15/09/2013

Todo funcionário do mês é um pouco Bob Esponja

A noção de funcionário do mês é uma das noções mais horrendas e safadas já inventada pelo mundo corporativo, e para mim não há ninguém que represente tal figura melhor que o Bob Esponja.
Acredito que todos sabem quem é Bob Esponja Calça Quadrada, a esponja do mar amarela que trabalha numa lanchonete chamada Siri Cascudo, de propriedade do Seu Siriguejo, um siri-patrão que só pensa em dinheiro.
Como todos devem saber, Bob Esponja ama fazer hambúrgueres de siri. O que o torna um empregado ideal, o sonho de qualquer patrão? Vejamos algumas características desse que é sempre e em qualquer lugar o funcionário do mês.
Bob Esponja se encontra sempre disposto para trabalhar, mesmo não recebendo o miserável salário a que tem direito, ele chega até mesmo a abrir mão dele para continuar trabalhando. Tal condição vem do seu desapego às coisas materiais. Para muita gente, até para mim, essa é uma qualidade admirável, mas no mundo do mercado é uma das principais portas de entrada da exploração patrão-empregado. Todo patrão adoraria ter empregados que não pensam em dinheiro, que não pensam em possuir coisas, pois assim estariam dispostos a trabalhar apenas pelo prazer de fazer o que gostam, enquanto o patrão continuaria a engrandecer seus cofres com lucros e mais-valia. Com a mesma intensidade Bob Esponja demonstra uma imensa adoração ao lugar de trabalhos, o Siri Cascudo, a ponto de dá a própria vida por ele. É ou não outro sonho de qualquer patrão ter um empregado assim?
Mas para mim não tem como lembrar o Bob Esponja, a noção de funcionário do mês sem lembrar de Trilussa e seu poema “A focinheira”:

- Sabe que sou fiel e afeiçoado,
dizia o Cão ao Homem, e disposto a tudo,
mesmo a ser sacrificado cumprindo as suas ordens.
Isto posto, quero falar, agora, com franqueza:
a focinheira põe-me deprimido;
por que não dá-la ao Gato, que é fingido,
apático e traidor por natureza?
O Homem responde: - Mas a focinheira
lembra sempre a existência de um patrão
que te protege e, de qualquer maneira,
é quem te ampara e te garante o pão.
- Já que assim é, o dito pelo não dito!
Corrige o Cão, desculpe-me a besteira.
E, deste aí, com ar convicto,
passou a falar bem da focinheira...

Alexsandro
 
 
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01/09/2013

¿Por que deveria agir gratuitamente?

¿Por que deveria agir gratuitamente? ¿Por que me doar, aceitar ou experimentar algo gratuitamente? ¿Por que não posso aproveitar do outro apenas aquilo que me apraz? ¿Por que meus interesses imediatos devem ser repensados? ¿ Por que meus gostos devem ser colocados em segundo plano?
As coisas gratuitas, as experiências gratuitas estão ameaçadas pelo mercado, pelo capitalismo gritante nas nossas ações e escolhas. Vivemos em meio a um mercantilismo ímpar. Vivemos sob a égide de um banditismo universal que consiste na consideração de que algo só vale a pena se for feito a partir da lei que impõe que tudo deve ser feito apenas em proveito próprio. Esse banditismo se chama capitalismo. Tanto que a ideia de um capitalismo humanizado e democrático nunca se sustentou. E desaba de vez quando o panorama local ou global nos lança para um universo de guerras, expropriações, destruições generalizadas do meio ambiente e suas populações, competições nos mais variados setores da vida e crises sem precedentes em todas as esferas da vida humana.
¿Será que podemos imaginar que esta economia de mercado ainda dure séculos? Quem pensa que sim... sabe-se lá... não pensou direito. Vivemos um modelo de vida extremamente perigoso em um sistema extremamente perigoso. Não acalentamos solidamente nenhuma confiança no futuro. Insegurança, incerteza, instabilidade e desorientação preenchem nosso cotidiano.
Não podemos esquecer que muito daquilo que faz nossas vidas valerem a pena vem da gratuidade delas.

