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02/11/2013

Notas femininas

Nota A
Presenciamos mudanças nas formas como nos inserimos no mundo. Nossa forma de entrar no mundo e vive-lo mudou. Assim como o número dos nossos interesses. Desejamos muitas e múltiplas coisas ao mesmo tempo e vindas de todas as direções. Desejamos o que podemos e o que não podemos. Desejamos coisas contraditórias - o doce e o salgado, o caro e o barato, o santo e o demoníaco, a lei e a contravenção. Numa experiência assim não é de estranhar que, por vezes, vamos encontrar pessoas que vão preferir desejar coisas a desejar alguém. É quando o envolvimento com os nossos "sonhos" de realização do consumo, de realização profissional, de realização espiritual, de realização de seja lá o que for se sobrepõem ao exercício da sexualidade, ou, é a sexualidade se realizado por outras vias que não o corpo na cama. Há um direcionamento da libido para outros campos de atuação do sujeito. O prazer sentido ao se fazer “coisas” no mundo é maior e mais satisfatório que o fazer “coisas” na cama.
(Nós, ocidentais, elegemos a cama como espaço de realização da sexualidade)
(Vale salientar que por libido entendemos a energia vital que, entre outras coisas, mobilizar o interesse - nosso interesse por algo ou por alguém. Faz de nós pessoas com interesses e, em contrapartida, nos torna interessante para o outro. Como essa energia vital flui depende de vários fatores: época, sociedade, cultura, economia, formas de subjetividade, etc.)

Nota B
É comum ouvirmos pessoas falando sobre as novidades do nosso tempo, das mudanças nos costumes, sobre como as novas gerações de mulheres estão liberadas de uma série de constrangimentos que suas avós viveram. Ouvimos falar de jovens namoradas liberadas pelos pais para dormirem juntos na casa do namorado, vemos pais dando conselhos sobre preservativos e como se cuidar para não pegar doenças, vemos propagadas sobre gravidez na adolescência e tantas outras abordagens sobre as novas práticas sexuais em voga e que as mulheres podem viver. Mas será que elas estão tão bem quanto dizem? Bem, não é o que parece.
Devemos levar em consideração que a vida sexual é condicionada por inúmeros fatores: o grupo social, as normas culturais e morais que orientam a história de vida de cada um ai dentro, as escolhas afetivas, as práticas sexuais vividas e as expectativas dos papéis sexuais (por exemplo, uma história de vida sexual pobre ou rica, sem graça ou espirituosa, limita ou amplia a visão das possibilidades de prazer de cada um).
E o que vem impedindo a mulher de chegar ao prazer ou de ampliar suas possibilidades de prazer? Ela mesma. Quando se trata do corpo, o saber teórico sem o saber prático é a mesma coisa que coisa alguma. Só informação não serve para muita coisa, é apenas uma informação a mais sobre o assunto. Saber sobre preservativos, anticoncepcionais e preliminares não é saber sobre sexo. É triste constatar, mas sexo ainda é tabu para a maioria das mulheres (e dos homens), e por consequência, das famílias. E o que é pior, dos casais. Um exemplo? Menos de 10% das jovens sentem prazer no início da vida sexual. Motivo: não sabem ou sabem muito pouco sobre as possibilidades do sexo.
É certo que aconteceram mudanças significativas e positivas na vida das mulheres. Mas avanço coletivo não é o mesmo que avanço individual. Coletivamente, por exemplo, é incontestável que as mulheres conseguiram posições na sociedade que, felizmente, as colocam em igualdade com os homens (a educação formal pode ser citada como uma dessas conquistas). Mas... e as conquistas individuais, como ficaram? Se focarmos no sexo, sobretudo no foro individual, veremos que as perspectivas e possibilidades, vivências e experiências seguiram outro caminho. Um exemplo: grande parte das mulheres não sabe conversar sobre sexo com o parceiro – e não importa o tipo de parceiro. Outro exemplo: muitas mulheres fazem uso de algum estimulante, como a bebida, para ficarem tão soltas quanto gostariam. Conclusão: as mulheres não estão tão soltas e disponíveis assim para o sexo como imaginamos. Não é de estranhar que 2/3 das mulheres brasileiras nunca tomaram iniciativa para o sexo.
Se em vários campos da vida social as mulheres conseguiram espaço, a igualdade entre os sexos ainda reserva um tempo de espera para que a igualdade das práticas sexuais entre homens e mulheres aconteça. Um exemplo? Apesar de inúmeros avanços positivos a queixa quanto a falta de orgasmo ainda continua a atingir as mulheres: 1/3 não consegue chegar lá. As velhas explicações ainda são as possíveis causas: medo, culpa ou o parceiro.

