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01/09/2013

Apagamento de si

Para muitos a possibilidade de experimentar a liberdade em nome de um proveito próprio é a possibilidade de vivenciar suas relações e seu mundo do modo que desejam. Nada há de errado em pensar assim. A questão se encontra no uso exagerado ou viciante de certas experiências, sobretudo quando confrontado com a impossibilidade de levar as últimas consequências o sonho de liberdade. O uso excessivo da sensorialidade é um destes casos. Assistimos cada vez mais que o número de experiências banais cresceu enquanto diminuía o número das experiências que requerem um grau de compromisso maior, e, paralelo a esse fato, testemunhamos o aumento do uso de atividades sensoriais intensas como um mecanismo que visa a extirpação de angústias. Sendo o resultado posterior justamente o agravamento daquilo que se tentava eliminar quando sonhávamos com a liberdade: aumento das experiências frustrantes e desestabilidade emocional, solidão e empobrecimento das relações.
Em um mundo que fez dos corpos despersonalizados sua imagem emblemática, ou, caso se deseje dizer a mesma coisa de outra forma, que fez de partes do corpo (bunda, peito, rosto, perna, pênis, barriga) seus objetos emblemáticos, sendo estas partes sem personalidade (despersonalização), ou, o que também não ajuda muito, uma personalidade para cada parte do corpo (fragmentação), podemos testemunhar uma lista significativa de contradições que se somam para forma um mosaico peculiar das experiências que são vividas por boa parte das pessoas.
Uma destas contradições típicas do nosso momento histórico é o fato de que expomos nossas vidas na Internet, onde tudo pode ser exposto, mas tememos viver intimidades e construir vínculos com os outros. Outra é a contradição que existe entre a imagem pública e a experiência privada. Geralmente a primeira é exposta como uma experiência bem-sucedida e a segunda como experiência da solidão e isolamento ou de relações de péssima qualidade.
O problema pode se agravar quando se percebe o quão difícil ou mesmo impossível é mudar o mundo no qual se vive. O uso de certas atividades, dos mais variados tipos, funciona como atividades masturbatórias direcionadas para aliviar a angústia daí decorrente. No exercício de anestesimento de si em relações masturbatórias e sensoriais sem qualquer significado emocional, tenta-se afastar para longe os riscos, sempre próximos na experiência atual, da despersonalização e fragmentação, em suma, do apagamento de si mesmo.

24/08/2012

Criticamente

Pode ser muito mais perigoso quando os governos e, sobretudo, as sociedades não desenvolvem a capacidade de pensar criticamente a respeito dos fatos e do mundo a sua volta. A citação abaixo, escrita por Carl Sagan, nos adverte muito bem desse fato.

"Algumas vítimas de câncer, perturbadas, fazem peregrinações às Filipinas, onde “cirurgiões mediúnicos”, depois de esconder na palma da mão pedaços de fígado de galinha ou coração de bode, fingem tocar nas entranhas do paciente e retirar o tecido doente, que é então triunfantemente exibido. Certos líderes de democracias ocidentais consultam regularmente astrólogos e místicos antes de tomar decisões de Estado. Sob a pressão pública por resultados, a polícia, às voltas com um assassinato não solucionado ou um corpo desaparecido, consulta “especialistas” de ESP (percepção extra-sensorial) (que nunca adivinham nada além do esperado pelo senso comum, mas a polícia, dizem os ESPs, continua a chamá-los). Anuncia-se a previsão de uma divergência com nações adversárias, e a CIA, estimulada pelo Congresso, gasta dinheiro dos impostos para descobrir se podemos localizar submarinos nas profundezas do oceano concentrando o pensamento neles. Um “médium” – usando pêndulos sobre mapas e varinhas rabdomânticas em aviões – finge descobrir novos depósitos minerais; uma companhia mineira australiana lhe adianta elevada soma de dólares, irrecuperável em caso de fracasso, garantindo-lhe uma participação na exploração do minério em caso de sucesso. Nada é descoberto. Algumas estátuas de Jesus ou murais de Maria ficam manchados de umidade, e milhares de pessoas bondosas se convencem de que testemunharam um milagre."

Alexsandro

20/05/2012

Relações brutais

Não importa o ambiente ou com quem, nós vivemos em um sistema de relações brutais. Como não há valores autênticos, desde sempre ai, o que restou foi a possibilidade de ganhar dinheiro como fundamento de uma vida valorativa. Ou seja, sobreviver é nosso único impulso. Se esse valor é o que comanda, ¿como escolher? ¿Como viver em um mundo no qual cada escolha nossa é uma declaração de ataque ao outro, uma vez que ou somos explorados ou exploramos?
Grande parte das relações que vivemos já parte do princípio de obrigatoriedade. Ou seja, somos obrigados a viver relações que de outra forma não viveríamos não fosse o peso da situação ou da condição na qual nos encontramos. Acordamos todos os dias, trabalhamos, somos exauridos de varias formas - pelo poder público ou pelo poder privado. (Entra em questão a sobrevivência e todo que diz respeito a ela). A partir daí as questões são: ¿Que mais podemos esperar da vida? ¿Somos escravos? ¿Vemos claramente o que nos acontece? ¿Fazemos escolhas ou somos escolhidos? ¿Nossas ações emanam de uma vontade que é realmente nossa? ¿Aquilo que em nosso mundo representa escolha é realmente escolha? ¿Quem sabe o que deseja precisa escolher? ¿Não seria o mundo no qual vivemos que nos faz acreditar que aquele que escolhe é livre? ¿Escolhas programadas são escolhas? ¿Quando é que podemos falar em escolha? ¿Escolha não seria a possibilidade de escolher entre aquilo que estar no programa e aquilo que se encontra fora dele? ¿Há possibilidade de se escolher ou nos agarramos àquilo que podemos e simplesmente nos sentimos aliviados quando temos no que nos segurarmos?

