24/08/2014

A banalidade do mal e o Serviço Público de Eliminação de Inúteis


Hannah Arendt, filósofa, falou sobre a banalidade do mal. Uma ideia simples, mas ao mesmo tempo assustadora. O que significa a tal banalidade do mal? Significa que o mal não é necessariamente praticado como uma ação decididamente maligna. Aquele que o faz não é nada mais nada menos que um ser humano comum. Não se é mal apenas a partir de um histórico de violências ou por se possuir um caráter distorcido ou moral e psicologicamente doentio. É-se mal também quando se acredita agir por dever dentro de uma lógica de cumprimento de ordens superiores. Pode-se ser mal de maneira mais simples ainda, apenas agindo motivado por um tolo desejo de ascender em qualquer carreira profissional. Pode-se ser mal de forma ainda mais boba e idiota quando se age dentro de uma lógica burocrática, cumprindo ordens sem questioná-las e desejando ser elogiado por ter feito tudo conforme mandado. 
O mal está presente nas nossas ideias e podemos não nos dá conta disso. Mas devemos entender que o mal não é um demônio que toma posse do nosso corpo, não é uma categoria filosófica que existe pairando no mundo das ideias. O mal só existe no “ato mau” que praticamos, na “ação má” que deliberadamente fazemos acontecer, no “pensamento mau”, nas “ideias más” que fazemos circular sem nos dá conta das implicações do seu conteúdo. O mal é produto nosso, de homens e mulheres, e se manifesta em razão de nossas escolhas.
Quando escuto, vejo ou leio algo como um comentário no qual um homem ou uma mulher fala com desprezo de outro ser humano, afirmando que o mundo seria melhor se ele ou ela passassem fome, que outro ser humano é vagabundo ou preguiçoso apenas porque é miserável me questiono sobre o que somos. Somos alguma espécie de abelha? Só valemos para a colmeia se formos produtivos? Se não der lucro para alguém ou contribuir para o engrandecimento do estado não temos valor algum? É isso que vale? É assim que deve funcionar? Se não formos um cidadão modelo, um operário padrão, um homem ou mulher bem obediente devemos ser eliminados?
O que me assusta é que se fosse proposto a criação de um "Serviço Público de Eliminação de Inúteis" faltaria vagas para tantos candidatos ao posto de “selecionador de inúteis” (inúteis que iriam queimar nos fornos mantidos acessos por gente de bem). O que demonstra como há fascistas disfarçados de "gente boa" andando por ai.

P.S.: Abandonar a banalidade do mal é buscar agir de forma ética. É entender que se faz necessário um pensamento crítico que nos leve a ver outro ser humano como humano e não como coisa.


Alexsandro

11/08/2014

Somos alienígenas em nosso próprio planeta



A sociedade contemporânea, marcadamente mercadológica, se reproduz num processo alucinante, numa espécie de canibalismo de si: produção e consumo sem medida para absolutamente tudo. Sociedade na qual cada um e todos são alienígenas que não conseguem se encaixar. 
Fazemos muito esforço para que tudo se encaixe. Mas nada se encaixa, cada aspecto das nossas vidas tem pouca ou nenhuma ligação com outros aspectos. Se fossemos um personagem sem nome, sem história, sem propósito, não faria a menor diferença. Sem alma e sem essência sob as camadas da pele, percebemos que somos algo que não mais reconhecemos como nosso. Nossos diálogos são lacônicos: diálogos que não fazem refletir. Vivemos com a sensação de já ter visto tudo antes, de já ter ouvido tudo antes, de fazer sempre do mesmo modo. Sabe aquela sensação de vida desconectada?
Por nada fazer sentido, buscamos uma humanidade que não possuímos por meio da inveja dos outros - que me invejem, pois assim confirmo que sou algo com significado. Estimula-se a inveja como forma de se chegar a ser algo próximo do desejável em termos de produto a venda. Daí, da inveja à sedução: seduzimos e nos deixamos seduzir para tentar confirmar que fazemos parte de algo maior do que nós e que nosso lugar está garantido. 
Como alienígenas em nosso próprio mundo, abdicamos do poder de habitá-lo como força viva e potencia vigorosa da vida. Sucumbimos diante do poder de sedução do mercado que nos capturou e abduziu a vida humana e suas forças de criação.



