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17/05/2014

Sobre salários e famílias



Muitas pessoas não suportam o enfado de uma vida subjugada por um emprego ou por uma família. Uma vida medida e mediada de salário a salário. Infelizmente a maioria das pessoas que vivem de salário em salário acham que estão fazendo o melhor que podem e o melhor por si, julgando aqueles que se recusam a viver assim com adjetivos escusos.
A família é mantida, em grande medida, para que todo mundo dentro dela desabafe suas frustrações** Sobretudo aquelas frustrações de uma vida de trabalho e salário que apenas mantém a sobrevivência, sem nenhuma realização que potencialize a vida ou direcione para um campo de possibilidades mais criativo. Não é a toa que ela seja um lugar tão cheio de agressividades. Como não se pode brigar fora de casa, pois a maioria não tem força suficiente para isso, usa-se como alvo os “amados” parentes.

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** Que outro lugar legitimado pela sociedade haveria para desabafar as frustrações? Além da família só resta o consultório psiquiátrico.



Alexsansro

19/01/2014

O mundo distópico de Harrison Bergeron

"Harrison Bergeron" é um conto de Kurt Vonnegut. Foi publicado pela primeira vez em 1961. A história se passa em uma América distópica, no ano de 2081. É uma ficção científica cheia de ironia e crítica, sobretudo ao autoritarismo e o que ele usa para cooptar e controlar, no caso do conto vemos a ideia de igualdade sendo usada com esse intento.

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Harrison Bergeron
Por Kurt Vonnegut (1961)


