito superior”, mas de criaturas assujeitadas, ou sujeitas “ao império”.

15/06/2011

A neurose da felicidade

Nível cultural ou felicidade? Qual deve ser nossa primeira preocupação?
Vivemos um momento no qual a questão da felicidade virou uma neurose. Chegamos a tal ponto que confundimos felicidade com almoço de domingo e passamos grande parte do tempo discutindo conflitozinhos de adolescentes como se fossemos salvar o mundo. Será que não é chegada a hora de nos preocuparmos mais com nosso nível cultural e menos com a nossa felicidade para não cairmos na triste conclusão de que só os ignorantes são felizes? Não deveríamos primeiro multiplicar os nossos horizontes para, a partir daí, termos a possibilidade de ultrapassar a condição de subnutridos emocionais?


Alexsandro

26/11/2010

A montagem do território é correlata à montagem da fronteira


De início é válido esclarecer que a noção de território aqui trabalhada tem na definição construída por Guattari a referência primeira:

“a noção de território é entendida aqui num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que dela fazem a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que o delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quando a um sistema percebido no seio de qual um sujeito se sente ‘em casa’. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto dos projetos e das representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos.

A noção de território demandaria o estabelecimento de recortes. A linha do recorte estabelecerá uma fronteira que definirá um dentro e um fora. Tudo aquilo que é usado para definir o ‘dentro’, o espírito do ‘de dentro’, será usado para assegurar a permanência do ‘fora’. A fronteira estabelecida legitima a unificação política de um território. Um território definido e definidor: um território que passa a afetar e que circunscreve o estabelecimento de alteridades: afetividade territorializada estabelecendo padrões de sensações e sentimentos que devem ser vividos e experimentados; território definindo alteridades a partir das noções ‘dentro’ e ‘fora’.
Mas como nasce um território? Do e no emaranhado dos artifícios que dão forma ao seu discurso. Lembrando que o discurso que faz nascer um território é meta-histórico na medida em que faz uso de significações teleológicas que partem de um passado redentor para um futuro promissor. O território e a fronteira não possuem essência. A configuração que assumem é artificial. No movimento de territorialização, que pode ser de identificação ou de conceituação, tudo no entorno, tudo com que entra em contato será afetado.
Há os movimentos. Um território nasce dos movimentos. Movimentos de transformação. Eles são inevitáveis. Embora muito se lute para represá-los ou reprimi-los. Os movimentos de transformação se fazem pela e na destruição, na demolição, no desfazer, no diluir, no evaporar de certos mundos, de certas configurações culturais, de certas relações sociais, de certos sentidos. Sentidos que se vão, que se perdem, que deixam de ser, que somem, e no reverso, sentidos que vêm, se acham, que passam a ser, que aparecem. Um ambiente que se tornou ultrapassado para expressão de afetos. Afetos que requerem novos traçados, novos territórios. São afetos ganhando vida, assumindo a vida, dando vida. E no trajeto que segue, estratégias vão sendo requeridas, fronteiras vão sendo estabelecidas.
O estabelecimento de um território acontece tentando eliminar a alteridade. Como em um ato fágico, devorar para integrar. E para aqueles que não se territorializaram, a ação êmica, vomitar para expulsar. Questionar a fronteira é correr risco - o risco do estigma, da exclusão, de ser considerado não pertencente ao território.
Vale lembrar que tal sentimento de pertencimento não é algo inerente aos indivíduos, esta noção delineia-se a partir do processo de socialização, do processo de descoberta do ambiente cultural no qual o individuo se encontra inserido. Entretanto, não há garantias de que tal sentimento venha a ser vivido com toda fidelidade. Para que tal fidelidade venha se estabelecer todo um processo de (des)construção da imagem de si e, sobretudo, da imagem do outro, deve acontecer. Os comportamentos morais e afetivos definem e caracterizam o afeto dos sujeitos ao território. O problemático aqui é quando se começa a considerar como únicos possíveis os pontos de vista imediatos ligados a sua situação e as suas atividades próprias. Cria-se um estado de espírito no qual o sujeito pode deixa de compreender sua própria situação a partir do momento em que ele só compreende o território e a fronteira na perspectiva ‘do dentro’. Tanto elementos afetivos quantos intelectuais estão em jogo. O estabelecimento da fronteira pode significar o estabelecimento de um limite entre a percepção de si (o de dentro) e a percepção do outro (o de fora). Tal limite se encontra na percepção do outro, mais especificamente na ignorância, no desconhecimento do que o outro de fato representa e da importância do outro enquanto outro. Uma percepção auto-referencial que vai à direção de uma atitude de superioridade frente a outras sociedades e culturas a partir de uma imagem do outro, pejorativa e falsa.
A desqualificação do outro alimenta as mais diversas formas de preconceitos, racismos, fanatismos e xenofobias. O que alimenta tais atitudes é, sem dúvida, a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção da alteridade, do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral. A incapacidade de compreender e de conceber a alteridade como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer analise sobre as implicações de se viver sob um regime de fronteira. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica, somada a condenação de qualquer tipo de crítica, fazem da fronteira um espaço de atitudes arrogantes, fundado em idéias preconcebidas, de circulação de discursos arbitrários, caprichosos e injustos.
Alexsandro