Alexsandro

O marketing da salvação e a nossa incapacidade de produzir boas soluções




O tempo das hierarquias ou papeis estáveis e previsíveis, típicos das sociedades pré-modernas, passou. Proclama-se o movimento, o fluido, questionam-se as autoridades. Festeja-se a autonomia e a liberdade como valores absolutos, mesmo que não sejam vividos em sua plenitude. Vivemos o tempo no qual o individuo assumiu o ônus das suas opções, mesmo que não esteja preparado para pagar e assumir a autonomia de sua vida como um fardo sem suporte. Assim, a imagem de homens e mulheres passivos, típicos da visão cosmocêntrica na qual estes mesmos homens e mulheres se viam como partes da criação, amoldando-se as leis (divinas ou naturais) preexistentes, já não satisfaz. Queremos-nos ativos, nos imaginamos senhores de nossos destinos. A nova imagem antropocêntrica tem na autocriação seu mote de direcionamento.
Não chegamos ao tempo atual a partir de movimentos de acontecimentos ideologicamente articulados, mas como resultado de uma evolução histórico-cultural não linear e irreversível. Somos o resultado de processos que romperam com modelos existentes e cujo impacto social denotou saltos qualitativos na dimensão simbólica da existência a ponto de introjetar novos sentidos e significados na realidade vivida por nós. Tamanho foi esse processo que desencadeou uma convulsão nos valores até então estabelecidos. Se se passar em revista o momento atual, uma de suas marcas registradas é, decerto, a crise que implica uma ruptura total com traços culturais que, por exemplo, colocava a solidariedade como um dos fundamentos essenciais da vida social. A ideia de uma identidade construída tendo como referência relações que implicam ou que induziam para o bem de toda a sociedade já não é tão forte (se é que um dia foi). Em vez disso tem-se uma exagerada valorização do individualismo, onde tudo parece convergir para saciar e garantir a realização individual em detrimento do bem social. Estabeleceu-se a tirania da autorrealização. Em contrapartida, e no seu inverso, as questões básicas da sociedade foram relegadas ao nível quase do insignificante. 
É neste contexto que o mercado passa a ser o setor das realizações humanas. Suas leis implacáveis legislam, entretanto, para satisfazer apenas aqueles que possuem poder aquisitivo satisfatório. O distanciamento entre os grupos economicamente definidos só aumenta. A opulência dos mais abastados, o consumo sofisticado das elites e a realização individualista que vivem e promovem como verdade a ser seguida torna insignificantes as questões que dizem respeito aos precários níveis de sobrevivência da maioria. 
(Sem dúvida que questionamentos foram feitos e por meio deles tomou-se consciência de que toda esta precariedade, não apenas econômica, mas, sobretudo ética, na qual a sociedade se encontra submergida.)
E o que dizer sobre o sagrado no cotidiano das sociedades? Um olhar, mesmo que descomprometido ou sem interesse, permite perceber que a amplitude do fenômeno religioso é significativa. Florescem religiões, multiplicam-se feiras místicas, a leitura esotérica ganhou espaço entre os best-sellers, aspectos religiosos são usados em campanhas eleitorais, a televisão põe dentro de casa o padre ou o pastor, atletas fazem suas orações antes das competições em meio ao público, demonstrando assim que as práticas religiosas encontram-se espalhadas por toda sociedade. Mais estes são apenas os aspectos mais palpáveis do fenômeno. Devemos ter claro que a extrema valorização do indivíduo levou-nos a uma série de fenômenos que se caracterizam por ampliarem o desvinculo entre os indivíduos e entre esses e a sociedade - é a corrupção, a guerra, a poluição, os assaltos, o desemprego, as epidemias, a desigualdade social, a competição, a autorrealização (em vez da realização conjunta), etc. A solução para a questão do desvinculo demandaria a mudança em nosso modo de conceber e vida e nosso modo de relacionar-se com os outros e com o mundo. Enfim, soluções que se encontram em um espaço ainda não ocupado pela maioria das pessoas ou cujos significados concorrem com significados produzidos por aqueles que desejam manter tudo como ai se encontra. Para estes mais vale promover supostas soluções e significados que passem pelos produtos e serviços a venda e que foram produzidos em suas fábricas de promessas imediatistas. É assim, o significado e a superação do que ai se encontra são buscados recorrendo às promessas imediatistas de uma vida melhor feitas sob medida para o consumidor. É aqui que religião e mercado se encontram. Uma das mais velhas práticas utilizadas ao longo das épocas para oferecer respostas e soluções para os problemas humanos, a religião, se soma ao mercado, o ambiente que a pouco se estabeleceu como o promotor de todo tipo de solução para qualquer questão humana. Da soma dos dois sai o marketing da salvação.
É isso, para homens e mulheres desejosos de soluções para suas vidas, existe o marketing da salvação, que promete salvação individual em um mundo marcado por manifestações de miséria cujo fim não se percebe a partir de soluções advindas de qualquer daqueles que ocupam postos criados para, de fato, produzirem soluções eficazes e sem engodo e que deveriam ser os promotores reais das necessárias soluções ou não se entende que muitos dos nossos principais problemas, sejam individuais ou coletivos, só serão satisfatoriamente resolvidos com o comprometimento de todos.
Neste contexto o marketing da salvação promove uma estratégia na qual a salvação (solução de qualquer problema humano) passa a ser entendida como a posse e o consumo do sagrado. Em tais práticas não se reflete sobre a significação, a dimensão existencial do gesto ou do objeto sagrado. O que existe é apenas mercadorias descartáveis e tentativas isoladas de, no dia-a-dia, salvar o emprego, evitar a solidão, sarar as doenças e livrar-se daquelas situações que nos colocam em guerra uns com os outros. Desta forma, o próprio sentido da religião, o religare (religamento), fica deformado em meio a tanta luta ou em meio à busca compulsiva de um sentido produzido ao gosto do freguês.
O delicado e o mais revelador da questão é o fato de que apesar de tudo isso é possível ler a esperança lançada no mundo religioso. Seja através do consumo de objetos ou de práticas, o fenômeno revela o desejo presente em mulheres e homens de fazerem o religamento, embora nem tanto com Deus, mas com aqueles com quem dividem a vida. A religião e o mercado, e dentro dos dois as nossas angústias, é prova da nossa luta para refazer os vínculos humanos que foram despedaçados ao longo dos últimos tempos. A religião e o mercado são a prova da nossa incapacidade de produzir boas soluções para um dos nossos principais problemas: como tornar o nosso estar juntos melhor.