O ano era 2081, e todos finalmente eram iguais. Eles não eram apenas iguais diante de Deus e da lei, eles eram iguais em todos os sentidos. Ninguém era mais esperto do que ninguém. Ninguém era mais bonito do que ninguém. Ninguém era mais forte ou mais rápido do que qualquer outra pessoa. Toda essa igualdade devia-se aos Decretos 211º, 212º e 213º da Constituição e também pela incansável vigilância dos agentes do Nivelador Geral (NG).
Entretanto, algumas coisas não iam muito bem. Era Abril e muitos estavam ansiosos por ainda não ser primavera. E foi nesse mês que os homens do NG levaram Harrison, de 14 anos, filho de George e Hazel Bergeron. Foi trágico, mas George e Hazel não podia pensar sobre o que estava acontecendo, para eles era difícil fazer isso. Hazel tinha uma inteligência perfeitamente média, o que significava que ela não poderia pensar em nada muito complicado, exceto em coisas muito pontuais. George possuía uma inteligência acima do normal, por isso tinha de usar um pequeno rádio em seu ouvido. Ele foi obrigado por lei a usá-lo todo o tempo. Ligado a um transmissor do governo, emitia um sinal que produzia um ruído a cada vinte segundos ou menos. Sua finalidade era manter as pessoas como George sem a vantagem injusta de terem cérebros mais capazes que os dos demais. 
George e Hazel estavam assistindo televisão. Havia lágrimas nas bochechas de Hazel, mas ela não tinha claro o que se passava.
Na tela da televisão bailarinas dançavam. 
A campainha soou na cabeça de George. Seus pensamentos fugiram em pânico, como bandidos de um alarme. 
--Essa foi uma dança muito bonita, disse Hazel. 
--Hein? Disse George. 
--Essa dança, foi bonita, disse Hazel. 
--Sim, disse George.
Ele tentou pensar um pouco sobre as bailarinas. Elas não eram realmente muito boas – não fizeram nada melhor do que qualquer outra pessoa teria feito. Elas estavam sobrecarregadas com pesos amarrados em seus corpos e sacos de chumbo fino, e os seus rostos estavam mascarados, de modo que ninguém via um gesto livre e gracioso ou um rosto bonito, nada que pudesse fazer com que alguém se sentisse diferente. Tais apetrechos niveladores tinha por função fazer com que todas se sentissem iguais.
Dentro George nascia uma pequena sensação, uma vaga noção de que talvez as “boas” dançarinas não merecessem ser prejudicadas daquela forma pelos pesos niveladores em seus corpos e que elas deveriam dançar livremente. Mas tal pensamento não foi muito longe, um ruído do seu rádio de ouvido invadiu seus pensamentos. 
George fez uma careta. Assim como fizeram duas das oito bailarinas. 
Hazel o viu estremecer. Não tendo nenhuma noção do que se passava, ela perguntou a George que som era aquele. 
-- Soou como se alguém tivesse batido numa garrafa de leite com um martelo de borracha, disse George.
-- Eu acho que seria realmente interessante se todos pudessem ouvir sempre sons diferentes, disse Hazel com um pouco de inveja e continuou: 
-- Todas as coisas que eles poderiam ouvir.
-- Hum, disse George.
-- Só que, se eu fosse o Nivelador Geral, você sabe o que eu faria? disse Hazel. Hazel, com um ar de autoridade muito próximo ao exibido por Daina Moon Glampers, assistente muito próxima do Nivelador Geral. 
-- Se eu fosse Diana Moon Glampers, disse Hazel, eu colocaria sons de sinos no domingo, apenas badaladas, em honra da religião.
-- Mas eu poderia pensar se fosse apenas sinos, disse George
-- Bem, talvez fazê-los bem alto, disse Hazel e continuou:
-- Eu acho que seria um bom Nivelador Geral.
-- Bom, como qualquer outra pessoa, disse George.
-- Porque não melhor do que o normal? disse Hazel.
-- Certo, disse George.
Neste momento ele começou a pensar sobre seu filho anormal que agora estava na cadeia. E quando uma imagem de Harrison começou a se formar em sua mente, explodiu uma saudação de 21 tiros na cabeça fazendo-o parar com o devaneio.
-- Querido! disse Hazel, o que foi, você está com sono?
Um ar de cansado tomou conta de George, ele ficou pálido e começou a tremer, enquanto lágrimas enchiam seus olhos vermelhos.
Duas das oito bailarinas desabaram no chão do estúdio enquanto seguravam seus sacos niveladores.
-- De repente você parece tão cansado, disse Hazel. Por que você não se deita no sofá, pode descansar o seu saco nivelador sobre os travesseiros.
Ela estava se referindo aos 47 quilos de chumbo fino em um saco de lona que foi trancado em volta do pescoço de George.
-- Vá em frente e descanse a bolsa um pouco, disse ela. Eu não me importo se você não for igual a mim por um momento.
George segurou o saco com as mãos. 
--Eu não me importo, disse ele. Eu não os noto mais. São uma parte de mim.
