05/01/2014

Para que monografia? Ou notas para uma escrita subterrânea

De todo escrito só me agrada aquilo que uma pessoa 
escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e
aprenderás que o sangue é espírito.
Nietzsche


Para que monografia? Acredito que essa seja uma das primeiras perguntas que vem a cabeça de um estudante ao se deparar com a obrigação de ter que escrever uma monografia, dentro ou para conclusão de um curso. Uma outra questão diz respeito exatamente ao como desenvolver uma ideia que ao cabo traga o com cunho de trabalho acadêmico, dito, científico.
Partindo de um rápido pressuposto apontado por Marilena Chaui que diz que “em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata” (1997, 13), a resposta mais lógica a questão “para que monografia?” ou, se quiserem, “para que serve uma monografia?”, podemos responder que, dentro de uma conotação prática, serve para conclusão de curso, serve para testar os conhecimentos do estudante, serve para que ele se aprimore dentro de uma área de conteúdo, e se nenhuma destas respostas convencerem, a simples obrigação de fazer já é motivo suficiente.
Voltemos mais um pouco sobre a citação de Marilena Chaui e tentemos perceber em que implica “considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata”. O cenário no qual vivemos, no qual o pensamento se encontra, vem povoado de imagens, sons, sensações perturbadoras e ao mesmo tempo extraordinárias. Diante de tal mundo é interessante questionar o que pode o pensamento em momentos assim. Cada cenário traz em si a possibilidade de fundação de novos territórios de reflexão, de criação de nexos conceituais, tendo estes a possibilidade de serem fortes o suficiente para dar conta do emaranhado que é, como dito antes, o cenário no qual vivemos.
Não temos mais um único tempo, hoje falamos em tempos; não temos mais uma única forma de pensamento, hoje falamos em pensamentos, múltiplos circuitos de pensamentos pululam os objetos passíveis à investigação que levam o pensar a limites extremos. A cada instante chegamos ao limite do que pode ser pensado, para logo em seguida ultrapassarmos esse limite a uma velocidade que em certos casos nem o próprio pensamento pode acompanhar. Mas aqui corremos riscos, assim como se corre risco em qualquer situação limite. Nada parecer ser fixo, ao contrário, como diria Marx, “tudo que é sólido se desmancha no ar” e o que é mais aterrador, a uma velocidade desconcertante, cujo risco que advém daí é, sobretudo, o de desguarnecer a reflexão, tornando-a insossa.
É costume aconselhar aqueles que pretendem escrever algo, comunicar uma ideia, que ao fazê-lo dentro do campo científico levem em consideração um conjunto de procedimentos de cunho metodológico, uma vez que assim fazendo o dito escrito ganharia legitimidade, força e, sobretudo, seria ouvido. A explicação desse fato ou dessa imposição, como o bem disse Bourdieu (1994), encontra-se na questão de quem tem o direito de dizer a verdade, de comunicar uma ideia, de quem possui o monopólio da atividade científica, o mando da competência científica, entendida enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente no campo de um saber específico. Por essa lógica, perguntar sobre fundamentação teórica, sobre procedimentos metodológicos é, entre outras questões, interrogar sobre quem me autoriza a falar sobre isso desta ou daquela forma, quais as melhores referências ou autoridades que potencializam o conjunto de argumentos sobre essa ou aquela ideia, qual método, qual corrente teórica é mais ou menos válida para este ou aquele problema.
Porém, para além destas questões, que no fundo soam um tanto fascista, porque não tentamos aceitar o convite daqueles que nos querem fazer ousar além dos modelos oficiais e sagrados dos preceitos do discurso científicos. Descobrindo com alegria que na feitura de uma monografia há a possibilidade da criação, de fazer funcionar, sem ter que definir, a liberdade (no sentido de um movimento de libertação), de ir contra uma regra, de propor algo.

