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23/11/2014

A VIDA COMO UM CHUTE NO ESTOMAGO


Como estamos submergidos em sistemas de hierarquias tradicionais acreditamos que o mundo segue ou deve seguir algum plano que conseguimos entender. Como estamos impregnados de uma rotina maçante de burocracia acreditamos que o mundo respeita uma lógica e que essa lógica pode ser administrada por nossa consciência e racionalidade. Enfim, o fato de se acreditar que o mundo vai seguir na direção que desejamos não significa que ele vai. Não vai. O confronto entre aquilo em que se acredita e se deseja e aquilo que acontece sempre causa desconforto. O mundo a nossa volta sempre será maior que as expectativas, esperanças e desejos alimentados. Assim, o fato de se acreditar que o mundo é do jeito que se percebe não significa que ele seja. Deve-se conformar? Não sei. Mas é fato que ele não é e nunca será como se acredita. Basta ver que quando se pensa numa vida ideal geralmente se comete o grande erro de não colocar como a variável mais importante o fato de que a vida nunca segue na direção que se apontou. É, a vida ideal terá sempre como contraponto as transformações do mundo. Na contingência da vida, os acontecimentos não param de surgir. Ou seja, aquele elemento novo, aquele fato inusitado, aquelas escolha não calculado, aquela possibilidade não prevista... sempre virão para nos deslocar de alguma forma. 
E onde se encontra o problema? Na vida? Não. Mas na nossa resistência e na nossa incompetência de buscar outras respostas -- nesse fato se revela a fragilidade da nossa condição.


Alexsandro

19/04/2014

O doce sabor do não entender





Vamos fazer um exercício de pensamento... A presença de deuses na história humana deriva de vários fatores, mas dois dos elementos principais para criação de deuses foram e são o medo e a necessidade de sentido para vida (viver para o nada parece estranho), mesmo que este sentido contenha alguma forma de dominação, ou seja, me submeto a algo, mas ganho um sentido para viver. Vamos pensar, por exemplo, o deus judaico-cristão. Quando analisamos seus atributos - Onipotência, Onipresença e Onisciência - percebemos que eles amarram os principais elementos da vida humana, ou seja, eles dão respostas e suportes para o medo e o sentido para vida pois trabalham com uma fórmula perfeito, qual seja, consegue unir poder e saber em uma só criatura – o poder para resolver o problema da morte e o saber que conteria as respostas para o sentido da vida.
Por sua vez pensar a Humanidade através da Evolução deixa para nós o problema de resolver o medo e o sentido da vida.
Nós somos natureza, a natureza se encontra em nós. Fazemos parte dela e ela de todos nós. Assim se move em nós o desejo de nunca se desligar dela. Queremos com ela estar conectados o tempo todo. Só que isso exige muito empenho de todos nós, exige uma potencia de criação tremenda, demanda todo nosso tempo. Viver passa a significar estar vivo e ter de inventar tudo para que a vida ganhe significado, sabendo que qualquer que seja o significado ele será artificial, ficcional e sem justificativa transcendental, sobrando apenas o desejo de querer permanecer na natureza e realizar-se nela e por ela em um exercício de potenciação de si e empoderamento de si constante. Logo, pensar a Humanidade através da Evolução tem muito mais heroísmo humano do que pensá-la por via da Criação. Talvez até mesmo seja por isso que não se deseja que as pessoas conheçam essa história. Pois é bem possível que quanto mais as pessoas tiverem conhecimento de quanto somos capazes de feitos incríveis, talvez mais elas desejem se libertar de seus opressores. (Aqui entra em questão a relação opressor X oprimido que não é uma relação fácil de ser entendida - qualquer um pode fazer parte tanto de um grupo quanto do outro, sem contar o fato de que a opressão pode ser desejada -e sempre é - e se encontrar camuflada nos discursos que, em aparência, são libertadores.)
Para aqueles que foram, que estão e que serão oprimidos (e todos nós corremos o risco) vale ter em mente como é o doce sabor da estupidez do não entender, como bem disse Clarice Lispector:

E era bom. 'Não entender' era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não entender não tinha fronteiras e levara ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Alexsandro