Nota C
Dados curiosos
De 6% a 7% das mulheres brasileiras não tem nenhum interesse e não sentem falta de sexo. Dos homens brasileiros o número é de 2,5%.
33,3% das mulheres nunca se masturbam. Para um percentual 3% dos homens que nunca se masturbam
As mulheres colocam o sexo como 8ª preocupação como elemento na construção de uma vida de qualidade. Os homens em geral colocam em 2º lugar. Preocupações com doenças vêm em primeiro lugar para ambos.
O curioso é ver que as mulheres colocam a prática de uma atividade qualquer, como um hobby, por exemplo, como mais importante que o sexo.
 
 
Alexsandro

01/09/2013

Apagamento de si

Para muitos a possibilidade de experimentar a liberdade em nome de um proveito próprio é a possibilidade de vivenciar suas relações e seu mundo do modo que desejam. Nada há de errado em pensar assim. A questão se encontra no uso exagerado ou viciante de certas experiências, sobretudo quando confrontado com a impossibilidade de levar as últimas consequências o sonho de liberdade. O uso excessivo da sensorialidade é um destes casos. Assistimos cada vez mais que o número de experiências banais cresceu enquanto diminuía o número das experiências que requerem um grau de compromisso maior, e, paralelo a esse fato, testemunhamos o aumento do uso de atividades sensoriais intensas como um mecanismo que visa a extirpação de angústias. Sendo o resultado posterior justamente o agravamento daquilo que se tentava eliminar quando sonhávamos com a liberdade: aumento das experiências frustrantes e desestabilidade emocional, solidão e empobrecimento das relações.
Em um mundo que fez dos corpos despersonalizados sua imagem emblemática, ou, caso se deseje dizer a mesma coisa de outra forma, que fez de partes do corpo (bunda, peito, rosto, perna, pênis, barriga) seus objetos emblemáticos, sendo estas partes sem personalidade (despersonalização), ou, o que também não ajuda muito, uma personalidade para cada parte do corpo (fragmentação), podemos testemunhar uma lista significativa de contradições que se somam para forma um mosaico peculiar das experiências que são vividas por boa parte das pessoas.
Uma destas contradições típicas do nosso momento histórico é o fato de que expomos nossas vidas na Internet, onde tudo pode ser exposto, mas tememos viver intimidades e construir vínculos com os outros. Outra é a contradição que existe entre a imagem pública e a experiência privada. Geralmente a primeira é exposta como uma experiência bem-sucedida e a segunda como experiência da solidão e isolamento ou de relações de péssima qualidade.
O problema pode se agravar quando se percebe o quão difícil ou mesmo impossível é mudar o mundo no qual se vive. O uso de certas atividades, dos mais variados tipos, funciona como atividades masturbatórias direcionadas para aliviar a angústia daí decorrente. No exercício de anestesimento de si em relações masturbatórias e sensoriais sem qualquer significado emocional, tenta-se afastar para longe os riscos, sempre próximos na experiência atual, da despersonalização e fragmentação, em suma, do apagamento de si mesmo.

16/10/2011

Foucault, a interdição e a identidade

O medo de sermos deslocados em nossas frágeis e débeis certezas nos faz querer de volta a verdade fascista que nos assombrou ontem.



No primeiro parágrafo de seu texto “A ordem do discurso”, Michel Foucault diz algo que me é surpreendente:
No discurso que hoje eu devo fazer, e nos que aqui terei de fazer, durante anos talvez, gostaria de neles poder entrar sem se dar por isso. Em vez de tomar a palavra, gostaria de estar à sua mercê e de ser levado muito para lá de todo o começo possível. Preferiria dar-me conta de que, no momento de falar, uma voz sem nome me precedia desde há muito: bastar-me-ia assim deixá-la ir, prosseguir a frase, alojar-me, sem que ninguém se apercebesse, nos seus interstícios, como se ela me tivesse acenado, ao manter-se, um instante, em suspenso. Assim não haveria começo; e em vez de ser aquele de onde o discurso sai, estaria antes no acaso do seu curso, uma pequena lacuna, o ponto do seu possível desaparecimento.

