01/09/2013

O maior enigma da terra

Não há e nunca houve enigmas terríveis a serem decifrados, muitos menos mensagens profundas e existenciais para serem levadas a sério. Inventamos tudo para oferecer a nós mesmos justificativas para que a vida fizesse algum sentido.

Apagamento de si

Para muitos a possibilidade de experimentar a liberdade em nome de um proveito próprio é a possibilidade de vivenciar suas relações e seu mundo do modo que desejam. Nada há de errado em pensar assim. A questão se encontra no uso exagerado ou viciante de certas experiências, sobretudo quando confrontado com a impossibilidade de levar as últimas consequências o sonho de liberdade. O uso excessivo da sensorialidade é um destes casos. Assistimos cada vez mais que o número de experiências banais cresceu enquanto diminuía o número das experiências que requerem um grau de compromisso maior, e, paralelo a esse fato, testemunhamos o aumento do uso de atividades sensoriais intensas como um mecanismo que visa a extirpação de angústias. Sendo o resultado posterior justamente o agravamento daquilo que se tentava eliminar quando sonhávamos com a liberdade: aumento das experiências frustrantes e desestabilidade emocional, solidão e empobrecimento das relações.
Em um mundo que fez dos corpos despersonalizados sua imagem emblemática, ou, caso se deseje dizer a mesma coisa de outra forma, que fez de partes do corpo (bunda, peito, rosto, perna, pênis, barriga) seus objetos emblemáticos, sendo estas partes sem personalidade (despersonalização), ou, o que também não ajuda muito, uma personalidade para cada parte do corpo (fragmentação), podemos testemunhar uma lista significativa de contradições que se somam para forma um mosaico peculiar das experiências que são vividas por boa parte das pessoas.
Uma destas contradições típicas do nosso momento histórico é o fato de que expomos nossas vidas na Internet, onde tudo pode ser exposto, mas tememos viver intimidades e construir vínculos com os outros. Outra é a contradição que existe entre a imagem pública e a experiência privada. Geralmente a primeira é exposta como uma experiência bem-sucedida e a segunda como experiência da solidão e isolamento ou de relações de péssima qualidade.
O problema pode se agravar quando se percebe o quão difícil ou mesmo impossível é mudar o mundo no qual se vive. O uso de certas atividades, dos mais variados tipos, funciona como atividades masturbatórias direcionadas para aliviar a angústia daí decorrente. No exercício de anestesimento de si em relações masturbatórias e sensoriais sem qualquer significado emocional, tenta-se afastar para longe os riscos, sempre próximos na experiência atual, da despersonalização e fragmentação, em suma, do apagamento de si mesmo.

11/03/2013

Capitalismo Mundial Integrado e nossas formas de luta

O Capitalismo Mundial Integrado e sua ordem econômica estabeleceram no mundo o cruel, nefasto, arrogante, criminoso, violento e podre mandamento de vender, vender e vender – vende-se de tudo, compra-se de tudo.
O mundo virou um campo de guerra – luta-se por espaço (de mercado); concorrer virou prática comum – concorre-se por tudo. Alguns falam que isto já é a Quarta Guerra Mundial. (a Terceira foi a Guerra Fria):
- O argumento principal para justificar esta guerra é a necessidade de investir;
- O campo de batalha é o mercado;
- As armas são os arsenais financeiros;
- A meta é conquistar o mundo inteiro para transformá-lo em produto – mercadoria;
- O resultado até agora desta guerra é a morte de milhões de pessoas a cada instante.

O Capitalismo Mundial Integrado moldou-se na nossa cultura e se inscreveu em todos os cantos, todas as brechas, todas as pregas das nossas vidas. Fez simbiose com os nossos lençóis, nossas colheres e pratos. Adentrou nossos banhos. Colonizou nossos vinhos e virou nossa embriagues. Ele é o plugue dos nossos aparelhos, eletrônicos ou musculares, a poluição no ar, o som alto do carro do vizinho, as grades nas janelas, o arame farpado da cerca na chácara, o fio elétrico que corre sobre o muro, a conversa idiota daquela estudante de direito que acha que seus direitos devem ser preservados em nome da sua individualidade mesquinha e inconsequente. Ele se encontra na margarina que lambuza o pão. Ele é o pau derrotado daqueles que ejaculam em nome de um prazer sem ética ou estética (um prazer rejeitado até pelas bactérias). Ele invade os úteros para produzir filhos legítimos para a produção e o consumo. Diante dele e contra ele todas as formas de luta são aceitáveis:

