06/04/2015

NÃO É O FIM DO MUNDO, MAS PODE ACONTECER ANTES DO FIM DO MÊS


Zeca Baleiro tem uma música (Drumembeis) na qual um dos seus versos diz assim: “Tá todo mundo com medo do fim do mundo / mas pior que fim do mundo / para mim é o fim do mês.” O que representa essa declaração? Que as preocupações cotidianas são aquelas que tomam conta de nossas vidas. Estamos mais preocupados em garantir o próximo fim do mês do que em garantir a continuação da espécie humana. Que estamos mais preocupados com a água da geladeira do que a do reservatório. Que pouco importa o mundo todo se o meu emprego estiver garantido. Que pouco importa o atentado terrorista desde que não atentem contra meu quintal.
Vivemos atualmente, como população de um país, Brasil, e como humanidade, uma série de problemas cuja novidade se encontra no grau de sua escala e no real perigo que representam para a vida humana na forma como ela se encontra hoje sendo experimentada. Isso significa que, nosso modo de vida pode acabar a qualquer instante, vivemos sob ameaças constantes, a forma como vivemos é uma bomba prestes a explodir. O motivo? Muitos problemas que hoje afetam o Brasil podem ser vistos em outras partes do mundo. E problemas que já afetam outras partes do mundo logo chegarão por aqui. Problemas para os quais não estamos preparados para enfrentar e pior, não estamos nos preparando para enfrentá-los. Não são problemas que virão, são problemas que ai já se encontram em andamento. Ao listá-los e ao verificar a gravidade de cada um, somado a inércia geral em não querer perceber. Ou, fazendo de conta que eles não são problemas e se são, não nos dizem respeito, temos uma equação cujo resultado se apresenta perigoso. A lista dos problemas que se anunciam não é difícil de fazer, assim como não é um mistério para ninguém. Mas qual o motivo de não prestarmos atenção? É que estamos preocupados com o fim do mês.


Colapso econômico
Vivemos na iminência de um colapso econômico. Nossa economia se baseia em um parâmetro de relação cujo dois dos seus principais componentes não fecham uma conta exata: a dívida e o crédito. É possível entender a linha fina na qual todo nosso modo de vida se sustenta se entendermos que há mais dívidas no mercado do que crédito para pagá-las. Se for somado as dívidas pessoais, institucionais, empresariais e estatais, há mais dívida no mundo que recursos financeiros para pagá-las. Vivemos na iminência de uma falência geral, para tanto basta chegar um momento no qual não se tenha como pagar as dívidas.


Escassez de água
Quando se fala em escassez de água pode parecer um assunto batido ou do qual todos já tem consciência e esclarecimento sobre a relevância de compreender os riscos que corremos. O problema é que não é isso que acontece. Bem pelo contrário, não se encontra em andamento nenhum programa sério para encarar o problema.
O Brasil é um bom exemplo do descaso geral de como o problema da água vem sendo tratado: desperdícios os mais variados e contaminação pelos mais diversos tipos de produtos definem a forma irresponsável como tratamos a água por aqui. Mas vale lembra que isso acontece no mundo todo.


Crescimento populacional em um mundo de recursos finitos
Outra conta que não estamos fazendo é a da relação entre recursos finitos e crescimento populacional.
A população brasileira mais do que dobrou em menos de cinquenta anos. Se formos analisar esse crescimento em termos mundiais a questão fica ainda mais grave. O que assistimos é o consumo cada vez mais rápido dos recursos naturais por um número cada vez maior de pessoas.
Se somarmos escassez de água e crescimento populacional o quadro fica delicado: devemos entender que para sobrevivermos dependemos de produtos, alimentícios ou não, vindos das mais diversas partes do mundo, esses produtos precisam ser produzidos e depois transportados, o que temos é uma bola de neve que só cresce. Muitos desses produtos demandam água ou a poluem. Água que precisamos em maior quantidade a cada ano por conta do aumento populacional. Uma população que consome cada vez mais, o que leva a diminuição dos recursos naturais e que polui a água em ritmo também crescente.