Alexsandro



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06/08/2014

Realizar é diferente de conformar



No mundo da autoajuda, da motivação e da teologia da prosperidade o apelo a ideia de "realizar” é uma constante. Vemos uma infinidade de sugestões e dicas de como fazê-lo:
 - O caminho para a realização de seus sonhos pode não ser nada fácil. Muitas vezes, significa sacrifícios difíceis e decisões cheias de riscos e inseguranças envolvidos. Para muitos é a coisa mais difícil da vida. Ainda assim, podemos ver diariamente exemplos de pessoas que não deixaram esses fatores serem maiores do que a vontade de conseguir o que desejam;
 - Aprender a transformar os sonhos em realidade pode parecer muito difícil, mas garante sua satisfação pessoal;
 - [5, 6, 7, um milhão de] Passos para realizar seus sonhos profissionais;
 - [5, 6, 7, um milhão de] Dicas para realizar seus sonhos e superar limites;
 - A crença de ser capaz de seguir adiante e realizar seu desejo é fundamental para que isso aconteça;
 - Entre em contato com a essência do que está buscando. Entre em contato com o sentimento que a realização do sonho trará à sua vida, e perceberá que seu sonho pode ter muitas formas de se transformar em realidade;
 - Cuide da sua autoestima. Você precisa sentir-se valioso e merecedor do sonho que quer realizar;
 -[5, 6, 7, um milhão de] Dicas para perder o medo e realizar seus sonhos;
 Existe até uma "Calculadora dos sonhos". Nela se pode calcular quanto custa um sonho. O idealizador afirmar que saber quanto custa é o primeiro passo para torná-lo real. A calculadora é ideal para aqueles sonhos que envolvem custos financeiros: comprar um carro, fazer uma viagem, comprar um imóvel, fazer uma cirurgia plástica, etc.

