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11/08/2014

O marketing da salvação e a nossa incapacidade de produzir boas soluções




O tempo das hierarquias ou papeis estáveis e previsíveis, típicos das sociedades pré-modernas, passou. Proclama-se o movimento, o fluido, questionam-se as autoridades. Festeja-se a autonomia e a liberdade como valores absolutos, mesmo que não sejam vividos em sua plenitude. Vivemos o tempo no qual o individuo assumiu o ônus das suas opções, mesmo que não esteja preparado para pagar e assumir a autonomia de sua vida como um fardo sem suporte. Assim, a imagem de homens e mulheres passivos, típicos da visão cosmocêntrica na qual estes mesmos homens e mulheres se viam como partes da criação, amoldando-se as leis (divinas ou naturais) preexistentes, já não satisfaz. Queremos-nos ativos, nos imaginamos senhores de nossos destinos. A nova imagem antropocêntrica tem na autocriação seu mote de direcionamento.
Não chegamos ao tempo atual a partir de movimentos de acontecimentos ideologicamente articulados, mas como resultado de uma evolução histórico-cultural não linear e irreversível. Somos o resultado de processos que romperam com modelos existentes e cujo impacto social denotou saltos qualitativos na dimensão simbólica da existência a ponto de introjetar novos sentidos e significados na realidade vivida por nós. Tamanho foi esse processo que desencadeou uma convulsão nos valores até então estabelecidos. Se se passar em revista o momento atual, uma de suas marcas registradas é, decerto, a crise que implica uma ruptura total com traços culturais que, por exemplo, colocava a solidariedade como um dos fundamentos essenciais da vida social. A ideia de uma identidade construída tendo como referência relações que implicam ou que induziam para o bem de toda a sociedade já não é tão forte (se é que um dia foi). Em vez disso tem-se uma exagerada valorização do individualismo, onde tudo parece convergir para saciar e garantir a realização individual em detrimento do bem social. Estabeleceu-se a tirania da autorrealização. Em contrapartida, e no seu inverso, as questões básicas da sociedade foram relegadas ao nível quase do insignificante. 
É neste contexto que o mercado passa a ser o setor das realizações humanas. Suas leis implacáveis legislam, entretanto, para satisfazer apenas aqueles que possuem poder aquisitivo satisfatório. O distanciamento entre os grupos economicamente definidos só aumenta. A opulência dos mais abastados, o consumo sofisticado das elites e a realização individualista que vivem e promovem como verdade a ser seguida torna insignificantes as questões que dizem respeito aos precários níveis de sobrevivência da maioria. 
(Sem dúvida que questionamentos foram feitos e por meio deles tomou-se consciência de que toda esta precariedade, não apenas econômica, mas, sobretudo ética, na qual a sociedade se encontra submergida.)
E o que dizer sobre o sagrado no cotidiano das sociedades? Um olhar, mesmo que descomprometido ou sem interesse, permite perceber que a amplitude do fenômeno religioso é significativa. Florescem religiões, multiplicam-se feiras místicas, a leitura esotérica ganhou espaço entre os best-sellers, aspectos religiosos são usados em campanhas eleitorais, a televisão põe dentro de casa o padre ou o pastor, atletas fazem suas orações antes das competições em meio ao público, demonstrando assim que as práticas religiosas encontram-se espalhadas por toda sociedade. Mais estes são apenas os aspectos mais palpáveis do fenômeno. Devemos ter claro que a extrema valorização do indivíduo levou-nos a uma série de fenômenos que se caracterizam por ampliarem o desvinculo entre os indivíduos e entre esses e a sociedade - é a corrupção, a guerra, a poluição, os assaltos, o desemprego, as epidemias, a desigualdade social, a competição, a autorrealização (em vez da realização conjunta), etc. A solução para a questão do desvinculo demandaria a mudança em nosso modo de conceber e vida e nosso modo de relacionar-se com os outros e com o mundo. Enfim, soluções que se encontram em um espaço ainda não ocupado pela maioria das pessoas ou cujos significados concorrem com significados produzidos por aqueles que desejam manter tudo como ai se encontra. Para estes mais vale promover supostas soluções e significados que passem pelos produtos e serviços a venda e que foram produzidos em suas fábricas de promessas imediatistas. É assim, o significado e a superação do que ai se encontra são buscados recorrendo às promessas imediatistas de uma vida melhor feitas sob medida para o consumidor. É aqui que religião e mercado se encontram. Uma das mais velhas práticas utilizadas ao longo das épocas para oferecer respostas e soluções para os problemas humanos, a religião, se soma ao mercado, o ambiente que a pouco se estabeleceu como o promotor de todo tipo de solução para qualquer questão humana. Da soma dos dois sai o marketing da salvação.
É isso, para homens e mulheres desejosos de soluções para suas vidas, existe o marketing da salvação, que promete salvação individual em um mundo marcado por manifestações de miséria cujo fim não se percebe a partir de soluções advindas de qualquer daqueles que ocupam postos criados para, de fato, produzirem soluções eficazes e sem engodo e que deveriam ser os promotores reais das necessárias soluções ou não se entende que muitos dos nossos principais problemas, sejam individuais ou coletivos, só serão satisfatoriamente resolvidos com o comprometimento de todos.
Neste contexto o marketing da salvação promove uma estratégia na qual a salvação (solução de qualquer problema humano) passa a ser entendida como a posse e o consumo do sagrado. Em tais práticas não se reflete sobre a significação, a dimensão existencial do gesto ou do objeto sagrado. O que existe é apenas mercadorias descartáveis e tentativas isoladas de, no dia-a-dia, salvar o emprego, evitar a solidão, sarar as doenças e livrar-se daquelas situações que nos colocam em guerra uns com os outros. Desta forma, o próprio sentido da religião, o religare (religamento), fica deformado em meio a tanta luta ou em meio à busca compulsiva de um sentido produzido ao gosto do freguês.
O delicado e o mais revelador da questão é o fato de que apesar de tudo isso é possível ler a esperança lançada no mundo religioso. Seja através do consumo de objetos ou de práticas, o fenômeno revela o desejo presente em mulheres e homens de fazerem o religamento, embora nem tanto com Deus, mas com aqueles com quem dividem a vida. A religião e o mercado, e dentro dos dois as nossas angústias, é prova da nossa luta para refazer os vínculos humanos que foram despedaçados ao longo dos últimos tempos. A religião e o mercado são a prova da nossa incapacidade de produzir boas soluções para um dos nossos principais problemas: como tornar o nosso estar juntos melhor.