Alexsandro

25/08/2011

O mundo que merecemos

Não importa a qual tema se aplique, a maioria de nós somos um desastre. Caindo no mau gosto da generalização, arrisco dizer que emocionalmente nossa sociedade é por demais infantil. Não somos muito afeito as responsabilidades, não queremos nos comprometer com nada mais do que nossas picuinhas. Queremos aquilo que é cômodo, mesmo que não saibamos o que isso significa. Reina uma espécie de letargia: esperamos milagres ou soluções mágicas vindas sabe-se lá de onde. Culpamos os "outros" ou "eles" pelos os infortúnios da vida. O mal vem sempre do outro lado. Esperamos que "alguém" resolva aquilo que caberia a nós resolver.
É duro ter que constatar, mas temos a nossa volta o mundo que merecemos. Pois se não fizemos o mundo que ai se encontra, pelo menos permitimos que ele continue do jeito que encontramos, e as vezes, até pior.


Alexsandro

05/06/2011

O Diabo é o pop na Indústria Cultural



A indústria cultural, na qual a indústria fonográfica é uma de suas faces, vem preencher a função de unificar elementos da "cultura popular", para em seguida integrá-lo em um sistema cultural mais vasto: o mercado consumidor. Com relação ao Diabo a operação é clara, ele foi extraído da religião (popular ou intelectualizada, pouco importa), e colocado, por exemplo, em disco como tema principal ou secundário das letras de canções, vídeo clips, shows, nome de grupos, etc.
Como isso começou? Após a Segunda Guerra Mundial a população jovem norte-americano aumentou de forma bastante elevada, principalmente devido a expansão econômica daquele país. Entretanto, apesar do progresso industrial, a sociedade norte-americana permaneceu com seus valores moralistas e preconceituosos.
Dentro deste contexto apareceu uma cultura própria dos jovens que refletia uma tendência comportamental que ia de encontro aos valores morais predominantes. Sua maneira de expressão configurou-se principalmente através da musica, fosse individualmente ou em pequenos grupos. Embora estivesse inicialmente fora dos padrões preconizados pela sociedade estabelecida, a cultura jovem de então passou a ser assimilada e comercializada pela indústria cultural – havia ai um amplo mercado consumidor a ser explorado.
É interessante percebermos que mesmo sendo comercializada pela indústria cultural, esta cultura juvenil passou a apresentar críticas das mais veementes à sociedade, sobretudo negando seus valores, numa tentativa de criar e vivenciar um estilo alternativo e coletivo de vida, de tal forma que fosse contra o consumismo, a industrialização indiscriminada, o preconceito racial, as guerras, etc. A reação desta juventude mais crítica e politizada, ainda que até então sustentada e explorada pela indústria cultural, passou a ser conhecida como “contracultura” Parece contraditório, mas mesmo agindo contra a indústria cultural, é através desta que esse movimento se expandiu e se deixou assimilar.
É indiscutível que o rock com seus ritmos acelerados e altissonantes tenha se tornado o símbolo desta contracultura, ou melhor, fonte para contestação e a ruptura da tradição musical do Ocidente, seja erudita, seja popular. A indústria cultural fez do rock uma de suas mercadorias mais valiosa, sendo usado como veículo de novas idéias, valores e sonhos, constituindo uma massa de adeptos informe e diversificada, estabelecendo um intercâmbio por cima das línguas, nacionalidades e raças.
Nos anos 60 o rock dividiu-se numa variedade enorme de estilos e linguagens. Essa multiplicação de estilos - que caracterizou principalmente o início dos anos 70 - pode ser explicada pela própria assimilação da indústria fonográfica de quase todos os sons arquitetados no final da década de 60, que foram reciclados a partir de uma tecnologia cada vez mais sofisticada. Destes estilos o progressive rock (rock progressivo) e o heavy metal (metal pesado) foram os dois que marcaram a primeira metade da década de 70. Influenciado pelo acid rock (rock ácido), estilo que procurava através de espaços musicais amplos e abstratos, e do emprego de estranhas sonoridades, reproduzir os aspectos auditivos, os climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica com as drogas - o progressive rock acabou sendo um dos principais responsáveis pela vanguarda musical seguinte, seu apelo procurava fundir o jazz com a música erudita e levando o mais longe possível o desenvolvimento da eletrônica no interior da musica pop (o uso dos sintetizadores são o melhor exemplo).
O heavy metal por sua vez não usava nenhum metal (instrumento de sopro), era feito na base da força das guitarras amplificadas e distorcidas por toneladas de equipamentos. Originário também do acid rock e sofrendo a influência de guitarristas como Jimmy Page, Jeff Beck, Dave Edmunds, Eric Clapton, entre outros, os grupos Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple formam a base que concretizou este estilo.
Os anos de 1970 são marcados por um clima escatológico. O “fim do mundo” nunca esteve tão presente, sobretudo diante da ameaça nuclear e outras convulsões que marcaram aquela década. Foi nesse ambiente que a temática do satanismo, a partir do heavy metal, vai ganhar terreno, refletindo de certo modo as incertezas de uma década que começava. Mas é bom lembrar que a temática já se fazia presente no rock, só para citar um exemplo, a "Sympathy for the Devil", composta por Mick Jagger e que rendeu várias acusações de satanismo à banda Rolling Stones, é do álbum Beggar's Banquet, de 1968. Aconteceu que a partir de então nos shows a temática do Diabo é levada a tona de forma explicita e irreverente. O grupo Black Sabbath ( ou Cerimonia Negra) confessava ser o Diabo o senhor deste mundo. Entendendo o grupo que todos os jovens deveriam entregar suas almas ao Diabo. Em seus shows o conjunto costumava incitar a platéia a fazer um pacto com o ele, o Diabo. Já o grupo AC/DC fazia oferecimento de sangue no palco ao público presente. Um dos mais destacados em suas performances foi Ozzy Osbourne. Diz a revista Rock in Rio, editada em janeiro de 1985, que quando ele subia no palco era saudado como se fosse o próprio Demônio. Acrescenta a publicação: não é de hoje que Ozzy Osbourne é uma figura cultuada e ligada a ritos satânicos. Ele próprio foi fundador e vocalista da banda que era literalmente um rito satânico: Black Sabbath (Ozzi saiu da banda em 1979, seguindo carreira solo, a reportagem citada faz referência a esta nova fase de sua vida). A mesma publicação confirmou que Ozzy degolava animais no palco. “Hoje ele conseguiu o que queria. É o centro das atenções e o que leva toda a fama. Da mesma maneira que é visado pelo FBI, pela policia e por varias ligas religiosas que acham que durante os seus shows o Demônio é invocado mesmo, animais são sacrificados e mocinhas são violentadas”.