Leio esta parte como uma demonstração de lucidez e clareza quanto à posição que ele próprio ocupa na ordem dos discursos: sabe que ele não é o começo e nem o fim de algo, e que o fato de ser ele a falar não é fruto senão do acaso.
Em seguida nos fala do peso da instituição, de sua ironia, das solenidades, das formas ritualizadas. Da obrigação de ter de falar, de ter de responder, de ter que ser o que fala. Mas como falar daquilo que não se tem certeza? Ou como assumir um lugar no discurso, ser aquele de onde o discurso sai quando a vontade seria não ter de começar, sem ter que falar por aquele que se encontra do lado de fora, destituindo dele a singularidade, o que pode ter de temível ou maléfico?
Mais um pouco e ele simula um dialogo entre o desejo e a instituição:
O desejo diz: "Eu, eu não queria ser obrigado a entrar nessa ordem incerta do discurso; não queria ter nada que ver com ele naquilo que tem de peremptório e de decisivo; queria que ele estivesse muito próximo de mim como uma transparência calma, profunda, indefinidamente aberta, e que os outros respondessem à minha expectativa, e que as verdades, uma de cada vez, se erguessem; bastaria apenas deixar-me levar, nele e por ele, como um barco à deriva, feliz."
E a instituição responde: "Tu não deves ter receio em começar; estamos aqui para te fazer ver que o discurso está na ordem das leis; que sempre vigiamos o seu aparecimento; que lhe concedemos um lugar, que o honra, mas que o desarma; e se ele tem algum poder, é de nós, e de nós apenas, que o recebe."

Mais um parágrafo:
Mas talvez esta instituição e este desejo não sejam mais do que duas réplicas a uma mesma inquietação: inquietação face àquilo que o discurso é na sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita; inquietação face a essa existência transitória destinada sem dúvida a apagar-se, mas segundo uma duração que não nos pertence; inquietação por sentir nessa atividade, quotidiana e banal porém, poderes e perigos que sequer adivinhamos; inquietação de supor lutas, vitórias, ferimentos, dominações, servidões, através de tantas palavras em cujo uso há muito se reduziram as asperidade.

Dentro de um esquema eu leria assim: as inquietações do desejo e da instituição frente ao discurso que se pronuncia derivam de quatro situações:

1. “aquilo que o discurso é na sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita“;
Transcreveria para uma interrogação: o que o discurso é na sua realidade material de coisa pronunciada ou escrita? Oferecendo a seguinte resposta: ele pode ser algo sobre o qual não temos controle, sobre o qual não sabemos ao certo o que enuncia e que essas incertezas fazem dele algo extremamente delicado já que pode nos levar para lugares e situações para os quais não estávamos preparado ou que não esperávamos encontrar.

2. “existência transitória destinada sem dúvida a apagar-se, mas segundo uma duração que não nos pertence”;
O discurso é temporal e enquanto tal tem um tempo de vida, não é eterno, sumirá. Sem data de validade, ele existe no tempo, sem tempo previsto para durar ele se desenrola.

3. uma atividade quotidiana e banal que pode conter poderes e perigos que sequer adivinhamos;
O que o discurso esconde, o que ele mostra, o que ela faz parar, o que ele move, que caminho segue, que caminho destrói, quem faz falar, quem faz calar, o que cria de novo, o que recria, o peso que adquire ao ser somado a outro discurso, os sentidos que move, os sentidos que combate, as perspectivas que apresenta, etc.

4. “inquietação de supor lutas, vitórias, ferimentos, dominações, servidões, através de tantas palavras em cujo uso há muito se reduziram as asperidades”.
A mudança dos significados das palavras e, na sua seqüência, das lutas. Lutas que foram travadas, mas cujos significados se perderem ou que hoje lemos na contramão do que ela de fato significou. Vitórias que no decorrer do tempo transmutaram seu objetivo primeiro e aquilo que foi conquista em um momento mostrou-se como derrota em outro. Enfim, ninguém pode prever o destino de um discurso: em um momento ele pode ser libertador, noutro pode ser fascista. Não há discurso neutro, não há como determinar de que lado ele estará no decorrer do tempo.
E Foucault termina esta parte do seu texto fazendo a seguinte pergunta:
Mas o que há assim de tão perigoso por as pessoas falarem, qual o perigo dos discursos se multiplicarem indefinidamente? Onde é que está o perigo?