20/11/2010

Casal Alfa

Macho Alfa

O macho alfa é líder de grupo. Não deixa sua autoridade ser comparada, nem questionada. Sua auto-estima não precisa mais da aprovação de outros para se manter. A sua autoconfiança é sua autoconfiança, faz o possível para mantê-la - nem sempre consegue, mas o que já conseguiu não perde. Não é emocionalmente dependente, faz o possível para não ser isso, pois é o sinal de chateação, pieguices e fraqueza. Não olha o mundo com ingenuidade. Estabelece seu próprio ritmo de vida, deliberando sobre cada ação. A melhor companhia para um macho alfa é uma fêmea alfa, é a única que se encontra a sua altura.


Fêmea Alfa

Fêmea Alfa é líder de grupo. A fêmea alfa não considera a clássica tríade de qualidades - beleza, amabilidade, prontidão em servir – ao contrário ela não se constrange ao quebrar esse ou qualquer outro estereótipo, faz de tudo para não se ligar a outras mulheres subservientes. Sem medo, choca, prova ser capaz, e quanto menos ajuda masculina, melhor. É inteligente, doma a vida, se cuida. Não admite fraqueza, dispensa quem não consegue acompanhá-la. Não cede, intimida pelo olhar. Tem gostos difíceis, não cede fácil. A melhor companhia para uma fêmea alfa é um macho alfa, é o único que se encontra a sua altura.


Casal Alfa

Os Alfas andam em dupla: macho e fêmea. O casal alfa tem maior liberdade social - fazem e não estão nem ai para o que pensam deles. O casal alfa faz o que quer - bancam satisfazer suas vontades, assumem suas escolhas, pagam todos os preços. Tem maior controle sobre os recursos, ou seja, se viram, dão um jeito, sobrevivem, se mantém. Conseguem se adaptar ao ambiente e transformá-lo a seu favor. Os alfas se sustentam. O casal alfa não é submisso a nenhum outro membro do grupo. O relacionamento tem grandes chances de dar certo se cada um se mantiver em seus papéis: um de macho e a outra de fêmea.



Alexsandro

02/10/2010

A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A sociedade da decepção é o título de um dos livros de Gilles Lipovetsky e o tema central é o que o próprio título indica: como a decepção se tornou uma das marcas distintiva da nossa experiência.
Abaixo segue uma citação do livro no qual ele surpreende ao afirmar que nos decepcionamos nem tanto por desejamos os bens materiais que os outros possuem e não podemos ter. Superamos essa fase ou estamos em vias de superar, no entanto, ainda continuamos a desejar (ou invejar) bens não-comercializados (aquilo que o dinheiro não compra). "A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável".