Criar (e também descobrir) significa sempre quebrar uma regra; seguir a regra é mera rotina, mais do mesmo – não um ato de criação. (Bauman: 2001, 237)

Nestas condições as leituras que venhamos a fazer, o fundamento que buscamos dar aquilo que venhamos a escrever tragam como finalidade não o fardo de buscar uma sintonia com as grandes verdades deste mundo, mas, se desejamos e possuímos algo a escrever, escrevemo-lo, sem termos de perguntar se alguma vez teremos ou não o direito de fazê-lo. Nestas condições as leituras que venhamos a fazer tragam como finalidade nos recolocar diante das questões que nos incomoda, assumindo que escrever é batalhar, que escrever é uma batalha consigo e com outros.
Não é intenção deste artigo definir a priori qual o melhor caminho para construção de uma monografia, mas simplesmente provocar, chamar a atenção para um fato um tanto quanto peculiar à atividade de investigador, qual seja, que posição assumir diante do fato de ter que fazer uma monografia, diante do fato de ter que assumir um objeto de pesquisa, de ter que projetar um resultado dentro do campo científico. Sugestão para tal questão: assumir o subterrâneo da escrita.
O que significaria assumir o subterrâneo da escrita? Entre outras coisas significaria não desejar se projetar através da construção de grandes resultados, mas que assume antes de tudo que escrever

(...) têm por objetivo revelar a possibilidade de viver em conjunto de modo diferente, com menos miséria ou sem miséria: essa possibilidade diariamente subtraída, subestimada ou não-percebida.(...) [Assumir que] não há escolha entre maneiras “engajadas” e “neutras” de [escrever]. Uma [escrita] descomprometida é uma impossibilidade. (Bauman: 2001, 246)

Assumir uma escrita subterrânea significa educar-se incansavelmente; adquirir uma capacidade crítica pessoal e uma capacidade de pensar por si; aprender a ver, habituando o olho no repouso e na paciência; dominar o instinto do saber a qualquer preço, utilizando este princípio seletivo: só aprender aquilo que puder viver e abominar tudo aquilo que instrui sem aumentar ou estimular a atividade; manter uma postura artística diante da existência, trabalhando como artista a obra cotidiana; dar à vida o valor de um instrumento e de um meio de conhecimento, procedendo de modo que os falsos caminhos, os erros, as ilusões, as paixões, as esperanças possam conduzir a um único objetivo – a educação de si próprio. 
Só há uma escrita que vale por aquilo que ela é: aquela que faz da e na emancipação um dos seus territórios. Quem quer que impeça ou inviabilize ou mesmo tente cerca este território, não deixando que os outros se emancipem, é fascista. O exercício não fascista da escrita, que nos possibilita pôr em questão o sentido e a forma como vivemos e fazemos as coisas, as posturas políticas que, conscientemente ou não, negamos ou afirmamos em nossa prática, as noções, os (pre)conceitos, os valores, as morais que nos movem a assumi-las, os exercícios teórico que nos movem, necessita da construção de um outro ambiente, ambiente esse que traz na emancipação seu alimento de sobrevivência. A escritura de uma monografia sem um trabalho de emancipação é máquina de controle.


Alexsandro



Referências
BAUMAN, Zymunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
BOURDIEU, Pierre. O campo científico. In: Renato Ortiz (Org.). Sociologia. São Paulo: Ática, 1994.
CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 9ªedição. São Paulo: Ática, 1997.

02/11/2013

Notas femininas

Nota A
Presenciamos mudanças nas formas como nos insiramos no mundo. Nossa forma de entrar no mundo e vive-lo mudou. Assim como o número dos nossos interesses. Desejamos muitas e múltiplas coisas ao mesmo tempo e vindas de todas as direções. Desejamos o que podemos e o que não podemos. Desejamos coisas contraditórias - o doce e o salgado, o caro e o barato, o santo e o demoníaco, a lei e a contravenção. Numa experiência assim não é de estranhar que, por vezes, vamos encontrar pessoas que vão preferir desejar coisas a desejar alguém. É quando o envolvimento com os nossos "sonhos" de realização do consumo, de realização profissional, de realização espiritual, de realização de seja lá o que for se sobrepõem ao exercício da sexualidade, ou, é a sexualidade se realizado por outras vias que não o corpo na cama. Há um direcionamento da libido para outros campos de atuação do sujeito. O prazer sentido ao se fazer “coisas” no mundo é maior e mais satisfatório que o fazer “coisas” na cama.
(Nos ocidentais elegemos a cama como espaço de realização da sexualidade)
(Vale salientar que por libido entendemos a energia vital que, entre outras coisas, mobilizar o interesse - nosso interesse por algo ou por alguém. Faz de nós pessoas com interesses e, em contrapartida, nos torna interessante para o outro. Como essa energia vital flui depende de vários fatores: época, sociedade, cultura, economia, formas de subjetividade, etc.)