Desde o seu aparecimento o rock sempre teve como companhia a irreverência e, algumas vezes, a permissividade. Com ele a juventude repudiou valores em nome de comportamentos tidos muitas vezes como “modernos” e buscou maneiras novas de expor o que sentiam - começando a declarar de forma explicita o que sentiam em relação ao amor, ao sexo, a política, a guerra, a religião, etc. Assim que, com o advento do heavy metal propriamente, as musicas daí derivadas começam a fazer apologia ao amor livre, a libertação sexual, desde as praticas normais as mais aberrantes, valorizando a conspurcação total do homem, a violência, o abuso moral, etc. Por exemplo, uma de suas propostas visa levar a juventude a praticas sexuais que seriam consideradas vis e pervertidas pela sociedade: pedofilia, necrofilia, zoofilia, homossexualismo, etc. Paul Stanley, um dos integrantes do Kiss, por exemplo, gabava-se de suas proezas eróticas: “Você sabe o que temos recebido ultimamente? Cartas de adolescentes de 16 e 17 anos, com fotos em que aparecem nuas. É surpreendente! É genial! Não há nada como você saber que esta ajudando a juventude da América a se despir”. Os Rolling Stones tem um álbum intitulado “Necrofilia”. Alice Cooper canta uma música intitulada “Ala dos Mortos”, onde ele fala do seu romance com uma mulher morta. Al Jourgenson, vocalista do Ministry ( ou Sacerdócio), se intitulou “buck satan”(animal satânico) – caracterizou-se por enfeitar o palco com crânios e ossos de animais. Quando o grupo “começa o gospel hardcore (em) uma tela no fundo do palco são projetadas imagens de pessoas deformadas , acidentes de carros, todo tipo de barbaridade. Na platéia o mash acelera, cabelos voam nos ombros até encontrar pela frente uma intransponível barreira de seguranças. Os sete caras no palco quase não se mexem. É um espetáculo épico e ao mesmo tempo minimalista, robótico.”(revista Bizz ,dezembro, 1992).
King Diamond, líder do Mercyful Fate, proclamou-se satânista e nos seus shows além da maquiagem uma cruz invertida na testa. Suas letras esgotam a temática satânica. O espetáculo demoníaco não para por ai, se Ozzy mordia morcego de plástico nos anos 80, anos depois o pessoal do death metal levou a coisa mais a serio. Os componentes do Morbid Angel bebem o próprio sangue e Glen Benton, líder do Deicide, traz uma cruz invertida marcada a ferro na testa. “Deicide deu um jeito para se destacar levando ao extremo a mania de ser emissário do Diabo na terra. Suas letras de adoração satânicas conseguiram irritar terroristas, que lançaram uma bomba incendiaria no local em que a banda se apresentou no fim de 92, na Suécia... Benton ainda foi ameaçado de morte por um grupo inglês chamado Milícia Animal, após se vangloriar de torturar animais em uma entrevista ao semanário inglês NME. O Deicide canta e prega o extermínio da humanidade”.(revista Bizz, fevereiro, 1993)
Uma pratica comum entre os grupos de rock com um som mais pesado é colocar nome nas bandas que sugira, se não algo de demoníaco, pelo menos algo que choque ao ser pronunciado. Assim temos: Acid Storm (Tempestade Ácida), Alice in Chains (Alice Acorrentada), Annihilator (Aniquilador), Artillery (Artilharia), Bad Company (Má Companhia), Bad Religion(Má Religião), Blues Brothers (Irmãos Tristes), Brutal Truth (Verdade Brutal), Butthhole Surfers (Surfista do Cú), Death (Morte), Death Angel (Anjo da Morte), Die Toten Hosen (As calças mortas), Exhort (Exaltar), Faith no More (Fé nunca mais), Fear Factory (Fábrica de medo), Fight (Luta), Genocídio, Graveyard Train (Trem do Cemitério), Jesus Jones, Killers (Assassinos), Monstrosity (Monstruosidade), Obituary (Obituário), Sepultura, Slayer (Assassinos), Testament (Testamento, fazendo referência a Biblia), e por ai segue uma infinidade de nomes de grupo cuja proposta musical das letras que cantam vai deste a critica contra qualquer regime político ou contra a morte de crianças na Etiópia até o extermínio da humanidade, enquanto outros falam de namoros desfeitos pelos mais variados motivos, outros cantam falando de relações sexuais, etc. etc.
O processo de reprodução não se limita apenas aos espetáculos, se estende a discos, filmes, clips, roupas e acessórios. O que testemunhamos é que a apropriação de um bem religioso (o Diabo) segue o mesmo caminho das outras mercadorias produzidas por esta mesma empresa. Entretanto, em virtude de sua especificidade, novos elementos devem ser levados em consideração: o Diabo, elemento pertencente ao mundo das coisas sagradas, estando nas mãos de leigos cuja única finalidade é passar um produto, é transferido do mundo sagrado para o do puro espetáculo teatral. Ele que teria valor de culto passa a ter “valor de exposição”.
A noção de valor de exposição leva em consideração a relação da obra com um público consumidor. Esta relação vem gerar uma atitude próxima do conformismo.
Existindo a possibilidade de se consumir algo simplesmente pelo seu caráter de exposição em detrimento de qualquer outra avaliação e recusa a qualquer tipo de pensamento crítico em relação ao que está sendo exposto. No caso do Diabo o que entra em questão não é nem tanto o pensamento, mas o sentimento, este é coisificado, perdendo todo sentido sagrado, passando a ser um produto comercialmente distribuído. Aqui o Diabo não é mais sentido em seu valor de culto, como colocamos, é apreciado apenas em seu aspecto de exposição, o público não é levado a ter uma atitude de “recolhimento” próprio das coisas que é sagrada, mas para um lado totalmente contrário a este, o da diversão. Todo isto faz supor que da parte daquele (um cantor, por exemplo) que se utiliza de algo sagrado (o Diabo) como parte de um espetáculo, existe uma atitude passiva, ele não é invadido e nem se sente envolvido pelo clima de sacralidade que uma figura como o Diabo poderia lhe passar, ele nada mais faz do que consumir e reproduzir de forma profana uma temática religiosa. O que deveria ser uma saída do tempo profano para um novo tempo, nada faz a não ser permanecer num tempo também profano, o(s) indivíduo(s) não se perde(m) perante uma faculdade mística. Já da parte do público, o espetáculo gera uma atitude de conformismo frente ao que estar sendo transmitido.
O crescimento da indústria fonográfica nos últimos anos é indiscutível, assim como de outros aspectos da industria cultural, levando a alteração das relações que o produtor tem com produto do seu trabalho e deste com o público consumido. Por sua vez a história das religiões nos ensina que as manifestações religiosas não desaparecem facilmente, elas sofrem infindáveis processos de reinterpretação que muitas vezes encontram-se camufladas por trás de uma aparência profana. Não se deve esquecer nem deixar de lado a questão que informa que novos tipos de sincretismos entre indústria cultural e religião estão surgindo e que o que presenciamos acontecer com o Diabo acontece com outros aspectos da cultura religiosa.
(Chega a ser cômico perceber como temas religiosos medievais ainda ecoam no mundo “pós-moderno”.)


