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03/07/2014

Ironia, injustiça e prazer

Ironia é uma palavra cara. E quantas ironias preenchem nossas vidas. Uma delas? O fato da gente não prestar atenção às velhas lições. Lições como a do velho e rabugento Schopenhauer. Afinal não foi ele quem fez uma primorosa relação entre egoísmo e política? Quando que a gente vai aprender que a política é o campo de luta de vontades egoístas? Não é ele que aponta como a deusa do mundo (político) Éris, a deusa da discórdia?
“Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: ‘Tudo para mim e nada para os outros’ é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.”
Como traduzir? Fácil: cada um e todos buscam o melhor para si independentemente do outro (se é bom para mim, então é bom e foda-se o outro). E se a felicidade do outro for um impedimento para a minha, que a dele se acabe. Se a vida dele é um obstáculo para que a minha vida se expanda, que ele morra. Meu bem-estar é tudo e o bem-estar do outro é nada. Expressão máxima do egoísmo.
Se o limite para uma existência melhor, mais prazerosa e agradável é a existência do outro, atos de injustiça serão apenas uma ponte para chegar a margem que se deseja. Ou, no final das contas, injustiça será lida como aquilo que impede que alguém se expanda.
Sim, tentamos criar muitos mecanismos que impeçam o egoísmo de florescer (lei, crenças, valores), mas sempre foi um trabalho de Sísifo.
O único remédio contra a injustiça é renunciar ao prazer. Alguém ai tem disposição para tanto?


Alexsandro



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08/05/2012

Nietzsche e a Morte de Deus

Assim afirmou Nietzsche:


Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje!

    (NIETZSCHE. A Gaia Ciência)





Partindo do anuncio de Nietzsche pudemos constatar que após a morte de Deus vimos nascer a religião dos adoradores do bezerro de ouro. Deus está morto e no seu lugar foi colocado o bezerro de ouro. Tal fato não diz mais respeito à teologia, ela não tem mais nada para nos dizer sobre Deus ou sobre nossa relação com ele, trata-se de uma questão moral, e em última instância, ética. Deus como princípio moral praticamente desapareceu da vida diária, por mais que seja invocado. Deus está morto e agora adoram o bezerro de ouro - afinal quase todos os projetos humanos se fixam em como conseguir dinheiro. As aleluias são para o dinheiro. As graças são por sua presença. Amaldiçoado é o dia no qual ele falta.

A morte de Deus é o evento mais emblemático do nosso tempo. Os crentes dirão que o mal que assola o mundo se deve ao fato de termos abandonado Deus. Os ateus dirão que já não era sem tempo, que o mal saiu de Deus. O problema agora é: como encarar uma vida sem Deus? Como encarar a vida no abandono? Como encarar o deserto do real? Como ser um estrangeiro órfão numa terra sem referências?
Bem, de fato não há deserto. Que deus esteja morto não há dúvida. Mas achar que a falta de sua presença nos deixou em um mundo deserto é ainda dar-lhe vida: considerar a realidade desértica é ainda considerar a possibilidade de um paraíso. Mais: na lamentação podemos também estar invocando que Deus volte e isto é extremamente perigoso - é também lhe dar vida. O que assistimos, de fato, é a abertura de um mundo de possibilidades.

Alexsandro

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Observação

"Deus está morto" é talvez uma das frases mais mal interpretadas de toda a filosofia. Entendê-la literalmente, como se Deus pudesse estar fisicamente morto, ou como se fosse uma referência à morte de Jesus Cristo na cruz, ou ainda como uma simples declaração de ateísmo são ideias oriundas de uma análise descontextualizada da frase, que se acha profundamente enraizada na obra nietzscheana. O dito anuncia o fim dos fundamentos transcendentais da existência, de Deus como justificativa e fonte de valoração para o mundo, tanto na civilização quanto na vida das pessoas — segundo o filósofo, mesmo que estas não o queiram admitir. Nietzsche não se coloca como o assassino de Deus, como o tom provocador pode dar a entender: o filósofo enfatiza um acontecimento cultural, e diz "fomos nós que o matamos".