Nota B
É comum ouvirmos pessoas falando sobre as novidades do nosso tempo, das mudanças nos costumes, sobre como as novas gerações de mulheres estão liberadas de uma série de constrangimentos que suas avós viveram. Ouvimos falar de jovens namoradas liberadas pelos pais para dormirem juntos na casa do namorado, vemos pais dando conselhos sobre preservativos e como se cuidar para não pegar doenças, vemos propagadas sobre gravidez na adolescência e tantas outras abordagens sobre as novas práticas sexuais em voga e que as mulheres podem viver. Mas será que elas estão tão bem quanto dizem? Bem, não é o que parece.
Devemos levar em consideração que a vida sexual é condicionada por inúmeros fatores: o grupo social, as normas culturais e morais que orientam a história de vida de cada um ai dentro, as escolhas afetivas, as práticas sexuais vividas e as expectativas dos papéis sexuais (por exemplo, uma história de vida sexual pobre ou rica, sem graça ou espirituosa, limita ou amplia a visão das possibilidades de prazer de cada um).
E o que vem impedindo a mulher de chegar ao prazer ou de ampliar suas possibilidades de prazer? Ela mesma. Quando se trata do corpo, o saber teórico sem o saber prático é a mesma coisa que coisa alguma. Só informação não serve para muita coisa, é apenas uma informação a mais sobre o assunto. Saber sobre preservativos, anticoncepcionais e preliminares não é saber sobre sexo. É triste constatar, mas sexo ainda é tabu para a maioria das mulheres (e dos homens), e por consequência, das famílias. E o que é pior, dos casais. Um exemplo? Menos de 10% das jovens sentem prazer no início da vida sexual. Motivo: não sabem ou sabem muito pouco sobre as possibilidades do sexo.
É certo que aconteceram mudanças significativas e positivas na vida das mulheres. Mas avanço coletivo não é o mesmo que avanço individual. Coletivamente, por exemplo, é incontestável que as mulheres conseguiram posições na sociedade que, felizmente, as colocam em igualdade com os homens (a educação formal pode ser citada como uma dessas conquistas). Mas... e as conquistas individuais, como ficaram? Se focarmos no sexo, sobretudo no foro individual, veremos que as perspectivas e possibilidades, vivências e experiências seguiram outro caminho. Um exemplo: grande parte das mulheres não sabe conversar sobre sexo com o parceiro – e não importa o tipo de parceiro. Outro exemplo: muitas mulheres fazem uso de algum estimulante, como a bebida, para ficarem tão soltas quanto gostariam. Conclusão: as mulheres não estão tão soltas e disponíveis assim para o sexo como imaginamos. Não é de estranhar que 2/3 das mulheres brasileiras nunca tomaram iniciativa para o sexo.
Se em vários campos da vida social as mulheres conseguiram espaço, a igualdade entre os sexos ainda reserva um tempo de espera para que a igualdade das práticas sexuais entre homens e mulheres aconteça. Um exemplo? Apesar de inúmeros avanços positivos a queixa quanto a falta de orgasmo ainda continua a atingir as mulheres: 1/3 não consegue chegar lá. As velhas explicações ainda são as possíveis causas: medo, culpa ou o parceiro.

