17/05/2014

Sobre salários e famílias



Muitas pessoas não suportam o enfado de uma vida subjugada por um emprego ou por uma família. Uma vida medida e mediada de salário a salário. Infelizmente a maioria das pessoas que vivem de salário em salário acham que estão fazendo o melhor que podem e o melhor por si, julgando aqueles que se recusam a viver assim com adjetivos escusos.
A família é mantida, em grande medida, para que todo mundo dentro dela desabafe suas frustrações** Sobretudo aquelas frustrações de uma vida de trabalho e salário que apenas mantém a sobrevivência, sem nenhuma realização que potencialize a vida ou direcione para um campo de possibilidades mais criativo. Não é a toa que ela seja um lugar tão cheio de agressividades. Como não se pode brigar fora de casa, pois a maioria não tem força suficiente para isso, usa-se como alvo os “amados” parentes.

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** Que outro lugar legitimado pela sociedade haveria para desabafar as frustrações? Além da família só resta o consultório psiquiátrico.



Alexsansro

11/05/2014

Politização dos corpos


Deveríamos nos perguntar o motivo pelo qual tanto se fala e se comenta tanto sobre sexo numa sociedade cuja quantidade de problemas (políticos, econômicos, sociais, educacionais, religiosos, esportivos, etc.) ultrapassa a nossa capacidade de administra-los. Sim, hoje falar de sexo desvia nossa atenção de tudo aquilo que é importante na nossa vida, até mesmo o próprio sexo, pois não falamos dele como forma de expressão criativa de nosso desejo, falamos dele de forma vulgar e mesquinha, diminuída e pobre, tal qual a forma como ele é praticado pela imensa maioria das pessoas. 
Aldous Huxley intuiu algo que pode ser resumido no seguinte trecho do seu livro  Admirável Mundo Novo: 
"Tal é a finalidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social a que não podem escapar". [...] "À medida que diminui a liberdade política e econômica, a liberdade sexual tende a aumentar em compensação". Assim, jogos eróticos são estimulados desde a infância [...].
Muito já foi discutido sobre o livro e sobre o tema, mas muito ainda há para ser discutido, basta pensarmos em temas como: sexualização da infância, sexualização das mercadorias, sexualização das doenças, etc.
Traduzindo: ao invés de nos preocuparmos com a vida política e econômica da nossa sociedade, uma preocupação que deveria ser compartilhada por todos, afinal, nossas vidas, seja no espaço privado ou público, são expressões políticas de ser e de viver e, da mesma forma, ao invés de politizarmos e estetizarmos nossas práticas sexuais, tornando-as mais ricas e menos preconceituosas, por exemplo, assistimos ao que Huxley intuiu: a armação de um jogo no qual desviamos toda nossa atenção para mesquinharias corporais que, como idiotas, chamamos de “nossas práticas sexuais”, achando que elas tem a ver com erotismo, quando, na verdade, não passam de pobres expressões de um corpo colonizado por uma biopolítica do desejo que toma todas as suas forças para torná-lo, sobretudo, um corpo produtor no sistema econômico, enquanto o faz acreditar que sua satisfação se encontra em plena realização. Um corpo que não enxerga a política do desejo ao qual se encontra submetido. 


Alexsandro

28/04/2014

Simples, muitos simples

Somos apenas operários na fábrica. E o patrão não liga se morremos ou vivemos, pois há muitos outros para trabalhar para ele.