A frase não é nem uma exaltação nem uma lamentação, mas uma constatação a partir da qual Nietzsche traçará o seu projeto filosófico de superar Deus e as dicotomias assentes em preconceitos metafísicos que julgam o nosso mundo — na opinião do filósofo, o único existente — a partir de um outro mundo superior e além deste. A morte de Deus metaforiza o facto de os homens não mais serem capazes de crer numa ordenação cósmica transcendente, o que os levaria a uma rejeição dos valores absolutos e, por fim, à descrença em quaisquer valores. Isso conduziria ao niilismo, que Nietzsche considerava um sintoma de decadência associada ao facto de ainda mantermos uma "sombra", um trono vazio, um lugar reservado ao princípio transcendente agora destruído, que não podemos voltar a ocupar. Para isso ele procurou, com o seu projecto da "transmutação dos valores", reformular os fundamentos dos valores humanos em bases, segundo ele, mais profundas do que as crenças do cristianismo.


Notas para uma redação

Prostitutas e céticos
... excetuando as prostitutas e os céticos, todos se perdem na mentira porque não percebem a equivalência nula das volúpias e das verdades.


Tão vazio quanto os idiotas
Quis suprimir em mim as razões que os homens invocam para existir e para agir. Quis tornar-me indizivelmente normal - e eis-me aqui, no embrutecimento, no mesmo plano que os idiotas e tão vazio como eles.


Eu sou caos
Todo homem esconde em si uma possibilidade de apocalipse, mas todo homem sujeita-se a nivelar seus próprios abismos. Se cada um desse livre curso à sua solidão, Deus deveria recriar este mundo, cuja existência depende inteiramente de nossa educação e deste medo que temos de nós mesmos... - O caos? - É rejeitar tudo o que se aprendeu, é ser você mesmo...


Emile Cioran

04/12/2011

Lição Schopenhauereana

É preferível a solidão a companhia dos idiotas.

É duro lidar com pessoas que não entendem o valor da conquista e preferem a humilhação do suplicar por migalhas.

Há alunos que os professores passam porque são bons alunos, outros por uma razão bem simples, são ruins demais.

A cola do aluno sempre é vantajosa para o professor, ela sempre o ajuda a se livrar de um idiota.


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20/11/2011

Como um morango podre para a torta


Sempre sou questionado sobre minha trajetória acadêmica e como observo o universo universitário e escolar. Bem, por onde começa? Vejamos...
Infelizmente a maioria dos frequentadores (chamo de frequentadores porque muitos não são mais do que isso) das salas de aulas não faz a menor ideia do papel social que os tocam. Não tenho certeza, mas parto do pressuposto que para que alguém possa ser chamado de acadêmico alguns predicados essa pessoa deveria apresentar:

1. Certo esclarecimento e consciência a respeito do papel social do curso que pretendeu fazer;
2. Um pouco de disciplina monástica para ser gasta em sala e nos seus estudos extraclasse;
3. Interesse por aquilo que decidiu aprender, afinal ele decidiu aprender algo sobre algo;
4. Esclarecimento sobre o universo profissional do qual pretende fazer parte, e;
5. Paciência.

Infelizmente, viver tudo isso não é para todos. Muitos são idiotas "eletronizados", cujo cérebro ficou emergido durante algum tempo em uma panela com vinagre. Uma pandilha de gente sem um pingo de educação que tratam a aula como balada regada a música ruim.
Não, muitos não são pessoas ruins, pelo contrário. Mas são engolidos pelo hálito fedorento da mediocridade que exala um tsunami de babaquices que inunda de barulho o universo que deveria ressoar com ecos de ciências e filosofias.
Criatividade, maluquice genial, rebeldia ativa, força de vida que provoca vontade de pensar o diferente ou o que ai está? Não, nada disso é visível entre os frequentadores. Só dor, afinal eles frequentam a dor - frequentador(es). Muitos nem sabem, mas estão construindo para si um fim que só pode ser melancólico: passar o resta da vida falando mal do curso que frequentaram, com o agravante de não saberem do que estão falando.
Algumas vezes quando a coisa começa a funcionar, chega o morango podre da torta. Estão mais preocupados em bater papo em voz alta e mandar mensagens via celular do que ouvir o que está sendo discutido na sala. O pior é que tem gente que acha que é bonito ser idiota. Pena que não exista um programa tipo fotoshop para cérebros. Eu sei que é feio chutar cachorro morto, mas existem coisas que são indefensáveis e um pouco de honestidade intelectual faz muita falta.
Do lado dos professores há muitos que parecem que foram alimentados com suquinho de merda e bolacha de dejetos radioativos. Fazem das aulas um teatro para piadas que só servem para matar o tempo e frases de autoajuda que não deveriam ser pronunciadas no espaço na academia, a não ser que fossem para serem ridicularizadas.
A conclusão? Qualquer um que tenha esperança em um futuro grandioso para humanidade é porque nunca frequentou uma sala de aula, se o fizesse cortaria os pulsos com uma faca de açougueiro suja de sangue de boi. O espírito intelectual de muitos frequentadores é tão cheio de vontade de vida quanto um cadáver de frango rodando em um forno.