Não sei se agindo assim estamos realizando algo. Tenha a impressão que parece mais conformação que realização. Isso porque conformar é desejar aquilo que está sendo oferecido e colocar aquilo como prioridade. É por isso que muito daquilo que é apresentado como realização não passa de uma busca por conformação. A ação que parte de uma forma preestabelecida e conveniente. É colocar a ação em uma fôrma. Agir em direção ao estabelecido. Quando ouvimos frases do tipo: “estou realizando um sonho”; o sentido pode ser traduzido assim: “estou conformando minha vida ao que foi estabelecido como desejável. Desejei o desejável e agora fui recompensado”.
Por sua vez podemos pensar a realização, o realizar, como uma ação que tenta se esquivar do desejável, que tenta ir além do estabelecido.
A palavra realizar vem do latim reallis acrescida do sufixo izare (implementar, colocar em prática).
Podemos entender Realizar como a ação de criar algo para além do campo da realidade.
Vamos por parte e iniciemos fazendo uma distinção entre “real” e e “realidade”. O “real” pode ser entendido como tudo que existe; tudo, independentemente de termos contato ou não, de sabermos de sua existência ou não. Tudo que faz parte da nossa “realidade” faz parte do “real”, mas muito daquilo que faz parte do “real” não faz parte da nossa “realidade”. Nossa “realidade” é apenas um fragmento do “real”. Quando desejamos algo o fazemos dentro da nossa “realidade” conhecida, para além dela não conseguimos pensar. Podemos intuir que existe algo maior, mas dificilmente conseguimos conceber o que seja. Além desse fato advém também que nunca nos relacionamos com o mundo em si, mais sempre interpretamos o mundo. Nossa “realidade” é, por definição, o mundo segundo nossa interpretação. Uma interpretação que é sempre construída por conjuntos de valores e significados que constituem nossa cosmovisão.
Nós podemos inserir coisas no “real”? Sim, quando criamos. Um poema não era real até o poeta escrevê-lo. Um personagem de uma ficção não existia até ser descrito por um autor. No ato de criação podemos “realizar”, por algo na “realidade”, e, por consequência, no “real”.
Assim, realizar pode ser entendida como a ação de por algo diferente no mundo, de criar. Criação como uma experiência singular. Realizar é, neste sentido, uma experiência artística. Um mergulho no caos, emergindo com um sentido novo, uma expressão nova, um modo novo de fazer. É olhar em volta e sentir que aquilo que o status quo oferece não é suficiente, que há mais para além dele. É sentir o instinto de criação pulsando forte.

Só há realização quando há criação. Na conformação não há criação, no máximo reprodução. Só nos realizamos quando criamos.  


Alexsandro


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03/07/2014

Ironia, injustiça e prazer

Ironia é uma palavra cara. E quantas ironias preenchem nossas vidas. Uma delas? O fato da gente não prestar atenção às velhas lições. Lições como a do velho e rabugento Schopenhauer. Afinal não foi ele quem fez uma primorosa relação entre egoísmo e política? Quando que a gente vai aprender que a política é o campo de luta de vontades egoístas? Não é ele que aponta como a deusa do mundo (político) Éris, a deusa da discórdia?
“Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: ‘Tudo para mim e nada para os outros’ é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.”
Como traduzir? Fácil: cada um e todos buscam o melhor para si independentemente do outro (se é bom para mim, então é bom e foda-se o outro). E se a felicidade do outro for um impedimento para a minha, que a dele se acabe. Se a vida dele é um obstáculo para que a minha vida se expanda, que ele morra. Meu bem-estar é tudo e o bem-estar do outro é nada. Expressão máxima do egoísmo.
Se o limite para uma existência melhor, mais prazerosa e agradável é a existência do outro, atos de injustiça serão apenas uma ponte para chegar a margem que se deseja. Ou, no final das contas, injustiça será lida como aquilo que impede que alguém se expanda.
Sim, tentamos criar muitos mecanismos que impeçam o egoísmo de florescer (lei, crenças, valores), mas sempre foi um trabalho de Sísifo.
O único remédio contra a injustiça é renunciar ao prazer. Alguém ai tem disposição para tanto?