19/04/2014

O doce sabor do não entender





Vamos fazer um exercício de pensamento... A presença de deuses na história humana deriva de vários fatores, mas dois dos elementos principais para criação de deuses foram e são o medo e a necessidade de sentido para vida (viver para o nada parece estranho), mesmo que este sentido contenha alguma forma de dominação, ou seja, me submeto a algo, mas ganho um sentido para viver. Vamos pensar, por exemplo, o deus judaico-cristão. Quando analisamos seus atributos - Onipotência, Onipresença e Onisciência - percebemos que eles amarram os principais elementos da vida humana, ou seja, eles dão respostas e suportes para o medo e o sentido para vida pois trabalham com uma fórmula perfeito, qual seja, consegue unir poder e saber em uma só criatura – o poder para resolver o problema da morte e o saber que conteria as respostas para o sentido da vida.
Por sua vez pensar a Humanidade através da Evolução deixa para nós o problema de resolver o medo e o sentido da vida.
Nós somos natureza, a natureza se encontra em nós. Fazemos parte dela e ela de todos nós. Assim se move em nós o desejo de nunca se desligar dela. Queremos com ela estar conectados o tempo todo. Só que isso exige muito empenho de todos nós, exige uma potencia de criação tremenda, demanda todo nosso tempo. Viver passa a significar estar vivo e ter de inventar tudo para que a vida ganhe significado, sabendo que qualquer que seja o significado ele será artificial, ficcional e sem justificativa transcendental, sobrando apenas o desejo de querer permanecer na natureza e realizar-se nela e por ela em um exercício de potenciação de si e empoderamento de si constante. Logo, pensar a Humanidade através da Evolução tem muito mais heroísmo humano do que pensá-la por via da Criação. Talvez até mesmo seja por isso que não se deseja que as pessoas conheçam essa história. Pois é bem possível que quanto mais as pessoas tiverem conhecimento de quanto somos capazes de feitos incríveis, talvez mais elas desejem se libertar de seus opressores. (Aqui entra em questão a relação opressor X oprimido que não é uma relação fácil de ser entendida - qualquer um pode fazer parte tanto de um grupo quanto do outro, sem contar o fato de que a opressão pode ser desejada -e sempre é - e se encontrar camuflada nos discursos que, em aparência, são libertadores.)
Para aqueles que foram, que estão e que serão oprimidos (e todos nós corremos o risco) vale ter em mente como é o doce sabor da estupidez do não entender, como bem disse Clarice Lispector:

E era bom. 'Não entender' era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não entender não tinha fronteiras e levara ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Alexsandro


14/04/2014

Simples assim (2)

Procure argumentos para justificar seu ponto de vista.

Dizer simplesmente que acredita e pronto não justifica nada.

Colocar as próprias crenças acima de tudo e de todos é sinal pretensão. Assim como exigir que os outros não critiquem as nossas crenças não é o mesmo que exigir respeito, é apenas o desejo de fazer os outros aceitarem sem questionar.

Se sua forma de pensar pode ser refutada é um erro continuar pensando da mesma forma ou, mais do que isso, pode ser burrice.

A sua integridade deve ser maior que sua frustração, ou seja, se seu pensamento foi refutado de nada vale desejar fazer com que ele faça sentido à força.

As evidências são fundamentais para pensar a respeito de algo.


Alexsandro

Simples assim

Cada pessoa pensa como pode e interpreta como merece.


Alexsandro

13/04/2014

O abuso e o excesso de obediência

Nossas interpretações e críticas são sempre construídas a partir de quem manda. É desta forma, por exemplo, que se fala muito contra o Estado e sua forma de governo sobre nós, contra os diversos tipos de lideres que se encontra em empresas, igrejas, escolas, etc.. As criticas são sempre construídas tendo como referência principal quem manda. ¿E se invertêssemos a lógica e afirmássemos que o problema não é abuso ou excesso de poder, mas o abuso e o excesso de obediência? ¿Será que parte dos nossos problemas em ajustar melhor a vida em sociedade não se encontra na nossa excessiva obediência a qualquer forma externa de governo sobre nós?

¿A desresponsabilização de si diante da vida fica mais fácil quando temos a quem culpar por nossos infortúnios?¿ Parte da nossa aceitação em se deixar governar e, como consequência, nossa excessiva obediência, adviria do pensamento de que a obediência a outro tira de quem obedece as responsabilidades? A ideia é bem simples: obedecer para ter a quem culpar quando algo sair errado, desta forma a culpa será de quem deu a ordem e não de quem obedeceu. ¿Essa não seria uma forma covarde de viver?


Alexsandro

11/04/2014

O conceito de “outro”

¿Quem ou o que é o “outro”? A resposta adequada a esta pergunta tem como condição saber de antemão quem pergunta ou a quem se vai responder. O motivo é que o “outro” é múltiplo. O que denota que o “eu” que pergunta também é múltiplo.
Para o “eu” o “outro” pode se apresentar sob a pele de inúmeros modos de ser. Logo, toda vez que um “eu” define um “outro” o próprio “eu” é (re)definido. Vejamos alguns exemplos de como para o “eu” o “outro” pode se apresentar de diversas formas:
            - Na forma animal – sendo o outro um Primata;
            - Na forma cibernética – sendo o outro um ciborgue;
            - Na forma etária – sendo o outro um velho, uma criança;
            - Na forma étnica – sendo o outro um índio, um aborígene, um galego;
            - Na forma estratificada – sendo o outro um miserável, um desocupado, um andarilho;
            - Na forma estética – sendo o outro um alto, gordo, esquelético, baixo, albino;
            - Na forma sexual – sendo o outro um homossexual, assexuado, transexual;
            - Na forma política – sendo o outro um estrangeiro, um refugiado, um expatriado.