Alexsandro

12/12/2010

Tudo de ruim que acontece no mundo: "É falta de deus no coração!"


É mentiroso? É falta de deus no coração.
É briguento? É falta de deus no coração.
Acha-se melhor do que os outros? É falta de deus no coração.
Ficou doente? É falta de deus no coração.
Bateu o carro? É falta de deus no coração.
Roubou? É falta de deus no coração.
Ficou triste? É falta de deus no coração.
Não passou nas provas? É falta de deus no coração.
Perdeu o emprego? É falta de deus no coração.
É violento e estúpido e não respeita ninguém? É falta de deus no coração.
Foi preso? É falta de deus no coração.
É traficante? É falta de deus no coração.
É pedófilo? É falta de deus no coração.
Matou? É falta de deus no coração.
É drogado? É falta de deus no coração.
Brigou com o visinho? É falta de deus no coração.
Bateu na mulher? É falta de deus no coração.
É imoral? É falta de deus no coração.


Quando afirmam que o mal do mundo “é falta de deus no coração”, quando afirmam que alguém que cometeu algo ruim o fez porque não tinha um deus no coração, diretamente estão acusando o pensamento ateu de ser mal. Estão afirmando diretamente que o ateísmo é o mal, que os ateus estão propensos à prática do mal mais do que qualquer outra pessoa.
Desculpe ser eu informar, mas pensar assim é pensar de forma preconceituosa.


Alexsandro

02/10/2010

A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A sociedade da decepção é o título de um dos livros de Gilles Lipovetsky e o tema central é o que o próprio título indica: como a decepção se tornou uma das marcas distintiva da nossa experiência.
Abaixo segue uma citação do livro no qual ele surpreende ao afirmar que nos decepcionamos nem tanto por desejamos os bens materiais que os outros possuem e não podemos ter. Superamos essa fase ou estamos em vias de superar, no entanto, ainda continuamos a desejar (ou invejar) bens não-comercializados (aquilo que o dinheiro não compra). "A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável".


"Ao fim e ao cabo, o mau uso dos bens públicos desperta mais indignação do que o uso de bens particulares. Com efeito, de que os consumidores se queixam mais freqüentemente? Dos engarrafamentos de trânsito, das praias superlotadas, do processo de descaracterização da paisagem natural por obra das construtoras de edifícios ou da invasão de turistas, da repugnante promiscuidade nos transportes coletivos, do barulho dos vizinhos, etc. Em outras palavras, o que gera decepção não é tanto a falta de conforto pessoal, mas a desagradável sensação de desconforto público e a constatação do conforto alheio.
Não surpreende, portanto, que seja no âmbito dos serviços, baseado no relacionamento entre as pessoas, que a decepção é mais freqüente. Manifestações de crítica são muito comuns contra o corpo docente das instituições de ensino, contra o mau funcionamento da Internet, contra o despreparo da classe médica...
Mas, em outra perspectiva, entretanto, convém não esquecer que, diferentemente do que ocorria no passado, os elos entre as pessoas e a esfera do consumo estão cada vez mais entranhados. Muito daquilo que compramos, não o fazemos com a finalidade de granjear a estima deste ou daquele, mas sobretudo visando a nós mesmos, isto é, tendo como objetivo aperfeiçoar os nossos meios de comunicação com o semelhante, melhorar o desempenho físico e a saúde do corpo, buscar sensações vibrantes e variadas formas de emoção, vivenciando experiências sensitivas ou estéticas. É nessa acepção que o espírito de consumo em benefício do outro, típico das antigas sociedades de classe, retrocede, dando lugar ao consumo para si. Em resumo, o consumo individualista emocional assume agora a dianteira em relação ao consumismo ostentador de classe. Simultaneamente, a tendência dominante é aceitar com maior naturalidade que outros possuam algo que não temos, porque a atenção de cada indivíduo está hoje mais voltada para a sua própria experiência íntima do que para o desempenho dos demais. Ao contrário dos primórdios da era democrática, que muito contribuiu para a disseminação do sentimento de inveja, na atual fase do hiperindividualismo consumista, muito mais raramente nos deparamos com aquele indivíduo que se dilacera interiormente por falta de poder aquisitivo para comprar o mesmo automóvel de alta qualidade do vizinho. A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável, mas aquela provocada pelos bens materiais diminui."
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23/06/2010

Não tão simples assim

Como a presença de uma cultura estrangeira – filmes, novelas, imprensa - prejudica no desenvolvimento da identidade de uma outra nação?