Alexsandro



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20/06/2014

Um lugar para os adultos – Infância e liberdade

O texto vai para meu sobrinho Tales (de 7 anos) 
que inaugurou sua carreira como filosofo com a seguinte reflexão:
"Pai, como ocorreu isso de surgir o nome das coisas? 
Acho que talvez tudo nem tem nome, é nós que 
inventamos  um nome para aquela coisa sem nome".



Os adultos não param de querer encontrar um lugar para infância, não param de querer determinar quais são os lugares devidos para experiência da infância, não param de querer definir o que é a infância. É nesse sentido que a figura da infância encontra-se carregada de clichês e estereótipos. Fruto de um adulto geralmente cansado de si mesmo, pesado por carregar o mundo em suas costas, condicionado pela época e pela cultura (capitalista, no nosso caso), tais figuras, em sua maioria, definem a infância como a matéria-prima para modelagem de um futuro adulto, geralmente pensado como sendo melhor do que o adulto que aí se encontra. A partir daí, todo um conjunto de aparatos foram e são pensados e usados no processo de modelagem da infância: escolas, pedagogias, psicologias, investimentos, políticas, assistências, arranjos e mais arranjos, para fazer com que as crianças cheguem a ser adultos felizes.
Há várias figuras e imagens que são associadas à infância. Uma delas geralmente associa infância com liberdade. Se pensarmos a imagem da infância como experiência da liberdade, só podemos empreendê-la de fato e seriamente, se entendermos o encontro da liberdade com a infância como o momento no qual não se precisa criar coisa alguma, como um momento de pura esterilidade, nenhuma pressão interior ou exterior para se fazer coisa alguma, para se ser coisa alguma, nenhum projeto, nada para conquistar, nenhum lugar para ir, nenhum movimento a ser feito, nada para ser criado, nada para ser destruído. De saída, percebe-se que se um adulto quer viver assim, logo ele é comparado a um louco. Daí que para se ser adulto, silencia-se a infância e distancia-se da liberdade.
Que tal se fizéssemos um exercício ao contrário: propor um lugar para os adultos tendo a infância como referência. Pensar não para que a criança venha a ser o adulto do futuro, mas para que o adulto possa a vir a ser a criança do amanhã. Partamos do pressuposto que afirmar que as definições da infância criadas pelos adultos se devem ao fato destes se encontrarem inquietos diante do mundo, atormentados pelo mundo, tormento que é fruto do aprendizado dado pelo mundo e tal relação com o mundo seria a causa do amadurecimento tão associada à figura do adulto - o adulto é alguém maduro. Se assim é, por que não, tal qual uma criança, abrir espaço para a imaturidade em um mundo de não formação? Por que ao invés de ensinarmos as crianças, não fazemos com que os adultos desaprendam?
É uma violência pensarmos a infância como vinculada a um progresso, como algo que passará e nunca mais será recuperado ou que podemos moldá-la para que se torne o adulto que não conseguimos ser. É uma violência projetarmos na infância um futuro inalcançável ou desejar por meio dela a recuperação de um paraíso que o adulto perdeu. Como diz Jorge Larrosa: “a criança não é nem antiga nem moderna, não está nem antes nem depois, mas agora, atual, presente. Seu tempo não é linear, nem evolutivo, nem genético, nem dialético, nem sequer narrativo. A criança é um presente inatual, intempestivo...” Que os adultos parem de querer encontrar um lugar para a infância, parem de querer determinar quais são os lugares devidos para a experiência da infância. É triste constatar que a infância só é experimentada como liberdade nos intervalos em que o adulto não está por perto ou quando este morre.