26/02/2013

Criatividade contra a mediocridade


Diante do mundo e de suas forças a vontade é o que gera vida em abundância. Em nós o mecanismo da vontade é a criatividade. É ela que nos atualiza diante do mundo. Mas quando somos vencidos pelas forças reativas do mundo, quando a vontade de se atualizar diante do mundo se transforma em vontade de imitação ou vontade de permanência, nossas forças de expressão desfalecem, nossa criatividade torna-se reatividade. Assistimos a partir de então o aparecimento de uma séria de sintomas característicos da experiência medíocre: impossibilidade de expressão criativa, hiperadaptação ao meio social, falta de originalidade, tendências miméticas, sobretudo na tentativa de reproduzir formas socialmente populares. Aqui a atualização diante do mundo perde sua força. Por sua vez o desejo de ser igual aos modelos preestabelecidos torna-se o ideal a ser alcançado.

Alexsandro

12/12/2012

A arte de resistir

Uma vida vivida em meio às inseguranças e incertezas diminui ou mesmo tira completamente a capacidade de compreender os limites aos quais a vida se encontra submetida. Tais limites ficam ainda mais difíceis de serem compreendidos quando falta a capacidade de imaginar formas alternativas de vida e de convívio. Capacidade esta que só pode ser trabalhada e aprimorada pelo questionamento, pois, quando há questionamentos sobre a validade de algo é porque não se tem o que realmente se quer ou porque não se tem certeza se aquilo que se possui é ou não o que realmente se quer. É neste sentido que podemos afirmar que evitar fazer perguntas, evitar o questionamento ou mesmo não saber questionar é a melhor forma de barrar qualquer processo de libertação, é a melhor forma de impedir a vida de se expressar como uma arte de resistir ao que nos constrange.

Alexsandro

03/12/2012

Por uma receita de bem viver

Sim, todo mundo quer saber quem de fato é e onde se encontra. Todo mundo quer saber no que se encaixa, qual seu lugar e propósito no mundo. Ninguém quer viver a esmo ou sentir-se um ninguém. Por isso gastamos muito tempo tentando ser o que os outros querem que sejamos e isso por variados motivos, alguns até que justos, por exemplo, quando se trata de uma questão de sobrevivência. Não é bom passar a imagem de fracassado - imaginamos que os outros não nos aceitarão se formos um fracasso. Gostaríamos de ser celebridades, deuses do olimpo, mas as celebridades são falsos humanos, elas não existem como são apresentadas, são apenas recortes de momentos, recortes esses que qualquer um pode fazer - podemos recortar a vida do mais miserável ser humano e mostrar só o que há de legal na experiência dele. E quanto aos deuses, simplesmente não existem. Também buscamos receitas de bem viver, mas tais receitas não funcionam para a maioria das pessoas, o que isso significa? Não muita coisa, também nada muito simples. Significa apenas que não existe receita infalível. Ou, que é a hipótese que aposto, cada um tem que inventar a sua receita de bem viver. Acho isso muito legal, pois abre uma imensa possibilidade de libertação de tudo aquilo que nos aprisiona. Pois se existisse uma receita para o bem viver ficaríamos prisioneiros da receita, logo ela viraria uma doutrina do bem viver e no limite uma ditadura, algo fascista.
Claro que no mercado das realizações há muita oferta de receitas para o bem viver. Há algumas que, por exemplo, apostam no amor, no dinheiro, no trabalho, na religião ou nos filhos, todavia, em nenhuma dessas apostas há garantias de realização. No que devemos apostar, então? Não sei. E se soubesse não diria, pois esse é um trabalho de todos e de cada um, qual seja, inventar a sua receita de bem viver. É um trabalho solitário e delicado.
Há uma espécie de problema que chamo de problema delicado. O problema de querer que a receita que inventamos ou descobrimos sirva para todos. É aqui que o bicho pega. Nem sempre os outros estarão dispostos a participar da nossa receita de bem viver. E tudo vai ficando mais complicado quando entendemos que a relação com os outros ganha importância no fato de que só por meio dos outros posso ser salvo da insuportável leveza de ser alguém tão pouco, tão pequeno, mesquinho, quase nada ou ninguém. A minha fragilidade só pode ser superada no outro e com o outro, nas relações que construo com os outros. Mas quem é esse outro ou outros? Eu não sei, cada um tem que descobrir, cada um tem seu outro, seus outros. De outra parte existe o problema da solidão: ter que entender que a receita é minha e os outros não têm nenhuma responsabilidade sobre ela, que os outros não têm obrigação de participar dela.