"Ao fim e ao cabo, o mau uso dos bens públicos desperta mais indignação do que o uso de bens particulares. Com efeito, de que os consumidores se queixam mais freqüentemente? Dos engarrafamentos de trânsito, das praias superlotadas, do processo de descaracterização da paisagem natural por obra das construtoras de edifícios ou da invasão de turistas, da repugnante promiscuidade nos transportes coletivos, do barulho dos vizinhos, etc. Em outras palavras, o que gera decepção não é tanto a falta de conforto pessoal, mas a desagradável sensação de desconforto público e a constatação do conforto alheio.
Não surpreende, portanto, que seja no âmbito dos serviços, baseado no relacionamento entre as pessoas, que a decepção é mais freqüente. Manifestações de crítica são muito comuns contra o corpo docente das instituições de ensino, contra o mau funcionamento da Internet, contra o despreparo da classe médica...
Mas, em outra perspectiva, entretanto, convém não esquecer que, diferentemente do que ocorria no passado, os elos entre as pessoas e a esfera do consumo estão cada vez mais entranhados. Muito daquilo que compramos, não o fazemos com a finalidade de granjear a estima deste ou daquele, mas sobretudo visando a nós mesmos, isto é, tendo como objetivo aperfeiçoar os nossos meios de comunicação com o semelhante, melhorar o desempenho físico e a saúde do corpo, buscar sensações vibrantes e variadas formas de emoção, vivenciando experiências sensitivas ou estéticas. É nessa acepção que o espírito de consumo em benefício do outro, típico das antigas sociedades de classe, retrocede, dando lugar ao consumo para si. Em resumo, o consumo individualista emocional assume agora a dianteira em relação ao consumismo ostentador de classe. Simultaneamente, a tendência dominante é aceitar com maior naturalidade que outros possuam algo que não temos, porque a atenção de cada indivíduo está hoje mais voltada para a sua própria experiência íntima do que para o desempenho dos demais. Ao contrário dos primórdios da era democrática, que muito contribuiu para a disseminação do sentimento de inveja, na atual fase do hiperindividualismo consumista, muito mais raramente nos deparamos com aquele indivíduo que se dilacera interiormente por falta de poder aquisitivo para comprar o mesmo automóvel de alta qualidade do vizinho. A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável, mas aquela provocada pelos bens materiais diminui."
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14/08/2010

Qual o perigo que corremos diante de tanta mediocridade advinda do mundo artistico?

A vida humana é uma experiência que em grande parte dela estamos em busca de respostas para os mais diversos dilemas e problemas. É uma vida em busca de respostas para que ela própria possa ser experimentada da maneira mais plena possível, ou seja, buscamos respostas para tentar expandir a vida, renovando-a e fortalecendo-a cada instante.
A par deste fato devemos procura entender o perigo que corremos ao sermos seduzidos por obras de arte medíocres, qual seja, o de perdemos a dimensão criativa da arte em nossas próprias vidas, essa característica que a torna tão necessária para todos nós, sobretudo a uma vida que deseja a todo instante superar o momento, as forças que a constrange, as adversidade ambientes. Devemos entender que a arte, em suas diversas formas de expressão é o laboratório das experimentações para novas possibilidades de sermos outros e outras para além daquilo que se encontra determinado pela média do ambiente no qual circulamos.
Alexsandro
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23/06/2010

Não tão simples assim

Como a presença de uma cultura estrangeira – filmes, novelas, imprensa - prejudica no desenvolvimento da identidade de uma outra nação?

Devemos entender que a cultura não é estática, ela encontra-se sempre em movimento: invenções dos mais diversos tipos, a difusão espontânea ou forçada de aspectos culturais de uma sociedade para outra, são exemplos dos mecanismos que possibilitam a dinâmica cultural. Há, com certeza, mudanças em todos os sentidos, algumas possibilitam melhoras e outras pioras nas relações sociais. Mas sempre há conflitos, sobretudo em tornos dos interesses envolvidos. E mais, o conceito de identidade não é um conceito fácil de ser trabalhado. Sobre a importância e as implicações do conceito de identidade eu tenho mais perguntas que respostas: será que o que determina um comportamento é a ligação com uma identidade? Quais as implicações dos regulamentos que cada identidade traz na construção das relações? Será que aquilo que dá sentido ao que somos se encontra vinculado a obediência a um conjunto de códigos de um grupo específico, uma ideologia, uma crença, uma política? Será que é a identidade que nos permite viver? Quando paro e tento perceber como as relações estão se apresentando, como as formas de vida estão sendo experimentadas, penso que a maneira como os sujeitos, os grupos e as sociedades organizadas em torno das identidades são mais produtores de desordens do que aqueles sistemas que estão tentando se organizar e se desenvolver fora deste esquema de identificação.