Em termos teóricos, partimos do conceito de territorialização definido por Guattari e Deleuze, que, entre outros aspectos, entende a noção de território como produto de um processo de subjetivação, fruto de “dobras”, dos agenciamentos dos fluxos, dos movimentos de imagem, de som, de palavras, de matérias, de sentimentos que caíram nas malhas de um poder. Neste sentido, podemos entender a noção de “eu” e de “outro” como um agenciamento, como um dispositivo de poder.
Tanto é que percebemos o “eu” e o “outro” como categorias fixas, estabelecidas em seus devidos territórios desde sempre lá, estabelecidas claramente em suas fronteiras cristalizadas, endurecidas. Nunca vemos o “eu” e o “outro” como possibilidades em movimento, nunca definidos e indefiníveis.
O conceito de “eu” e de “outro” estabelecem um dentro e um fora. E por entre suas fronteiras circulam potências e sentidos. Por conta disto, ao tratar de fronteira entre o “eu” e o “outro”, tentamos percebê-la como um espaço de negociação, de lutas, como uma ‘linha’ sempre em construção, como um espaço de circulação de alteridades e de afetos’
O “outro” e o “eu” são multiplicados pelos entreolhares de um sobre o outro. Se o “eu” por si já é um múltiplo de si e o “outro” também é um múltiplo de si, de um lado a outro múltiplas serão as formas pelas quais serão afetados, pelas quais um afetará o outro. Tanto é que no contato do “eu” com o “outro”, sentidos se perdem, deixa de ser, somem, e no reverso, sentidos vêm, se acham, passam a ser, aparecem. No entrelaçar da alteridade os antigos ambientes afetivos se tornam ultrapassados para expressão de novos afetos - movimentos de transformações que se fazem pela e na destruição e no evaporar de certos mundos, de certas configurações culturais, de certas relações sociais, de certos sentidos e de certas fronteiras.

Só um cartógrafo dos afetos para traçar as linhas desta fronteira que o contato do “eu” com o “outro” delineia e que o movimento dos fluxos de alteridade fazem nascer. 




Alexsandro

08/04/2014

As Folhas Tristes


É bem sabido que o dinheiro é um dos temas centrais da economia. Assim como o fato de que a quantidade de dinheiro numa dada economia implica diretamente numa série imensa de fenômenos. Mas não sei se algum economista foi tão claro e sensível a ponto de defini-lo como fez o povo Kayapó.

"Piu Katin" é como o povo Kayapó chama o dinheiro. E significa "Folha Triste". Confesso que foi a definição mais angustiante que já tomei contato quando se trata do tema dinheiro, tamanha sua delicadeza ao definir aquilo que no mundo capitalista (que é o nosso) é percebido por nós como o centro da nossa experiência, afinal, trocamos a vida por dinheiro, ou, segundo os Kayapós, por folhas tristes.


Alexsandro

06/04/2014

Autoestima X estima recíproca

Autoestima é fruto de um discurso individualista de mercado que parte da ideia de autossuficiência. A autoestima se assenta sobre o cascalho da noção moderna de “Eu” para construir seu pavimento. Um “Eu” determinado (pelo mercado) e determinante (agindo sobre o si mesmo), sem abertura e fechado para alteridade, orgulhoso filho da ignorância do outro. Autoestima é produto, é mercadoria, por isso se fala tanto nela, porque autoestima vende, dá lucro e nos mantém aliados do status quo.
Quase ninguém fala de estima recíproca, esta antítese da autoestima.
Estima recíproca – estimar o outro e ser estimado por ele. Constituí-lo e ser constituído por ele. Habitá-lo e ser habitado por ele. Com ele criar laços, inventar formas de relação, compreender os gestos dos afetos (à moda de Espinosa). Reconhecer que precisamos do outro e que com ele compartilhamos a vida. Estimar e ser estimado pelo outro, lembrando sempre que a autoestima não é suficiente para suportar a vida.


Alexsandro