Devemos entender que a cultura não é estática, ela encontra-se sempre em movimento: invenções dos mais diversos tipos, a difusão espontânea ou forçada de aspectos culturais de uma sociedade para outra, são exemplos dos mecanismos que possibilitam a dinâmica cultural. Há, com certeza, mudanças em todos os sentidos, algumas possibilitam melhoras e outras pioras nas relações sociais. Mas sempre há conflitos, sobretudo em tornos dos interesses envolvidos. E mais, o conceito de identidade não é um conceito fácil de ser trabalhado. Sobre a importância e as implicações do conceito de identidade eu tenho mais perguntas que respostas: será que o que determina um comportamento é a ligação com uma identidade? Quais as implicações dos regulamentos que cada identidade traz na construção das relações? Será que aquilo que dá sentido ao que somos se encontra vinculado a obediência a um conjunto de códigos de um grupo específico, uma ideologia, uma crença, uma política? Será que é a identidade que nos permite viver? Quando paro e tento perceber como as relações estão se apresentando, como as formas de vida estão sendo experimentadas, penso que a maneira como os sujeitos, os grupos e as sociedades organizadas em torno das identidades são mais produtores de desordens do que aqueles sistemas que estão tentando se organizar e se desenvolver fora deste esquema de identificação.


A indústria cultural promove ou prejudica a formação da cultura popular?

Segundo teóricos como Adorno e Horkheimer os produtos advindos da indústria cultural tendem a fetichização e são consumidos porque são considerados um sucesso e não pelo fato de possuírem alguma qualidade estética intrínseca, o que seria ruim. Entretanto, e isso é um ponto delicado dessa teoria, tal forma de pensar pode desaguar em um elitismo tão perigoso quanto aquilo que tenta combater, pois ao comparar a passividade do consumidor à uma atitude reflexiva saída de uma “cultura erudita” eles desconsideram o fato de que essa produção pode e é apropriada em diversos sentidos pelo consumidor.
A arte não tem a função de salvar nada nem ninguém, ela não possui um significado por si, para que ela adquira sentido devemos valorá-la. Sendo assim, gosto de entender a arte como algo que deve ser fonte de vida e de força, não de fraqueza e coisas melosas.
Em tempos no qual a mídia e grande parte dos artistas servem apenas a eles mesmos, o controle das formas de expressão é a melhor maneira de subjugar os sujeitos. Alguém sem informação não consegue pensar para além do pouco que conhece. Quanto mais miserável é o meu mundo, mais limitado eu sou. Tornar-se ao menos um pouco culto é abrir-se para a possibilidade de criação de novas formas de ser e ver o mundo no qual estamos inseridos. Sem isso estamos fadados a uma vida pobre. Muitos precisariam de aulas para compreender a riqueza do que é dito, por exemplo, em um filme como Matrix, que é produto da indústria cultural.
É certo que há muitos interesses sacanas, gananciosos e mesquinhos por trás da promoção de uma cultura mercadológica, isso todos sabemos (ou deveríamos saber), entretanto, o maior problema se encontra no fato de que com ela nossas medidas de comparação ficaram embaralhadas, ou seja, estamos confundindo aquilo que possibilita vida com aquilo que nos deixa satisfeitos (numa espécie de satisfação efervescente e refrescante). Mas o problema é muito maior, tem a ver com a forma como o capital está consumindo nossas vidas. Numa sociedade como a nossa, na qual a maioria das pessoas vive como escravos em trabalhos desconfortáveis e sem significado algum além do salário, em função rotineiras e cansativas, tendo que refazer isso durante a semana, o mês, o ano inteiro, em média oito horas por dia, não vai fazer tudo isso com prazer e alegria. E mesmo que o salário seja bom ele não ameniza o sofrimento dessa rotina. Pessoas que se encontram numa situação assim, quando param para descansar ou relaxam procuram um entretenimento fácil. Infelizmente a grande maioria das pessoas, independentemente da idade, satisfazem-se com coisas idiotas e porcarias fáceis de consumir.


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07/06/2010

Society - Eddie Vedder

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É um mistério para mim
Nós temos uma ambição que concordamos.
Você pensa que tem que ter mais do que precisa.
Até você ter isso tudo não estará livre ainda.

Sociedade, sua raça louca.
Espero que você não fique só sem mim.

Quando você quer mais do que possui,
Você pensa que precisa.
E quando você pensa mais do que você quer
Seus pensamentos começam a sangrar.
Acho que preciso encontrar um lugar maior.
Pois quando você tem mais do que pensa.
Você precisa de mais espaço.

Sociedade, essa raça louca.
Espero que você não esteja tão só sem mim.
Sociedade, realmente loucos.
Espero que você não esteja tão só sem mim

Existem aqueles que pensam que mais é menos, menos é mais
Mas se menos é mais, como você pode continuar pontuando?
Significa que cada ponto que você marca sua pontuação cai
É como começar do topo
Você não pode fazer isso...