-- Você parece tão cansado ultimamente usando os sacos, disse Hazel. Se houvesse alguma forma de fazemos um pequeno buraco no fundo do saco para deixar cair apenas algumas bolas de chumbo. Apenas algumas.
-- São dois anos de prisão e multa de dois mil dólares por cada bola que eu deixar cair, disse George. Isso não me parece um bom negócio.
-- Se você pudesse ficar sem eles, mesmo que fosse por pouco tempo, depois do trabalho, quando você chega em casa, disse Hazel.
-- Entenda que não compete a ninguém decidir sobre isso. Você acabou de descrever uma forma de romper a lei. Se eu posso romper com a lei, disse George, então outras pessoas poderiam tentar fazer o mesmo em cada lugar e logo estaríamos de volta à idade das trevas, com todo mundo competindo contra todos. Você não iria gostar que isso acontecesse, não é mesmo?
-- Eu odiaria isso, disse Hazel.
-- Aí está, disse George. Se as pessoas começassem a romper com a lei um pouco de cada vez, o que você acha que poderia acontece com a sociedade?
Se Hazel não era capaz de chegar a uma resposta para esta pergunta, George não poderia fornecer. Uma sirene soava em sua cabeça.
-- Reconheço que tudo poderia desabar, disse Hazel.
-- O que seria? George disse inexpressivamente.
-- A sociedade, disse Hazel incerta. Não foi isso que você acabou de dizer?
-- Quem sabe? disse George.
O programa de televisão foi subitamente interrompido por um boletim de notícias. Não ficou claro, em primeiro lugar, do que se tratava o boletim, uma vez que o locutor, como todos os locutores, tinha um sério problema de dicção que o impedia de fala com desenvoltura. Por cerca de meio minuto e em um estado de grande excitação, o locutor tentou dizer "Senhoras e Senhores". Quando finalmente desistiu, entregou o boletim para uma das bailarinas de ler.
-- Está tudo bem. Disse Hazel disse sobre o locutor. Ele tentou. Isso é o que importa. Ele tentou fazer o melhor que podia com o que Deus lhe deu. Acho que ele deveria ter um aumento do seu salário por tenta de forma tão obstinada.
-- Senhoras e Senhores, disse a bailarina, começando a leitura do boletim. 
Ela, a bailarina, devia ser extraordinariamente bonita, pois a máscara que usava era horrível. E era fácil ver que ela era a mais forte e mais graciosa de todos os dançarinos, pois os pesos niveladores que usava eram tão grandes como aqueles usados pelos homens mais fortes. E ela teve que pedir desculpas por conta de sua voz, que era uma voz muito injusta para uma mulher se comparada as outras. Sua voz era luminosa, melódica e quente, atemporal. 
-- Desculpe-me, ela disse, e começou de novo, tentando disfarçar sua voz para não chamar atenção.
-- Harrison Bergeron, de quatorze anos, disse ela tentando parecer rouca, acaba de escapar da prisão, onde foi detido por suspeita de conspiração para derrubar o governo. Ele é um gênio e um atleta, e está sem seus apetrechos niveladores, por isso deve ser considerado como extremamente perigoso.
Uma fotografia de Harrison Bergeron apareceu na tela, primeiro mostrou seu rosto de frente, em seguida de perfil, depois de corpo inteiro. A foto mostrava o comprimento total de Harrison contra um fundo graduado em metros e centímetros. Ele tinha exatamente dois metros de altura.
O resto da aparição de Harrison foi para fazer dele um monstro e sobre seus apetrechos niveladores. Jamais havia nascido alguém com tantas vantagens. Ele superava os obstáculos mais rápido do que os homens do Nivelador Geral poderiam pensa-los. 
Em vez de um radinho no ouvido para provocar uma deficiência mental, ele usava um tremendo par de fones de ouvidos e óculos com lentes grossas onduladas. Os óculos tinham a intenção de fazê-lo não só meio cego, mas para dar-lhe agudas dores de cabeça, além de toda sucata que foi pendurada em cima do seu corpo. Normalmente havia certa simetria, um asseio militar quanto às deficiências provocadas pelos apetrechos em detrimento das pessoas fortes, mas Harrison parecia um ferro-velho ambulante. Usava o peso de uns três homens. E para compensar sua boa aparência os homens do Nivelador Geral faziam-no usar uma bola de borracha vermelha no nariz, além das sobrancelhas raspadas e seus dentes brancos cobertos por adesivos pretos.
-- Se você ver esse rapaz, disse a bailarina, não, eu repito, não... – falava como quem tentava argumentar.
De repente houve um barulho de uma porta sendo arrancada de suas dobradiças.
Gritos e gritos de consternação vieram do aparelho de televisão. A fotografia de Harrison Bergeron na tela saltou de novo e de novo, como se dançasse ao som de um terremoto. 
George Bergeron identificou corretamente o terremoto, como não deveria ser, pois como muitos, deveria ter sido apenas um momento no qual sua própria casa tinha dançado com a mesma melodia ruim. 