Todas as formas da luta são aceitáveis. Com a condição de se inserirem num movimento coletivo que denuncie, simultaneamente, as finalidades do sistema liberal, as múltiplas conivências que este tece com o mundo jornalístico, o enclausuramento de nossas vidas na ótica unidimensional da produção-consumo, a uniformização cultural e econômica do planeta e as ações dos homens, ou aparelhos de poder, que não cessam de despolitizar os cidadãos para melhor subjugá-los. Se não, valem tanto quanto se abster. (François Brune)

Devemos ter em mente também que toda luta e todo processo de libertação começa e passa pelo corpo. Liberdade significa libertar o corpo daquilo que o amarra. Sem um corpo a liberdade não faz sentido algum. Veja, por exemplo, que muitos acham que o ciberespaço é a grande nova fronteira humana a ser explorada como espaço de libertação. Mas, infelizmente, “o ciberespaço é um espaço sem corpo. Ele é, de fato, um espaço abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem gosto, nem sentimento e nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros dessas coisas e não elas mesmas.” (Hakim Bey)

¿Se nos apegamos tanto a simulacros não seria justamente devido a miséria de vida que levamos no mundo “real”?  Por conta disso e mais do que nunca a reflexão de Nietzsche sobre nossos combates e nossa forma de combater nunca foi tão válida:
É preciso estudar as misérias dos homens, incluindo entre essas misérias as ideias que eles têm quanto aos meios para combatê-las.

Vejo que esse sistema não pode suportar muita coisa, dai sua fragilidade em cada canto, mas ao mesmo tempo essa é sua força de repressão, como não pode suportar muito, muda, deixa de ser e passa a ser outra coisa. ¿Quem pode combater facilmente algo assim? ¿Poderá as crianças combater o sistema? Sim, até elas podem. Não há lugar exclusivo para o combate, nem lutadores específicos. Ou, como disse uma vez Deleuze, “acredito que bastaria apenas que elas (as crianças) fossem ouvidas em seus protestos para explodir todo o conjunto do sistema de ensino”.

Gosto de acreditar que pensar também é uma forma de luta. Vejo que pensar e escrever são formas de por uma revolução em movimento. Por isso gosto desta reflexão do Saramago que diz:

"Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma."


Alexsandro

26/02/2013

Criatividade contra a mediocridade


Diante do mundo e de suas forças a vontade é o que gera vida em abundância. Em nós o mecanismo da vontade é a criatividade. É ela que nos atualiza diante do mundo. Mas quando somos vencidos pelas forças reativas do mundo, quando a vontade de se atualizar diante do mundo se transforma em vontade de imitação ou vontade de permanência, nossas forças de expressão desfalecem, nossa criatividade torna-se reatividade. Assistimos a partir de então o aparecimento de uma séria de sintomas característicos da experiência medíocre: impossibilidade de expressão criativa, hiperadaptação ao meio social, falta de originalidade, tendências miméticas, sobretudo na tentativa de reproduzir formas socialmente populares. Aqui a atualização diante do mundo perde sua força. Por sua vez o desejo de ser igual aos modelos preestabelecidos torna-se o ideal a ser alcançado.

Alexsandro

24/02/2013

Tédio

Tédio é sinônimo de tempo vazio. Significa a dificuldade de suportar um momento do tempo não preenchido ou cuja expressividade daquilo que o preenchia perdeu sua força. Logo, esse momento do tempo não faz sentido, criando a sensação de que ele não flui. Uma consequência do tédio é justamente a ansiedade gerada pelo desejo de ocupar o tempo e trazer de volta seu movimento, fazê-lo fluir em uma dada direção, (re)estabelecendo um dado sentido.
Nossa relação com o tempo sempre foi uma relação delicada. Tamanha delicadeza pode ser percebida na ampliação da ansiedade gerada pelo tédio que pode se desdobrar numa angustia, e da angustia em depressão, quando não mais um momento do tempo deixa de fazer sentido, mas todo ele deixa de fazer sentido.