Nota C
Dados curiosos
De 6% a 7% das mulheres brasileiras não tem nenhum interesse e não sentem falta de sexo. Dos homens brasileiros o número é de 2,5%.
33,3% das mulheres nunca se masturbam. Para um percentual 3% dos homens que nunca se masturbam
As mulheres colocam o sexo como 8ª preocupação como elemento na construção de uma vida de qualidade. Os homens em geral colocam em 2º lugar. Preocupações com doenças vêm em primeiro lugar para ambos.
O curioso é ver que as mulheres colocam a prática de uma atividade qualquer, como um hobby, por exemplo, como mais importante que o sexo.
 
 
Alexsandro

07/10/2013

Relação, controle e autoengano.

O autoengano e o engano do outro são elementos constitutivos da maioria dos relacionamentos. Um não olha para o outro para ver como ele realmente é e ambos não querem ser vistos como realmente são. ¿O motivo? Isso estragaria as expectativas que alimentam, afetando a forma como se veem a si próprios, ou seja, não querem ver um ao outro como realmente são, nem querem se ver como realmente são, isso estragaria a maneira como imaginam que são.
Infelizmente o que alimenta as relações são discursos prontos, frases feitas, presentes surpresas esperados e expectativas prêt-à-porter. Quando tudo isso deixa de produzir efeitos o sentido e a graça da relação acabam. A partir daí os dois são levados a se encarar sem a garantia da proteção que os disfarces produziam.
Tanto engano funciona como escudo e como tentativa de proteger e manter sob controle aquilo que nunca esteve sob controle algum: a relação e a si próprio.

Alexsandro

24/09/2013

É dificil

¿O que eu posso dizer? Não sei. Não é tarefa fácil enfrentar situações como essa. Veja, se a pessoa não sabe e não sabe que não sabe. E não quer mesmo saber. Não é fácil chegar até ela e explicar aquilo que ela não entende e não quer mesmo entender. E na maioria dos casos não adiante insistir, querer argumentar, discutir. Uma discussão não é suficiente para tirá-la deste estado. Não tem como provar para ela que as coisas que estão sendo ditas possuem um significado que poderiam fazer com que ela entendesse o mundo de outra forma. O motivo principal é que ela não tem interesse ou capacidade de compreender o que está sendo dito. Daí, ela vai entender outra coisa, noutro nível, confundindo tudo, trocando os argumentos e o que eles significam.
Não mudamos nossas perspectivas sem que aconteça, e aconteça em nós, um evento que ponha em movimento nosso estado de letargia. Em muitos casos, mesmo em pessoa que percebem, nem que seja uma mínima fração, a precariedade de sua situação, ainda assim é mais forte o desejo de que tudo continue como se encontra. Não é competência nossa fazer com que ela deixe suas perspectivas. A ação de lermos o mundo de forma diferente e com outros argumentos, quem sabe, mais elaborados, não é razão suficiente para ela, logo, também não deve ser para nós. E se a situação dela for cômoda, ai é que todo esforço correrá um risco maior de ser inútil.
De sua parte você pode questionar: "¿Poxa, mas não devemos combater as inverdades, as visões de mundo que enganam ou são enganosas, que prejudicam o próprio mundo e o nosso estar juntos como sociedade? ¿Não deveríamos fazer nossa parte e denunciar as falsas profecias e equívocos?"
Bem, de novo eu não sei o que dizer. De certo que não podemos impingir nele toda a culpa, há uma sociedade da qual fazemos parte e ele sozinho não é responsável pela conjuntura atual; ele e nós somos apenas uma vírgula em um imenso texto de fatos e acontecimentos. Um mar de conhecimentos moldou o que somos nos últimos séculos. E no meio deste mar há conhecimentos que são mais razoáveis e outros que são puro lixo. Só que nem todos sabem disso. O que é fruto de uma falha na nossa educação. Alimento a ideia de que todos nós deveríamos ser preparados e nós mesmos deveríamos nos preparar para o debate aberto e honesto. As diferentes perspectivas que os conhecimentos possibilitam deveriam ser expostas em igualdade de condições e a escolha sobre qual conhecimento queremos deveria ter por base o mérito e não a força ou a trapaça.
Outra coisa, não que sirva de consolo, mas nunca existiu um momento dourado do conhecimento para humanidade ou uma era de ouro da convivência, na qual todos se entendessem e o mundo fosse, para homens e mulheres, um lugar lúcido e sensato. Lucidez e sensatez não são virtudes fáceis de alcançar e muito menos de manter.