Um mundo sustentado pelo petróleo
Chegamos ao limiar de uma era – a era do petróleo. Criamos toda uma civilização dependente de um produto natural finito e que agora aponta para seu final. O mais grave aqui é que não há alternativa viável que o substitua, ou seja, não existe nenhum outro recurso que consiga fazer aquilo que o petróleo faz com o grau de sua abrangência e velocidade.
Para avaliar o significado do fim do petróleo e do impacto que isso causará basta pensar em apenas cinco setores do nosso modo de vida cuja presença dele é significativa, para não dizer fundamental em alguns: remédios, fertilizantes, comidas, produtos plásticos e combustíveis.


Terrorismo nuclear
Diz respeito a posse de armas nucleares por grupos terroristas. Um problema para o qual poucos dão atenção, mas cujo perigo é real e devastador. Um perigo que não exclui ninguém.


Vivemos na eminência de uma crise energética. Vivemos na eminência de uma pandemia. Vivemos na eminência de um  colapso da produção e distribuição de alimentos. Agora fico imaginando o seguinte: se uma greve de caminhoneiros desestabilizou nosso modo de vida, o que dizer de problemas realmente graves, como a falta de combustível? Se a maior cidade do país passa pela crise mais séria de sua história em termos de falta de água e nada de relevante está sendo feito, o que dizer do resto do país? A resposta é simples, mas assustadora: não estamos preparados, seja individual ou coletivamente, para enfrentar os problemas que virão.



Alexsandro

31/03/2015

CASAIS CONGRUENTES EM RELACIONAMENTOS PUROS OU CASAIS DE CONTAS SEPARADAS



Não faz muito tempo que encontrei um colega que já não via a certo tempo e como em todo encontro inesperado, com pessoas a quem conhecemos mas com quem não mantemos laços muito profundo, geralmente recorremos a perguntas trivias e foi assim que fiz, iniciei perguntando como andava o curso – ele havia começado um curso universitário fazia um tempo. Disse que estava indo, que já se encontrava no sexto semestre e continuou falando mais um pouco. Quando parou de falar interroguei sobre sua esposa, perguntei como ela estava e se também continuava estudando – eu sabia que ela estudava na mesma universidade. A resposta que obtive foi curiosa e é por conta dela que escrevo este texto.
Ele disse que ela tinha parado de estudar, que estava desempregada e que não tinha como pagar a universidade, que provavelmente voltaria assim que as coisas melhorassem. O que achei curioso? A naturalidade com que falou sobre a situação da esposa, como se o que ela estava passando não fosse de sua responsabilidade, ou seja, o fato dela não está estudando por não poder pagar a mensalidade não fazia parte do rol dos seus problemas, era, acredito que ele pensa assim, problema dela. Ele agiu como se não fosse.
Tal fato isolado que vivenciei chama ainda mais a atenção quando passamos a perceber que ele não é isolado, pelo contrário, é um fenômeno vivido por muitos casais. São os casais congruentes em relacionamentos puros ou, como prefiro chamar, casais de contas separadas.
O que é um casal congruente? É um casal que estando juntos podem ou não viver vidas separadas. É o casal que ao fazerem coisas juntos acham aquilo bom, mas se um deles tivesse de fazer sozinho não ai fazer a menor diferença. Enfim, podem fazer coisas juntos, mas se não fizerem não faz a menor diferença. Se um tem dinheiro e o outro não tem, o problema não é sentido como sendo do casal. Cada um tem sua própria lista de contatos e pouco importa quem são os contatos do outro. Quando um decide fazer alguma coisa, acredita que comunicar já é o bastante e algo para além disso é desnecessário, afinal, sente-se livre para optar por aquilo que lhe for conveniente e fazer o que achar melhor. Quanto ao outro? Fará o mesmo quando chegar sua vez.
O que é um relacionamento puro? É o relacionamento que “tende a ser, nos dias de hoje, a forma predominante de convívio humano, na qual se entra ‘pelo que cada um pode ganhar’ e se ‘continua apenas enquanto ambas as partes imaginem que estão proporcionando a cada uma satisfações suficientes para permanecerem na relação’.
O atual "relacionamento puro", na descrição de Giddens, não “é, como o casamento um dia foi, uma "condição natural" cuja durabilidade possa ser tomada como algo garantido, a não ser em circunstâncias extremas. É uma característica do relacionamento puro que ele possa ser rompido, mais ou menos ao bel-prazer, por qualquer um dos parceiros e a qualquer momento. Para que uma relação seja mantida, é necessária a possibilidade de compromisso duradouro. Mas qualquer um que se comprometa sem reservas arrisca-se a um grande sofrimento no futuro, caso ela venha a ser dissolvida.”