Sociedade, essa raça louca.
Espero que você não esteja tão só sem mim.
Sociedade, realmente loucos.
Espero que você não esteja tão só sem mim

Sociedade, tenha pena de mim
Espero que não fique com raiva se eu não concordar...
Sociedade, realmente loucos.
Espero que você não esteja tão só sem mim


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11/04/2010

Para que serve uma teoria


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Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante... É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. E curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica. E o poder que por natureza opera totalizações e você diz exatamente que a teoria por natureza é contra o poder. Desde que uma teoria penetra em determinado ponto, ela se choca com a impossibilidade de ter a menor conseqüência prática sem que se produza uma explosão, se necessário em um ponto totalmente diferente. Por este motivo a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou a reforma é elaborada por pessoas que se pretendem representativas e que têm como ocupação falar pelos outros, em nome dos outros, e é uma reorganização do poder, uma distribuição de poder que se acompanha de uma repressão crescente. Ou é uma reforma reivindicada, exigida por aqueles a que ela diz respeito, e aí deixa de ser uma reforma, é uma ação revolucionária que por seu caráter parcial está decidida a colocar em questão a totalidade do poder e de sua hierarquia.

Deleuze

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19/03/2010

Não sabemos o que fazer com o mal e com a violência


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O que fazer com a violência? De onde vem tanto mal? São duas das questões mais importantes com a qual nos deparamos ultimamente. Sua importância cresce quando nos damos conta que não temos uma resposta satisfatória para nenhuma das duas.
Nosso ritmo de vida é instável, intranqüilo, inseguro, desconfortável, estamos a ponto de desmoronar. Acontecimentos traumáticos passaram a ser a regra. Tranqüilidade é uma exceção. Como chegamos a este estado de coisas? Como deixamos florescer uma sociedade pontilhada por tantas relações perversas?
Vivemos uma época contra-utópica. Nossos sonhos e projetos individuais são uma demonstração clara do nosso fracasso enquanto coletividade. Não sabemos conceber a vida para além das paredes de nossas casas (para os que têm casa). Usamos como desculpas para apaziguar nossa angústia séries e mais séries de conquistas tecnológicas. Festejamos tais conquistas como uma vantagem do nosso ímpeto insaciável e sempre a procura de mais. Não percebemos que o que acontece de fato é uma impossibilidade de nos encontrarmos satisfeitos, que perdemos completamente qualquer noção de limite, seja ele ético, moral, econômico, político ou estético.
Repito, somos a contra-utopia de uma sociedade vivida coletivamente. A prova é o florescimento da sociedade de consumo, do consumidor e seus desejos irrealizáveis. Nós nos encontramos em um tipo de sociedade que nos promete de tudo, mas, que ao mesmo tempo, tudo nos nega, sobretudo se não formos consumidores vorazes.
Nosso estilo de vida foi em parte construído tendo como um dos seus pilares a esperança no futuro. Assistimos, talvez, ao fim desse sonho quando percebemos que nossa capacidade de imaginar um mundo, não apenas melhor, mas diferente, se tornou uma tarefa imensamente difícil.
A explosão cotidiana de violência, seja nas grandes ou nas pequenas demonstrações, é indicador da nossa atual impossibilidade de construir, nem tanto um futuro, mas um presente que nos seja satisfatório. Não se tem ao certo uma definição e uma clareza do que de fato toda essa explosão de violência significa. Um clima de imprecisão quanto ao seu sentido faz do nosso tempo uma época caracterizada pela ausência de definição do que seria o mal. O vemos, o sentimos, o vivemos, mas não somos capazes de combatê-lo. E essa incapacidade revela nossa fragilidade.
Nossa violência não possui uma contrapartida, não sabemos lutar contra ela, não sabemos como amenizá-la. Ela não se apresenta como um estágio no qual precisamos passar para chegarmos a algo melhor. É uma violência que só leva a mais violência. Não há uma distinção clara e plausível entre os violentos e os não violentos. Testemunhamos um estado de indefinição, de ambigüidades, presentes no cotidiano, de oposições gratuitas, de violências sem direção, que se expressam das mais diversas formas, acabando por criar situações às vezes insuportáveis para alguns ou para muitos.
Alguns constroem abrigos para se proteger do mundo exterior (os condomínios fechados estão virando uma estranha necessidade sob o argumento da segurança) e, do outro lado, aqueles que se encontram a mercê da insegurança e da impossibilidade de ter alternativa, para estes não resta outra saída que a de encarar a realidade que se apresenta. Se em outros momentos os muros foram usados para proteção de todos contra aqueles que vinham de longe, contra os estranhos de outras terras, contra aqueles que falavam línguas estranhas, agora ele protege do estranho que fala a mesmo língua, vive na mesma cidade, talvez coma até o mesmo tipo de comida, vista o mesmo tipo de roupa, freqüente a mesma igreja ou coisa parecida. Somos, vivemos e formamos um mundo de estranhos entre nós. E esse não reconhecimento do outro gera e estabelece relações cínicas, distantes, superficiais, em que uma das prerrogativas principais é não se deixar envolver por esse outro que não se reconhece.
Para conter a onda de perversidade e maldade alguns clamam por mais leis, mais regras sociais, mais força repressiva, mais rigidez no trato com os “desajustados”, os “perigosos”, os “ameaçadores”, os “malvados”. Mas, no limite extremo, precisamos explicar de onde vem tanto mal, ele não pode ser gratuito. Mas aí nossos discursos fracassam. Não temos uma explicação plausível que convença e que indique um caminho que nos proteja de tanto mal. Fracassamos em explicar o mal, fracassamos em lidar com o mal. Fracassamos.
E nesse limite um cenário trágico se esboça: um cenário no qual violência e medo se misturam, se tornam os ingredientes que temperam a existência dos indivíduos. Neste cenário muitos acabam buscando no recolhimento de suas experiências respostas para as questões do mundo e do mal, mergulham, então, no universo do “auto” - auto-inspeção, autoproblematização, auto-realização, auto-monitoramento, auto-avaliação, auto-recuperação, auto-ajuda, etc. O irônico é que ao proceder assim o indivíduo acredita que está realmente determinando sua vida, que está livremente escolhendo, que essa será a melhor opção possível para ele.
Consumo e recolhimento tornam-se as balizas para esse indivíduo. Os seus sonhos passam pela possibilidade de consumir algo. Seu recolhimento significa de fato abster-se do mundo, torna-se, neste sentido, imperceptível, invisível, intocável. Neste clima só cabe a ele esperar que alguma solução para o problema da maldade caia do céu ou de onde quer que seja – o perigo aqui é que este sujeito quase sempre se encontra pronto para aceitar qualquer tipo de solução, até mesmo as mais fascistas e totalitárias.
A questão quanto ao que fazer com a violência e, quem sabe, a resposta sobre como superá-la, só pode advir, só pode ser entendida, só pode ser discutida com a ampliação de nossa compreensão do que ocorre em nossa sociedade e de como ela funciona, e tal tarefa é urgente. Mas não podemos medir o que se passa a partir de uma perspectiva tosca e medíocre. Para aqueles que só vêem “o lado bom” faz-se necessário um alerta: tal otimismo pode ser fruto exatamente de um afastamento do mundo, de um recolhimento frente às questões do mundo. Já para aqueles que não vêem saída, para aqueles que acreditam que estamos próximos do fim, lembro que é preciso estabelecer novas metas, ou mesmo acabar com todas as metas, principalmente aquelas oriundas de uma sociedade que inviabiliza qualquer ação de conjunto, que sufoca qualquer sentido ou perspectiva que não aquelas do mercado e do consumo.