Cardápio de gente



A fragmentação de cada um de nós acontece de forma cada vez mais inusitada.
Vejamos, por exemplo, a confusão que fazemos entre comprar e encontrar. 
Olhamos uns para os outros, nos analisamos, questionamos e intentamos escolher aquele(s) que fará(m) parte de nossas vidas a partir de critérios tais como: gostos, interesses, altura, cor da pele, dos olhos, dos cabelos, estilo musical preferido, grau de instrução... Achamos que se assim fizermos teremos uma via garantida para que nossa escolha dê certo. Depois de uma lista razoável de critérios eletivos escolhemos ou somos escolhidos como em um cardápio. Não é a pessoa inteira que é vista e entendida, é um recorte, um fragmento. O nó da questão se encontra no fato de acharmos que agindo assim nossas escolhas serão seguras. Sonhamos que nossas escolhas se darão como numa experiência de compra, guiado por um cardápio de opções, que é exatamente o contrário do encontro. O encontro acontece sem que tenhamos a menor ideia do que estamos encontrando, logo ele implica que nossas opções não serão levadas em consideração. Todo encontro envolve surpresas.

Alexsandro




O maior enigma da terra

Não há e nunca houve enigmas terríveis a serem decifrados, muitos menos mensagens profundas e existenciais para serem levadas a sério. Inventamos tudo para oferecer a nós mesmos justificativas para que a vida fizesse algum sentido.

Apagamento de si

Para muitos a possibilidade de experimentar a liberdade em nome de um proveito próprio é a possibilidade de vivenciar suas relações e seu mundo do modo que desejam. Nada há de errado em pensar assim. A questão se encontra no uso exagerado ou viciante de certas experiências, sobretudo quando confrontado com a impossibilidade de levar as últimas consequências o sonho de liberdade. O uso excessivo da sensorialidade é um destes casos. Assistimos cada vez mais que o número de experiências banais cresceu enquanto diminuía o número das experiências que requerem um grau de compromisso maior, e, paralelo a esse fato, testemunhamos o aumento do uso de atividades sensoriais intensas como um mecanismo que visa a extirpação de angústias. Sendo o resultado posterior justamente o agravamento daquilo que se tentava eliminar quando sonhávamos com a liberdade: aumento das experiências frustrantes e desestabilidade emocional, solidão e empobrecimento das relações.
Em um mundo que fez dos corpos despersonalizados sua imagem emblemática, ou, caso se deseje dizer a mesma coisa de outra forma, que fez de partes do corpo (bunda, peito, rosto, perna, pênis, barriga) seus objetos emblemáticos, sendo estas partes sem personalidade (despersonalização), ou, o que também não ajuda muito, uma personalidade para cada parte do corpo (fragmentação), podemos testemunhar uma lista significativa de contradições que se somam para forma um mosaico peculiar das experiências que são vividas por boa parte das pessoas.
Uma destas contradições típicas do nosso momento histórico é o fato de que expomos nossas vidas na Internet, onde tudo pode ser exposto, mas tememos viver intimidades e construir vínculos com os outros. Outra é a contradição que existe entre a imagem pública e a experiência privada. Geralmente a primeira é exposta como uma experiência bem-sucedida e a segunda como experiência da solidão e isolamento ou de relações de péssima qualidade.
O problema pode se agravar quando se percebe o quão difícil ou mesmo impossível é mudar o mundo no qual se vive. O uso de certas atividades, dos mais variados tipos, funciona como atividades masturbatórias direcionadas para aliviar a angústia daí decorrente. No exercício de anestesimento de si em relações masturbatórias e sensoriais sem qualquer significado emocional, tenta-se afastar para longe os riscos, sempre próximos na experiência atual, da despersonalização e fragmentação, em suma, do apagamento de si mesmo.

11/03/2013

Capitalismo Mundial Integrado e nossas formas de luta

O Capitalismo Mundial Integrado e sua ordem econômica estabeleceram no mundo o cruel, nefasto, arrogante, criminoso, violento e podre mandamento de vender, vender e vender – vende-se de tudo, compra-se de tudo.
O mundo virou um campo de guerra – luta-se por espaço (de mercado); concorrer virou prática comum – concorre-se por tudo. Alguns falam que isto já é a Quarta Guerra Mundial. (a Terceira foi a Guerra Fria):
- O argumento principal para justificar esta guerra é a necessidade de investir;
- O campo de batalha é o mercado;
- As armas são os arsenais financeiros;
- A meta é conquistar o mundo inteiro para transformá-lo em produto – mercadoria;
- O resultado até agora desta guerra é a morte de milhões de pessoas a cada instante.