Alexsandro



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19/04/2014

O doce sabor do não entender





Vamos fazer um exercício de pensamento... A presença de deuses na história humana deriva de vários fatores, mas dois dos elementos principais para criação de deuses foram e são o medo e a necessidade de sentido para vida (viver para o nada parece estranho), mesmo que este sentido contenha alguma forma de dominação, ou seja, me submeto a algo, mas ganho um sentido para viver. Vamos pensar, por exemplo, o deus judaico-cristão. Quando analisamos seus atributos - Onipotência, Onipresença e Onisciência - percebemos que eles amarram os principais elementos da vida humana, ou seja, eles dão respostas e suportes para o medo e o sentido para vida pois trabalham com uma fórmula perfeito, qual seja, consegue unir poder e saber em uma só criatura – o poder para resolver o problema da morte e o saber que conteria as respostas para o sentido da vida.
Por sua vez pensar a Humanidade através da Evolução deixa para nós o problema de resolver o medo e o sentido da vida.
Nós somos natureza, a natureza se encontra em nós. Fazemos parte dela e ela de todos nós. Assim se move em nós o desejo de nunca se desligar dela. Queremos com ela estar conectados o tempo todo. Só que isso exige muito empenho de todos nós, exige uma potencia de criação tremenda, demanda todo nosso tempo. Viver passa a significar estar vivo e ter de inventar tudo para que a vida ganhe significado, sabendo que qualquer que seja o significado ele será artificial, ficcional e sem justificativa transcendental, sobrando apenas o desejo de querer permanecer na natureza e realizar-se nela e por ela em um exercício de potenciação de si e empoderamento de si constante. Logo, pensar a Humanidade através da Evolução tem muito mais heroísmo humano do que pensá-la por via da Criação. Talvez até mesmo seja por isso que não se deseja que as pessoas conheçam essa história. Pois é bem possível que quanto mais as pessoas tiverem conhecimento de quanto somos capazes de feitos incríveis, talvez mais elas desejem se libertar de seus opressores. (Aqui entra em questão a relação opressor X oprimido que não é uma relação fácil de ser entendida - qualquer um pode fazer parte tanto de um grupo quanto do outro, sem contar o fato de que a opressão pode ser desejada -e sempre é - e se encontrar camuflada nos discursos que, em aparência, são libertadores.)
Para aqueles que foram, que estão e que serão oprimidos (e todos nós corremos o risco) vale ter em mente como é o doce sabor da estupidez do não entender, como bem disse Clarice Lispector:

E era bom. 'Não entender' era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não entender não tinha fronteiras e levara ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Alexsandro


10/03/2014

PARAÍSO E PERFEIÇÃO

O que é perfeito não muda; ou só muda se for para deixar de ser perfeito.
Logo, se existe um paraíso e for perfeito, ele é imutável.*
Aquilo que é imutável, consequentemente, se torna monótono e para a experiência humana** a monotonia poder se tornar uma experiência terrível. 
Logo, se é monótono e é eterno, temos uma monotonia eterna.
E a experiência de uma monotonia eterna para nós humanos é uma contradição se a entendemos como um paraíso, sobretudo pelo fato desta monotonia poder se tornar uma experiência terrível. 
A questão é: como podemos experimentar o paraíso sem que ele se torne uma experiência terrível, o que tiraria dele a definição de paraíso e lhe impingiria a definição de inferno? Talvez a resposta seja não perceber a monotonia. ¿Mas como não perceber a monotonia do paraíso, sua imutabilidade eterna? Pode ser sugerido três possibilidades:
Primeiro: - Existir, perceber a si, mas não perceber o paraíso (existo, estou no paraíso, mas não me percebo estando nele – alienação completa do lugar ou estado de experiência);
Segundo: - Existir, perceber o paraíso, mas não perceber a si; (existo, estou no paraíso, mas não percebo a mim – alienação completa de si mesmo);
Terceiro: - Existir, mas não perceber a si nem o paraíso.

Duas perguntas que valem para as três propostas:
¿Como essas experiências seriam possíveis?
¿Qual o valor de experimentar o paraíso na condição de uma destas possibilidades?


¿Tendo tudo isso em consideração é plausível afirmar que uma experiência de paraíso só nos é possível numa não experiência do paraíso, enfim, se não existirmos? ¿O paraíso é para nós a não existência dele e nossa?


_______________________
* ¿Se não for perfeito pode ser considerado paraíso?

** Pode ser questionada a noção de “experiência humana”, no sentido de se afirmar que o paraíso não seria experimentado a partir da perspectiva ou percepção meramente humana (com tudo que isso possa significar). Aqui caímos no ponto "Segundo" sobre como é possível experimentar o paraíso, que indica que existo, mas já não me percebo como tal ou como antes [Existir, perceber o paraíso, mas não perceber a si; (existo, estou no paraíso, mas não percebo a mim – alienação completa de si mesmo)].

30/06/2011

Jesus e o "traveco"

Usando de liberdade poética segue abaixo uma paráfrase da Bíblia. Mais especificamente do evangelho João, capítulo 8, versículos 1 à 11. Representa uma das passagens mais emblemática da vida de Jesus. Devo esclarecer que a única adaptação que fiz foi trocar a personagem da prostituta por um "travesti".