Quais as consequências de uma vida de casal congruente em relacionamentos puros? Responder exige outro texto e por hoje já gastei minhas quinhentas palavras.

27/03/2015

ALHO, CEBOLA E BEIJO NA BOCA, OU, UMA ÉPOCA DE IRONIAS




Talvez estejamos vivendo numa época na qual a ironia seja sua maior representante. Afinal, é ou não é irônico vermos as seguintes situações?

- Corruptos lutando contra a corrupção.
- Infelizes oferecendo receitas para a felicidade.
- Idiotas que se dizem donos do melhor conhecimento. (Não importa qual seja o tema)
- Honestos que enganam qualquer um. (Desde que o produto seja vendido, a quem importa ser honesto)
- Intolerantes falando de amor ao próximo.
- Mortais que falam de amor eterno.
- Hipócritas gritando que acreditam. (Em que? Sabe-se lá o que.)
- Gente livre que afirma não haver alternativa.
- Gente presa que afirma ser livre.
- Estudantes que não estudam.
- Amantes que não amam.
- Justiceiros do injusto.
- Fracassados que falam em sucesso.
- Burocratas que pregam espontaneidade.
- Gente que afirma que paga um alto preço para ser como é, mas que, ironicamente, venderam-se por muito pouco.
- Conformistas que falam em revolução.
- Rebeldes em Ferraris.
- Aventureiros de escritórios.
- Vagabundos que trabalham.
- Gente ruim que é vista como boa.
- Gente boa que é vista como ruim.
- Gente que tem a capacidade de defender duas crenças ou ideias contraditórias, ou seja, é capaz de defender uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo, chegando a incrível situação de saber que está errada, mas se convence de que está certa.

Tais ironias se devem a muitos fatores, mas também não deixa de ser irônico o fato de que a mais de cinquenta anos George Orwell tenha cunhado o termo “duplipensar” como tentativa de definir esse jogo de incoerências tão recorrentes na vida moderna.
Duplipensar é, no entendimento do próprio Orwell:
“Saber e não saber, ter consciência de completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer tudo quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza derradeira: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra "duplipensar" era necessário usar o duplipensar.”