Alexsandro

22/09/2013

A coisa é assustadora

Há quem ache isso normal. Mas não acho que isso seja normal, não tem nada normal, pelo contrário, existem muitos problemas, e sérios. Quem frequenta as salas de aulas pelo Brasil a fora vai se deparar com as seguintes características, presentes na grande maioria das salas de aulas, repito, na grande maioria das salas de aulas. E quando digo a grande maioria, desejo enfatizar que é a maioria.
As pessoas que frequentam as salas de aulas trazem as seguintes características marcantes:

1- Sem iniciativa - não é visível nenhuma demonstração de atitudes mais criativas, são reprodutores de conhecimento e alguns, nem isso.

2- Atitudes descomprometidas - não há uma leitura consistente do mal que nos cerca, da condição humana no século XXI, neste sentido não há atitudes de solidariedade para com os demais membros da sociedade.

3- Preconceituosas - não sabem lidar com a diferença - zombam, ridicularizam a diferença e o diferente -, não sabem lidar com a individualidade, neste sentido, não demonstram respeito pelo humano, de fato, acontece justamente o contrário, há uma exacerbação de egocentrismos e rejeição ao próximo.

4- Violentas.

5- Sem valores morais consistentes .

6- Confusas na organização das ideias - possuem um conhecimento fragmentado e sem noção do seu significado, juntamente com um apego a ideias preconcebidas e preconceituosas, por conta disso não se nota nenhuma abertura para ideias novas. Carregam um monte de verdades inconsistentes ou de incertezas e nem se dão conta disso

7- Não estão contextualizadas e não sabem contextualizar o momento que vivem, muito menos o que viverão.
 
Alexsandro

MENSAGENS DE AUTO-AJUDA

A ironia é uma boa porta de saída para libertação.

Nada mais irônico que amar o próximo como a ti mesmo quando você é alguém desprezível.

Se você não consegue ser irônico ou não entende uma ironia da/na vida, você deve ser alguém horrível, digno de pena e, sobretudo, um idiota.

Se as pessoas legais evitam você, com certeza você é um chato.

O chato melhora com a idade, fica um pouco mais chato a cada dia.

Existem várias maneiras de ser chato, mas o chato sempre escolhe a pior.

Frases típicas de um chato: "Eu não sou chato. Já disse que não sou chato. EU NÃO SOU CHATOS. SE EU FOSSE CHATO...


Alexsandro

21/09/2013

Satisfação efervescente e refrescante


O controle das formas de expressão é a melhor maneira de subjugar os sujeitos. Alguém sem informação não consegue pensar para além do pouco que conhece. Quanto mais limitado mais miserável. Tornar-se um pouco culto não é questão de arrogância ou privilegio, é abrir-se para a possibilidade de criação de novas formas de ser e ver o mundo no qual estamos inseridos. Sem isso estamos fadados a uma vida pobre e limitada.
Há interesses sacanas, gananciosos e mesquinhos por trás da promoção de uma cultura mercadológica, isso todos sabemos (ou deveríamos saber), entretanto, o maior problema se encontra no fato de que com ela nossas medidas de comparação ficaram embaralhadas, ou seja, estamos confundindo e deixando de lado aquilo que possibilita vida plena, alegre, aberta, criativa, espontânea, vibrante, ligada a nossa capacidade de inventar a cada momento um modo de ser e fazer de cada um desses momentos de nossas vidas uma experiência que nos tornaria pessoas melhores, melhores no sentido de nos levar para além daquilo que somos, com aquilo que nos deixa momentaneamente satisfeitos, numa espécie de satisfação efervescente e refrescante, tal qual propaganda de pasta de dente ou refrigerante.