JESUS, porém, foi para o Monte das Oliveiras.
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha até ele, e, sentando-se, os ensinava.
Os escribas e fariseus trouxeram-lhe um travesti apanhado que foi chupando o pau de um soldado romano.
E, pondo-o no meio, disseram-lhe: Mestre, este homossexual foi apanhado, no próprio ato.
Na lei, Moisés nos ordena que os tais sejam apedrejados. Tu, pois, que dizes?
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.
E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.
E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.
Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e o travesti que estava no meio.
E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que o travesti, disse-lhe: Criança, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ele disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.


05/06/2011

O Diabo é o pop na Indústria Cultural



A indústria cultural, na qual a indústria fonográfica é uma de suas faces, vem preencher a função de unificar elementos da "cultura popular", para em seguida integrá-lo em um sistema cultural mais vasto: o mercado consumidor. Com relação ao Diabo a operação é clara, ele foi extraído da religião (popular ou intelectualizada, pouco importa), e colocado, por exemplo, em disco como tema principal ou secundário das letras de canções, vídeo clips, shows, nome de grupos, etc.
Como isso começou? Após a Segunda Guerra Mundial a população jovem norte-americano aumentou de forma bastante elevada, principalmente devido a expansão econômica daquele país. Entretanto, apesar do progresso industrial, a sociedade norte-americana permaneceu com seus valores moralistas e preconceituosos.
Dentro deste contexto apareceu uma cultura própria dos jovens que refletia uma tendência comportamental que ia de encontro aos valores morais predominantes. Sua maneira de expressão configurou-se principalmente através da musica, fosse individualmente ou em pequenos grupos. Embora estivesse inicialmente fora dos padrões preconizados pela sociedade estabelecida, a cultura jovem de então passou a ser assimilada e comercializada pela indústria cultural – havia ai um amplo mercado consumidor a ser explorado.
É interessante percebermos que mesmo sendo comercializada pela indústria cultural, esta cultura juvenil passou a apresentar críticas das mais veementes à sociedade, sobretudo negando seus valores, numa tentativa de criar e vivenciar um estilo alternativo e coletivo de vida, de tal forma que fosse contra o consumismo, a industrialização indiscriminada, o preconceito racial, as guerras, etc. A reação desta juventude mais crítica e politizada, ainda que até então sustentada e explorada pela indústria cultural, passou a ser conhecida como “contracultura” Parece contraditório, mas mesmo agindo contra a indústria cultural, é através desta que esse movimento se expandiu e se deixou assimilar.
É indiscutível que o rock com seus ritmos acelerados e altissonantes tenha se tornado o símbolo desta contracultura, ou melhor, fonte para contestação e a ruptura da tradição musical do Ocidente, seja erudita, seja popular. A indústria cultural fez do rock uma de suas mercadorias mais valiosa, sendo usado como veículo de novas idéias, valores e sonhos, constituindo uma massa de adeptos informe e diversificada, estabelecendo um intercâmbio por cima das línguas, nacionalidades e raças.
Nos anos 60 o rock dividiu-se numa variedade enorme de estilos e linguagens. Essa multiplicação de estilos - que caracterizou principalmente o início dos anos 70 - pode ser explicada pela própria assimilação da indústria fonográfica de quase todos os sons arquitetados no final da década de 60, que foram reciclados a partir de uma tecnologia cada vez mais sofisticada. Destes estilos o progressive rock (rock progressivo) e o heavy metal (metal pesado) foram os dois que marcaram a primeira metade da década de 70. Influenciado pelo acid rock (rock ácido), estilo que procurava através de espaços musicais amplos e abstratos, e do emprego de estranhas sonoridades, reproduzir os aspectos auditivos, os climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica com as drogas - o progressive rock acabou sendo um dos principais responsáveis pela vanguarda musical seguinte, seu apelo procurava fundir o jazz com a música erudita e levando o mais longe possível o desenvolvimento da eletrônica no interior da musica pop (o uso dos sintetizadores são o melhor exemplo).
O heavy metal por sua vez não usava nenhum metal (instrumento de sopro), era feito na base da força das guitarras amplificadas e distorcidas por toneladas de equipamentos. Originário também do acid rock e sofrendo a influência de guitarristas como Jimmy Page, Jeff Beck, Dave Edmunds, Eric Clapton, entre outros, os grupos Led Zeppelin, Black Sabbath e Deep Purple formam a base que concretizou este estilo.
Os anos de 1970 são marcados por um clima escatológico. O “fim do mundo” nunca esteve tão presente, sobretudo diante da ameaça nuclear e outras convulsões que marcaram aquela década. Foi nesse ambiente que a temática do satanismo, a partir do heavy metal, vai ganhar terreno, refletindo de certo modo as incertezas de uma década que começava. Mas é bom lembrar que a temática já se fazia presente no rock, só para citar um exemplo, a "Sympathy for the Devil", composta por Mick Jagger e que rendeu várias acusações de satanismo à banda Rolling Stones, é do álbum Beggar's Banquet, de 1968. Aconteceu que a partir de então nos shows a temática do Diabo é levada a tona de forma explicita e irreverente. O grupo Black Sabbath ( ou Cerimonia Negra) confessava ser o Diabo o senhor deste mundo. Entendendo o grupo que todos os jovens deveriam entregar suas almas ao Diabo. Em seus shows o conjunto costumava incitar a platéia a fazer um pacto com o ele, o Diabo. Já o grupo AC/DC fazia oferecimento de sangue no palco ao público presente. Um dos mais destacados em suas performances foi Ozzy Osbourne. Diz a revista Rock in Rio, editada em janeiro de 1985, que quando ele subia no palco era saudado como se fosse o próprio Demônio. Acrescenta a publicação: não é de hoje que Ozzy Osbourne é uma figura cultuada e ligada a ritos satânicos. Ele próprio foi fundador e vocalista da banda que era literalmente um rito satânico: Black Sabbath (Ozzi saiu da banda em 1979, seguindo carreira solo, a reportagem citada faz referência a esta nova fase de sua vida). A mesma publicação confirmou que Ozzy degolava animais no palco. “Hoje ele conseguiu o que queria. É o centro das atenções e o que leva toda a fama. Da mesma maneira que é visado pelo FBI, pela policia e por varias ligas religiosas que acham que durante os seus shows o Demônio é invocado mesmo, animais são sacrificados e mocinhas são violentadas”.