Alexsandro A. Oliveira


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26/01/2010

O valor de todas as coisas (2)

Os depoimentos foram retirados do livro "No Logo", de Naomi Klein:



Em nossas instalações de fabricação, administração e distribuição, temos uma filosofia específica - as câmeras fazem com que as pessoas honestas continuem honestas.
Leo Myers, engenheiro de segurança e sistema de vigilância da Mattel, explicando o uso entusiástico pela empresa de sistemas de vigilância sobre sua força de trabalho global, 1990


Semana sim, semana não, retiro da prateleira o que não acho que seja de qualidade Wal-Mart.
Teresa Staton, gerente da loja Wal-Mart em Cheraw, na Carolina do Sul, sobre a prática da cadeia de censurar revistas com capas provocativas, The Wall Street Journal, 22 de outubro de 1997


Não existe tanta angústia, é apenas consumismo desenfreado.
CEO da MTV Tom Freston, descrevendo o conteúdo da MTV indiana, junho de 1997


É terrível dizer isso, mas com muita freqüencia as roupas mais empolgantes são as das pessoas mais pobres.
Estilista Christian Lacroix na Vogue, abril de 1994


Acordo toda manhã, pulo no chuveiro, olho para o símbolo e ele me sacode para o dia. É para me lembrar a cada dia de como tenho de agir, isto é, 'Just do it'.
Empresário da internet de 24 anos Carmine Colletion sobre sua decisão de tatuar a logo da Nike no seu umbigo, dezembro de 1997




P.S.: Tais depoimentos demonstram como o capitalismo penetrou no mundo e isso me assustam verdadeiramente.


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20/01/2010

A paz do Senhor


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A expressão "A paz do Senhor" é uma frases bastante conhecida. Já a ouvi da boca de muita gente, pessoas que ao pronunciá-la se acreditam cristãs e que encontraram a paz. Se assim é, pergunto, porque essa paz tão propagada, tão anunciada, não se manifesta? Quando penso na idéia de paz penso em algo equilibrado, sereno, confiante, compreensivo. Quando penso em alguém que encontrou a paz, penso em alguém que se dá ao respeito e que respeita, alguém que não precisa provar mais nada para ninguém e que não se preocupa com aquilo que os outros dizem a seu respeito e, muito menos, provoca os outros com seus pensamentos e idéias.
Alguém que encontrou a paz, acredito, não precisa de mais nada ou, ao menos, não carrega o peso da existência da mesma forma que alguém que não a encontrou. O triste é constatar que muitos daqueles que se pronunciam como anunciadores da "paz do Senhor" são na verdade bastantes cruéis e nada promotores da paz.
Não tenho dúvidas de que a paz, seja a do Senhor, para as pessoas religiosas, seja a humana, para as pessoas não religiosas, é algo importante para todos.
Se há diferenças entre a "Paz do Senhor" e a "Paz Humana", elas devem existir em algum lugar onde a serenidade e a compreensão são os juízes, em algum lugar onde podemos nos sentir humanos e aceitos como somos.

Alexsandro


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14/01/2010

Na Natureza Selvagem


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"Na Natureza Selvagem" é um filme dirigido por Sean Penn, baseado no livro homônimo, do jornalista Jon Krakauer, que conta a história verídica de Christopher McCandless, um jovem recém-formado que se aventura pelos Estados Unidos da América até chegar ao inóspito Alasca.
Em 1990, com 22 anos, Christopher McCandless ao terminar a faculdade, doa todo o seu dinheiro a uma instituição de caridade, muda de identidade e parte em busca de uma experiência genuína que transcendesse o materialismo do quotidiano. Abandona, assim, a próspera casa paterna sem que ninguém saiba e vai para a estrada. Vagueia por uma boa parte da América (chegando mesmo ao México) à boleia, a pé, ou até de canoa, arranjando empregos temporários sempre que o dinheiro faltasse pois, Chris acaba por abandonar o seu carro e queimar todo o dinheiro que levava consigo para se sentir mais livre, mas nunca se fixando muito tempo no mesmo local. Desconfiado das relações humanas e influenciado pelas suas leituras, que incluíam Tolstoi e Thoreau, ansiava por chegar ao Alasca, onde poderia estar longe do homem e em comunhão com a natureza selvagem e pura. O que lhe acontece durante este percurso transforma o jovem num símbolo de resistência para inúmeras pessoas. Christopher dá igualmente início a uma aventura que mais tarde viria a encher as páginas dos jornais e que termina com a sua morte no Alasca.