Alexsandro

01/09/2012

Coisas estranhas


É estranho como o pragmatismo embaralha nossos dias. Consumimo-nos no consumo. Consumimos como feras selvagens. Consumimos como forma de encontrar a salvação em uma forma de vida que apenas nos consome como objetos tarifados numa feira de objetos usados.
É estranho vivermos um tempo no qual uma espantosa quantidade de informações nos invade sem que tenhamos tempo de averiguar como elas nos afetarão.
É estranho ver pessoas que ainda acreditam que vão encontrar boas respostas em manuais de autoajuda falidos há muito tempo.
É ainda mais estranho perceber como muitos transformam livros sagrados, como o Mahabharata, Bíblia, Bagavadguitá, Alcorão, Torá, Codificação Espírita de Allan Kardec, Zend Avesta, Kitáb-i-Aqdas e tantos outros, em manuais de autoajuda.


Alexsandro

24/08/2012

Somente a realidade


Parte da experiência que homens e mulheres vivem hoje, em sociedades parecidas com a nossa, encontra-se delineada por metas que mais impossibilitam do que favorecem uma tal vida boa que tantos buscam (seja lá o que isso signifique). Sendo que o mais estranho é que se tais metas forem varridas da face da terra nada ou muito pouco restará a que se apegar para produzir algum sentido significativo. É neste ambiente que a palavra 'realidade' nada significa. Muitos já perceberam o preço que estamos pagando por agirmos assim. Amauri Ferreira não deixa por menos ao lançar na nossa cara a lembrança de que a vida se realiza por meio do corpo em um espaço e tempo que nos afeta e que nos marca com vida. Vida que traímos ao nos deixarmos conduzir por ventos que não sopram.
É na realidade que a vida acontece. Quando a sujeira do ideal ascético é varrida para longe, o que fica é a pureza do corpo e a sua capacidade de ser afetado e de afetar; é o corpo que pode, ou não, ser afirmado. Ao negar a capacidade do corpo de ser afetado, nega-se a sua modificação, pois o sujeito agarra-se a um "eu" imutável - mas, apesar disso, a modificação do corpo segue existindo. O problema é a qualidade dessa modificação, já que a crença no ideal continua a produzir realidade (no fundo, é a própria natureza no homem que a produz). Uma modificação ignóbil, com certeza. Mas ao afirmar a capacidade do corpo de ser afetado, a modificação é bem-vinda, e não demonizada. A modificação se torna nobre, vira uma composição, motor ininterrupto de novas produções.


Alexsandro

17/05/2012

O bom, o melhor, o suficiente e o perfeito

Há pessoas que sonham com o fim da época de estudos pois não se sentem felizes. Estudar é chato. Sonham em começar a trabalhar. Quando começam a trabalhar descobrem que trabalhar é chato e não se sentem felizes. Sonham com as ferias. Quando estão de férias descobrem que elas seriam melhores na companhia de alguém e não se sentem felizes. Ferias na solidão é chato. Sonham com alguém. Quando conseguem alguém descobrem que casamento não é conto de fadas, requer compromisso, não se sentem livres e sem liberdade é chato. Não se sentem felizes.
Testemunhamos uma ditadura da perfeição impondo que a vida tem de ser perfeita em todos os seus aspectos. De todos os lados ouvimos ordens e advertências de que devemos ser felizes: estamos sendo pressionados a sermos felizes e perfeitos a todo custo. Não buscamos o bom ou o razoável, a busca é pelo perfeito.
Há uma afirmação do Zygmunt Bauman que é emblemática: "O melhor pode ser inimigo do bom, mas certamente o “perfeito” é um inimigo mortal dos dois." Traduzindo: sempre que se é buscado algo como, por exemplo, a solução para um problema, outras soluções poderiam está sendo utilizadas no seu lugar, ou mesmo que correções poderiam ser implementadas para tornar a solução escolhida ainda melhor.
¿O que ela significa? Significa que muitas vezes ter o BOM já seria o suficiente, mas ao não nos contentarmos e nos empenharmos em busca do MELHOR, tal empenho torna o BOM não suficiente. O problema se torna ainda maior quando e principalmente o BOM representa o MELHOR que poderíamos ter. Enfim, abrimos mão daquilo que é "o-melhor-que-podemos-ter" em nome de "o-melhor-que-nunca-será-suficiente". O problema cresce ainda mais quando consideramos que aquilo que entendemos por SUFICIENTE só terá validade se for PERFEITO - na nossa experiência suficiente só será aquilo que for perfeito. Estamos condenados a busca da perfeição.
Alexsandro