Antes de seguir com Foucault vou abrir uma pequena brecha para citar um exemplo que espero poder ilustrar o que disse acima.
Em muitos momentos do século XX os filmes pornográficos estavam ligados não apenas às práticas libidinosas como também às criticas a repressão, sobretudo a repressão da própria libido como expoente de uma repressão geral da sociedade. Larry Flint foi um dos personagens símbolo dessa postura anarco-porno dos anos de 1970. Em muitos dos seus roteiros, por trás de muita sacanagem sexual, existiam também sacanagens políticas. Enrabar uma loira peituda, o grande símbolo da cultura americana, era um ato simbólico de enrabar os Estados Unidos. Estávamos em meio à guerra fria. Mas, como todos sabem, os Estados Unidos venceram a guerra. E a grande imagem dessa vitória, que é também uma vitória do capitalismo, é a queda do muro de Berlin. No campo da sexualidade, o equivalente pornográfico da hegemonia capitalista e americana é a queda dos pêlos pubianos. Tais quedas representaram o avanço da hegemonia americana e capitalista sobre as práticas políticas cotidianos. Assim como a queda do muro de Berlin representou um golpe nas utopias políticas do século XX, a queda dos pêlos pubianos aparece como o novo símbolo desse controle sobre o corpo e suas práticas.
Se nos anos de 1950 os filmes com a “família feliz” era o sonho dourado que saia dos cinemas e invadia os projetos pessoais, hoje percebemos que os filmes pornôs deixaram de ser lixo cinematográfico e viraram referências para muitas das práticas cotidianas. É curioso perceber que sua influência vai desde seios siliconados, pêlos depilados, práticas, posturas e posições sexuais, até a invasão do imagético cotidiano de todos em termos de relações (afetivas e sexuais) possíveis.

Voltemos então a pergunta de Foucault;
Mas o que há assim de tão perigoso por as pessoas falarem, qual o perigo dos discursos se multiplicarem indefinidamente? Onde é que está o perigo?

No decorrer de sua exposição ele apresenta a hipótese que, segundo ele próprio, era a hipótese que naquele momento norteava seu trabalho:
“suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos que têm por papel exorcizar-lhe os poderes e os perigos, refrear-lhe o acontecimento aleatório, disfarçar a sua pesada, temível materialidade.”

Em seguida temos:
É claro que sabemos, numa sociedade como a nossa, da existência de procedimentos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar também, é o interdito. Temos consciência de que não temos o direito de dizer o que nos apetece, que não podemos falar de tudo em qualquer circunstância, que quem quer que seja, finalmente, não pode falar do que quer que seja. Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: jogo de três tipos de interditos que se cruzam, que se reforçam ou que se compensam, formando uma grelha complexa que está sempre a modificar-se. Basta-me referir que, nos dias que correm, as regiões onde a grelha mais se aperta, onde os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política: longe de ser um elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, é como se o discurso fosse um dos lugares onde estas regiões exercem, de maneira privilegiada, algumas dos seus mais temíveis poderes. Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso — como a psicanálise nos mostrou —, não é simplesmente o que manifesta (ou esconde) o desejo; é também aquilo que é objeto do desejo; e visto que — e isso a história desde sempre o ensinou — o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas é aquilo pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder de que procuramos nos apoderar