-- Meu Deus, disse George, deve ser Harrison!
O lampejo de realidade logo explodiu de sua mente pelo som de um acidente de carro em sua cabeça provocado por seu apetrecho nivelador.
Quando George conseguiu abrir os olhos novamente a fotografia de Harrison tinha ido embora. A vida e a respiração de Harrison encheu a tela.
O barulho dos seus apetrechos tilintavam como sucata e contrastavam com sua enorme cara de palhaço. Harrison parou no centro do estúdio. A maçaneta da porta do estúdio que, fora arrancada a pouco, ainda estava em sua mão. Bailarinas, técnicos, músicos e locutores se encolheram de joelhos diante dele esperando para morrer.
-- Eu sou o Imperador! Exclamou Harrison. Vocês ouviram? Eu sou o Imperador! Todos devem fazer o que eu dizer! Ele bateu o pé e o estúdio tremeu.
-- Mesmo eu estando assim, aleijado, mancando, enojado, sou um governante maior do que qualquer homem que já viveu! Agora observem eu me tornar o que eu posso me tornar! Gritou ele.
Harrison rasgou as alças do seu apetrecho nivelador como papel de seda molhado, rasgou as tiras feitas para suportar 2500 quilos. Os pesos niveladores de Harrison caíram no chão.
Harrison empurrou seus polegares sob a barra do cadeado que prendia seu arnês à cabeça. A haste estalou como aipo. Harrison esmagou seus fones de ouvido e óculos contra a parede.
Jogou fora o nariz de borracha, revelando um homem impressionante, um Thor, deus do trovão.
-- Vou agora escolher minha imperatriz! Ele disse olhando para as pessoas encolhidas.
-- Que uma das mulheres ouse reivindicar seu lugar como minha companheira e seu trono!
Um momento se passou, em seguida, uma bailarina se levantou, balançando como um salgueiro.
Harrison arrancou o nivelador mental de sua orelha, quebrou seus niveladores físicos como quem parte um biscoito fino. Por fim, lhe tirou a máscara.
Ela era incrivelmente bonita.
-- Agora, disse Harrison tomando-lhe a mão, vamos mostrar a todos o significado da palavra dança?
-- Música, ele ordenou.
Os músicos voltaram para as suas cadeiras e Harrison os livra dos seus niveladores de desvantagens.
-- Toquem o seu melhor e eu vou fazer de você barões, duques e condes, disse ele.
A música começou. Soou normal, boba, algo falso. Mas Harrison apontou para dois músicos, acenou-lhes com um cassetete dizendo que a música deveria ser tocada como eles tocavam. Ele bateu de volta em suas cadeiras.
A música começou de novo e foi muito melhor.
Harrison e sua imperatriz apenas ouviam a música com um ar solene, enquanto ouviam era como se sincronizassem seus batimentos cardíacos. Eles mudaram os seus pesos para seus dedos. Harrison colocou suas mãos grandes na cintura fina da menina, deixando-a sentir a leveza que logo seria dela. E então, em uma explosão de alegria e graça, ela se lançou no ar! Não foram só as leis da terra que foram abandonadas naquele momento, mas a lei da gravidade e as leis do movimento como um todo.
Eles cambalearam, giraram, giraram, pularam, saltaram, deram cambalhotas e giraram. Eles dançavam como borboletas diante da lua.
O teto do estúdio era de trinta metros de altura, mas a cada salto eles chegavam mais perto dele. Tornou-se evidente a sua intenção de beijar o teto. E eles o beijaram.
E então, neutralizando a gravidade com amor e pura vontade, permaneceram suspensos a algumas polegadas do chão, e eles se beijaram por um longo, longo tempo.
Foi então que Diana Moon Glampers, a Niveladora representante do governo, entrou no estúdio com uma espingarda de cano duplo calibre dez. Ela disparou duas vezes, e o imperador e a imperatriz foram mortos antes de caírem no chão.
Diana Moon Glampers carregou a arma novamente. Ela apontou para os músicos e disse-lhes que tinham dez segundos para colocarem de volta seus apetrechos niveladores novamente.
Foi então que o tubo de televisão dos Bergeron queimou.
Hazel virou-se para comentar sobre o apagão para George. Mas George tinha ido para a cozinha pegar uma lata de cerveja.
George voltou com a cerveja, fez uma pausa, enquanto um sinal saindo do seu apetrecho auricular o sacudiu para cima. E então ele se sentou novamente. 
-- Você estava chorando? Perguntou a Hazel.
-- Sim, disse ela .
-- Por qual motivo? Perguntou ele.
-- Eu esqueci, disse ela. Alguma coisa muito triste na televisão.
-- O que foi? disse ele.
-- É todo o tipo de confusão na minha mente, disse Hazel.
-- Esqueça as coisas tristes, disse George.
-- É o que eu sempre faço, disse Hazel.
-- Essa é minha garota, disse George. Ele fez uma careta. Ouve o som de uma arma de rebitagem em sua cabeça.
-- Caramba. Eu poderia dizer que esse era diferente, disse Hazel.
-- Você pode dizer isso de novo, disse George .
--Caramba, disse Hazel, Eu poderia dizer que esse era diferente.