18/10/2010

As grandes feridas narcisicas

Foram três as grandes “feridas narcísicas” sofridas pela humanidade, segundo Sigmund Freud. A primeira, a perda de nossa ilusão de estarmos no centro do cosmos gerada pelas descobertas de Copérnico e o reconhecimento pleno do heliocentrismo; a segunda, a “degradante” descoberta darwiniana da evolução das espécies, que deu a nosso narcisismo a “má notícia” de que não somos criaturas saídas das mãos de um deus, mas meros descendentes dos primatas, macacos melhorados; e, em terceiro lugar, a própria psicanálise freudiana, que mostrou que “o ego não é rei em sua própria casa” e escancarou o quanto o comportamento humano é guiado mais por impulsos inconscientes e pulsões biológicas do que por princípios racionais.
Mas a ferida narcísica que o proprio Freud inflingiu talvez seja mais profunda do que ele mesmo previu: sua teoria a respeito da religião e das raízes da necessidade psicológica da fé também representam ferimentos severos à auto-imagem de todos os Narcisos que queriam continuar a crer que são os “favoritos da Criação” e que havia um “plano divino” dedicado a construir a felicidade humana… Como diz Freud numa frase inesquecível, dum pessimismo à la Schopenhauer, “somos tentados a pensar que não entrou no plano da ‘Criação’ a idéia de que o homem fosse feliz”…
A Natureza, para um ateu de lucidez tão implacável como era Freud, jamais foi vista através da névoa distorcedora do idealismo ou do antropomorfismo. A Natureza, para o Pai da Psicanálise, evidentemente não é criação de um Deus Onipotente, Bom e Sábio. Não é algo que esteja aí para nos “agradar”, nos deleitar, nos receber calidamente em seu seio. Nem está “do nosso lado”, pronta a atender nossos desejos e preces. Seria uma ilusão humanizá-la, sentimentalizá-la, “encantá-la” e supor nela intenções, desejos, desígnios e vontades. Para Freud, a Natureza, na verdade, é um imenso aglomerado de Forças e Energias que, em sua totalidade, escapa totalmente ao nosso controle. “Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente”, aponta ele, antes de enveredar por exemplos ilustrativos:

“os elementos, parecem escarnecer de qualquer controle humano; a terra, que treme, se escancara e sepulta toda a vida humana e suas obras; a água, que inunda e afoga tudo num torvelinho; as tempestades, que arrastam tudo o que se lhes antepõe; as doenças, que só recentemente identificamos como sendo ataques oriundos de outros organismos, e, finalmente, o penoso enigma da morte, contra o qual remédio algum foi encontrado e provavelmente nunca será. É com essas forças que a natureza se ergue contra nós, majestosa, cruel e inexorável; uma vez mais nos traz à mente nossa fraqueza e desamparo, de que pensávamos ter fugido através do trabalho de civilização.” (O Futuro de Uma Ilusão, pg. 96)

Jacques Lacan, em seu Discurso aos Católicos, sublinhou que o pensamento de Freud, como já começamos a suspeitar, não concebe uma Natureza que possua “desvelos humanistas” ou que seja “sensível” aos sofrimentos e aos prazeres humanos. Ela é indiferente.