Para aqueles que se consideram donos de um de um saber hermético, ostentadores de um saber(-poder), o perigo da multiplicidade dos discursos se encontra no fato dela diluir o poder dos discursos. Não seria um deslocamento ininterrupto do poder e sua posterior ridicularização a melhor maneira de combatê-lo? Contra todos os centros, nos encaminhemos para as bordas; contra toda a coerência, sejamos contraditórios; contra a normalidade, festejemos a anormalidade.
Mas antes que eu esqueça de perguntar: sobre o que falamos e qual o propósito daquilo que falamos? Ou ainda, pelo que lutamos? Se é que lutamos por alguma coisa.
O que se encontra em jogo aqui são as formas de lutas e os lutadores, quem captura e quem é capturado. Vejo na multiplicidade uma possibilidade (não garantida, claro) de confundirmos os lados da luta, de embaralharmos o baralho e deixarmos as cartas na imanência dos acontecimentos (pois não foi isso que sempre aconteceu?). Não seria mais estratégico nos colocarmos, ao menos provisoriamente e como um gatuno dos discursos, para além da dicotomia natureza/cultura e mergulharmos dentro da vastidão de possibilidades que as formas de ser e viver pode tomar? E o campo da sexualidade é uma dessas possibilidades, ou não?
Eu entendo que toda e qualquer forma de sexualidade é um agenciamento. Todas as formas de experiências corporais experimentadas por homens e mulheres foram sempre vividas dentro de um campo de agenciamento da sexualidade. Afinal, quando que homens e mulheres foram simplesmente machos e fêmeas?
Recorre-se ao conceito de natureza para se justificar uma essência sexual perdida, não sei se seguindo por esta linha de raciocínio consigamos avançar no entendimento do que se passa atualmente no campo da sexualidade.
Em termos teóricos, gosto do conceito de territorialização definido por Guattari e Deleuze, que, entre outros aspectos, entende a noção de território como produto de um processo de subjetivação, fruto de “dobras”, dos agenciamentos dos fluxos, dos movimentos de imagem, de som, de palavras, de matérias, de sentimentos que caíram nas malhas de um poder. Neste sentido, não seria prudente nos perguntarmos se a nossa noção de natureza não seria ela já um desses agenciamentos funcionando como um dispositivo de poder? Vejo que muito se fala dela, a natureza, como uma categoria fixa, um território desde sempre constituído, como se houvesse um dentro e um fora, como se houvesse, ou tivesse havido, um momento radiante da natureza e do qual fizemos parte. Não sei e espero está enganado, mas isso me cheira a nostalgia do paraíso perdido, a velha busca religiosa para encontrar o caminho de volta aos braços do pai ou da mãe divinos. Ou ainda o velho discurso sobre a existência do “ópio do povo” figurado em diversos elementos alienantes da realidade, como se houvesse uma “realidade real” e uma “realidade falsa”. Matrix é encantador como peça de arte cinematográfica, mas não existe uma saída da “realidade falsa” e em seguida uma entrada ou volta a uma “realidade real”. Nunca saímos da realidade na qual nos encontramos, podemos sim, estarmos vivendo níveis diferentes de um momento ou época, mas não há um tal “ópio do povo”, ou seja, um momento ou situação no qual nos alienamos para em seguida deixarmos de ser e voltarmos a lucidez da realidade, de fato, a coisa é bem mais complicada: a realidade é o próprio ópio.
Gosto muita dessa fala do Foucault a respeito da noção de identidade e é com ela que termino:
A identidade é apenas um jogo (não um fato determinado), apenas um procedimento para favorecer relações, relações sociais e as relações de prazer sexual que criem novas amizades, então ela é útil. Mas se a identidade se torna o problema mais importante da existência (sexual ou qualquer outra), se as pessoas pensam que elas devem “desvendar” sua “identidade própria” e que esta identidade deva tornar-se a lei, o princípio, o código de sua existência (eu sou assim, sempre fui assim, nasci assim, assim serei para todo sempre), se a questão que se coloca continuamente é: “Isso está de acordo com minha identidade?” (com aquilo que eu sou), então eu penso que fizeram um retorno a uma forma de ética muito próxima à da heterossexualidade tradicional. Se devemos nos posicionar em relação à questão da identidade, temos que partir do fato de que somos seres únicos. Mas as relações que devemos estabelecer conosco mesmos não são relações de identidade (no sentido de já estarem determinada de forma definitiva para todo sempre), elas devem ser antes relações de diferenciação, de criação, de inovação. É muito chato ser sempre o mesmo. Nós não devemos excluir a identidade se é pelo viés desta identidade que as pessoas encontram seu prazer, mas não devemos considerar essa identidade como uma regra ética universal. (Existe sempre a possibilidade de ser outro, de me transformar em outro).


Alexsandro

08/06/2011

Sim, é simples assim

Toda e qualquer experiência de libertação começa ou passa pela experiência do prazer corporal.

Alexsandro

20/11/2010

Casal Alfa

Macho Alfa

O macho alfa é líder de grupo. Não deixa sua autoridade ser comparada, nem questionada. Sua auto-estima não precisa mais da aprovação de outros para se manter. A sua autoconfiança é sua autoconfiança, faz o possível para mantê-la - nem sempre consegue, mas o que já conseguiu não perde. Não é emocionalmente dependente, faz o possível para não ser isso, pois é o sinal de chateação, pieguices e fraqueza. Não olha o mundo com ingenuidade. Estabelece seu próprio ritmo de vida, deliberando sobre cada ação. A melhor companhia para um macho alfa é uma fêmea alfa, é a única que se encontra a sua altura.