Alexsandro


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08/06/2014

Um ato de covardia a mais ou o círculo vicioso do silêncio





Em grande parte das vezes evitamos expressar opiniões e sentimentos a respeito de muitas coisas, a exemplo de muitas coisinhas miúdas do dia a dia, por supormos, as vezes com razão, que ao fazê-lo causaríamos constrangimentos e desconfortos para nós e/ou para outros. Assim, evitamos expor e guardamos silenciosamente sentimentos e ideias.
Além das nossas ideias e sentimentos há outras ideias e outros sentimentos mais poderosos que os nossos que também fazem um percurso silencioso na sociedade (crenças, valores, formas de ser e viver e noções a respeito de vários temas).
O curioso é perceber que quando algumas dessas ideias ou sentimentos vazam para fora do silêncio surge no ar uma sensação de alívio ao se perceber que não se foi o único a pensar ou sentir daquela forma.
Momentos assim também revela nosso medo, nossa condescendência, nossa falta de vontade em querer se comprometer com posturas que fariam nosso ambiente social ser abalado, positiva ou negativamente, afinal, nunca sabemos antes do ocorrido. E como não sabemos preferimos lidar com a dúvida em silêncio, negamos o debate, o dialogo, a discussão, acreditando que assim nosso barquinho não precisará enfrentar nenhuma tempestade.

Sim, somos falsos, mentirosos, preguiçosos, covardes, negamos que nossa compreensão das coisas se faça expostas e ouvidas e discutidas. Acreditamos em nossas próprias mentiras (ou fazemos de conta) e nas mentiras dos outros (ou fazemos de conta). Nossa imaginação é prodigiosa em criar desculpas para nós manter quietos quando queremos ficar quietos (e quase sempre desejamos ficar quietos).




Alexsandro



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O sofrimento masculino



Vivemos um momento no qual muitos dos papeis que foram investidos de um caráter totalmente másculo já não respondem mais as novas exigências que se fazem presentes. Se por um lado existe uma imensidão de possibilidades de ser e de viver há, por outro, uma espécie de sufocamento diante das dúvidas sobre qual identidade escolher, e como a por movimento. Ser apenas mais um macho no meio de outros machos correndo atrás de dinheiro, mulher e poder já não é suficiente. Os homens vivem uma série de dilemas, medos e o que é mais terrível, não podem transformar esses dilemas e medos em palavras, não podem confessar que não sabem o que fazer nem que direção seguir. E assim um problema terrível é tratado como um probleminha qualquer – e o homem de hoje não encontra apoio para se tornar um homem melhor.
Sim, os homens estão sofrendo. E por que os homens estão sofrendo? Pode-se sofrer por vários motivos, mas há alguns motivos que são mais recorrentes que outros quando falamos de sofrimento masculino. Não se trata de descrever aqui sofrimentos advindos de acidentes ou de doenças, da falta de trabalho ou de mulher. Sofre-se, sobretudo, por não se poder ser o homem que se deseja ser. Sofre-se por não ter a quem recorrer quando se quer desabafar sobre o desconforto que é não poder ou não saber ser um homem pronto para o tempo e a realidade que se apresenta para ele.
De um lado vemos os homens e do outro os papeis que eles têm de viver. Os dois lados já não fazem conexão. Pois o que temos é: de um lado os homens e do outro um conjunto de papeis destinados a esses homens que já não fazem o mesmo sentido que faziam antes. É desse dilema que nasce a questão: quais os papeis que cabem hoje aos homens viverem e como estes papeis devem ser vividos?
A velha formula básica de dinheiro, trabalho e mulher já não preenche tão bem e completamente como um dia pôde ter feito, dando a este homem a segurança e a coragem necessária para encarar a vida e seus dilemas. Afinal, a vida era breve e os dilemas eram poucos (para a grande maioria dos homens se resumia a escolha da mulher que cuidaria da casa e de como prover a família). Os antigos hábitos que denotavam masculinidade se encontram diante de uma realidade cujos papeis que vivenciavam esses hábitos já não possuem as antigas justificativas que legitimavam suas formas de ser. É certo que os velhos modelos de masculinidade ainda podem ser vistos ou citados como boas referências em vários lugares (filmes, revistas, novelas, programas, assim como nas falas de pregadores de vários âmbitos), mas não esconde o fato destes modelos estarem deslocados no tempo e espaço.
O resultado é que hoje os homens são uma represa inconfessável de sentimentos barrados e nada ou muito pouco de afetuosidade.
Não é de estranhar que a solidão masculina é tão pouco vista e falada. Muito pouco ou nada se fala sobre como e os motivos pelos quais os homens se encontram sozinhos. Os homens são seres em solidão e em silêncio. Haja vista o fato dos homens não se envolverem emocionalmente com os problemas de outros homens, uma vez que há uma regra silenciosa do universo masculino no qual nenhum homem deve recorrer a outro homem para mostrar fragilidade. Daí que para os homens as emoções não podem ser transformadas em palavras, a não ser que saia na forma de agressão ou queixa bruta, nunca na forma de desamparo, fragilidade ou dor. O resultado é que pouco se fala, sobretudo seriamente, dos dilemas atuais dos homens. A ideia geral é: se tem dinheiro no bolso, se pega mulher e toma cerveja, não tem do que reclamar. E assim vemos andando pelas ruas homens e mais homens que não se apresentam como portadores de uma postura mais afirmativa diante da vida e dos outros. Homens anoréxicos de sentimentos e sensação que se empanturram de sons altos, de energéticos e vodcas que são regurgitados com refrãos de músicas que espelham o espírito de uma época de homens cujos corpos e almas estão frágeis e infelizes.