06/05/2012

O sacrifício de Jesus


A imagem de um homem sendo supliciado e depois crucificado para que eu e ninguém soframos no inferno é uma imagem séria e delicada quando pensada em termos de amor ou qualquer moral que vise o bem. Sacrificar um ser humano para que outro se salve é uma atitude imoral e, no seu limite, de uma selvageria desnecessária. Um sacrifício ritual que utiliza qualquer animal como oferenda para um deus já é moralmente duvidoso, ¿o que devemos pensar de um ritual que se utiliza de um ser humano?
O cristianismo é uma religião que cultua o sacrifício. Um sacrifício humano. Tirar qualquer conclusão moral positiva de algo assim requer uma ginástica mental olímpica, principalmente quando vemos pessoas boas e honestas acreditando que estão compactuando com uma moral do bem. Felizmente muitas pessoas já perceberam que deve haver algo muito estranho no fato de um deus amoroso fazer a salvação da humanidade depender de algo tão cruel e desumano.


Alexsandro

25/08/2011

Só vejo cadáveres diante de mim

Como é lamentável ver quanta gente é nada mais que um grande caixão carregando verdades mortas. Vidas em ruína que não percebem a arbitrariedade dos fatos humanos, mas que teimam em afirmar uma posição diante do mundo como se fossem verdadeiros bastiões da lucidez. Uma lucidez cadavérica, tola, embriagada de superstições, preconceitos e desinformação. São sombras que não atualizaram o espírito. Crêem-se imortais, eternas, mas são de fato estrangeiras do seu tempo, refugiadas de si mesmo, em um campo de concentração de verdades que extirpou suas idiossincrasias. Sem lucidez, não sabem do seu tempo, não sabem de si, não sabem da vida. São fascistas errantes, sem singularidade, sem tempo, sem propósito próprio, que buscam reconhecimento dos seus pares, nulidades sem voz e sem sensação, moscas mortas na rede elétrica das certezas efêmeras.
Não se desligam das grandes ilusões. Acham que vão preencher a história com alguma grande realização. Que vão conseguir ultrapassar o grande abismo da idiotice e entrar no reino dos sábios e da lucidez. Acreditam que vão conquistar algo e fazer suas vidas saírem do nada no qual se encontram.
São órfãos que não entenderam a força da arbitrariedade das verdades e das culturas e procuram um pai para a humanidade. Querem verdades adequadas às suas capacidades de compreensão. Querem um fundamento racional diante do caótico. Querem uma vocação metafísica para si e para humanidade. Querem controlar o tempo. Enquanto isso não vêem os grãos da ampulheta caindo sobre cada verdade que já foi um dia fonte de sabedoria e alucinação.


Alexsandro

04/02/2011

Produção de sentido

A produção de sentido não se encontra no oferecimento de respostas, mas na elaboração de perguntas. A produção de sentido está diretamente ligada à produção de perguntas. Todavia, não vale qualquer pergunta, conta o grau de ligação entre a pergunta feita e as grandes questões da humanidade. O que dá sentido a uma informação é a pergunta feita. É por conta disso que se não houver pergunta a informação por si terá pouco ou nenhum valor, ela não fará sentido.
Alexsandro

05/12/2010

Complexo de salvador


Uma coisa que tenho certeza é que não carrego nenhum complexo de salvador: já imaginou o que é desejar convencer quase 8 bilhões de pessoas a respeito de qualquer assunto, mesmo que seja para tornar o mundo melhor?
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07/10/2010