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15/09/2013

Todo funcionário do mês é um pouco Bob Esponja

A noção de funcionário do mês é uma das noções mais horrendas e safadas já inventada pelo mundo corporativo, e para mim não há ninguém que represente tal figura melhor que o Bob Esponja.
Acredito que todos sabem quem é Bob Esponja Calça Quadrada, a esponja do mar amarela que trabalha numa lanchonete chamada Siri Cascudo, de propriedade do Seu Siriguejo, um siri-patrão que só pensa em dinheiro.
Como todos devem saber, Bob Esponja ama fazer hambúrgueres de siri. O que o torna um empregado ideal, o sonho de qualquer patrão? Vejamos algumas características desse que é sempre e em qualquer lugar o funcionário do mês.
Bob Esponja se encontra sempre disposto para trabalhar, mesmo não recebendo o miserável salário a que tem direito, ele chega até mesmo a abrir mão dele para continuar trabalhando. Tal condição vem do seu desapego às coisas materiais. Para muita gente, até para mim, essa é uma qualidade admirável, mas no mundo do mercado é uma das principais portas de entrada da exploração patrão-empregado. Todo patrão adoraria ter empregados que não pensam em dinheiro, que não pensam em possuir coisas, pois assim estariam dispostos a trabalhar apenas pelo prazer de fazer o que gostam, enquanto o patrão continuaria a engrandecer seus cofres com lucros e mais-valia. Com a mesma intensidade Bob Esponja demonstra uma imensa adoração ao lugar de trabalhos, o Siri Cascudo, a ponto de dá a própria vida por ele. É ou não outro sonho de qualquer patrão ter um empregado assim?
Mas para mim não tem como lembrar o Bob Esponja, a noção de funcionário do mês sem lembrar de Trilussa e seu poema “A focinheira”:

- Sabe que sou fiel e afeiçoado,
dizia o Cão ao Homem, e disposto a tudo,
mesmo a ser sacrificado cumprindo as suas ordens.
Isto posto, quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido,
apático e traidor por natureza?
O Homem responde: - Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.
- Já que assim é, o dito pelo não dito!
Corrige o Cão, desculpe-me a besteira.
E, deste aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira...

Alexsandro
 
 
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30/06/2011

Jesus e o "traveco"

Usando de liberdade poética segue abaixo uma paráfrase da Bíblia. Mais especificamente do evangelho João, capítulo 8, versículos 1 à 11. Representa uma das passagens mais emblemática da vida de Jesus. Devo esclarecer que a única adaptação que fiz foi trocar a personagem da prostituta por um "travesti".



JESUS, porém, foi para o Monte das Oliveiras.
E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha até ele, e, sentando-se, os ensinava.
Os escribas e fariseus trouxeram-lhe um travesti apanhado que foi chupando o pau de um soldado romano.
E, pondo-o no meio, disseram-lhe: Mestre, este homossexual foi apanhado, no próprio ato.
Na lei, Moisés nos ordena que os tais sejam apedrejados. Tu, pois, que dizes?
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.
E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.
E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.
Quando ouviram isto, redarguidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e o travesti que estava no meio.
E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que o travesti, disse-lhe: Criança, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ele disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.