P.S.: Em todas as épocas homens e mulheres sofreram. O que muda são os motivos que levam ao sofrimento. A nossa época nos faz sofrer por motivos que são advindos da nossa forma de viver, especifica da nossa época, por conta disso é para estes problemas que devemos encontrar respostas, são sobre eles que devemos discutir.


Alexsandro



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17/05/2014

Notas

 O hábito mata até o "querer". É por isso que o hábito torna o "querer mudar" impossível de ser percebido, perseguido, logo, vivido.
  
Só quem tem certeza absoluta de alguma coisa são os psicóticos.

Sabe como é que muitos encontram a felicidade? Fazem sumir com os indesejados da frente de seus olhos.
Não enxergar, não ouvir, não buscar entender e compreender e não se aproximar ou se comprometer ainda é o melhor caminho para ser feliz (ou o único).
  
Os normalopatas dizem: o mundo tá mal, mas eu estou bem.
  
A solidão narcísica provavelmente vem acompanhada de depressão. As duais coisas possivelmente andam juntas e o fenômeno poder ser entendido como algo mais ou menos assim: alguém que acredita que ser entendido pelos outros é algo possível e que isso é a coisa mais importante do mundo, somado ao fato dela se achar tão importante e complexa que o mundo não lhe entender.
  

Entre a estabilidade amorosa e o erotismo há um abismo enorme.


Alexsandro

Sobre salários e famílias



Muitas pessoas não suportam o enfado de uma vida subjugada por um emprego ou por uma família. Uma vida medida e mediada de salário a salário. Infelizmente a maioria das pessoas que vivem de salário em salário acham que estão fazendo o melhor que podem e o melhor por si, julgando aqueles que se recusam a viver assim com adjetivos escusos.
A família é mantida, em grande medida, para que todo mundo dentro dela desabafe suas frustrações** Sobretudo aquelas frustrações de uma vida de trabalho e salário que apenas mantém a sobrevivência, sem nenhuma realização que potencialize a vida ou direcione para um campo de possibilidades mais criativo. Não é a toa que ela seja um lugar tão cheio de agressividades. Como não se pode brigar fora de casa, pois a maioria não tem força suficiente para isso, usa-se como alvo os “amados” parentes.

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** Que outro lugar legitimado pela sociedade haveria para desabafar as frustrações? Além da família só resta o consultório psiquiátrico.



Alexsansro