12/12/2012

A arte de resistir

Uma vida vivida em meio às inseguranças e incertezas diminui ou mesmo tira completamente a capacidade de compreender os limites aos quais a vida se encontra submetida. Tais limites ficam ainda mais difíceis de serem compreendidos quando falta a capacidade de imaginar formas alternativas de vida e de convívio. Capacidade esta que só pode ser trabalhada e aprimorada pelo questionamento, pois, quando há questionamentos sobre a validade de algo é porque não se tem o que realmente se quer ou porque não se tem certeza se aquilo que se possui é ou não o que realmente se quer. É neste sentido que podemos afirmar que evitar fazer perguntas, evitar o questionamento ou mesmo não saber questionar é a melhor forma de barrar qualquer processo de libertação, é a melhor forma de impedir a vida de se expressar como uma arte de resistir ao que nos constrange.

Alexsandro

03/12/2012

Por uma receita de bem viver

Sim, todo mundo quer saber quem de fato é e onde se encontra. Todo mundo quer saber no que se encaixa, qual seu lugar e propósito no mundo. Ninguém quer viver a esmo ou sentir-se um ninguém. Por isso gastamos muito tempo tentando ser o que os outros querem que sejamos e isso por variados motivos, alguns até que justos, por exemplo, quando se trata de uma questão de sobrevivência. Não é bom passar a imagem de fracassado - imaginamos que os outros não nos aceitarão se formos um fracasso. Gostaríamos de ser celebridades, deuses do olimpo, mas as celebridades são falsos humanos, elas não existem como são apresentadas, são apenas recortes de momentos, recortes esses que qualquer um pode fazer - podemos recortar a vida do mais miserável ser humano e mostrar só o que há de legal na experiência dele. E quanto aos deuses, simplesmente não existem. Também buscamos receitas de bem viver, mas tais receitas não funcionam para a maioria das pessoas, o que isso significa? Não muita coisa, também nada muito simples. Significa apenas que não existe receita infalível. Ou, que é a hipótese que aposto, cada um tem que inventar a sua receita de bem viver. Acho isso muito legal, pois abre uma imensa possibilidade de libertação de tudo aquilo que nos aprisiona. Pois se existisse uma receita para o bem viver ficaríamos prisioneiros da receita, logo ela viraria uma doutrina do bem viver e no limite uma ditadura, algo fascista.
Claro que no mercado das realizações há muita oferta de receitas para o bem viver. Há algumas que, por exemplo, apostam no amor, no dinheiro, no trabalho, na religião ou nos filhos, todavia, em nenhuma dessas apostas há garantias de realização. No que devemos apostar, então? Não sei. E se soubesse não diria, pois esse é um trabalho de todos e de cada um, qual seja, inventar a sua receita de bem viver. É um trabalho solitário e delicado.
Há uma espécie de problema que chamo de problema delicado. O problema de querer que a receita que inventamos ou descobrimos sirva para todos. É aqui que o bicho pega. Nem sempre os outros estarão dispostos a participar da nossa receita de bem viver. E tudo vai ficando mais complicado quando entendemos que a relação com os outros ganha importância no fato de que só por meio dos outros posso ser salvo da insuportável leveza de ser alguém tão pouco, tão pequeno, mesquinho, quase nada ou ninguém. A minha fragilidade só pode ser superada no outro e com o outro, nas relações que construo com os outros. Mas quem é esse outro ou outros? Eu não sei, cada um tem que descobrir, cada um tem seu outro, seus outros. De outra parte existe o problema da solidão: ter que entender que a receita é minha e os outros não têm nenhuma responsabilidade sobre ela, que os outros não têm obrigação de participar dela.


Alexsandro

12/11/2012

Adaptação e aceitação

A nossa tão admirada capacidade de adaptação, vista como um dos segredos do nosso sucesso evolutivo, desemboca na nossa capacidade de viver em agrupamentos cada vez maiores, onde procriamos em condições que qualquer outro macaco decente julgaria insuportáveis, ou seja, do ponto de vista biológico, a gente aceita tudo, muito mais do que deveria.

Alexsandro

11/11/2012

Futebol: chutando a cara do outro

O futebol é um bom exemplo do quanto a fé cega cria formas nada pacíficas de experiências quanto ao respeito às diferenças. Cada vez que uma bandeira é hasteada em nome de qualquer time e quando esta bandeira é defendida contra todo e qualquer bom senso, é sinal que estamos caminhando em um terreno minado de bombas prestes a explodir na nossa cara. Os debates sobre futebol demonstram o quanto não sabemos levar em consideração o ponto de vista do outro e que não entendemos bem o universo deste esporte.
 