04/03/2011

Mate amargo para jovens e crianças

Mais uma cidade brasileira adota o toque de recolher: Matelandia - PR. Mais uma vez o alvo são crianças e jovens. A desculpa é a mesma que foi usada em outros municípios: "Queremos um município mais tranqüilo e formar cidadãos de bem", justifica a autora do projeto, a vereadora Líria Perini Carnetti. Em outro momento ela afirma: “Com a aprovação e aplicação desta Lei, colheremos os resultados em pouco tempo. O que precisamos é proteger nossas crianças e adolescentes dos abusos causados por uma vida desregrada, alcoolismo e consumo de drogas”.
A opinião de outros vereadores que votaram favoravelmente não é diferente:
Não tenho dúvida que esta é uma ação educadora, para que as famílias e a escola consigam formar bons cidadãos. Esta Lei é um instrumento, principalmente para os pais que não tem domínio sobre os filhos, recorram a este recurso para manter seus filhos longe dos perigos das ruas. O próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) regulamenta que os adolescentes a partir dos doze anos que cometerem infrações podem receber advertência e ainda serem punidos com até três anos de reclusão, o problema é que só se fala em direitos da criança e adolescente, pois os deveres são mal interpretados. (Edson Alves - Vereador)

Poderemos encontrar problemas na aplicabilidade, mas contamos com o apoio do Executivo e do Judiciário. (Eliete Ponciano Pinto - Vereadora)

Como educadora, tenho consciência da dificuldade em conduzir os adolescentes. A sugestão é que esta Lei seja fixada nas escolas para o conhecimento de orientadores e alunos, para um melhor entendimento da comunidade. (Kátia Duarte - Vereadora)

Tais argumentos são de uma superficialidade sem tamanho. Enxergam os problemas mais não as causas. O que assistimos é o fracasso dos pais em criarem relações satisfatórias com os filhos; o fracasso do estado em criar condições dignas de convívio - como não existem programas advindos do estado para resolver problemas que atingem a sociedade de maneira avassaladora, criminaliza-se as práticas cotidianas dos indivíduos; a perda do espaço público - afinal, a quem pertence as ruas?, e, finalmente, a criminalização de experiências da infância e da juventude para garantir uma vida tranqüila para adultos e velhos.
Tais atitudes tomadas por juízes, e no novo caso, proposta pela vereadora Líria Perini Carnetti, contradizem todos os princípios constitucionais que vigoram no atual Estado Democrático de Direito em nosso país. Para citar alguns: o princípio de liberdade do indivíduo; o princípio da isonomia - que indica que todos possuem direitos iguais e ressalva o direito a diferença de cada um; o princípio da legalidade.
Diz-se muito que o problema é de segurança e que caberia ao Estado criar tal condição para a sociedade. Mas infelizmente o Estado se mostra incapaz de garanti-la. E a questão se torna ainda mais grave quando levamos em consideração o lamentável grau de corrupção das nossas instituições de segurança pública. (Das nossas instituições publicas como um todo). Tais medidas buscam resolver problemas sociais com ações repressoras - como não se combate efetivamente o crime, penaliza-se o cidadão comum. São propostas e soluções que possuem o mesmo significado de outras medidas que os Estados vêm implementando: redução da maioridade penal, a política da tolerância zero, a expurgação de mendigos e camelôs dos centros das cidades e torturas de presos.
Historicamente a aplicação do toque de recolher como medida tomada pelo Estado nunca deriva de atitudes democráticas e libertadoras. Sua efetivação sempre aponta na direção de um pensamento fascista. Não foi a toa que os nazistas na Alemanha usaram contra judeus e que norte-americanos usaram contra imigrantes japoneses e seus descendentes (1933 e 1945). Também nos Estado Unidos, durante a década de 1950, os cidadãos afro-americanos sofreram o mesmo tipo de restrição durante a vigência da Lei Jim Crow, que restringia as liberdades e direitos civis dos afro-americanos. Em casos mais recentes testemunhamos seu uso em Israel contra civis palestinos (2005).
Por conta destes fatos devemos promover uma crítica radical contra o toque de recolher. Faz-se necessário ficarmos atentos e buscarmos esclarecimento e esclarecermos a juventude e a todos sobre o que está por trás deste espetáculo de mentiras e hipocrisias que representa tal proposta. Ele nada resolve de fato, apenas camufla o problema e reforça a repressão, enquanto deixa os verdadeiros culpados pela miséria da sociedade à solta.
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16/06/2010