Alexsandro

23/11/2014

UMA ONDA FASCISTA CRESCE NO BRASIL


Cada vez mais uma onda fascista espalha seu ódio pelo Brasil. A composição de um Congresso Nacional extremamente conservado revela a quantas anda a mentalidade geral da nação brasileira. Contra tudo que se tentou avançar desde o fim da ditadura, caminhamos na contracorrente: vemos crescer o apoio a figuras que representam o que há de mais reacionário e fascista no mundo. 
Não é a toa que uma onda de mentiras varre o país (primeiro traço das ações fascistas). Fala-se numa ditadura comunista advinda dos pobres, negros, gays e deficientes físicos. Nada mais mentiroso, pois o que de fato assistimos é uma ditadura fascista se esboçando. E pior, apoiada por milhões de pessoas que, achando que estão perdendo alguma coisa simplesmente pelo fato de que algumas outras conseguiram um pouco mais que apenas o que comer, que conseguem expressar sentimentos que por muito tempo ficaram escondidos, que podem falar de suas condições como forma de afirmar uma posição política na sociedade, se voltam para as mais horríveis forma de pensamento e ação espelhadas em figuras que só conseguem expressar o que temos de pior. E não há nada pior que atitudes fascistas. E por que são fascistas?
São fascistas por serem sensacionalistas. 
São fascistas por desejarem mais a miséria e a tristeza do outro do que abrir-se para novas formas de encarar o mundo.
São fascistas por expressarem conteúdos preconceituosos se dizendo representantes de um tal “bem comum”. 
São fascistas por pregarem o racismo e a xenofobia.
São fascistas pelo grau de intolerância que expressão em público como forma de ganharem aplausos e visibilidade. 
São fascistas por conta dos seus comportamentos fanáticos. 
São fascistas por defenderem a violência como forma de resolver os conflitos.
São fascistas por se colocarem como superiores frente aos outros.
São fascistas por defenderem apenas seus privilégios.
São fascistas aqueles que não abrem mão de um pouco em nome de justiça social.
E onde encontramos fascismo no Brasil?
Em todos os lugares. Em todas as regiões. Em todas as religiões. Em todas as classes sociais. Em todas as sexualidades. Em todas as escolas. Em todas as casas. Em todas as empresas. Em todos os times de futebol. Em toda programação da TV e do rádio...
É um fenômeno difícil, mas precisamos entendê-lo e lutar contra ele urgentemente.
O primeiro passo é revermos nossa forma de pensar, revermos a quem apoiamos, revermos nossos valores, revermos o que queremos para nós e para os outros a nossa volta.O fascismo deve ser combatido a partir, e principalmente, de dentro de cada um. Deve ser combatido nas instituições onde corroí a partir de dentro. Precisamos compreender que suas artimanhas são diversas e sutis. Nada de firula, o fascismo tem de ser combatido de forma prática e ativa. Devemos ser direto contra ele. O fascismo só pode ser vencido se for enfrentado de modo objetivo e prático. (Mas isso não significa dizer que devemos usas as mesmas formas de ação que ele usa) 
Devemos ter em mente também que o fascismo (e todo fascista) tem uma grande e principal fraqueza: ele não tem respostas para as questões contingentes da vida. Essa cegueira que o(s) acompanha faz com que só consiga(m) ver o mundo e os outros a partir de uma distorção, uma projeção mental, enfim, ele desconhece total e completamente aquilo que não é ele próprio, aquilo que é diverso. E eis ai também a maior vantagem daqueles que vão combatê-lo: como ele acredita que sabe exatamente o que o outro é, esse outro possui um enorme campo de possibilidade de criação e movimento.




Alexsandro

SIMPLES ASSIM


O ceticismo só terá valor se conseguir destruir algumas expectativas idiotas, caso contrário de que valeria tanto esforço acadêmico.
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Não há nada mais horrível que um animal domesticado - vejam os cães e gatos. Neles habitam um rancor que só nós, homens e mulheres, domesticados desde sempre, conhecemos bem. O rancor por ter perdido a inocência selvagem. Tal fato não poderia ser perdoado e não perdoamos: enquanto não domesticarmos todos os outros animais, para que sofram como nós, não descansaremos, e aos que se recusarem, destruiremos.


Alexsandro

A VIDA COMO UM CHUTE NO ESTOMAGO


Como estamos submergidos em sistemas de hierarquias tradicionais acreditamos que o mundo segue ou deve seguir algum plano que conseguimos entender. Como estamos impregnados de uma rotina maçante de burocracia acreditamos que o mundo respeita uma lógica e que essa lógica pode ser administrada por nossa consciência e racionalidade. Enfim, o fato de se acreditar que o mundo vai seguir na direção que desejamos não significa que ele vai. Não vai. O confronto entre aquilo em que se acredita e se deseja e aquilo que acontece sempre causa desconforto. O mundo a nossa volta sempre será maior que as expectativas, esperanças e desejos alimentados. Assim, o fato de se acreditar que o mundo é do jeito que se percebe não significa que ele seja. Deve-se conformar? Não sei. Mas é fato que ele não é e nunca será como se acredita. Basta ver que quando se pensa numa vida ideal geralmente se comete o grande erro de não colocar como a variável mais importante o fato de que a vida nunca segue na direção que se apontou. É, a vida ideal terá sempre como contraponto as transformações do mundo. Na contingência da vida, os acontecimentos não param de surgir. Ou seja, aquele elemento novo, aquele fato inusitado, aquelas escolha não calculado, aquela possibilidade não prevista... sempre virão para nos deslocar de alguma forma. 
E onde se encontra o problema? Na vida? Não. Mas na nossa resistência e na nossa incompetência de buscar outras respostas -- nesse fato se revela a fragilidade da nossa condição.