Fêmea Alfa

Fêmea Alfa é líder de grupo. A fêmea alfa não considera a clássica tríade de qualidades - beleza, amabilidade, prontidão em servir – ao contrário ela não se constrange ao quebrar esse ou qualquer outro estereótipo, faz de tudo para não se ligar a outras mulheres subservientes. Sem medo, choca, prova ser capaz, e quanto menos ajuda masculina, melhor. É inteligente, doma a vida, se cuida. Não admite fraqueza, dispensa quem não consegue acompanhá-la. Não cede, intimida pelo olhar. Tem gostos difíceis, não cede fácil. A melhor companhia para uma fêmea alfa é um macho alfa, é o único que se encontra a sua altura.


Casal Alfa

Os Alfas andam em dupla: macho e fêmea. O casal alfa tem maior liberdade social - fazem e não estão nem ai para o que pensam deles. O casal alfa faz o que quer - bancam satisfazer suas vontades, assumem suas escolhas, pagam todos os preços. Tem maior controle sobre os recursos, ou seja, se viram, dão um jeito, sobrevivem, se mantém. Conseguem se adaptar ao ambiente e transformá-lo a seu favor. Os alfas se sustentam. O casal alfa não é submisso a nenhum outro membro do grupo. O relacionamento tem grandes chances de dar certo se cada um se mantiver em seus papéis: um de macho e a outra de fêmea.



Alexsandro

01/09/2009

A Mulher Nua de Desmond Morris

Um dos melhores remédios contra a arrogância é a produção de um conhecimento que visa elucidar aquilo que somos e como chegamos a ser o que somos.
No livro "A Mulher Nua", Desmond Morris percorre nossa evolução e apresenta os seres humanos como parte da um imensa brincadeira da natureza. Esta humanidade biológica guarda em suas tentatiivas de adaptação algo de tranqüilizador: não importa o que façamos, nem importa quais são nossos sonhos, o volume da nossa conta bancária nem o quão poderosos possamos nos considerar, no final, somos uma equação "quase" perfeita, uma espécie bem sucedida, um experimento apenas satisfatório da Natureza.


A Mulher Nua ou coisas que você pode saber sobre as mulheres

Existe alguma explicação para o fascínio das loiras?

E a resposta é sim. Uma primeira razão é que os cabelos loiros são mais finos e leves, suaves ao toque, exatamente como o dos... bebês! Vamos lá, a grande maioria dos bebês tem a pele mais clara do que a de seus pais, os olhos mais claros, a pele mais fina, não é? Então podemos imaginar que as loiras passam uma imagem mais infantil do que as morenas, certo? Agora, vamos examinar nossos parceiros masculinos. A natureza, prevenida, achou por bem dotá-los de alguns equipamentos adicionais para garantir que eles cuidassem como deviam dos filhotes da raça. Nesta mochila de viagem biológica está uma reação entusiasmada à simples visão de um bebê macio e fofo. A vulnerabilidade das loiras, artificiais ou não, é simplesmente irresistível para os machos da espécie!