O que significa viver? E vivendo, quais os tipos de escolhas que somos capazes de fazer? Escolher sonhos plastificados, divididos em 16 prestações ou pelo cartão de crédito, empacotados e entregues em casa (que, de fato, não se trata bem de escolha, mas de seguir o padrão) ou encarar o mundo sem dinheiro, sem documento, sem identidade pré-fabricada, na tentativa de entender o que representa a vida para além da mediocridade enlatada e cheirosa das vitrines das lojas e das fachadas das casas? A resposta, claro, já se encontra na pergunta e é disso que trata o filme "Na natureza selvagem". De certa forma "Na natureza selvagem" é um convite à reflexão sobre o significado que assumem tantas coisas que vivemos, queremos e pelas quais muitas vezes sofremos. Alguns podem achar que se trata da história de alguém doente, um louco, um maluco com transtornos de personalidade. Mas ao agirmos assim caímos na armadilha do filme, qual seja, ele é uma crítica a vida moderna, essa mesma vida que possui a mania de diagnosticar e patologisar tudo o que não se enquadra ao padrão corrente da sociedade de consumo e nos mostra uma imagem na qual ficamos pensando se, ao contrário, o louco não somos nós que vivemos vidinhas plastificadas.


Abaixo a música "Guaranteed", de Eddie Vedder, que faz parte da trilha sonora do filme.





Com certeza

Suplicar de joelhos não é o caminho para ser livre
Levantando uma taça vazia, eu pergunto silenciosamente:
Todas as minhas escolhas serão aceitas por uma única pessoa, ou seja, eu?
Então, eu posso respirar...

Eles aumentam os círculos e engolem as pessoas completamente
Passam metade de suas vidas dizendo "boa noite" às esposas que nunca conhecerão
Uma mente cheia de perguntas e um professor em minha alma.
E assim vai...

Não se aproxime ou eu terei de ir
Tal como a gravidade são esses lugares que me puxam
Se existisse alguém que pudesse me manter em casa
Esse alguém seria você...

Todos que encontro pelo caminho, em suas gaiolas compradas,
Possuem opiniões sobre mim e meus devaneios, mas eu não me importo com o que eles pensam, eu sou o que eles nunca pensaram.
Eu tenho minhas indignações, mas sou puro em todos os meus pensamentos.
Eu estou vivo...

Vento em meus cabelos, me sinto parte de todos os lugares.
Por trás da minha existência há uma estrada que está desaparecendo
Tarde da noite eu ouço as arvores, elas estão cantando com os mortos
A carga é pesada...

Deixe isso comigo, assim encontrarei uma maneira de ser.
Considere-me um satélite, sempre em órbita.
Eu conheci todas as regras, mas as regras não me conhecem.
Com certeza...



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24/04/2009

Uma nota necessária sobre a esquizofrenização da sociedade e a depressão

O modo de produção e de reprodução da vida hoje em nossa sociedade, o modelo de vida nela instalado e em funcionamento é, potencialmente, depressivo e causador de depressão. Neste sentido a depressão é algo bem maior do que um problema individual, dessa ou daquela pessoa. Neste sentido a depressão não deve ser vista como um problema pessoal. Deve ser entendida como um vírus, uma bactéria, como uma doença externa ao sujeito, que, sem defesas ou com baixa imunidade, permite que ela se instale em seu corpo.
Há uma espécie de esquizofrenização da sociedade em pleno curso e não enxergar esse processo é se colocar à disposição, a qualquer momento, para a instalação em si de processos depressivos e/ou esquizofrenizantes (cuja distinção aqui não tem importância alguma). Diante desse fato, pode ser que uma pessoa acometida de depressão já não possua - sozinha - condições de se dar conta de que é mais uma vítima (sem vitimismo, sem infantilização, e sem excluir a responsabilidade pessoal pelo gerenciamento ou alienação do gerenciamento de sua própria vida). O fato é que a pessoa com depressão, tende a acreditar que o problema que gerou a depressão foi criado por ela mesma (o que pode só em parte ser verdadeiro, digo isso com o intuito de não excluir as responsabilidades que cada um tem, pelo menos, por deixar instalar a dita cuja em seu corpo).
Uma única pessoa não conseguiria o grande feito de criar o que se conhece hoje por depressão. Tal criação só é possível social e coletivamente, dentro de espirais de produção e de reprodução da vida nos moldes em que pôde escolher para reger esta mesma vida social coletiva. Acontece que a espiral coletiva que nos move e que se encontra sob a égide do capital, do grande e sacro mercado, do salve-se quem puder, do tombo no outro para subir e de procedimentos congêneres, não poderia deixar de produzir venenos psíquicos nocivos à saúde mental. Então, quando se fala em esquizofrenização em curso, é mais ou menos isso: produção em massa de depressivos e esquizofrenicos e um milhão de outras doenças psíquicas. É uma grande máquina de esquizofrenizar e deprimir.
Fala-se comumente que tais problemas decorrem de uma falta de adaptação social, mas, ao contrário, afirmamos que é o excesso de adaptação social (a gosto e/ou a contragosto), o inicio e a causa de tais problemas - só alguém esquizofrenizado consegue se ajustar plenamente ao tipo de sociedade corrente.
Acredito que este tema passa também por uma desconfiança que as pessoas possam ter quanto ao seu próprio poder de poder escolher quem querem ser. O que nos remete ao problema da identidade. Vivemos em um ambiente de identidades esfaceladas e neste sentido, muito mais suscetíveis às investidas esquizofrenizantes e depressivas do capital.
Um primeiro movimento autônomo pode ser a saída das armadilhas do mercado, qual seja, uma critica cética que busque transgredir as leis do mercado, rompendo com a idéia de esquizofrenia e de depressão.