Alexsandro

18/12/2012

Autoengano como motivação e a fuga da morte



O fato é que precisamos ultravalorizar a nós mesmos e todos os nossos objetivos por uma simples questão de autopreservação. A motivação humana sustenta-se neste tipo de autoengano. Talvez isso não seja tão ruim, só é estranho. (André Díspore Cancian)

 O autoengano é a chave para suportar a vida e fazer dela algo que valha alguma coisa. Tudo que fazemos, o empenho que investimos, os sentidos que desejamos encontrar nas coisas com as quais nos envolvemos funcionam como uma armadura protetora diante do absurdo da vida. Mais do que apenas uma forma de preenchermos o tempo de uma vida, são o energético motivacional da vida. Caminhamos buscando uma direção que nos pareça a menos angustiante e dolorosa possível. Valorizamos as coisas mais idiotas ou esperamos delas grandes consequências. Elevamos as expectativas a níveis que nenhum outro animal poderia sequer imaginar caso pudessem fazer. Valorizamos tanto a nós mesmos que chegamos a esquecer do básico sobre quem somos: seres mortais.

Aconteceu-nos uma coisa realmente curiosa: nós, literalmente, esquecemos de que temos de morrer. É esta a conclusão a que chegaram os historiadores depois de terem examinado todas as fontes escritas da nossa época. Uma investigação realizada nos cerca de cem mil livros de ensaio publicados nos últimos vinte anos mostra que apenas duzentos deles (0,2%, portanto) tocavam o problema da morte. Livros de medicina incluídos. (Pierre Chaunu)

Alexsandro

12/12/2012

Da amizade como acontecimento



Há hoje no nosso mundo muitas formas de pessoas "sem": os sem terra, os sem tetos, os sem namorado, os sem mídia, os sem emprego, os sem universidade, etc. Para cada uma dessas formas de "sem" visualizamos um universo de consequências, prejuízos, desconfortos, feridas no corpo, na mente e no mundo.
Além dessas formas de "sem" há muitas outras, aqui vou considerar apenas uma. A forma de “sem” que, assim como as anteriores, é nefasta para o coração humano e para Gaia. Tal forma de “sem” diz respeito aos "sem talentos".
Schopenhauer, em certo momento, faz um prognostico terrível sobre os efeitos que as relações maternas e paternas podem produzir em alguém. Não precisamos concordar que isso seja unânime, mas tem lá sua plausibilidade. Assim ele diz:
"Alguém que tenha tido uma desmiolada como mãe e um indolente como pai jamais escreverá uma Ilíada; nem mesmo se estudar em seis universidades."
Se considerarmos um pouco o que Schopenhauer disse podemos compreender o quanto é realmente complicado para qualquer um de nós começarmos a desenvolver qualquer talento em um meio que não favorece, principalmente quando o principal obstáculo é pai ou mãe (ou os dois juntos, o que é ainda pior).
Todos nós, homens e mulheres, fazemos parte de uma espécie que se desenvolveu graças a sua capacidade criativa, aos talentos que possibilitaram sobrevivência em um mundo exigente. Foi por meio da evolução de um imenso número de talentos que chegamos aonde chegamos como espécie. Não há como hierarquizar um em detrimento de outro, todos foram e são fundamentais de alguma forma em dadas circunstâncias. Todavia, entre todos, um que foi e é imprescindível é o talento de inventar formas de ser e de viver.
Através de inúmeras tentativas, ora acertando, ora errando, algumas boas outras más, inventamos ao longo do tempo e do espaço formas de ser e de viver e assim continuamos. Mas tal talento necessita de tempo e de espaço para se desenvolver e prosperar. E mais do que qualquer outra coisa, essa nossa capacidade criativa precisa ser estimulada, cativada, cuidada, enfim, precisa de apoio. Mas não qualquer apoio, precisa de um apoio que abra caminho, que deixe ser, que possibilite que a vida aconteça, que a diferença se faça presente, que a potência de vida exploda de forma fulgurante.

