16/09/2012

Crenças




Alimentamos falsas crenças quanto ao nosso modo de vida, muitas delas ainda derivadas de um nada sutil etnocentrismo. Acreditamos que vivemos no melhor modo de vida já inventado, que precisamos apenas encontrar o melhor jeito de dela tirar proveito. Isso é crença, não é fato. Somos fervorosos fiéis de nossas crenças culturais, fazemos delas verdades universais. Como acontece em muitas crenças, nossas crenças culturais têm seus seguidores fundamentalistas. Algumas pessoas se apegam tanto a elas que qualquer um que as critique será tido como herege. Em um ambiente assim, alguém que consegue imaginar outros ambientes culturais como ambientes possíveis e até mesmo como ambientes mais viáveis se comparados ao nosso será visto como louco, como alguém sem senso de realidade.
Vemos-nos presos a cenários pré-fabricados, embalados a vácuo e vendidos em cômodas prestações. Trocamos nossa capacidade de criar vida pelo ritual diária de seguir crenças que nos fazem simular que estamos vivendo. Ao invés de uma vida abundante de criatividade seguimos uma imensa procissão de passos cadenciados. ¿Não sei, mas a capacidade de imaginar outros cenários possíveis não deveria ser parte integrante de nossa vida?
 
 
Alexsandro

06/09/2012

Pereça a pátria e salve-se a humanidade

É estranho pensar que o fato de sermos todos humanos não é suficiente para determinar nossas interações. A expressão “somos todos humanos” perde parte do seu potencial quando pensamos a noção de patriotismo e como esta limita nossas possibilidades. Aos nos tornarmos patriotas deixamos de ser parte da humanidade e passamos a fazer parte de um pequeno grupo de humanos ligados a uma pátria, um estado. Deixamos de ser humano e viramos brasileiro, argentino, paraguaio, peruano, boliviano... E pensar que o contorno de nossos mapas não são naturais. Foram recortados a partir de batalhas, muitas delas sangrentas.
O patriotismo é tema delicado e precisa ser debatido. Ele envolve desde a idolatria a símbolos nacionais, paixão cega àquilo que é regional, preconceito quanto ao outro que não é nacional e, principalmente, um complexo jogo de poder. Aqueles que vivem nas fronteiras dos países vivenciam isso de forma muito clara: o cruzar de uma linha, de uma ponte te coloca em outra cultura, outra legislação e outros valores, faz de cada um não um homem ou uma mulher com outros homens e mulheres, mas um estrangeiro entre estranhos.
Não foram poucos os que tiveram a sensibilidade de sentir o quanto a noção de patriotismo mais divide do que une.


Heroísmo no comando, violência sem sentido e toda detestável idiotice que é chamada de patriotismo – eu odeio tudo isso de coração.
Albert Einstein
Um homem que se respeite não tem pátria. Uma pátria é um visco.
Emil Cioran
Pereça a pátria e salve-se a humanidade.
Pierre Proudhon
Considero-me estrangeiro em qualquer país, alheio,a qualquer raça. Pois a terra é minha pátria e a humanidade toda é meu povo.
Khalil Gibran
Liciane

Os escravos modernos




Acordam todos os dias na mesma hora. Trabalham duro durante horas seguidas, seguindo um conjunto de normas e afazeres predeterminado por outros. São extorquidos física e moralmente. Obedecem ao poder público, representado, em sua maioria, por uma corja de corruptos. Enriquecem os cofres de empresários filhos da puta. Chegam ao fim do mês com pouco ou sem dinheiro algum. Vivem endividados. Com dividas que seguem acumulando. Suas algemas são as notas promissórias, o cartão de crédito, o parcelamento, o financiamento... Nem todos tem casa ou comida garantida. Não levam chibatadas, mas sofrem outras formas de castigos corporais.


Alexsandro

02/09/2012

São eles que morrem, e não eu


O jornalismo de consumo faz do sensacionalismo seu modo de expressão. Dele nada escapa. Nada deixa de parecer “sensacional”: do bonito ao horrível, do legal ao ilegal, da merda do cachorro ao bolo de aniversário da vovó. Faz da banalidade um artigo metafísico. Faz da vergonha alheia o escândalo da moral. Ética é apenas uma abstração onírica. Priorizando o consumo, não a informação, mergulha numa sanha de atenção que não poupa nada, nem ninguém. Seu efeito no cotidiano é sentido na transformação do trágico em refresco de groselha: vemos o trágico, mas ele não nos afeta, não o sentimos, não pensamos sobre ele.

A presença no sensacionalismo, do horrível, do ilícito, do destino e da morte na vida quotidiana, é atenuada pelo modo de consumo jornalístico; o sensacionalismo é consumado, não segundo o rito cerimonial da tragédia, mas à mesa, no metrô, com café com leite. Os mortos das notícias sensacionalistas ainda que bem reais, enquanto os mortos de teatro são simulados, estão afinal mais longe do leitor do que os mortos shakespearianos o estão do espectador. As vítimas do sensacionalismo como da tragédia são projetivas, isto é, são ofertadas em sacrifício à infelicidade e à morte. A catarse é como que digerida no quotidiano, isto quer dizer que o grande tema de sacrifício “eles morrem em meu lugar”, se atenua num “são eles que morrem, e não eu". (Edgar Morin)


Alexsandro

01/09/2012

Coisas estranhas


É estranho como o pragmatismo embaralha nossos dias. Consumimo-nos no consumo. Consumimos como feras selvagens. Consumimos como forma de encontrar a salvação em uma forma de vida que apenas nos consome como objetos tarifados numa feira de objetos usados.
É estranho vivermos um tempo no qual uma espantosa quantidade de informações nos invade sem que tenhamos tempo de averiguar como elas nos afetarão.
É estranho ver pessoas que ainda acreditam que vão encontrar boas respostas em manuais de autoajuda falidos há muito tempo.
É ainda mais estranho perceber como muitos transformam livros sagrados, como o Mahabharata, Bíblia, Bagavadguitá, Alcorão, Torá, Codificação Espírita de Allan Kardec, Zend Avesta, Kitáb-i-Aqdas e tantos outros, em manuais de autoajuda.