Alexsandro

MOEDA CORRENTE DO MERCADO


A nossa subjetividade - nossas emoções, formas de pensar, ideias, sensações, sentimentos, personalidade ... – se encontra diante de uma infinidade cambiante de fluxos heterogêneos - todo esse movimento incessante de coisas acontecendo a nossa volta, vindas de todas as direções, para as quais não fomos e, por isso mesmo, não estamos preparados para encara-las. Isso porque o sistema capitalista, centrado no mercado, não nos deixa sossegar um só minuto, seja oferecendo coisas, seja nos tirando coisas. O impacto desse fato sobre os processos de individuação ou subjetivação - o processo pelo qual nos tornamos quem somos - é imenso e perverso. Há um processo fascista de agenciamento de intensidades, ou, o controle, a padronização, a homogeneização e a distribuições de certas emoções, sensações, formas de pensar, ideias e sentimentos para o conjunto da sociedade – distribuição que acontece como com qualquer produto do mercado. Assim, o exercício de nossa individuação – processo pela qual nos tornamos indivíduos – que poderia ser fruto de imensa criatividade, é, de saída, mediado por um sistema metaestável de singularidades pré-individuais e impessoais mediadas pelo capital. 
Ou seja, o sistema simbólico (que define nossa visão de mundo) que usamos para tirar os elementos que usaremos para constituição de quem somos – sistema que só existe enquanto elemento de criação simbólica e cultural, e que dizem respeito as coisas que usamos para nos tornemos quem somos, que são e sempre serão pura invenção cultural, são hoje produzidas nos interstícios do capitalismo. 
Dizendo de outra forma, aquilo que somos ( por meio daquilo que usamos para nos constituir) é nada mais que moeda corrente do mercado - um mercado volátil e instável, que muda incessantemente. 
Por conta disso, o que anda acontecendo conosco? Não estamos conseguindo articular duas coisas duas coisas fundamentais para podermos nos constituir: 
- Sedimentação estrutural - uma estrutura que possibilitaria a estabilidade que precisamos para nos constituirmos de maneira mais potencializada e potencializadora.
- Agitação caótica - o mundo agitado, em constante mudança, no qual vivemos
Conclusão: se a nossa vida é composta por várias áreas de significação e estas áreas se encontram hoje sob o domínio do capital e se em cada área da realidade que adentramos novas exigências emocionais e psíquicas são exigidas de nós, a consequência é que quanto mais coisas mudam, quanto mais instável é nosso mundo, com quanto mais coisas nos envolvemos, quanto mais rápido as coisas acontecem, mais instáveis ficamos, mais ao limite daquilo que podemos suportar somos levado.