“Não, a reflexão de Freud não é humanista. Nada permite aplicar-lhe esse termo” (pg. 34), afirma Lacan. “A realidade física é totalmente inumana. (…) Sabemos o que cabe à terra e ao céu, ambos são vazios de Deus…” (pg. 40) Lacan sugere mesmo que à Freud “a própria dor parece-lhe inútil. Para ele, o mal-estar da civilização resume-se nisto: tanto sofrimento para um resultado cujas estruturas terminais são antes agravantes…” (pg. 34) [LACAN, O Triunfo da Religião, precedido de Discurso Aos Católicos. RJ: Jorge Zahar, 2005.]

Não importa o quanto a Civilização avance, pois, com seu séquito de novos conhecimentos científicos e novas tecnologias; a Natureza “inumana” está sempre presente como um poder superior e ameaçador, desencadeando tempestades, terremotos, tsunamis e chuvas de cometa capazes de, por vezes, reduzir à pó milênios de árduo trabalho humano ou mesmo extinguindo espécies inteiras de animais. Descobrir-se em meio a um mundo natural tão hostil certamente gera tormentos psíquicos e crises de valor, como Freud aponta: “A auto-estima do homem, seriamente ameaçada, exige consolação; a vida e o universo devem ser despidos de seus terrores; ademais, sua curiosidade pede uma resposta.” (O Futuro de Uma Ilusão, Os Pensadores, pg. 96)

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07/07/2010

Três lições copernicanas

Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo polonês,
conhecido pela teoria heliocêntrica que havia sido descrita
por Aristarco de Samos, segundo a qual o Sol se encontrava
no centro do Universo e a Terra girava em torno deste.


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Parece fácil afirmar hoje que o Sol está no centro do Sistema Solar e que os planetas giram à sua volta em órbitas elípticas. Como poderíamos pensar diferentemente, visto que este é o arranjo mais óbvio de nossa vizinhança cósmica? Na verdade a coisa não é bem assim. O que vemos é o Sol girar em torno da Terra e não o oposto. Afinal, não é o sol que nasce no leste e se põe no oeste? Fazer a Terra girar em torno do Sol é, no mínimo, contra-intuitivo. Não é à toa que apenas em 1543, com a publicação do livro de Nicolau Copérnico, onde ele descreve o Sistema Solar com o Sol no centro, é que começou – lentamente – a ficar claro que nem sempre o que vemos ou percebemos do mundo é o que corresponde à realidade. Estranha essa idéia de que o arranjo do cosmo pode ser tão distinto daquilo que o bom senso ditaria.

Esta é a primeira lição copernicana: os sentidos podem construir uma realidade falsa se não tiverem a razão ao seu lado.

Por que Copérnico resolveu desafiar dois milênios de sabedoria, baseada na filosofia de Aristóteles? A igreja havia já adotado a descrição aristotélica do cosmo, onde a Terra ocupava o centro, sendo circundada pela Lua, Sol, planetas e estrelas. A parte mais oportuna deste arranjo cósmico para a igreja era a separação que Aristóteles fazia entre o mundo sublunar, onde as mudanças e transformações materiais podiam ocorrer, e o resto do cosmo, onde tudo era eternamente igual. A decadência humana era então associada a mudanças materiais (e carnais) perto da Terra, enquanto a perfeição ficava longe, na morada de Deus. Pôr o sol no centro era destruir este arranjo, pois transformava a Terra em mais um planeta e não no centro de mudanças e transformações. E o Sol, sendo perfeito e eterno não podia pertencer à subesfera da decadência. Para pôr o Sol no centro, era necessário criar uma nova física, em que a Terra e os planetas obedecessem os mesmos princípios. Dois motivos levaram Copérnico a dar esse passo, ambos baseados em um impulso estético. O primeiro, que os movimentos celestes deveriam ser em órbitas circulares e com velocidades constantes. Essa idéia era quase que sagrada, um princípio criado por Platão, o mestre de Aristóteles. Por que o círculo? Pois ele, sendo a figura geométrica mais perfeita, onde todos os pontos são equivalentes, deveria, sem dúvida, ter sido a escolha do Demiurgo, a divindade grega que arquitetou o cosmo e suas estruturas. O segundo princípio estético usado por Copérnico era, claro, o arranjo dos planetas em torno do Sol. Conhecia-se já, na época, o período orbital dos planetas, o tempo que eles demoravam para dar uma volta completa em torno do Sol. Portanto, raciocinou Copérnico, basta arranjá-los em ordem crescente, de modo que Mercúrio, de período mais curto, fique mais perto do Sol e Saturno de período mais longo, fique mais longe (não se conheciam ainda os outros planetas Urano, Netuno e Plutão, invisíveis a olho nu). Com estes princípios estéticos, Copérnico criou um novo arranjo do Sistema Solar, desafiando o pensamento aristotélico, mesmo sem ter qualquer prova de que suas idéias estavam certas.