A indústria cultural promove ou prejudica a formação da cultura popular?

Segundo teóricos como Adorno e Horkheimer os produtos advindos da indústria cultural tendem a fetichização e são consumidos porque são considerados um sucesso e não pelo fato de possuírem alguma qualidade estética intrínseca, o que seria ruim. Entretanto, e isso é um ponto delicado dessa teoria, tal forma de pensar pode desaguar em um elitismo tão perigoso quanto aquilo que tenta combater, pois ao comparar a passividade do consumidor à uma atitude reflexiva saída de uma “cultura erudita” eles desconsideram o fato de que essa produção pode e é apropriada em diversos sentidos pelo consumidor.
A arte não tem a função de salvar nada nem ninguém, ela não possui um significado por si, para que ela adquira sentido devemos valorá-la. Sendo assim, gosto de entender a arte como algo que deve ser fonte de vida e de força, não de fraqueza e coisas melosas.
Em tempos no qual a mídia e grande parte dos artistas servem apenas a eles mesmos, o controle das formas de expressão é a melhor maneira de subjugar os sujeitos. Alguém sem informação não consegue pensar para além do pouco que conhece. Quanto mais miserável é o meu mundo, mais limitado eu sou. Tornar-se ao menos um pouco culto é abrir-se para a possibilidade de criação de novas formas de ser e ver o mundo no qual estamos inseridos. Sem isso estamos fadados a uma vida pobre. Muitos precisariam de aulas para compreender a riqueza do que é dito, por exemplo, em um filme como Matrix, que é produto da indústria cultural.
É certo que há muitos interesses sacanas, gananciosos e mesquinhos por trás da promoção de uma cultura mercadológica, isso todos sabemos (ou deveríamos saber), entretanto, o maior problema se encontra no fato de que com ela nossas medidas de comparação ficaram embaralhadas, ou seja, estamos confundindo aquilo que possibilita vida com aquilo que nos deixa satisfeitos (numa espécie de satisfação efervescente e refrescante). Mas o problema é muito maior, tem a ver com a forma como o capital está consumindo nossas vidas. Numa sociedade como a nossa, na qual a maioria das pessoas vive como escravos em trabalhos desconfortáveis e sem significado algum além do salário, em função rotineiras e cansativas, tendo que refazer isso durante a semana, o mês, o ano inteiro, em média oito horas por dia, não vai fazer tudo isso com prazer e alegria. E mesmo que o salário seja bom ele não ameniza o sofrimento dessa rotina. Pessoas que se encontram numa situação assim, quando param para descansar ou relaxam procuram um entretenimento fácil. Infelizmente a grande maioria das pessoas, independentemente da idade, satisfazem-se com coisas idiotas e porcarias fáceis de consumir.


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Como a educação fundamental influência na formação cultural de uma nação?

Eu diria que a educação fundamental influência de forma expressiva. A educação transmite os aspectos que são interessantes para manutenção da nação e eu não consigo dissociar nação de Estado, ou seja, a educação cumpre o papel que o Estado lhe dar. O Estado transmite aquilo que lhe possibilita exercer um controle mais fácil. A educação cumpre o seu papel, e o papel dela numa sociedade como a nossa é servir de mecanismo de controle – controle das ações, do saber, do pensamento, etc. Tenhamos por um momento como referência as escolas. A gente se engana quando pensa que o tipo de educação que recebemos nas escolas traz em si alguma função libertadora ou esclarecedora no sentido de tornar cada sujeito alguém capaz de entender claramente o que se passa no mundo e o que determina nossa relação com ele. É Foucault quem fala dos corpos dóceis. E as escolas funcionam como fábricas de corpos dóceis. Para que se entenda melhor, um corpo dócil é um corpo que se fábrica conforme as necessidades do Estado e do seu funcionamento. Com a utilização de certas ações disciplinares um corpo pode ser manipulado, treinado e controlado e o que temos é um corpo submisso e exercitado. Essa disciplina que produz corpos dóceis é uma forma de dominação. Por meio de métodos coercitivos, disciplinares obtém-se um corpo tanto mais obediente quanto útil. Teríamos uma sociedade diferente se não existissem escolas no formato disciplinar e docilizante. Se seria uma sociedade melhor, não há como responder.


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