AOS QUE CLAMAM POR DITADURA


Você é um FASCISTA. É assim mesmo que você pode ser definido. É, existe um conceito para definir as atitudes, as ideias, as crenças e ações que emana de você. Sabendo ou não, você se encontra alinhado com coisas que sempre representaram o pior que a humanidade produziu.
Você traz consigo um ar de autoritarismo. Confunde adversário com inimigo.
No seu caso e no caso do Brasil, isso tem uma explicação: como povo e como cidadãos (conceitos delicados e difíceis) não entendemos bem o que é o espaço político. Isso também tem uma explicação: nossa história, sobretudo a mais recente, foi pautada por um clima muito ruim, o da ditadura militar, que como toda ditadura, só se sustentava na base de produzir inimigos, reais ou imaginários. Enfim, e para nossa tristeza, nosso “caráter nacional” traz esse ranço, um sabor amargo de totalitarismo que já deveríamos ter cuspido fora, mas que alguns ainda insistem em manter na boca. Sabor que na boca de alguém como você é mais amargo ainda. E isso fica claro quando clama por um poder que venha para destruir o outro, no nosso caso, o caso do Brasil, um outro que nunca te ameaçou, que apenas pensa diferente e que quer vive bem, assim como você quer viver bem. Você pede por uma ditadura como se ela fosse trabalhar em teu nome e para você. Como se ela fosse transformar tua vida para melhor enquanto destrói a do outro. Mas saiba que as coisas não são assim tão simples. Há muito mais coisas implicadas no teu desejo por uma ditadura. Saiba que todo fascista se encontra oscilando entre dois extremos feios e perigosos: a xenofobia e o ufanismo.
Fascista, xenófobo e ufanista não são emblemas bons de ter, a não ser que você realmente queira ser uma pessoa ruim. E como sabemos que muita gente só é boa por falta de opção, tenho muito medo que queira ser ruim e que apenas ainda não teve oportunidade para isso e que sonhar por uma ditadura seja sonhar pela oportunidade de colocar sua maldade para fora. Se você quer ser esse tipo de pessoa, sinto muito por você e por mim. Sobretudo por mim, que a partir de agora corro perigo convivendo com você. Você é ameaçador, você é um risco a minha vida e a vida de todos aqueles que amo e que compartilham comigo o mesmo modo de viver e as mesmas crenças.
Mas se você não quer ser o tipo ruim de pessoa que todo fascista é, sugiro uma coisa: procure entender melhor o país no qual vive. Seus fenômenos e acontecimentos. Pesquise sua história. Saia do seu circulo vicioso, da sua zona de conforto. O país no qual vivemos, assim como todos os países, é cheio de contradições. Ele tem coisas boas e ruins, alegres e tristes. Há pessoas maravilhosas que o habita. Mas há também pessoas muito ruins, por isso, procure ficar alerta para não acabar fazendo parte desse grupo.
Procure entender as razões pelas quais chegamos a esse estado de coisas. O mundo passa por mudanças profundas, mudanças que afetam todos nós. 
Digo-te mais: o maior problema do Brasil hoje é a existência de uma mentalidade presente em todos nós, uma mentalidade que nos faz acreditar que as soluções dos nossos problemas serão fáceis e virão de algum ser iluminado, que com uma varinha mágica transformará a todos em pessoas felizes e incorruptíveis. O problema é que falamos a língua dos fingidos, daqueles que dizem uma coisa e fazem outra. Falamos a língua dos capitalistas achando que falamos a língua dos anjos.
Digo-te mais ainda: desqualificar outros seres humanos por conta de uma região geográfica é naturalizar questões que estão muito aquém deste reducionismo medíocre. Desqualificar outros seres humanos só por que eles pensam diferente é agir como um idiota. Da mesma forma que achar que se faz parte do povo eleito ou que mora na melhor região geográfica do mundo é não entender que todos os recortes que produzem as fronteiras foram frutos de processos dolorosos que deixaram um rastro de sangue e dor que você insiste em querer reproduzir e perpetuar. Insiste na presença de um poder autoritário, insistir que uma separação entre lados que sofrem os mesmos problemas te colocaria no melhor dos lados é não entender que o principal fator das separações é justamente a incapacidade de um lado entender as razões e prioridades do outro, mas agindo de forma intransigente não te fará uma pessoa melhor e, muito menos, não fará nosso mundo e nosso viver juntos melhor. 
Não seja intransigente, só os xenófobos, ufanistas e fascistas são intransigentes.
Corrupção não se combate com ditadura, com totalitarismo, com nazismo, com fascismo. Corrupção se combate com a participação das pessoas nos órgãos das administrações públicas, com a circulação de informações, com pessoas informando e sendo informada. Corrupção se combate não sendo corrupto. Corrupção se combate com amigos unidos formando um só povo, pois amigos não roubam e não desejam o mal para os amigos.
CONTRA UM MUNDO DE FASCISTAS, UM MUNDO DE AMIGOS.