Desde o seu aparecimento o rock sempre teve como companhia a irreverência e, algumas vezes, a permissividade. Com ele a juventude repudiou valores em nome de comportamentos tidos muitas vezes como “modernos” e buscou maneiras novas de expor o que sentiam - começando a declarar de forma explicita o que sentiam em relação ao amor, ao sexo, a política, a guerra, a religião, etc. Assim que, com o advento do heavy metal propriamente, as musicas daí derivadas começam a fazer apologia ao amor livre, a libertação sexual, desde as praticas normais as mais aberrantes, valorizando a conspurcação total do homem, a violência, o abuso moral, etc. Por exemplo, uma de suas propostas visa levar a juventude a praticas sexuais que seriam consideradas vis e pervertidas pela sociedade: pedofilia, necrofilia, zoofilia, homossexualismo, etc. Paul Stanley, um dos integrantes do Kiss, por exemplo, gabava-se de suas proezas eróticas: “Você sabe o que temos recebido ultimamente? Cartas de adolescentes de 16 e 17 anos, com fotos em que aparecem nuas. É surpreendente! É genial! Não há nada como você saber que esta ajudando a juventude da América a se despir”. Os Rolling Stones tem um álbum intitulado “Necrofilia”. Alice Cooper canta uma música intitulada “Ala dos Mortos”, onde ele fala do seu romance com uma mulher morta. Al Jourgenson, vocalista do Ministry ( ou Sacerdócio), se intitulou “buck satan”(animal satânico) – caracterizou-se por enfeitar o palco com crânios e ossos de animais. Quando o grupo “começa o gospel hardcore (em) uma tela no fundo do palco são projetadas imagens de pessoas deformadas , acidentes de carros, todo tipo de barbaridade. Na platéia o mash acelera, cabelos voam nos ombros até encontrar pela frente uma intransponível barreira de seguranças. Os sete caras no palco quase não se mexem. É um espetáculo épico e ao mesmo tempo minimalista, robótico.”(revista Bizz ,dezembro, 1992).
King Diamond, líder do Mercyful Fate, proclamou-se satânista e nos seus shows além da maquiagem uma cruz invertida na testa. Suas letras esgotam a temática satânica. O espetáculo demoníaco não para por ai, se Ozzy mordia morcego de plástico nos anos 80, anos depois o pessoal do death metal levou a coisa mais a serio. Os componentes do Morbid Angel bebem o próprio sangue e Glen Benton, líder do Deicide, traz uma cruz invertida marcada a ferro na testa. “Deicide deu um jeito para se destacar levando ao extremo a mania de ser emissário do Diabo na terra. Suas letras de adoração satânicas conseguiram irritar terroristas, que lançaram uma bomba incendiaria no local em que a banda se apresentou no fim de 92, na Suécia... Benton ainda foi ameaçado de morte por um grupo inglês chamado Milícia Animal, após se vangloriar de torturar animais em uma entrevista ao semanário inglês NME. O Deicide canta e prega o extermínio da humanidade”.(revista Bizz, fevereiro, 1993)
Uma pratica comum entre os grupos de rock com um som mais pesado é colocar nome nas bandas que sugira, se não algo de demoníaco, pelo menos algo que choque ao ser pronunciado. Assim temos: Acid Storm (Tempestade Ácida), Alice in Chains (Alice Acorrentada), Annihilator (Aniquilador), Artillery (Artilharia), Bad Company (Má Companhia), Bad Religion(Má Religião), Blues Brothers (Irmãos Tristes), Brutal Truth (Verdade Brutal), Butthhole Surfers (Surfista do Cú), Death (Morte), Death Angel (Anjo da Morte), Die Toten Hosen (As calças mortas), Exhort (Exaltar), Faith no More (Fé nunca mais), Fear Factory (Fábrica de medo), Fight (Luta), Genocídio, Graveyard Train (Trem do Cemitério), Jesus Jones, Killers (Assassinos), Monstrosity (Monstruosidade), Obituary (Obituário), Sepultura, Slayer (Assassinos), Testament (Testamento, fazendo referência a Biblia), e por ai segue uma infinidade de nomes de grupo cuja proposta musical das letras que cantam vai deste a critica contra qualquer regime político ou contra a morte de crianças na Etiópia até o extermínio da humanidade, enquanto outros falam de namoros desfeitos pelos mais variados motivos, outros cantam falando de relações sexuais, etc. etc.
O processo de reprodução não se limita apenas aos espetáculos, se estende a discos, filmes, clips, roupas e acessórios. O que testemunhamos é que a apropriação de um bem religioso (o Diabo) segue o mesmo caminho das outras mercadorias produzidas por esta mesma empresa. Entretanto, em virtude de sua especificidade, novos elementos devem ser levados em consideração: o Diabo, elemento pertencente ao mundo das coisas sagradas, estando nas mãos de leigos cuja única finalidade é passar um produto, é transferido do mundo sagrado para o do puro espetáculo teatral. Ele que teria valor de culto passa a ter “valor de exposição”.
A noção de valor de exposição leva em consideração a relação da obra com um público consumidor. Esta relação vem gerar uma atitude próxima do conformismo.
Existindo a possibilidade de se consumir algo simplesmente pelo seu caráter de exposição em detrimento de qualquer outra avaliação e recusa a qualquer tipo de pensamento crítico em relação ao que está sendo exposto. No caso do Diabo o que entra em questão não é nem tanto o pensamento, mas o sentimento, este é coisificado, perdendo todo sentido sagrado, passando a ser um produto comercialmente distribuído. Aqui o Diabo não é mais sentido em seu valor de culto, como colocamos, é apreciado apenas em seu aspecto de exposição, o público não é levado a ter uma atitude de “recolhimento” próprio das coisas que é sagrada, mas para um lado totalmente contrário a este, o da diversão. Todo isto faz supor que da parte daquele (um cantor, por exemplo) que se utiliza de algo sagrado (o Diabo) como parte de um espetáculo, existe uma atitude passiva, ele não é invadido e nem se sente envolvido pelo clima de sacralidade que uma figura como o Diabo poderia lhe passar, ele nada mais faz do que consumir e reproduzir de forma profana uma temática religiosa. O que deveria ser uma saída do tempo profano para um novo tempo, nada faz a não ser permanecer num tempo também profano, o(s) indivíduo(s) não se perde(m) perante uma faculdade mística. Já da parte do público, o espetáculo gera uma atitude de conformismo frente ao que estar sendo transmitido.
O crescimento da indústria fonográfica nos últimos anos é indiscutível, assim como de outros aspectos da industria cultural, levando a alteração das relações que o produtor tem com produto do seu trabalho e deste com o público consumido. Por sua vez a história das religiões nos ensina que as manifestações religiosas não desaparecem facilmente, elas sofrem infindáveis processos de reinterpretação que muitas vezes encontram-se camufladas por trás de uma aparência profana. Não se deve esquecer nem deixar de lado a questão que informa que novos tipos de sincretismos entre indústria cultural e religião estão surgindo e que o que presenciamos acontecer com o Diabo acontece com outros aspectos da cultura religiosa.
(Chega a ser cômico perceber como temas religiosos medievais ainda ecoam no mundo “pós-moderno”.)