Alexsandro

24/08/2012

Somente a realidade


Parte da experiência que homens e mulheres vivem hoje, em sociedades parecidas com a nossa, encontra-se delineada por metas que mais impossibilitam do que favorecem uma tal vida boa que tantos buscam (seja lá o que isso signifique). Sendo que o mais estranho é que se tais metas forem varridas da face da terra nada ou muito pouco restará a que se apegar para produzir algum sentido significativo. É neste ambiente que a palavra 'realidade' nada significa. Muitos já perceberam o preço que estamos pagando por agirmos assim. Amauri Ferreira não deixa por menos ao lançar na nossa cara a lembrança de que a vida se realiza por meio do corpo em um espaço e tempo que nos afeta e que nos marca com vida. Vida que traímos ao nos deixarmos conduzir por ventos que não sopram.
É na realidade que a vida acontece. Quando a sujeira do ideal ascético é varrida para longe, o que fica é a pureza do corpo e a sua capacidade de ser afetado e de afetar; é o corpo que pode, ou não, ser afirmado. Ao negar a capacidade do corpo de ser afetado, nega-se a sua modificação, pois o sujeito agarra-se a um "eu" imutável - mas, apesar disso, a modificação do corpo segue existindo. O problema é a qualidade dessa modificação, já que a crença no ideal continua a produzir realidade (no fundo, é a própria natureza no homem que a produz). Uma modificação ignóbil, com certeza. Mas ao afirmar a capacidade do corpo de ser afetado, a modificação é bem-vinda, e não demonizada. A modificação se torna nobre, vira uma composição, motor ininterrupto de novas produções.


Alexsandro

Criticamente

Pode ser muito mais perigoso quando os governos e, sobretudo, as sociedades não desenvolvem a capacidade de pensar criticamente a respeito dos fatos e do mundo a sua volta. A citação abaixo, escrita por Carl Sagan, nos adverte muito bem desse fato.

"Algumas vítimas de câncer, perturbadas, fazem peregrinações às Filipinas, onde “cirurgiões mediúnicos”, depois de esconder na palma da mão pedaços de fígado de galinha ou coração de bode, fingem tocar nas entranhas do paciente e retirar o tecido doente, que é então triunfantemente exibido. Certos líderes de democracias ocidentais consultam regularmente astrólogos e místicos antes de tomar decisões de Estado. Sob a pressão pública por resultados, a polícia, às voltas com um assassinato não solucionado ou um corpo desaparecido, consulta “especialistas” de ESP (percepção extra-sensorial) (que nunca adivinham nada além do esperado pelo senso comum, mas a polícia, dizem os ESPs, continua a chamá-los). Anuncia-se a previsão de uma divergência com nações adversárias, e a CIA, estimulada pelo Congresso, gasta dinheiro dos impostos para descobrir se podemos localizar submarinos nas profundezas do oceano concentrando o pensamento neles. Um “médium” – usando pêndulos sobre mapas e varinhas rabdomânticas em aviões – finge descobrir novos depósitos minerais; uma companhia mineira australiana lhe adianta elevada soma de dólares, irrecuperável em caso de fracasso, garantindo-lhe uma participação na exploração do minério em caso de sucesso. Nada é descoberto. Algumas estátuas de Jesus ou murais de Maria ficam manchados de umidade, e milhares de pessoas bondosas se convencem de que testemunharam um milagre."

Alexsandro

19/07/2012

Escolha, liberdade e dúvida

Só há escolha quando há opções e dúvidas. Para quem sabe o que quer só existe ação.

Muitos acreditam que são livres para escolher, só que toda escolha demanda um conjunto de pré-requisitos e muitos destes pré-requisitos tiram da escolha sua asa de liberdade. Em muitos momentos e por muitos motivos somos levados a escolher pela escolha devida (diria que é assim grande parte das vezes).

Alexsandro

11/06/2012

O mercado só quer explorar

O mercado não que apenas trabalhadores e consumidores, ele que fieis. Ele não quer dominar ninguém, dominar pode significar ter de cuidar e o mercado não quer cuidar de ninguém, ele quer explorar, usar, abusar e, quando for necessário, descartar.

Alexsandro

Devotos do trabalho



O credo que alimenta nossos dias encontra-se baseado na ideia de que o trabalho melhora a vida, que por meio dele as condições de vida de homens e mulheres se tornarão melhores. Isso é apenas um credo, um dogma, não há um grama de garantia em tal promessa. Funciona como funcionaram uma vez as promessas religiosas, baseia-se na fé. E tal como a religião, o medo é um dos seus principais combustíveis. Apenas que o medo da danação eterna foi substituído pelo medo do desemprego e pela falta de um pouco de conforto em vida. Se antes a submissão a Deus representava a promessa de um paraíso, hoje a submissão ao empregador representa a nova opressão e a nova esperança de dias melhores. O amor à religião foi substituído pelo amor ao trabalho. Os santos agora são os empresários. Os padres ou pastores foram substituídos por gerentes e diretores. O empregado é o fiel devoto. A esperança de promoção no trabalho é o emblema da submissão.
De joelhos ralados segue a massa submissa cantando em coro os hinos de sua vida de rebanho.

Alexsandro