24/08/2012

Somente a realidade


Parte da experiência que homens e mulheres vivem hoje, em sociedades parecidas com a nossa, encontra-se delineada por metas que mais impossibilitam do que favorecem uma tal vida boa que tantos buscam (seja lá o que isso signifique). Sendo que o mais estranho é que se tais metas forem varridas da face da terra nada ou muito pouco restará a que se apegar para produzir algum sentido significativo. É neste ambiente que a palavra 'realidade' nada significa. Muitos já perceberam o preço que estamos pagando por agirmos assim. Amauri Ferreira não deixa por menos ao lançar na nossa cara a lembrança de que a vida se realiza por meio do corpo em um espaço e tempo que nos afeta e que nos marca com vida. Vida que traímos ao nos deixarmos conduzir por ventos que não sopram.
É na realidade que a vida acontece. Quando a sujeira do ideal ascético é varrida para longe, o que fica é a pureza do corpo e a sua capacidade de ser afetado e de afetar; é o corpo que pode, ou não, ser afirmado. Ao negar a capacidade do corpo de ser afetado, nega-se a sua modificação, pois o sujeito agarra-se a um "eu" imutável - mas, apesar disso, a modificação do corpo segue existindo. O problema é a qualidade dessa modificação, já que a crença no ideal continua a produzir realidade (no fundo, é a própria natureza no homem que a produz). Uma modificação ignóbil, com certeza. Mas ao afirmar a capacidade do corpo de ser afetado, a modificação é bem-vinda, e não demonizada. A modificação se torna nobre, vira uma composição, motor ininterrupto de novas produções.


Alexsandro

Criticamente

Pode ser muito mais perigoso quando os governos e, sobretudo, as sociedades não desenvolvem a capacidade de pensar criticamente a respeito dos fatos e do mundo a sua volta. A citação abaixo, escrita por Carl Sagan, nos adverte muito bem desse fato.

"Algumas vítimas de câncer, perturbadas, fazem peregrinações às Filipinas, onde “cirurgiões mediúnicos”, depois de esconder na palma da mão pedaços de fígado de galinha ou coração de bode, fingem tocar nas entranhas do paciente e retirar o tecido doente, que é então triunfantemente exibido. Certos líderes de democracias ocidentais consultam regularmente astrólogos e místicos antes de tomar decisões de Estado. Sob a pressão pública por resultados, a polícia, às voltas com um assassinato não solucionado ou um corpo desaparecido, consulta “especialistas” de ESP (percepção extra-sensorial) (que nunca adivinham nada além do esperado pelo senso comum, mas a polícia, dizem os ESPs, continua a chamá-los). Anuncia-se a previsão de uma divergência com nações adversárias, e a CIA, estimulada pelo Congresso, gasta dinheiro dos impostos para descobrir se podemos localizar submarinos nas profundezas do oceano concentrando o pensamento neles. Um “médium” – usando pêndulos sobre mapas e varinhas rabdomânticas em aviões – finge descobrir novos depósitos minerais; uma companhia mineira australiana lhe adianta elevada soma de dólares, irrecuperável em caso de fracasso, garantindo-lhe uma participação na exploração do minério em caso de sucesso. Nada é descoberto. Algumas estátuas de Jesus ou murais de Maria ficam manchados de umidade, e milhares de pessoas bondosas se convencem de que testemunharam um milagre."

Alexsandro

19/07/2012

Escolha, liberdade e dúvida

Só há escolha quando há opções e dúvidas. Para quem sabe o que quer só existe ação.

Muitos acreditam que são livres para escolher, só que toda escolha demanda um conjunto de pré-requisitos e muitos destes pré-requisitos tiram da escolha sua asa de liberdade. Em muitos momentos e por muitos motivos somos levados a escolher pela escolha devida (diria que é assim grande parte das vezes).

Alexsandro

11/06/2012

O mercado só quer explorar

O mercado não que apenas trabalhadores e consumidores, ele que fieis. Ele não quer dominar ninguém, dominar pode significar ter de cuidar e o mercado não quer cuidar de ninguém, ele quer explorar, usar, abusar e, quando for necessário, descartar.