Alexsandro

05/04/2011

O que é o ateísmo?

O ateísmo não é muita coisa. É-se ateu apenas porque deus não existe. Para além desse fato não há nada. Não é uma questão de escolha. Ninguém escolhe acreditar em um carro, em uma uva, em um gato ou no mar. Eles existem e pronto. Deus não existe e pronto. O ateísmo não é uma ciência, muito menos uma filosofia. O ateísmo é praticamente vazio de conteúdo: não tem muito que dizer, assim como ninguém o representa ou fala por ele.




12/12/2010

Virou moda ser ateu

Parece que virou moda ser ateu. Muitas pessoas estão vindo a público para manifestar seu ateísmo ou agnosticismo. Mas o que pensar desse fenômeno? Faltou coragem antes? Por que tantos não fizeram isso antes? Em todo caso há uma observação de Rubem Alves que é interessante:

Houve um tempo em que os descrentes, sem amor a deus e em religião, eram raros. Tão raros que eles mesmos se espantavam com a sua descrença e a escondiam, como se ela fosse uma peste contagiosa.


Há,em todo caso, o perigo das generalizações: achar que todos os ateus são iguais; o que seria o mesmo que achar que todos aqueles que acreditam em um deus são iguais.
Para aqueles que são novos na empreitada, uma diferença básica entre ser ateu ou agnóstico.

O ateísmo nega a existência de um deus, qualquer que seja esse deus. Ele não sente nenhum constrangimento ao afirmar que não existe deuses e que deuses não lhes fazem falta. Não alimenta qualquer tipo de sentimento na crença em um deus, nem amor, nem ódio, afinal, como amar o que não existe ou odiar o que não existe?

O agnosticismo aponta para a impossibilidade de provar a existência - ou não - de Deus. O significado da palavra "agnóstico" é "sem conhecimento". O agnosticismo aponta para a impossibilidade do (re) conhecimento de um deus. O agnosticismo não tem certeza de que existe um deus, mas também ele nunca iria afirmar que não existe um deus. Ou seja, ele não afirma nem nega a existência de um deus.

Tudo de ruim que acontece no mundo: "É falta de deus no coração!"


É mentiroso? É falta de deus no coração.
É briguento? É falta de deus no coração.
Acha-se melhor do que os outros? É falta de deus no coração.
Ficou doente? É falta de deus no coração.
Bateu o carro? É falta de deus no coração.
Roubou? É falta de deus no coração.
Ficou triste? É falta de deus no coração.
Não passou nas provas? É falta de deus no coração.
Perdeu o emprego? É falta de deus no coração.
É violento e estúpido e não respeita ninguém? É falta de deus no coração.
Foi preso? É falta de deus no coração.
É traficante? É falta de deus no coração.
É pedófilo? É falta de deus no coração.
Matou? É falta de deus no coração.
É drogado? É falta de deus no coração.
Brigou com o visinho? É falta de deus no coração.
Bateu na mulher? É falta de deus no coração.
É imoral? É falta de deus no coração.


Quando afirmam que o mal do mundo “é falta de deus no coração”, quando afirmam que alguém que cometeu algo ruim o fez porque não tinha um deus no coração, diretamente estão acusando o pensamento ateu de ser mal. Estão afirmando diretamente que o ateísmo é o mal, que os ateus estão propensos à prática do mal mais do que qualquer outra pessoa.
Desculpe ser eu informar, mas pensar assim é pensar de forma preconceituosa.


Alexsandro

19/11/2010

O que motiva a escolha de uma prática religiosa?

O que levaria, por exemplo, alguém escolher uma prática religiosa como o pentecostalismo? Muitos estudiosos responderam a tal questão tendo em mente que a busca por tais grupos acontecia, sobretudo, por motivos que traziam em suas variáveis a ênfase na formação de redes sociais, onde a troca de bens e serviços fluía entre os membros da congregação. A afiliação a uma igreja possibilitaria as pessoas criarem laços de relações, contatos intergrupais (e até extragrupais) na medida em que existiriam elos que as ligariam conjuntamente. Desta forma os mais predispostos para conversão seriam justamente aqueles para quem a religião possibilitasse não apenas as recompensas extre-terrenas, mas, principalmente, uma sobrevivência social.