O Capitalismo Mundial Integrado moldou-se na nossa cultura e se inscreveu em todos os cantos, todas as brechas, todas as pregas das nossas vidas. Fez simbiose com os nossos lençóis, nossas colheres e pratos. Adentrou nossos banhos. Colonizou nossos vinhos e virou nossa embriagues. Ele é o plugue dos nossos aparelhos, eletrônicos ou musculares, a poluição no ar, o som alto do carro do vizinho, as grades nas janelas, o arame farpado da cerca na chácara, o fio elétrico que corre sobre o muro, a conversa idiota daquela estudante de direito que acha que seus direitos devem ser preservados em nome da sua individualidade mesquinha e inconsequente. Ele se encontra na margarina que lambuza o pão. Ele é o pau derrotado daqueles que ejaculam em nome de um prazer sem ética ou estética (um prazer rejeitado até pelas bactérias). Ele invade os úteros para produzir filhos legítimos para a produção e o consumo. Diante dele e contra ele todas as formas de luta são aceitáveis:

Todas as formas da luta são aceitáveis. Com a condição de se inserirem num movimento coletivo que denuncie, simultaneamente, as finalidades do sistema liberal, as múltiplas conivências que este tece com o mundo jornalístico, o enclausuramento de nossas vidas na ótica unidimensional da produção-consumo, a uniformização cultural e econômica do planeta e as ações dos homens, ou aparelhos de poder, que não cessam de despolitizar os cidadãos para melhor subjugá-los. Se não, valem tanto quanto se abster. (François Brune)

Devemos ter em mente também que toda luta e todo processo de libertação começa e passa pelo corpo. Liberdade significa libertar o corpo daquilo que o amarra. Sem um corpo a liberdade não faz sentido algum. Veja, por exemplo, que muitos acham que o ciberespaço é a grande nova fronteira humana a ser explorada como espaço de libertação. Mas, infelizmente, “o ciberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.” (Hakim Bey)

¿Se nos apegamos tanto a simulacros não seria justamente devido a miséria de vida que levamos no mundo “real”?  Por conta disso e mais do que nunca a reflexão de Nietzsche sobre nossos combates e nossa forma de combater nunca foi tão válida:
É preciso estudar as misérias dos homens, incluindo entre essas misérias as ideias que eles têm quanto aos meios para combatê-las.

Vejo que esse sistema não pode suportar muita coisa, dai sua fragilidade em cada canto, mas ao mesmo tempo essa é sua força de repressão, como não pode suportar muito, muda, deixa de ser e passa a ser outra coisa. ¿Quem pode combater facilmente algo assim? ¿Poderá as crianças combater o sistema? Sim, até elas podem. Não há lugar exclusivo para o combate, nem lutadores específicos. Ou, como disse uma vez Deleuze, “acredito que bastaria apenas que elas (as crianças) fossem ouvidas em seus protestos para explodir todo o conjunto do sistema de ensino”.

Gosto de acreditar que pensar também é uma forma de luta. Vejo que pensar e escrever são formas de por uma revolução em movimento. Por isso gosto desta reflexão do Saramago que diz:

"Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma."


Alexsandro

26/02/2013

Criatividade contra a mediocridade


Diante do mundo e de suas forças a vontade é o que gera vida em abundância. Em nós o mecanismo da vontade é a criatividade. É ela que nos atualiza diante do mundo. Mas quando somos vencidos pelas forças reativas do mundo, quando a vontade de se atualizar diante do mundo se transforma em vontade de imitação ou vontade de permanência, nossas forças de expressão desfalecem, nossa criatividade torna-se reatividade. Assistimos a partir de então o aparecimento de uma séria de sintomas característicos da experiência medíocre: impossibilidade de expressão criativa, hiperadaptação ao meio social, falta de originalidade, tendências miméticas, sobretudo na tentativa de reproduzir formas socialmente populares. Aqui a atualização diante do mundo perde sua força. Por sua vez o desejo de ser igual aos modelos preestabelecidos torna-se o ideal a ser alcançado.

Alexsandro

24/02/2013

Tédio

Tédio é sinônimo de tempo vazio. Significa a dificuldade de suportar um momento do tempo não preenchido ou cuja expressividade daquilo que o preenchia perdeu sua força. Logo, esse momento do tempo não faz sentido, criando a sensação de que ele não flui. Uma consequência do tédio é justamente a ansiedade gerada pelo desejo de ocupar o tempo e trazer de volta seu movimento, fazê-lo fluir em uma dada direção, (re)estabelecendo um dado sentido.
Nossa relação com o tempo sempre foi uma relação delicada. Tamanha delicadeza pode ser percebida na ampliação da ansiedade gerada pelo tédio que pode se desdobrar numa angustia, e da angustia em depressão, quando não mais um momento do tempo deixa de fazer sentido, mas todo ele deixa de fazer sentido.

Alexsandro