Alexsandro

Devotos do trabalho



O credo que alimenta nossos dias encontra-se baseado na ideia de que o trabalho melhora a vida, que por meio dele as condições de vida de homens e mulheres se tornarão melhores. Isso é apenas um credo, um dogma, não há um grama de garantia em tal promessa. Funciona como funcionaram uma vez as promessas religiosas, baseia-se na fé. E tal como a religião, o medo é um dos seus principais combustíveis. Apenas que o medo da danação eterna foi substituído pelo medo do desemprego e pela falta de um pouco de conforto em vida. Se antes a submissão a Deus representava a promessa de um paraíso, hoje a submissão ao empregador representa a nova opressão e a nova esperança de dias melhores. O amor à religião foi substituído pelo amor ao trabalho. Os santos agora são os empresários. Os padres ou pastores foram substituídos por gerentes e diretores. O empregado é o fiel devoto. A esperança de promoção no trabalho é o emblema da submissão.
De joelhos ralados segue a massa submissa cantando em coro os hinos de sua vida de rebanho.

Alexsandro

20/05/2012

Relações brutais

Não importa o ambiente ou com quem, nós vivemos em um sistema de relações brutais. Como não há valores autênticos, desde sempre ai, o que restou foi a possibilidade de ganhar dinheiro como fundamento de uma vida valorativa. Ou seja, sobreviver é nosso único impulso. Se esse valor é o que comanda, ¿como escolher? ¿Como viver em um mundo no qual cada escolha nossa é uma declaração de ataque ao outro, uma vez que ou somos explorados ou exploramos?
Grande parte das relações que vivemos já parte do princípio de obrigatoriedade. Ou seja, somos obrigados a viver relações que de outra forma não viveríamos não fosse o peso da situação ou da condição na qual nos encontramos. Acordamos todos os dias, trabalhamos, somos exauridos de varias formas - pelo poder público ou pelo poder privado. (Entra em questão a sobrevivência e todo que diz respeito a ela). A partir daí as questões são: ¿Que mais podemos esperar da vida? ¿Somos escravos? ¿Vemos claramente o que nos acontece? ¿Fazemos escolhas ou somos escolhidos? ¿Nossas ações emanam de uma vontade que é realmente nossa? ¿Aquilo que em nosso mundo representa escolha é realmente escolha? ¿Quem sabe o que deseja precisa escolher? ¿Não seria o mundo no qual vivemos que nos faz acreditar que aquele que escolhe é livre? ¿Escolhas programadas são escolhas? ¿Quando é que podemos falar em escolha? ¿Escolha não seria a possibilidade de escolher entre aquilo que estar no programa e aquilo que se encontra fora dele? ¿Há possibilidade de se escolher ou nos agarramos àquilo que podemos e simplesmente nos sentimos aliviados quando temos no que nos segurarmos?

Alexsandro

17/05/2012

O bom, o melhor, o suficiente e o perfeito

Há pessoas que sonham com o fim da época de estudos pois não se sentem felizes. Estudar é chato. Sonham em começar a trabalhar. Quando começam a trabalhar descobrem que trabalhar é chato e não se sentem felizes. Sonham com as ferias. Quando estão de férias descobrem que elas seriam melhores na companhia de alguém e não se sentem felizes. Ferias na solidão é chato. Sonham com alguém. Quando conseguem alguém descobrem que casamento não é conto de fadas, requer compromisso, não se sentem livres e sem liberdade é chato. Não se sentem felizes.
Testemunhamos uma ditadura da perfeição impondo que a vida tem de ser perfeita em todos os seus aspectos. De todos os lados ouvimos ordens e advertências de que devemos ser felizes: estamos sendo pressionados a sermos felizes e perfeitos a todo custo. Não buscamos o bom ou o razoável, a busca é pelo perfeito.
Há uma afirmação do Zygmunt Bauman que é emblemática: "O melhor pode ser inimigo do bom, mas certamente o “perfeito” é um inimigo mortal dos dois." Traduzindo: sempre que se é buscado algo como, por exemplo, a solução para um problema, outras soluções poderiam está sendo utilizadas no seu lugar, ou mesmo que correções poderiam ser implementadas para tornar a solução escolhida ainda melhor.
¿O que ela significa? Significa que muitas vezes ter o BOM já seria o suficiente, mas ao não nos contentarmos e nos empenharmos em busca do MELHOR, tal empenho torna o BOM não suficiente. O problema se torna ainda maior quando e principalmente o BOM representa o MELHOR que poderíamos ter. Enfim, abrimos mão daquilo que é "o-melhor-que-podemos-ter" em nome de "o-melhor-que-nunca-será-suficiente". O problema cresce ainda mais quando consideramos que aquilo que entendemos por SUFICIENTE só terá validade se for PERFEITO - na nossa experiência suficiente só será aquilo que for perfeito. Estamos condenados a busca da perfeição.
Alexsandro

11/05/2012

Liberdade, autenticidade e o imprevisível

Uma liberdade que é previsível é uma liberdade engaiolada (normatizada, regulada e sem criatividade), enfim, não é expressão de liberdade. Uma experiência que se pretenda livre deve se concentrar na busca pela autenticidade. Mas o fato é que toda autenticidade é sempre imprevisível, incontrolável, uma vez que ela é sempre nova. E mais, como bem disse Bergson:
“...somos livres quando nossos atos emanam de toda a nossa personalidade, quando a expressam.”