Não que discorde totalmente desta forma de perceber o fenômeno religioso nesses tempos que caracterizam o inicio do século XXI. Digo apenas que não é mais suficiente pensar os fenômenos religiosos que atualmente presenciamos com a mesma fundamentação, uma vez que o eclodir de um número cada vez maior de igrejas não representa uma tentativa de volta a coletividade, mas, isso sim, uma acentuação do individualismo. Não representa uma reação contrária aos efeitos da modernidade sobre a sociedade, mas a acentuação de certos fenômenos característico da própria modernidade, motivados sobretudo pelas não realizações das promessas desta mesma modernidade. Não é também uma procura mística, é algo racional. É correto entender que pode haver em certas pessoas a necessidade de experimentarem alguma forma de relação mística com um sobrenatural, mas o que assistimos nessa proliferação de igrejas é outra coisa, diz respeito a uma experiência que tem como base os ímpetos e desejos individuais e consumistas, não a busca de um coletivo de relações geridas por um sistema religioso.


Alexsandro

18/11/2010

Uma nota religiosa

Não devemos nos esquecer que as religiões, os ritos religiosos, os movimentos religiosos, os religiosos, as Igrejas e tudo mais, nunca foram ou são manifestações puras e plenas de um deus. Toda experiência religiosa se passa na imanência da idolatria - a adoração a ídolos, valores, idéias, imagens, concretas ou simbólicas, são expressões dessa experiência.
Na nossa condição de homens e mulheres, vivendo numa realidade material, só podemos experimentar a vivência do sagrado por meio de alguma coisa que seja derivada de uma criação humana, seja esta um objeto ou uma lei moral. O que acontece é que podemos confundir “este algo”, na qual se firma a experiência religiosa, com o próprio “mistério transcendente”. Mas este algo é sempre algo culturalmente estabelecido e que ganha seus significado a partir daquilo que é determinado pelas circunstâncias do momento, da época.
Falamos numa experiência do sagrado por meio de práticas religiosas como sendo a possibilidade de vivência de um mistério que transcende o imanente da experiência humana. Mas isso não acontece como fato, acontece apenas como vontade, como desejo nosso que assim seja. Neste sentido é comum que os agentes religiosos acreditem que os sistemas religiosos funcionem autonomamente, não aceitando com facilidade que no emaranhado da sociedade existam uma serie de funções para esses mesmos sistemas religiosos que dizem respeito não a algo transcendente, mas a reprodução de algo social, que não diz respeito a um mistério, mas que é algo que deriva desta mesma sociedade. A religião (qualquer que seja) é, antes de qualquer coisa, uma tentativa humana de viver o movimento da história acreditando na existência de um mistério que está além, que transcende o profano, mas à frente desta crença se encontra nossa realidade humana e suas instituições.
Alexsandro

26/07/2010

Pastores à beira de um ataque de nervos




Pode parecer que estamos tirando uma com a cara dos pastores evangélicos, mas o pior é que não estamos (pelo menos não dessa vez). A quem o assunto interessar é só fazer uma busca na net e verificar que o assunto é sério e verdadeiro, ou seja, muitos pastores estão surtando. Os motivos apontados são vários:
- descuido com a saúde mental;
- solidão;
- falta de acompanhamento para compartilhar seus problemas;
- ativismo ministerial;
- falta de repouso adequado;
- pressão institucional por resultados em termos de número de membros e ofertas.
Este último ponto acaba sendo o mais que mais provoca problemas. O motivo? O desencontro entre o chamado de Deus e a prática pastoral revelado no conflito interior de ser um homem de Deus, mas que vive sendo cobrado por uma organização (muitas com sentido empresarial) que os afeta com freqüentes cobranças por resultados contábeis: dízimos, ofertas, de batismos, etc. Um dia sonharam servindo a Deus e hoje se vêem como apenas mais um funcionários da OASD - Organização Arrecadadora do Sagrado Dízimo.
A coisa se complica quando os fieis confrontam seus pastores em busca de posturas mais condizentes com o cargo que ocupam, esses se vêem em conflito por serem constrangidos a agirem incoerentemente, ou melhor, de forma oposta aos princípios bíblicos e tendo certeza que os fieis notarão.
Não podemos informar com certeza até que ponto os números a seguir são coerentes, mas se forem a coisa se revela assustadora, sobretudo por saber que essas pessoas são vistas como referência em vários quesitos.
47% dos pastores evangélicos sofrem de transtornos mentais
16% têm depressão
13% Não conseguem dormir normalmente

O quadro que constatamos lendo algumas reportagens na net é o seguinte:
- pastores estressados, a ponto de explodir;
- pastores em tratamento psicológico e psiquiátrico;
- pastores com crises de depressão profunda;
- pastores tendo crises emocionais durante os sermões;
- pastores dependentes de remédios de tarja preta;
- pastores que apresentam tendências suicidas;
- pastores cujas famílias viraram a válvula de escape de seus problemas e se tornam vitimas dos seus ataques físicos e emocionais.


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27/03/2010

"Odeio ser ateu"

Muitos preferem os aromas da ilusão ou os doces da imaginação. Mas há aqueles que buscam respostas honestas para aquilo que são e como chegaram a ser o que são. O texto abaixo é um comentário escrito em um forum sobre ateismo. O que chama atenção é a coragem de se colocar diante da vida de maneira digna, digo, sem a necessidade de bengalas.