Para que nosso talento de criar formas de ser e de viver possa prosperar precisamos de apoio. Só amparados em alguém podemos escapar da forma “sem talento" e nos tornamos alguém "com talento" (talento que trato aqui como a possibilidade de criarmos formas de vida). Desta forma, não como um contraponto, mas como meio de escape ou tática de criação, proponho a forma “com”, no caso, a forma "com amizade". Dito de outra forma, proponho pensarmos a amizade como o espaço no qual podemos desenvolver talentos necessários para criamos formas difirentes de ser e viver para além do mundo capitalista. Assim vejamos. É sabido que em nosso espaço-tempo atual, a sociedade de mercado na qual vivemos, grande parte da nossa capacidade criativa é abduzida e direcionada para a produção de mercadorias ou prestação de serviços. Assim, enclausurados nessa forma de ser e viver, aprendemos desde cedo que a única possibilidade real e legítima de existência se encontra no consumo de mercadorias e serviços. Aqui, noções extremamente caras e importantes para a vida humana são entendidas ou reproduzidas de maneira rasteira, um bom exemplo é a noção de liberdade, que passou a ser, nada mais nada menos, que a capacidade de usar o cartão de crédito. É nesse espaço, nesse ambiente, nesse momento e nesse tempo que a forma “com amizade” se apresenta como a porta de saída, a escada de emergência, a possibilidade de fuga deste que é um mundo que não possibilita nenhuma referência coerente ou segura na qual pudéssemos nos apoiar que não seja ele mesmo, o mundo do capitalismo, que na sua forma de ser é esquizofrênico por definição. Por conta disso, ou seja, por conta e contra um capitalismo que colonizou todas as formas de relação, que monetarizou as formas de ser e viver, a amizade é aquele território no qual as relações ai possíveis podem construir e possibilitar aquele apoio, aquela abertura de caminho que nos deixa - nós e o outro - ser e viver para além daquilo que as relações de mercado esperam de nós. É a possibilita de viver diferente, de viver a diferença, principalmente a diferença ética e estética contra a monetarização da vida. A diferença que possibilita que a potência de vida exploda de forma fulgurante, se rebelando e rebolando expressividade gratuita e libertadora..
Mas aqui vale uma ressalva schopenhaueriana:
Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, também no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade autêntica, circulam as suas demonstrações exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural possível. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se há pessoas que de fato merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um cão leal do que a cem daquelas demonstrações e gestos.

A amizade verdadeira e genuína pressupõe uma participação intensa, puramente objetiva e completamente desinteressada no destino alheio; participação que, por sua vez, significa identificarmo-nos de fato com o amigo. Ora, o egoísmo próprio à natureza humana é tão contrário a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence àquelas coisas que não sabemos se são mera fábula ou se de fato existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, há muitas relações entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos egoístas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um grão daquela amizade verdadeira e genuína, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa razão, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfeições. Elas elevam-se muito acima dos vínculos ordinários, cuja natureza é tal, que não trocaríamos mais nenhuma palavra com a maioria dos nossos bons conhecidos, se ouvíssemos como falam de nós na nossa ausência.

A amizade, como experiência única, é a possibilidade de conviver com alguém que nos possibilite desenvolver os talentos. Para compreendermos um pouco o que isso significa devemos partir, infelizmente, do óbvio, o que seja: não podemos cair na armadilha de acreditar que a amizade é um produto que pode ser encomendado, comprado ou adquirido, que custa barato, que é manipulável ou descartável. Muito pelo contrário, a experiência da amizade é um acontecimento, uma experiência rara e única. Um acontecimento que, como diria Nietzsche, nos eleva para além dos olhos daqueles que não sabem voar. Ela, a amizade, não nasce de alguma forma de desespero, por isso ela é maior do que Deus, já que Deus, como bem afirma Cioran, é um desespero que começa onde todos os outros acabam.
Em uma carta inexistente para Clarice (a Lispector), essa amiga que nunca soube quem sou, disse:
Sim, Clarice, liberdade é pouco. O que você e eu desejamos talvez tenha um nome e se chama amizade, pois liberdade sem esse outro é não suficiente. Eu e você temos várias caras. Concordo, uma é quase bonita, outra é quase feia. Somos um o quê? Somos mesmo quase tudo. Mas entre esse tudo um que vale realmente a pena é ser amigo. Você também fala do valor dos nossos defeitos, que cortá-los pode ser perigoso, que nunca sabemos “qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”, mas quem melhor que os amigos para entendê-los e direcioná-los? É você também quem diz que não quer “ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido”. Diz ainda que não quer “uma verdade inventada”. Mas eu te pergunto Clarice, o que são as verdades a não ser coisas inventadas? Invenções essas que se tornam mais bonitas quando inventadas com os amigos.

 Alexsandro