Alexsandro

08/05/2012

Imaginação a serviço do encobrimento

Entre a sociedade de hoje e os intelectuais medeia um entendimento tácito:
"Conto contigo - dizem os leitores - para que me forneças os meios para esquecer, disfarçar, negar, em suma, a morte. Se não cumprires este encargo, expulso-te, ou seja, não te lerei. "
Louis Vincent Thomas

Nietzsche e a Morte de Deus

Assim afirmou Nietzsche:


Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje!

    (NIETZSCHE. A Gaia Ciência)





Partindo do anuncio de Nietzsche pudemos constatar que após a morte de Deus vimos nascer a religião dos adoradores do bezerro de ouro. Deus está morto e no seu lugar foi colocado o bezerro de ouro. Tal fato não diz mais respeito à teologia, ela não tem mais nada para nos dizer sobre Deus ou sobre nossa relação com ele, trata-se de uma questão moral, e em última instância, ética. Deus como princípio moral praticamente desapareceu da vida diária, por mais que seja invocado. Deus está morto e agora adoram o bezerro de ouro - afinal quase todos os projetos humanos se fixam em como conseguir dinheiro. As aleluias são para o dinheiro. As graças são por sua presença. Amaldiçoado é o dia no qual ele falta.

A morte de Deus é o evento mais emblemático do nosso tempo. Os crentes dirão que o mal que assola o mundo se deve ao fato de termos abandonado Deus. Os ateus dirão que já não era sem tempo, que o mal saiu de Deus. O problema agora é: como encarar uma vida sem Deus? Como encarar a vida no abandono? Como encarar o deserto do real? Como ser um estrangeiro órfão numa terra sem referências?
Bem, de fato não há deserto. Que deus esteja morto não há dúvida. Mas achar que a falta de sua presença nos deixou em um mundo deserto é ainda dar-lhe vida: considerar a realidade desértica é ainda considerar a possibilidade de um paraíso. Mais: na lamentação podemos também estar invocando que Deus volte e isto é extremamente perigoso - é também lhe dar vida. O que assistimos, de fato, é a abertura de um mundo de possibilidades.

Alexsandro

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Observação

"Deus está morto" é talvez uma das frases mais mal interpretadas de toda a filosofia. Entendê-la literalmente, como se Deus pudesse estar fisicamente morto, ou como se fosse uma referência à morte de Jesus Cristo na cruz, ou ainda como uma simples declaração de ateísmo são ideias oriundas de uma análise descontextualizada da frase, que se acha profundamente enraizada na obra nietzscheana. O dito anuncia o fim dos fundamentos transcendentais da existência, de Deus como justificativa e fonte de valoração para o mundo, tanto na civilização quanto na vida das pessoas — segundo o filósofo, mesmo que estas não o queiram admitir. Nietzsche não se coloca como o assassino de Deus, como o tom provocador pode dar a entender: o filósofo enfatiza um acontecimento cultural, e diz "fomos nós que o matamos".

A frase não é nem uma exaltação nem uma lamentação, mas uma constatação a partir da qual Nietzsche traçará o seu projeto filosófico de superar Deus e as dicotomias assentes em preconceitos metafísicos que julgam o nosso mundo — na opinião do filósofo, o único existente — a partir de um outro mundo superior e além deste. A morte de Deus metaforiza o facto de os homens não mais serem capazes de crer numa ordenação cósmica transcendente, o que os levaria a uma rejeição dos valores absolutos e, por fim, à descrença em quaisquer valores. Isso conduziria ao niilismo, que Nietzsche considerava um sintoma de decadência associada ao facto de ainda mantermos uma "sombra", um trono vazio, um lugar reservado ao princípio transcendente agora destruído, que não podemos voltar a ocupar. Para isso ele procurou, com o seu projecto da "transmutação dos valores", reformular os fundamentos dos valores humanos em bases, segundo ele, mais profundas do que as crenças do cristianismo.