"Qualquer amigo meu sabe disso:
Odeio ser ateu. ODEIO ODEIO ODEIO.
Eu queria ser qualquer coisa, menos ateu.
Tenho crises existenciais várias vezes por semana, eu não quero morrer, não quero que acabe, mas VAI acabar mais cedo ou mais tarde.
Isso me espanta, me da medo. Não adianta me indicar artigo nenhum, não adianta me falar que minhas ações vão permanecer no mundo.
Eu vou morrer
Meus filhos vão morrer
As pessoas que amo vão morrer
Meus netos vão morrer
E um dia, o sol vai morrer, e a vida na terra vai morrer
Um dia, o universo inteiro vai morrer com morte gelada/big crunch.
Tudo que vai restar será um monte de quark, lepton, ou talvez apenas energia... fotons percorrendo pelo universo escuro e nada mais.
Quando minha vida tinha sentido eu era mais feliz. Podem me falar que o sentido da vida é o sentido que damos a ela... não é a mesma coisa. Estou falando do sentido da existência de tudo, e não da minha vida.
Claro que quando eu era religioso também tinha dúvidas desse tipo... 'por que é que meu Deus permite isso?'
Quando eu era deísta meu 'ego' sobre isso era bom... Deus era só um 'bixo' que deu início a tudo, uma força de balanço. Viviamos, morriamos, e continuava-mos vivendo, seja lá de que modo...
E agora, des de que virei ateu... pqp, é foda >.<
Eu queria acreditar em vida após a morte, queria mesmo...
Quando eu acreditava em papai noel, o natal era mais feliz, mais alegre e mais bonito.
Quando me provaram que papai noel não existe, o continuei gostando do natal... mas perdeu o sentido, a essencia, aquela alegria e mágica.
Quando eu acreditava em vida eterna, a vida era mais feliz, mais acolhedora, mais confortante...
Quando me provaram que ela era apenas um fruto da imaginação resultante do medo da morte dos seres humanos, continuei gostando da vida... mas ela perdeu o sentido, a essencia, aquele conforto de que tudo fazia sentido, aquela mágica...
Triste. "

Sodom
(http://ateus.net/forum/topic/3347-a-vida-com-sentido-seria-melhor/)



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21/03/2010

As palavras não dizem tudo (II) - Quem foi que disse que é só o amor que conhece o que é verdade?

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O Hino à Caridade, presente na Primeira Epístola aos Coríntios (13, 1-8), é uma das passagens do Novo Testamento mais conhecida. Só para citar o exemplo mais conhecido sobre a repercusão desse trecho do Evangelho, temos o poema de Camões (o Soneto 11) que mais recentemente foi adaptado pelos extinto Legião Urbana na música "Monte Castelo'. Lido fora do seu contexto é, sem dúvida, um poema belissimo e uma aula de amor fraternal, celebrado pelo valor da caridade. Entretanto, quando nos reportamos ao contexto no qual ele se insere, percebemos que o discurso da caridade e do amor que ele contém não passam de palavras rancorosas e cheias de veneno, usadas por um homem desejoso de poder e incoformado com suas posição diantes dos outros cristãos com mais notoriedade. Assim vejamos.

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O cristianismo provavelmente teria uma história bem diferente da que nós conhecemos se não tivesse cruzado seu destino um personagem complexo e misterioso. Saulo de Tarso, chamado de Paulo na Cilícia, era ao mesmo tempo judeu e seguidor da corrente dos fariseus, discípulo do grande mestre Gamaliel e cidadão romano desde o nascimento. De início, era um perseguidor convicto dos cristãos, aprovando o apedrejamento do primeiro mártir, Estêvão. Então, foi "iluminado na estrada para Damasco" e se converteu, trilhando uma rápida carreira dentro da incipiente Igreja cristã, até obter o título de "apóstolo". Segundo alguns estudiosos, Paulo foi o inventor do cristianismo, aquele que deturpou os ensinamentos do profeta judeu Jesus e os transformou em uma religião universal. Com certeza, Paulo contribuiu mais do que qualquer outro para a difusão da nova religião, até mesmo entre os não-judeus e no interior das primeiras comunidades cristãs, opondo-se vigorosamente aos judeus-cristãos, ou seja, àqueles que consideravam a observância da lei mosaica requisito fundamental para que alguém se tornasse cristão. No que diz respeito a outros aspectos da doutrina de Paulo, é possível examinar o hino à caridade, talvez sua passagem mais conhecida, que diz:

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade, eu seria como o bronze que soa ou um sino que toca. E ainda que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, que possuísse a plenitude da fé capaz de mover montanhas, se não tivesse caridade, eu nada seria. E ainda que distribuísse toda minha fortuna e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse a caridade, nada disso me adiantaria. A caridade é paciente, é benigna a caridade; a caridade não é invejosa, não se vangloria, não tem soberba, não falta com o respeito, não busca seus interesses, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, e sim se rejubila com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais passará. Quanto às profecias, desaparecerão. Quanto às línguas, cessarão. Quantoàa ciência, também desaparecerá."

E até um hino desinteressado pode, na verdade, conter segundas intenções. Paulo o insere dentro de uma dissertação sobre os "dons do espírito" (ou "carismas"), aos quais dá uma espécie de classificação, deixando em último lugar um misterioso "dom das línguas". O que significaria? Para entendê-lo, devemos voltar um passo atrás. Segundo os Atos, vejamos o que acontece aos apóstolos no dia de Pentecostes, cinqüenta dias depois da Páscoa da ressurreição:

"De repente veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceram-lhes então umas espécies de línguas de fogo, que se repartiram e repousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem."

Não fica claro o que seria exatamente o dom das línguas: nos Atos, é descrito como a capacidade de entender e se expressar em todas as línguas do mundo, mas também como uma fala incompreensível, de "embriagados". Outras passagens do Novo Testamento levam a pensar em um estado de transe, que contemplava a emissão de sons e palavras de significado obscuro. Qualquer que seja a interpretação correta, na época, tal acontecimento era considerado algo extraordinário. Paulo, que não fazia parte do grupo dos primeiros apóstolos, não recebeu o dom. Como escreveu o estudioso Gilberto Pressacco: "Na verdade, Paulo, que buscava e queria um reconhecimento oficial e geral de sua natureza de 'apóstolo', não podia afirmar nem se vangloriar por estar entre aqueles que receberam o Espírito no Pentecostes, os quais se tornaram as pedras vivas que sustentaram o pilar da Igreja primitiva. Ele podia, no máximo, se gabar da experiência vivida na estrada de Damasco, uma revelação solitária, particular e, talvez, dúbia para aquela Igreja que ele por tanto tempo perseguira (as Pseudoclementinas chegam a insinuar que se tratava de uma revelação do diabo, e não de Cristo).
Definitivamente, a hostilidade de Paulo só pode confirmar uma dolorosa sensação de inferioridade em razão da não-participação no acontecimento fundamental da Igreja, no qual fora dado um dom que ele não possuía e que, no entanto, era freqüente entre os primeiros cristãos." Por isso, Paulo exaltava o amor como a maior de todas as virtudes.
(Mais)... ele parecia ter péssimo gênio: durante uma viagem missionária, brigou com o companheiro Barnabé de tal forma que os dois prosseguiram em direções diferentes; Barnabé, por mar até Chipre, e Paulo, por terra, pela Síria e a Cilícia. E nas cartas não faltam alfinetadas nos outros apóstolos. Ele chegou a acusar publicamente de hipocrisia Pedro, o chefe da Igreja.