Eu sou a minha queixa

É habitual que a expressão da queixa exagere em muito a dor, até o ponto em que a dor acaba se conformando ao exagero da queixa, aumentando o sofrimento. É comum as pessoas acreditarem tanto em suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A causa primordial de toda queixa é a preguiça de viver. Viver dá trabalho, uma vez que a cada minuto surge um fato novo, uma surpresa, um inesperado que exige correção de rota na vida.
oda queixa é narcísica.
Todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do tempo: um dia do calor, outro dia do frio. Do trabalho: porque é muito ou porque é pouco. Do carinho: "que frieza" ou "que melação". Da prova: "dificílima" ou "fácil demais", E dos políticos, e da mulher, e do marido, e dos filhos, e dos tios, avós, primos; do pai e da mãe, enfim, de ter nascido. A queixa é solidária, serve como motivo de conversa, desde o espremido elevador até o vasto salão. A queixa é o motor da união dos grupos, é sopa de cultura social - quem tem uma queixa sempre encontra um parceiro. A queixa chega a ser a própria pessoa, seu carimbo, sua identidade: "Eu sou a minha queixa".
Jorge Forbes
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Sobre a decisão

Não podemos esperar que nossa decisão seja compreendida. Porque, se fosse compreendida, ela seria razoável, e aquilo que é razoável não é decidido no risco. Normalmente, aquilo que é razoável é chato. E aquilo que é decidido é apaixonante. A decisão se decide na paixão. Decisão e paixão estão juntas.
E aqueles que não conseguem se decidir ficam deprimidos. Nesse caso, a depressão é uma covardia diante da decisão. Por isso Lacan diz que, quando a pessoa cede em seu desejo, fica deprimida. A pior coisa que alguém pode fazer é estender um lenço de papel a um deprimido. Isso o solidifica em sua posição narcísica, de autopiedade.
A felicidade é uma responsabilidade humana. Não é para os covardes.
Para tomar a decisão, é necessário que a pessoa se pense. Só podem ter dúvida os sujeitos divididos. Assim, o primeiro aspecto sobre a decisão é que ela é vinculada à dúvida. O segundo aspecto é: gostamos ou não da decisão? Se fôssemos fazer uma pesquisa sobre o assunto, provavelmente mais de 90% das pessoas diriam que não querem tomar decisões. A linguagem é cheia de expressões para poupar alguém de decidir. A mais famosa é "seja o que Deus quiser", maneira clássica de não tomar decisões.
Temos horror da decisão porque toda decisão implica risco.

Nem todo mundo evita a decisão. Há quem goste dela. Os artistas e os poetas, por exemplo, gostam.

Jorge Forbes
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02/10/2010

A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A decepção é uma experiência humana universal desde sempre. Nas sociedades antigas, ela era restrita. Primeiro porque o desejo era mais limitado, existia uma cultura da resignação, resumida na expressão “é a vida”. E, depois, havia a religião, que limitava a decepção. A sociedade moderna fez explodir o sentimento da decepção. A democracia abriu o desejo das pessoas. Ela cria frustrações porque não suporta a desigualdade. E a era hipermoderna, que vivemos hoje, acelerou mais ainda a decepção, que agora está em todos os lugares, em todos os níveis sociais. Na política, por exemplo. As pessoas, em todos os países, estão sempre decepcionadas com a política. Com a globalização, não há mais a esperança revolucionária. É a era do direito do homem, e este é sempre inferior ao desejo. A escola. Antes ela tinha a virtude de permitir a ascensão social. Mas hoje temos jovens muito qualificados que trabalham em coisas que não correspondem a essa qualificação – e isso gera decepção.
As pessoas podem até se declarar felizes, mas isso não significa grande coisa. Há outros indicadores como a ansiedade no trabalho e com os filhos, taxas de suicídio e casos de depressão e dependência, que mostram como a sociedade de bem-estar é uma sociedade de frustrações. Depois dos anos 60, desenvolveu- se a idéia de que o consumismo cria a decepção porque mostra o que você não vai ter. Ou que você seria forçosamente frustrado porque, quando tem uma coisa, já sonha com outra, como se isso levasse a pessoa a uma decepção permanente.
O consumo de bens materiais não é tão produtor de decepções. Os objetos têm um valor pela novidade. Não é porque você não tem um Jaguar que o seu carro modesto não o satisfaz. Você pode gostar da sua casa, sem que ela seja um castelo. O consumo cultural é o que decepciona. Veja, por exemplo, a televisão. Ela é feita para ser um espetáculo, mas se você fica zapeando é porque o espetáculo não o satisfaz. O zapping é uma permanente decepção. A decepção mais forte, mais intensa, a mais cruel é a que você tem com outras pessoas. Então se engana quem culpa o consumo pela infelicidade. O que dá frustração é a individualização do mundo, é a relação com os outros e consigo mesmo.
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15/08/2010