Esta é a segunda lição copernicana: a inspiração para a ciência muitas vezes é guiada por princípios estéticos.

Mas estética não garante precisão. Apenas através de uma confirmação direta, baseada em medidas e sua análise quantitativa, é que podemos julgar ou não a validade de uma hipótese sobre a natureza, por mais atraente ou elegante que ela seja. A estética é uma sedutora ambígua, fundamental e traiçoeira. Passaram-se mais de 50 anos até que as idéias copernicanas começaram a ser aceitas. Por que toda a demora? Será que os astrônomos da época eram incompetentes? A virada começou com Galileu e Kepler no início do século 17, ambos grandes defensores de Copérnico, por motivos diferentes. A razão foi a falta de confirmação observacional dessas idéias, aliada a um número relativamente pequeno de pessoas trabalhando em astronomia na época. Mais ainda, a posição da igreja e dos luteranos também não ajudava muito. Os seguidores de Copérnico tiveram um trabalho muito maior do o próprio, pois eles tiveram de testar as idéias e aprimorá-las, como foi o caso de Kepler com as órbitas elípticas, que seriam extremamente "feias" para Copérnico.

Esta é a terceira lição copernicana: em ciência, como em qualquer outra atividade criativa, ninguém pode trabalhar sozinho. O conhecimento é como uma corrente em que cada idéia é um elo, uns mais fracos, outros mais fortes, forjados todos pela nossa curiosidade.

Marcelo Gleiser


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11/04/2010

Para que serve uma teoria


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Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver com o significante... É preciso que sirva, é preciso que funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não chegou. Não se refaz uma teoria, fazem-se outras; há outras a serem feitas. E curioso que seja um autor que é considerado um puro intelectual, Proust, que o tenha dito tão claramente: tratem meus livros como óculos dirigidos para fora e se eles não lhes servem, consigam outros, encontrem vocês mesmos seu instrumento, que é forçosamente um instrumento de combate. A teoria não totaliza; a teoria se multiplica e multiplica. E o poder que por natureza opera totalizações e você diz exatamente que a teoria por natureza é contra o poder. Desde que uma teoria penetra em determinado ponto, ela se choca com a impossibilidade de ter a menor conseqüência prática sem que se produza uma explosão, se necessário em um ponto totalmente diferente. Por este motivo a noção de reforma é tão estúpida e hipócrita. Ou a reforma é elaborada por pessoas que se pretendem representativas e que têm como ocupação falar pelos outros, em nome dos outros, e é uma reorganização do poder, uma distribuição de poder que se acompanha de uma repressão crescente. Ou é uma reforma reivindicada, exigida por aqueles a que ela diz respeito, e aí deixa de ser uma reforma, é uma ação revolucionária que por seu caráter parcial está decidida a colocar em questão a totalidade do poder e de sua hierarquia.

Deleuze

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08/04/2010

Pequeno manual de coerência acadêmica

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Se não encontrou nenhum tema do seu interesse, veja se não está no lugar errado e enquanto isso mantenha-se em sua insignificância.

Se não tiver algum domínio sobre os temas tratados, evite comentar sobre o que desconhece, no máximo faça perguntas coerentes buscando esclarecer-se sobre o tema.

Você tem como contribuir para um melhor entendimento do tema? Ótimo. Caso contrário, evite falar ou escrever.

Se não for compartilhar nada relevante dentro do tema, fique quieto.

Sempre evite falar aquilo que os outros consideraram como descartável ou perda de tempo.

Nunca faça sermão a respeito de nenhum tema. Nunca.

Evite a todo custo falar coisas sem nexo.

Opiniões são sempre perigosas, procure sempre alguma base teórica para seus comentários. Procure evitar argumentos metafísico e incoerentes, senso comum e clichês.

Não faça os outros perderem tempo com inutilidades.

Não desvirtua o tema.

Pense varias vezes sobre suas opiniões, antes de expressá-las.