Alexsandro


24/08/2014

A banalidade do mal e o Serviço Público de Eliminação de Inúteis


Hannah Arendt, filósofa, falou sobre a banalidade do mal. Uma ideia simples, mas ao mesmo tempo assustadora. O que significa a tal banalidade do mal? Significa que o mal não é necessariamente praticado como uma ação decididamente maligna. Aquele que o faz não é nada mais nada menos que um ser humano comum. Não se é mal apenas a partir de um histórico de violências ou por se possuir um caráter distorcido ou moral e psicologicamente doentio. É-se mal também quando se acredita agir por dever dentro de uma lógica de cumprimento de ordens superiores. Pode-se ser mal de maneira mais simples ainda, apenas agindo motivado por um tolo desejo de ascender em qualquer carreira profissional. Pode-se ser mal de forma ainda mais boba e idiota quando se age dentro de uma lógica burocrática, cumprindo ordens sem questioná-las e desejando ser elogiado por ter feito tudo conforme mandado. 
O mal está presente nas nossas ideias e podemos não nos dá conta disso. Mas devemos entender que o mal não é um demônio que toma posse do nosso corpo, não é uma categoria filosófica que existe pairando no mundo das ideias. O mal só existe no “ato mau” que praticamos, na “ação má” que deliberadamente fazemos acontecer, no “pensamento mau”, nas “ideias más” que fazemos circular sem nos dá conta das implicações do seu conteúdo. O mal é produto nosso, de homens e mulheres, e se manifesta em razão de nossas escolhas.
Quando escuto, vejo ou leio algo como um comentário no qual um homem ou uma mulher fala com desprezo de outro ser humano, afirmando que o mundo seria melhor se ele ou ela passassem fome, que outro ser humano é vagabundo ou preguiçoso apenas porque é miserável me questiono sobre o que somos. Somos alguma espécie de abelha? Só valemos para a colmeia se formos produtivos? Se não der lucro para alguém ou contribuir para o engrandecimento do estado não temos valor algum? É isso que vale? É assim que deve funcionar? Se não formos um cidadão modelo, um operário padrão, um homem ou mulher bem obediente devemos ser eliminados?
O que me assusta é que se fosse proposto a criação de um "Serviço Público de Eliminação de Inúteis" faltaria vagas para tantos candidatos ao posto de “selecionador de inúteis” (inúteis que iriam queimar nos fornos mantidos acessos por gente de bem). O que demonstra como há fascistas disfarçados de "gente boa" andando por ai.

P.S.: Abandonar a banalidade do mal é buscar agir de forma ética. É entender que se faz necessário um pensamento crítico que nos leve a ver outro ser humano como humano e não como coisa.


Alexsandro

11/08/2014

Somos alienígenas em nosso próprio planeta



A sociedade contemporânea, marcadamente mercadológica, se reproduz num processo alucinante, numa espécie de canibalismo de si: produção e consumo sem medida para absolutamente tudo. Sociedade na qual cada um e todos são alienígenas que não conseguem se encaixar. 
Fazemos muito esforço para que tudo se encaixe. Mas nada se encaixa, cada aspecto das nossas vidas tem pouca ou nenhuma ligação com outros aspectos. Se fossemos um personagem sem nome, sem história, sem propósito, não faria a menor diferença. Sem alma e sem essência sob as camadas da pele, percebemos que somos algo que não mais reconhecemos como nosso. Nossos diálogos são lacônicos: diálogos que não fazem refletir. Vivemos com a sensação de já ter visto tudo antes, de já ter ouvido tudo antes, de fazer sempre do mesmo modo. Sabe aquela sensação de vida desconectada?
Por nada fazer sentido, buscamos uma humanidade que não possuímos por meio da inveja dos outros - que me invejem, pois assim confirmo que sou algo com significado. Estimula-se a inveja como forma de se chegar a ser algo próximo do desejável em termos de produto a venda. Daí, da inveja à sedução: seduzimos e nos deixamos seduzir para tentar confirmar que fazemos parte de algo maior do que nós e que nosso lugar está garantido. 
Como alienígenas em nosso próprio mundo, abdicamos do poder de habitá-lo como força viva e potencia vigorosa da vida. Sucumbimos diante do poder de sedução do mercado que nos capturou e abduziu a vida humana e suas forças de criação.



Alexsandro