A cova torna todos iguais



A arte não tem a função de salvar nada nem ninguém, ela não possui um significado por si, para que ela adquira sentido devemos valorá-la. Sendo assim, gosto de entender a arte como algo que deve ser fonte de vida e de força, não de fraqueza e coisas melosas.
Em tempos de criminalização da miséria pelo estado, em um momento no qual a mídia e grande parte dos artistas servem apenas a eles mesmos, nos bate na cara obras que possuem uma riqueza de imagens e significados. Assim é "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, escrito entre 1954 e 1955. Bonito e triste. Um enredo que mistura crueldade, pobreza e desigualdade social. Cada um entenda como desejar ou puder. Para mim o João Cabral usou um tema agrário pra pensar tragédias humanas.



O livro foi musicado por Chico Buarque de Hollanda em 1965 e 1966. "Funeral de um lavrador" é aqui interpretado por Chico Buarque e MPB4.



Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
Porém mais que no mundo te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada, não se abre a boca.


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19/03/2010

Não sabemos o que fazer com o mal e com a violência


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O que fazer com a violência? De onde vem tanto mal? São duas das questões mais importantes com a qual nos deparamos ultimamente. Sua importância cresce quando nos damos conta que não temos uma resposta satisfatória para nenhuma das duas.
Nosso ritmo de vida é instável, intranqüilo, inseguro, desconfortável, estamos a ponto de desmoronar. Acontecimentos traumáticos passaram a ser a regra. Tranqüilidade é uma exceção. Como chegamos a este estado de coisas? Como deixamos florescer uma sociedade pontilhada por tantas relações perversas?
Vivemos uma época contra-utópica. Nossos sonhos e projetos individuais são uma demonstração clara do nosso fracasso enquanto coletividade. Não sabemos conceber a vida para além das paredes de nossas casas (para os que têm casa). Usamos como desculpas para apaziguar nossa angústia séries e mais séries de conquistas tecnológicas. Festejamos tais conquistas como uma vantagem do nosso ímpeto insaciável e sempre a procura de mais. Não percebemos que o que acontece de fato é uma impossibilidade de nos encontrarmos satisfeitos, que perdemos completamente qualquer noção de limite, seja ele ético, moral, econômico, político ou estético.
Repito, somos a contra-utopia de uma sociedade vivida coletivamente. A prova é o florescimento da sociedade de consumo, do consumidor e seus desejos irrealizáveis. Nós nos encontramos em um tipo de sociedade que nos promete de tudo, mas, que ao mesmo tempo, tudo nos nega, sobretudo se não formos consumidores vorazes.
Nosso estilo de vida foi em parte construído tendo como um dos seus pilares a esperança no futuro. Assistimos, talvez, ao fim desse sonho quando percebemos que nossa capacidade de imaginar um mundo, não apenas melhor, mas diferente, se tornou uma tarefa imensamente difícil.
A explosão cotidiana de violência, seja nas grandes ou nas pequenas demonstrações, é indicador da nossa atual impossibilidade de construir, nem tanto um futuro, mas um presente que nos seja satisfatório. Não se tem ao certo uma definição e uma clareza do que de fato toda essa explosão de violência significa. Um clima de imprecisão quanto ao seu sentido faz do nosso tempo uma época caracterizada pela ausência de definição do que seria o mal. O vemos, o sentimos, o vivemos, mas não somos capazes de combatê-lo. E essa incapacidade revela nossa fragilidade.
Nossa violência não possui uma contrapartida, não sabemos lutar contra ela, não sabemos como amenizá-la. Ela não se apresenta como um estágio no qual precisamos passar para chegarmos a algo melhor. É uma violência que só leva a mais violência. Não há uma distinção clara e plausível entre os violentos e os não violentos. Testemunhamos um estado de indefinição, de ambigüidades, presentes no cotidiano, de oposições gratuitas, de violências sem direção, que se expressam das mais diversas formas, acabando por criar situações às vezes insuportáveis para alguns ou para muitos.