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27/03/2010

"Odeio ser ateu"

Muitos preferem os aromas da ilusão ou os doces da imaginação. Mas há aqueles que buscam respostas honestas para aquilo que são e como chegaram a ser o que são. O texto abaixo é um comentário escrito em um forum sobre ateismo. O que chama atenção é a coragem de se colocar diante da vida de maneira digna, digo, sem a necessidade de bengalas.





"Qualquer amigo meu sabe disso:
Odeio ser ateu. ODEIO ODEIO ODEIO.
Eu queria ser qualquer coisa, menos ateu.
Tenho crises existenciais várias vezes por semana, eu não quero morrer, não quero que acabe, mas VAI acabar mais cedo ou mais tarde.
Isso me espanta, me da medo. Não adianta me indicar artigo nenhum, não adianta me falar que minhas ações vão permanecer no mundo.
Eu vou morrer
Meus filhos vão morrer
As pessoas que amo vão morrer
Meus netos vão morrer
E um dia, o sol vai morrer, e a vida na terra vai morrer
Um dia, o universo inteiro vai morrer com morte gelada/big crunch.
Tudo que vai restar será um monte de quark, lepton, ou talvez apenas energia... fotons percorrendo pelo universo escuro e nada mais.
Quando minha vida tinha sentido eu era mais feliz. Podem me falar que o sentido da vida é o sentido que damos a ela... não é a mesma coisa. Estou falando do sentido da existência de tudo, e não da minha vida.
Claro que quando eu era religioso também tinha dúvidas desse tipo... 'por que é que meu Deus permite isso?'
Quando eu era deísta meu 'ego' sobre isso era bom... Deus era só um 'bixo' que deu início a tudo, uma força de balanço. Viviamos, morriamos, e continuava-mos vivendo, seja lá de que modo...
E agora, des de que virei ateu... pqp, é foda >.<
Eu queria acreditar em vida após a morte, queria mesmo...
Quando eu acreditava em papai noel, o natal era mais feliz, mais alegre e mais bonito.
Quando me provaram que papai noel não existe, o continuei gostando do natal... mas perdeu o sentido, a essencia, aquela alegria e mágica.
Quando eu acreditava em vida eterna, a vida era mais feliz, mais acolhedora, mais confortante...
Quando me provaram que ela era apenas um fruto da imaginação resultante do medo da morte dos seres humanos, continuei gostando da vida... mas ela perdeu o sentido, a essencia, aquele conforto de que tudo fazia sentido, aquela mágica...
Triste. "

Sodom
(http://ateus.net/forum/topic/3347-a-vida-com-sentido-seria-melhor/)



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27/02/2010

O doce sabor da ilusão


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Os peritos na cultura da Antiga Grécia dizem que as pessoas naquela altura não viam os pensamentos como pertencendo a elas mesmas. Quando os antigos gregos tinham um pensamento, os entendiam como sendo um deus ou uma deusa a dar uma ordem. Apolo estava dizendo-lhes para serem corajosos. Atena estava dizendo-lhes para se apaixonarem.
Hoje em dia as pessoas ouvem um anúncio de sorvete e correm para comprá-lo, mas agora chamam a isto de livre arbítrio.
Pelo menos os antigos gregos estavam sendo mais honestos ao reconhecerem que eram influenciáveis.


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22/02/2010

Solução

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O ser humano é o único animal marcadamente sem solução. O que significa dizer que somos marcados pela angustia de que sempre há algo errado.

Alexsandro


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11/02/2010

Apontamentos para navegação


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1. O processo de criação começa pela descoberta do que somos capazes de criar.

2. A invenção supera a procura.

3. O impedimento é também uma possibilidade de movimento.

4. Paraíso: não devemos parar nele, pois ele não permanecerá o mesmo por nós, devemos superá-lo para, quem sabe, sempre mantê-lo.

5. Não há doença, há adoecimento.

6. Não há predeterminação.

7. Não devemos nos bastar com nada, não devemos permanecer parado por algo que sabemos que não permanecerá naquele lugar.

8. Tudo começa pelo meio.

9. A colocação de si como referência: não desfigurar o próprio rosto gratuitamente, não se por a usar máscaras que impossibilitem o movimento criador.