Custo de oportunidade

Em economia o "Custo de Oportunidade" representa o custo associado a uma determinada escolha medido em termos da melhor oportunidade perdida. Explicando. Representa o valor que atribuímos à melhor alternativa entre outras possíveis - se escolho "a" ao invés de "b" é por considerar a primeira alternativa mais "vantajosa" que a segunda dentro de determinada situação. Mas, ao fazer tal escolha, perco aquilo que adviria caso tivesse escolhido a segunda alternativa.
Para além do seu sentido econômico e no sentido que aqui empregamos, o custo de oportunidade está diretamente relacionado com o fato das nossas escolhas estarem sempre entre alternativas possíveis. Ou melhor, sempre que escolhemos o fazemos por termos mais de uma alternativa, caso contrário não seria escolha, seria determinação ou algo parecido. Como somos levados a escolher o tempo todo, essas escolhas implicam em abrirmos mãos de determinadas oportunidades ou possibilidades em detrimento de outras, o que traz como conseqüência a existência de um custo de oportunidade sempre que tomamos uma decisão, sempre que escolhemos. Enfim, escolhas implicam em ganhos e perdas. Resta-nos avaliar se o que perdemos compensa o que ganhamos e vice e versa, se aquilo que ganhamos compensa o que perdemos.
Mais um ponto. O custo de oportunidade representa o valor associado à melhor alternativa não escolhida. O que significa? Significa que há de se levar em consideração também o fato de que a alternativa escolhida pode não trazer os benefícios que a alternativa não escolhida traria - quando escolho "a" posso estar deixando de lado benefícios que seriam mais vantajosos casa tivesse escolhido "b". O que temos é que o custo de oportunidade diz respeito também ao maior benefício que não foi obtido na escolha, ou seja, a escolha não trouxe o beneficio esperado e pior, a outra alternativa seria de fato a melhor.
Por que escolhemos algumas coisas e não outras? Por que atribuímos valor a isso e não aquilo? O que me leva a viver de uma maneira e não de outra? São questões que levam em consideração critérios de valor. Tais critérios que usamos para valorar algo estão relacionados de alguma maneira com o custa de oportunidade que vislumbramos ao escolhermos algo. O ponto central da questão se encontra exatamente nos critérios que usamos para escolher. Serão eles critérios que me possibilitarão a melhor escolha? E mais, o que seria uma boa escolha? Estamos realmente capacitados para avaliarmos entre alternativas possíveis? Será que estamos sobretudo prontos para avaliações críticas?
Alexsandro
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13/07/2010

Um conto atemporal

Lançada como primeiro single do álbum Breakfast in America em 1979, "The Logical Song" (A canção lógica) é uma música da banda britânica Supertramp. Foi escrita e interpretada por Roger Hodgson.

A letra fala da perda da inocência. Critica o sistema educacional que não é centrado no conhecimento nem na sensibilidade, mas sobretudo na "lógica", no "bom senso" e na "coerência". A música fala de um homem que é retirado do ambiente encantado da infância e colocado na escola com o intuito de ser preparado para um futuro promissor, embora desprovido de qualquer espontaneidade. Enfim, um mundo que o preciona a ser um conformista. Perdido nesse mundo ela já não sabe quem é.





Quando eu era jovem,
Parecia que a vida era tão maravilhosa,
Um milagre,oh ela era tão bonita,mágica.
E todos os pássaros nas árvores,
Eles cantavam tão felizes,
Alegres,brincalhões,me olhando.
Mas aí eles me mandaram embora,
Para me ensinar a ser sensato,
Lógico,responsável,prático.
E mostraram um mundo
Onde eu poderia ser dependente,
Doente,intelectual,cínico.

Tem vezes,quando todo mundo dorme,
As questões correm profundas demais
Para um homem tão simples.
Por favor,me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo,
Mas por favor me diga quem eu sou.

Eu digo :
Agora cuidado com o que você diz,
Ou eles estarão te chamando de radical,
Liberal,fanático,criminoso
Você não vai assinar seu nome,
Gostaríamos de sentir que você é
Aceitável,respeitável,aprensentável,um vegetal !

À noite,quando todo mundo dorme,
As questões correm tão profundas
Para um homem tão simples.
Por favor,me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo,Mas por favor me diga quem eu sou.
Quem eu sou...


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