A Mulher Nua ou coisas que você pode saber sobre as mulheres

Por que temos tanto cabelo? Ou, mais especificamente, por que a fêmea humana desenvolveu esta cabeleira? Esta é uma característica que compartilhamos com os galos e com os leões. A farta cabeleira nos distinguia de todos os outros macacos. Ainda mais se a gente imaginar que proporcionalmente aos outros primos símios, nosso corpo quase não tem pêlos. Éramos exóticas e inconfundíveis criaturas com tufos de cabelos ondulando ao vento.
E no caso especifico das mulheres, por que são imberbes, ou seja, sem barbas? Ser imberbe é uma característica dos fetos dos macacos. Adultos são tradicionalmente peludos. Menos nós. Alguns estudiosos acreditam que perdemos os pêlos para poder nadar. E que os longos cabelos das fêmeas humanas eram perfeitos para os bebês humanos agarrarem, sobretudo quando ambos mergulhavam, em busca de comida. Outros dizem ainda que a perda dos pêlos se deu devido ao fato de que a pele nua é mais agradável ao toque em comparação a pele coberta. Além disso, somos seres diurnos e caçávamos durante o dia. Portanto, a outra hipótese para esta falta de pêlos de um lado e excesso de outro é que os cabelos protegiam as cabeças humanas do sol e o corpo despelado ajudava a gente a não sofrer tanto com o calor das savanas da África. Para quem ainda não sabe, nascemos na África, provavelmente todos nós, só depois fomos nos espalhando. E neste caminhar meio que sem eira nem beira dos nossos ancestrais foram adquirindo outras características inusitadas, burilando nossa incipiente humanidade. Humanos dos trópicos, humanos polares, humanos do deserto... Digamos que você fosse um homo sapiens do deserto, filho de uma longa cadeia de outros homo sapiens do deserto. Ao longo dos séculos, você teria adquirido algumas peculiaridades muito úteis, como uma pele mais resistente ao sol ou uma incrível familiaridade com os vizinhos, no caso, os camelos, por exemplo. A meta da Natureza é preservar, é empurrar para o futuro seus rebeldes filhos... era, portanto, fundamental que a gente conseguisse distinguir as criaturas bem adaptadas aos vários ambientes, certo? Pois, então, entra em cena a Natureza e improvisa um pequeno milagre. Sim, daqueles bobinhos e simples, um truque banal, indigno mesmo dos espantosos poderes da Grande Mãe: assinalar estas mudanças com sinais vistosos e de grande efeito: alguém pensou nos cabelos? Acertou... Daí nasceu nossos cabelos escuros e grossos ou fininhos e loiros, ruivos para se destacar nas paisagens desérticas, escuros e lisos para deslizar pela neve.
Mas a gente gostou da brincadeira e resolvemos seguir em frente: penteados, perucas, tintas, presos, soltos, os cabelos femininos, com os cerca de 140 mil fios que crescem uns 13 cm por ano constituem o maior atributo de feminilidade da raça. E são inegavelmente atraentes. Neste sentido, o cabelo longo, esvoaçante, ondulado feito capim na paisagem ensolarada é um atrativo irresistível. Tanto é que em algumas comunidades religiosas, ao longo dos milênios, a prudência mandava escondê-los, como solução infalível para neutralizar o poder erótico da cabeleira selvagem da fêmea humana!

A Mulher Nua ou coisas que você pode saber sobre as mulheres

Bochechas: A ausência de barba é um dos sinais mais visíveis da distinção de gênero entre humanos. Se a mulher nunca chega a ter um rosto peludo é para manter a aparência de criança que precisa de proteção. Segundo o autor, bochechas coradas remetem sinal de virgindade. “A mulher que cora diante de uma comentário de conotação sexual obviamente tem consciência de sua sexuallidade, mas ainda preserva certa ignorância.” Mulheres assim geralmente são jovens: eis por que a maquiagem facial, quase sempre descarrega tons avermelhados na face.

Lábios: Nos animais, os lábios humanos são os únicos curvados para fora. Nossos lábios não são apenas infantís, são embrionários: eles têm a forma de lábios de um feto de chimpanzé de 16 semanas. Caracaterística que se mostra bastante útil pára sugar o leite dos seios também exclusivas da fêmea humana. Num homem adulto, os lábios se tornam um tanto mais esticados e finas; mas na mulher, os lábios se mantêm carnudos e macios…Prontos para serem beijados. A conotação sexual da boca, vem de outros lábios peculiares as fêmeas, os lábios vaginas – que não se chamam lábios à esmo. A semelhança está na forma, textura e coloração, e todos os lábios da mulher agem da mesma forma com excitação sexual: ficam mais túrgidos, mais rubros e sensíveis. As mulheres não tardaram a descobrir essa vantagem e usa-lá a seu favor. (O batom vermelho surgiu no antigo Egito, com as prostitutas sem clientela).

Pescoço: O pescoço feminino e mais longo e delgado que o masculino – em decorrência do torax mais curto das mulheres e da compleição mais musculosa dos homens. De um jeito ou de outro, pescoços esquios sempre foram sinal de feminilidade e sensualidade.

Seios: São 2. E são únicos. Além de produzirem leite para prole, despertam interesse erótico no macho. Coisa que não ocorre em nenhuma outra espécie – após o período de lactação, as tetas das fêmeas simplesmente desaparecem. Nas mulheres, não: as mamas até aumentam quando cheias de leite, mas continuam protuberantes mesmo quando não há nenhum bebê para alimentar. Esses seios são uma artimanha da evolução para estiular a procriação. Seios protuberantes simulam os sinais sexuais emitidos pelas nádegas – algo oportuno para quem assumiu uma postura ereta e é quase sempre vista de frente. O par de seios permite manter a sensualidade emitida pelas nádegas, mesmo sem dar as costas ao interlocutor.