10. Mudança: nunca é fácil não ter que ser sempre o mesmo, nunca é fácil permanecer o mesmo. Talvez ai resida a graça das máscaras.

11. A ventura do mundo é o que é.

12. Quantas coisa carregamos inutilmente.

13. Desejamos um controle do mundo que nunca teremos.

14. O mundo é plural: não temos como controlar isso.

15. Somos contradições e não há nada a fazer contra isso, a não ser suportar.

16. Precisamos mesmo de tantas receitas?

17. O valor do envelhecimento: temos que envelhecer; envelhecemos de qualquer forma, vivamos isso com beleza.

18. As justificativas são muros desgraçados; muitas das dúvidas que alimentamos são apenas justificativas para não agirmos.

19. Sim, há coisas grandiosas: aquelas que nos movem para frente com dignidade.

20. Desperdício: o valor que damos às coisas inúteis.

Alexsandro



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24/04/2009

Uma nota necessária sobre a esquizofrenização da sociedade e a depressão

O modo de produção e de reprodução da vida hoje em nossa sociedade, o modelo de vida nela instalado e em funcionamento é, potencialmente, depressivo e causador de depressão. Neste sentido a depressão é algo bem maior do que um problema individual, dessa ou daquela pessoa. Neste sentido a depressão não deve ser vista como um problema pessoal. Deve ser entendida como um vírus, uma bactéria, como uma doença externa ao sujeito, que, sem defesas ou com baixa imunidade, permite que ela se instale em seu corpo.
Há uma espécie de esquizofrenização da sociedade em pleno curso e não enxergar esse processo é se colocar à disposição, a qualquer momento, para a instalação em si de processos depressivos e/ou esquizofrenizantes (cuja distinção aqui não tem importância alguma). Diante desse fato, pode ser que uma pessoa acometida de depressão já não possua - sozinha - condições de se dar conta de que é mais uma vítima (sem vitimismo, sem infantilização, e sem excluir a responsabilidade pessoal pelo gerenciamento ou alienação do gerenciamento de sua própria vida). O fato é que a pessoa com depressão, tende a acreditar que o problema que gerou a depressão foi criado por ela mesma (o que pode só em parte ser verdadeiro, digo isso com o intuito de não excluir as responsabilidades que cada um tem, pelo menos, por deixar instalar a dita cuja em seu corpo).
Uma única pessoa não conseguiria o grande feito de criar o que se conhece hoje por depressão. Tal criação só é possível social e coletivamente, dentro de espirais de produção e de reprodução da vida nos moldes em que pôde escolher para reger esta mesma vida social coletiva. Acontece que a espiral coletiva que nos move e que se encontra sob a égide do capital, do grande e sacro mercado, do salve-se quem puder, do tombo no outro para subir e de procedimentos congêneres, não poderia deixar de produzir venenos psíquicos nocivos à saúde mental. Então, quando se fala em esquizofrenização em curso, é mais ou menos isso: produção em massa de depressivos e esquizofrenicos e um milhão de outras doenças psíquicas. É uma grande máquina de esquizofrenizar e deprimir.
Fala-se comumente que tais problemas decorrem de uma falta de adaptação social, mas, ao contrário, afirmamos que é o excesso de adaptação social (a gosto e/ou a contragosto), o inicio e a causa de tais problemas - só alguém esquizofrenizado consegue se ajustar plenamente ao tipo de sociedade corrente.
Acredito que este tema passa também por uma desconfiança que as pessoas possam ter quanto ao seu próprio poder de poder escolher quem querem ser. O que nos remete ao problema da identidade. Vivemos em um ambiente de identidades esfaceladas e neste sentido, muito mais suscetíveis às investidas esquizofrenizantes e depressivas do capital.
Um primeiro movimento autônomo pode ser a saída das armadilhas do mercado, qual seja, uma critica cética que busque transgredir as leis do mercado, rompendo com a idéia de esquizofrenia e de depressão.

23/04/2009

"Eu não as condeno à morte"

Eu compreendo, também, porque as pessoas sentem minha escrita como uma agressão. Elas sentem que existe nela alguma coisa que as condena à morte. Na realidade, sou bem mais ingênuo do que isso. Eu não as condeno à morte. Simplesmente suponho que já estejam mortas.

Michel Foucault