(Trecho retirado e adaptado de: O livro negro do cristianismo - Dois mil anos de crimes em nome de Deus. Autores: Jacopo Fo, Sergio Tomat e Laura Malucelli)
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- O que temos então? Temos Paulo desvalorizando dons que ele próprio não possuia. O Hino à Caridade é na verdade um hino de intolerância e de falta de respeito para com os outros cristãos, que deveriam ser vistos como irmãos. Que bela lição de amor e caridade! De fato ele estava fazendo exatamente o oposto do que estava pregando!




Abaixo temos o Soneto 11 de Luís de Camões citado acima:


Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É contentamento descontente
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer,
É solitário andar por entre a gente,
É um não contentar-se de contente,
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade,
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com que nos mata lealdade,

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?



A seguir a música “Monte Castelo". Sendo letra e música de Renato Russo. Presentes adaptações de I Coríntios (13, 1-8) e Soneto 11 de Luís de Camões.



Ainda que eu falasse a língua do homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal.
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver.
É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É um não contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata lealdade.
Tão contrario a si é o mesmo amor.

Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.
Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face.

É só o amor, é só o amor.
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse a língua dos homens.
E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria."


Alexsandro A. Oliveira


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20/01/2010

A paz do Senhor


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A expressão "A paz do Senhor" é uma frases bastante conhecida. Já a ouvi da boca de muita gente, pessoas que ao pronunciá-la se acreditam cristãs e que encontraram a paz. Se assim é, pergunto, porque essa paz tão propagada, tão anunciada, não se manifesta? Quando penso na idéia de paz penso em algo equilibrado, sereno, confiante, compreensivo. Quando penso em alguém que encontrou a paz, penso em alguém que se dá ao respeito e que respeita, alguém que não precisa provar mais nada para ninguém e que não se preocupa com aquilo que os outros dizem a seu respeito e, muito menos, provoca os outros com seus pensamentos e idéias.
Alguém que encontrou a paz, acredito, não precisa de mais nada ou, ao menos, não carrega o peso da existência da mesma forma que alguém que não a encontrou. O triste é constatar que muitos daqueles que se pronunciam como anunciadores da "paz do Senhor" são na verdade bastantes cruéis e nada promotores da paz.
Não tenho dúvidas de que a paz, seja a do Senhor, para as pessoas religiosas, seja a humana, para as pessoas não religiosas, é algo importante para todos.
Se há diferenças entre a "Paz do Senhor" e a "Paz Humana", elas devem existir em algum lugar onde a serenidade e a compreensão são os juízes, em algum lugar onde podemos nos sentir humanos e aceitos como somos.

Alexsandro


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27/09/2009

Lilith - Duas pequenas notas sobre a primeira mulher de Adão

Nota 1:
Quem se debruça atentamente sobre o texto do Gênesis para ler o mito hebraico da criação do Homem, há de perceber a presença de duas narrativas distintas.
No capítulo 1 do livro, Deus cria, no "último dia da Criação", o primeiro casal de humanos: homem e mulher são criados juntos, num mesmo momento, da mesma maneira.
No capítulo 2, o homem é criado primeiro, enquanto a mulher só nasce posteriormente, a partir de uma costela do macho.
Alguns estudiosos judeus tentaram explicar a contradição sugerindo que o Gênesis mostra ter havido duas criações: na primeira, Deus criou os seres humanos em geral; na segunda, criou um homem especial, seu predileto, do qual derivou a "raça adâmica" (descendentes de Adão), ou seja, os hebreus.(1)
Mas os historiadores que pesquisam a chamada História Bíblica, preferem identificar nessa incongruência a presença de duas fontes diferentes, que se teriam amalgamado no Livro do Gênesis.
Essa é uma explicação razoável e muito se poderá dizer em seu favor.


Nota 2:
Lilith é referida na Cabala como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo que em uma passagem (Patai81:455f) ela é acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. No folclore popular hebreu medieval, ela é tida como a primeira esposa de Adão, que o abandonou, partindo do Jardim do Éden por causa de uma disputa sobre igualdade dos sexos, chegando depois a ser descrita como um demônio.
De acordo com certas interpretações da criação humana em Gênesis, no Antigo Testamento, reconhecendo que havia sido criada por Deus com a mesma matéria prima, Lilith rebelou-se, recusando-se a ficar sempre em baixo durante as suas relações sexuais. Na modernidade, isso levou a popularização da noção de que Lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.
Assim dizia Lilith: ‘‘Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ Quando reclamou de sua condição a Deus, ele retrucou que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher, dessa forma abandonou o Éden.
Três anjos foram enviados em seu encalço, porém ela se recusou a voltar. Juntou-se aos anjos caídos onde se casou com Samael que tentou Eva ao passo que Lilith Tentou a Adão os fazendo cometer adultério. Desde então o homem foi expulso do paraíso e Lilith tentaria destruir a humanidade, filhos do adultério de Adão com Eva, pois mesmo abandonando seu marido ela não aceitava sua segunda mulher. Ela então perseguiria os homens, principalmente os adúlteros, crianças e recém casados para se vingar.
Após os hebreus terem deixado a Babilônia Lilith perdeu aos poucos sua representatividade e foi limada do velho testamento. Eva é criada no sexto dia, e depois da solidão de Adão ela é criada novamente, sendo a primeira criação referente na verdade a Lilith no Gênesis.