Cintura: A razão de homens serem atraídos por mulheres de cintura fina e tão simples quanto cruel: depois do primeiro parto, essa parte do corpo se expande irremedialvelmente. “Mesmo que ela consiga com um regime alimentar rigoroso, recuperar o corpo esbelto que tinha antes da gravidez, a cintura nunca vai ser tão fina”, afirma Morris. Segundo ele, depois de vários partos a circunferência da cintura da mulher aumenta de 15 a 20 cm. Portanto, uma cintura de pilão dá ao homem a impressão de estar diante de uma fêmea que ainda não desempenhou sua função de reprodutora – o que, em tempos primitivos, significava o mesmo que mulher virgem.

Genitais: Comparada ao aparelho de nosso parentes mais próximos – os símios – a genitália da fêmea humana apresenta uma sensacional evolução: a capacidade de produzir prazer. Usemos como exemplo o coito entre 2 babuínos: o pênis entra e sai em média 6 vezes da vulva, numa performance que não costuma durar mais de 8 segundos. A macaca não tem tempo nem de pensar num orgasmo. Se a coisa é diferente na nossa espécie, isso não se deve apenas à extrema sensibilidade dos tecidos genitais femininos – algumas peculidaridades do pênis humano também ajudam. Macacos não conhecem o que chamamos de ereção: seus orgãos são finos e sustentados por ossos. Já o nosso aparato desossado fica pronto para o uso somente quando a excitação manda para lá um suprimento extra de sangue. Isso alonga o pênis, mas é o aumento do calibre que realmente faz a diferença. A pressão do pênis nas paredes váginais e a sensibilidade de todo o parelho genital. O clímax de tudo isso é o orgasmo.

Nádegas: Dentre todos os animais, os humanos são os únicos dotados de nádegas avantajada. Isso porque também somos os únicos mamíferos a andar sobre 2 patas o tempo todo – os fortes músculos glúteos são essenciais para que possamos adotar essa postura. Em especial nas mulheres, as nádegas exercem também um forte (fortíssimo, gigantesco, colossal…) apelo sexual. A bunda feminina difere da masculina em 3 pontos essenciais: é maior, mais empinada e rebola . Não é preciso dizer o quanto essas qualidade agradam os homens. Não se sabe ao certo por que, mas, segue uma hipótese: como nossos ancestrais andavam quase sempre de 4 e sempre copulavam por trás, os sinais sexuais eram naturalmente emitidos pela reta-guarda feminina. Quando assumimos a postura ereta e desenvolvemos os músculos glúteos, as formas arredondadas das nádegas substituiram esse sinal primitivo. “As mulheres com grandes traseiros enviavam fortes sinais sexuais, e com isso, as nádegas foi crescendo através das gerações”. As mulheres passaram a ter superbundas a ponto de atrapalhar a cópula – o que teria propiciado o nascimento do coito frontal e o surgimento dos seios como sinal sexual alternativo na frente do corpo feminino e, como consequente, aumento dos seios e diminuição das nádegas.

Pernas: A atração dos homens por pernas femininas é tão grande que existem revistas especializadas em atender à demanda por esse tipo de fetiche. A principal razão disso é geométrica: ao olhar os segmentos de pernas, um homem inevitávelmente imagina o vértice, o ponto onde elas se cruzam (fato). “É quase como se, na mente do homem, o par de pernas funcionasse como uma placa que indica o caminho para a ‘terra prometida’”. Pernas longas são particularmente queridas pelo imaginário masculino por serem um sinal de maturidade sexual: nas mulheres adultas os membros inferiores são, em comparação ao tronco, mais compridos que os das crianças.

Pés: Como não precisavam percorrer grandes distâncias atrás de caça na pré-história, as mulheres acabaram dotadas de pés menores que os dos homens – mesmo proporcionalmente ao corpo. Assim, pés pequenos são associados a feminilidade. Esse é o motivo de mulheres de comportamento masculinizado serem chamadas de “sapatão” e é também uma fonte de constrangimento para meninas cujos pés se desenvolvem mais rápido que o resto do corpo. Para terem pés considerados femininos, as mulheres desde sempre tem se submetido a torturas. A mutililação de garotas chineses, que tinham seus pés enfaixados para que parecem de crescer, é só um extremo. Os sapatos estreitos e de salto alto – a elevação do calcanhar faz com que pareça mais curto – estão aí para provar.