Alguns constroem abrigos para se proteger do mundo exterior (os condomínios fechados estão virando uma estranha necessidade sob o argumento da segurança) e, do outro lado, aqueles que se encontram a mercê da insegurança e da impossibilidade de ter alternativa, para estes não resta outra saída que a de encarar a realidade que se apresenta. Se em outros momentos os muros foram usados para proteção de todos contra aqueles que vinham de longe, contra os estranhos de outras terras, contra aqueles que falavam línguas estranhas, agora ele protege do estranho que fala a mesmo língua, vive na mesma cidade, talvez coma até o mesmo tipo de comida, vista o mesmo tipo de roupa, freqüente a mesma igreja ou coisa parecida. Somos, vivemos e formamos um mundo de estranhos entre nós. E esse não reconhecimento do outro gera e estabelece relações cínicas, distantes, superficiais, em que uma das prerrogativas principais é não se deixar envolver por esse outro que não se reconhece.
Para conter a onda de perversidade e maldade alguns clamam por mais leis, mais regras sociais, mais força repressiva, mais rigidez no trato com os “desajustados”, os “perigosos”, os “ameaçadores”, os “malvados”. Mas, no limite extremo, precisamos explicar de onde vem tanto mal, ele não pode ser gratuito. Mas aí nossos discursos fracassam. Não temos uma explicação plausível que convença e que indique um caminho que nos proteja de tanto mal. Fracassamos em explicar o mal, fracassamos em lidar com o mal. Fracassamos.
E nesse limite um cenário trágico se esboça: um cenário no qual violência e medo se misturam, se tornam os ingredientes que temperam a existência dos indivíduos. Neste cenário muitos acabam buscando no recolhimento de suas experiências respostas para as questões do mundo e do mal, mergulham, então, no universo do “auto” - auto-inspeção, autoproblematização, auto-realização, auto-monitoramento, auto-avaliação, auto-recuperação, auto-ajuda, etc. O irônico é que ao proceder assim o indivíduo acredita que está realmente determinando sua vida, que está livremente escolhendo, que essa será a melhor opção possível para ele.
Consumo e recolhimento tornam-se as balizas para esse indivíduo. Os seus sonhos passam pela possibilidade de consumir algo. Seu recolhimento significa de fato abster-se do mundo, torna-se, neste sentido, imperceptível, invisível, intocável. Neste clima só cabe a ele esperar que alguma solução para o problema da maldade caia do céu ou de onde quer que seja – o perigo aqui é que este sujeito quase sempre se encontra pronto para aceitar qualquer tipo de solução, até mesmo as mais fascistas e totalitárias.
A questão quanto ao que fazer com a violência e, quem sabe, a resposta sobre como superá-la, só pode advir, só pode ser entendida, só pode ser discutida com a ampliação de nossa compreensão do que ocorre em nossa sociedade e de como ela funciona, e tal tarefa é urgente. Mas não podemos medir o que se passa a partir de uma perspectiva tosca e medíocre. Para aqueles que só vêem “o lado bom” faz-se necessário um alerta: tal otimismo pode ser fruto exatamente de um afastamento do mundo, de um recolhimento frente às questões do mundo. Já para aqueles que não vêem saída, para aqueles que acreditam que estamos próximos do fim, lembro que é preciso estabelecer novas metas, ou mesmo acabar com todas as metas, principalmente aquelas oriundas de uma sociedade que inviabiliza qualquer ação de conjunto, que sufoca qualquer sentido ou perspectiva que não aquelas do mercado e do consumo.

Alexsandro A. Oliveira


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