Alexsandro


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19/09/2013

O difícil exercício da lucidez

Conquistar e depois manter a lucidez não é tarefa fácil. É um exercício constante, sobretudo quando preferimos o autoengano, a desfaçatez, a não franqueza como modo de vida e manutenção da realidade. Não é fácil aceitar, mas é totalmente compreensivo o que diz Cioran:
É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a “doçura” de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um “eu” sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…


¿Quem quer se ver como impostor diante da vida e dos outros? ¿Quem se acha um mentiroso? ¿Quem gosta de ser definido como inautêntico? É, não é fácil encara Cioran de frente e concordar com ele, sobretudo para ter “a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos”. Uma fraude. Somos uma fraude constante. Alimentamos um “eu” envergonhado. Nosso maior exercício é escondemo-nos da vergonha de sermos nós mesmos como somos, uma fraude. Lutamos, inventamos formas de fugirmos disso. Por isso é comum nós considerarmos isentos das influências do mundo e nos vermos como críticos sagazes. Nunca nos vemos como baldes que são inundados todos os dias com uma quantidade enorme de informações, conceitos e ideias preestabelecidas, que bem merecem a alcunha de preconceituosas ou encobridoras da nossa real condição. Assim, aquele destemido crítico da vida e do cotidiano, na maioria das vezes, não passa de um balbuciador de ideias que o conquistaram e que dominam seu modo de ser e viver sem que ele mesmo se dê conta. Conseguiu esconder-se de si mesmo de tal maneira que nem mais se percebe como pura invenção de si.
Mas o fato é que ninguém é imune à tal exercício de mediocridade, estamos a todo o momento caindo em mentiras ou entendendo equivocadamente situações ou problemas. Ainda mais quando sabemos que vivemos em um momento no qual há uma imensa concorrência por nossa atenção ou desatenção. É, nossa atenção, e ao mesmo tempo nosso descuido, nossa desatenção, hoje vale muito dinheiro, a isso chamam mídia, propaganda, marketing; e há muita concorrência por ela, há muito investimento para nos captar e seduzir, levando cada vez mais longe o autoengano, a desfaçatez, a não franqueza como modo de vida e manutenção da realidade.
O grito de alerta revoltado do José Saramago bem pode nos ajudar a esclarecer o quão delicado é a fronteira entre a lucidez e o autoengano, a desfaçatez, a não franqueza:
O mais corrente neste mundo, nestes tempos em que às cegas vamos tropeçando, é esbarrarmos, ao virar a esquina mais próxima, com homens e mulheres na maturidade da existência e da prosperidade, que, tendo sido aos dezoito anos briosos revolucionários decididos a arrasar o sistema dos pais e pôr no seu lugar o paraíso, enfim, da fraternidade, se encontram agora, com firmeza pelo menos igual, repoltreados em convicções e práticas que, depois de haverem passado por qualquer das muitas versões do conservadorismo moderado, acabaram por desembocar no mais desbocado e reacionário egoísmo. Em palavras não tão cerimoniosas, estes homens e estas mulheres, diante do espelho da sua vida, cospem todos os dias na cara do que foram o escarro do que são.


Alexsandro



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15/09/2013

O interesse na educação

Há apenas dois pressupostos fundamentais na educação e no processo de ensino-aprendizagem:
O INTERESSE de quem aprende - um bom aluno é um aluno interessado. Como aluno eu preciso estar interessado.
O INTERESSE de quem ensina pelo interesse de quem aprende - um bom professor é um professor que se interessa pelo interesse do aluno interessado. Como professor eu preciso estar interessado pelo interesse do aluno interassado.
O resto é pré-requisito para justificar uma relação de dominação que se quer fazer valer.
 
Alexsandro
 
 
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Educação para a felicidade

Educação para a felicidade. Esse é um tema que mereceria nossa atenção. A escolha é entre educar para COMPETÊNCIAS ou educar para FELICIDADE. Infelizmente muitos não percebem a grande diferença que existe entre estes dois tipos de educação. Nossas escolas, e junto com elas os professores, assumiram o discurso empresarial da competência como uma verdade absoluta. O que é lamentável.
 
 
Alexsandro
 
 
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