 
Alexsandro

Ceticismo básico

Busque ser cético. Jamais acredite em idéias que se querem verdadeiras por si mesmas. Se apegue as possibilidades dos fatos. Recuse qualquer explicação que se queira universal. Todos os fenômenos são arbitrários.

Todos nós somos filhos do nosso tempo. Não somos soberanos diante do mundo e do tempo. Não somos soberanos de nós mesmos. Somos finitos no tempo e no espaço. Do que sabemos, só sabemos um pouco. Das outras épocas sabemos muito menos. Somos prisioneiros de uma época, a nossa época. Não existe a máquina do tempo que nos faça ultrapassar a fronteira que limita o momento. Somos, falamos e pensamos no momento. Tudo o que somos, falamos e pensamos é limitado ao nosso tempo e ao nosso espaço.

Não existem verdades a serem descobertas, existem discursos a serem produzidos.

Somos sujeitos subjetivados, construídos sobre discursos que nos constituem. Estamos presos a tais discursos.
 
Sobre homens e mulheres não há muito para saber. Embora muito a ser feito.

Alexsandro

Expectativa

A expectativa é a ansiedade pelo prever, pela possibilidade de determinar, de instituir o futuro. A expectativa se liga a noção e a sensação de controle. É a eliminação da surpresa, do devir. A expectativa lida com o futuro de forma ansiosa. Ela gera um canibalismo do tempo presente, o tempo presente sendo devorado, o nosso próprio tempo sendo devorado por nós mesmos. Como devoradores do tempo, para nós ele já não flui, ele é algo que deve ser ultrapassado. Para ultrapassarmos o tempo, o devoramos. É assim que a expectativa paralisa e esvazia o presente, exaure, cega, estreita e fecha os horizontes.


Alexsandro

06/11/2012

Simples assim

Um corrupto? Olhe-se no espelho.

O maior dos segredos: A maioria das pessoas procuram esconder o fato de não saberem o motivo pelo qual vivem.

A fotografia é nosso desejo de não ser real. Procuramos na ilusão de um momento teatral alguém melhor do que o que realmente somos.

Conforme-se, fotos bonitas são apenas uma questão de ângulo e luz, nossa cara de fato não é como aparece nas fotos - se de fato nos víssemos de frente, teríamos uma surpresa desastrosa.

Direito à vida? Direito à morte? Quanta bobagem, viver e morrer não são um direito.

Alexsandro

30/10/2012

Liberdade, esterelidade e tédio

A liberdade pode ser compreendida como o momento em que não precisamos criar coisa alguma – pura esterilidade; nenhuma pressão interior ou exterior para se fazer coisa alguma, nenhum projeto, nada a conquistar, nenhum lugar para ir, nenhum movimento a ser feito, nada é criado, nada é destruído. Liberdade não é simplesmente a possibilidade de fazer algo, mas também a possibilidade de não fazer nada.

Alexsandro

Sofrimento e justiça

O sentimento de justiça muitas vezes sustenta a esperança daqueles que sofrem. É comum ouvirmos conselhos e comentários quando estamos sofrendo por uma dor, por um dano causado por alguém ou estamos envolvidos em alguma situação mais delicada. Todos nós já ouvimos ou mesmo falamos coisas do tipo: “Ele(a) ainda vai pagar. Você se sente assim agora? Depois ele (a) vai se sentir muito pior, você vai ver. Afinal, aqui se faz, aqui se paga”. Mas pergunto: será que isso realmente acontece? Enquanto sofremos, como estão os causadores do nosso sofrimento? Depois de ferido por alguém o que devo fazer? Assumo o papel de vítima? Sou mesmo uma vítima da crueldade ou mesmo da insensibilidade do outro? Devo esperar que o outro venha a sofrer como eu? E o sofrimento do outro será suficiente para calar a minha dor?

Alexsandro

Dor e decisão


Grandes decisões podem ser tomadas nos momentos de tristeza e angústia, fazendo com que toda uma vida mude. Alguns são capazes de usufruir desse momento, corrigir algumas coisas, crescer e amadurecer com tudo isso. Já os despreparados ou mais fracos, simplesmente definham.

Alexsandro