16/11/2010

A fronteira e o fluxo de alteridades


A fronteira demarca uma territorialização. O que significa territorialização? Significa a criação de um território como produto de um processo de subjetivação, fruto de “dobras”, dos agenciamentos dos fluxos, dos movimentos de imagem, de som, de palavras, de matérias, de sentimentos que caíram nas malhas de um poder. Neste sentido, a noção de fronteira é um agenciamento, um dispositivo de poder.

Mas faz-se necessário compreender que a fronteira não é uma categoria fixa, pelo qual um território se constituiria, mas algo em movimento. Entre o dentro e o fora, por ela circulam potências e sentidos. Se em um momento ela se apresenta como uma área de resguardo e de defesa de amplos espaços que dizem respeito a um poder central, recebendo tratamento periférico desde o centro de poder que a domina, em outro, ela não deixa de ser um campo de batalha, uma região rizomática e fragmentada que instaura uma falsa totalidade. Por conta disto, ao tratar de fronteira, devemos percebê-la como um espaço de negociação, de lutas, como uma ‘linha’ sempre em construção, como um espaço de circulação de alteridades e de afetos.

A alteridade é plural. O outro é sempre múltiplo. Na fronteira o outro é múltiplo. ‘Outros’ e ‘nós’ que são multiplicados pelos entreolhares de uns sobre os outros. Se o ‘nós’ e os ‘outros’ são múltiplos, múltiplas serão as formas pelas quais seremos afetados, assim como as formas pelas quais afetaremos. Na circulação desta alteridade os antigos ambientes afetivos se tornam ultrapassados para expressar novos afetos - movimentos de transformações que se fazem pela e na destruição e no evaporar de certos mundos, de certas configurações culturais, de certas relações sociais, de certos sentidos e de certas fronteiras. Sentidos que se perdem, que deixam de ser, que somem, e no reverso, sentidos que vêm, se acham, que passam a ser, que aparecem. As linhas que traçam as fronteiras são também linhas de conexão. Fronteira móvel, que debita a fronteira oficial, que faz circular outros e mais outros que os territórios institucionalizados não retêm.


Alexsandro

Por uma ética antipatriótica

Não há noção de Pátria que não traga uma dose exagerada de idolatrias, doutrinas e farsas. Todo ato de adoração à Pátria é um ato de adoração aos crimes que foram cometidos para que esta aparecesse e se mantivesse.
Quem ama uma Pátria faz de tudo para que outros também a amem. Não há fervor patriótico sem uma gama considerável de intolerância, fé cega, intransigência ou proselitismo.
A Pátria é uma assassina em potencial. Há na história humana dois motivos pelos quais mais se matou ou se morreu: por um deus ou por uma pátria. Devoção fervorosa e sangue. Gemidos e hinos. Fé religiosa e devoção patriótica se igualam no número de vítimas que fizeram. Os mais violentos crimes foram e são cometidos em nome de uma ortodoxia, religiosa ou política, não importa.
Daí o patriota e o fanático religioso se confundirem. E por serem como são, eles são um perigo. Os melhores e mais eficazes assassinos podem ser encontrados entre os patriotas e fanáticos religiosos: morrem e matam em nome de uma crença, de uma ficção.
A pátria é um conjunto de signos: honrar uma pátria, fazer guerras por uma pátria. Não perceber que por causa dela a vida deixa de criar, que o sangue que ela faz correr e o sangue que ela exige em nome de "proteção" é o mesmo sangue que poderia estar sendo dirigido para uma vida mais cheia de possibilidades.
O que alimenta tal atitude patriótica é a incapacidade de compreender a complexa trama de elementos que envolvem a construção do seu conteúdo e do seu funcionamento. Havendo, por conseguinte, uma redução dos seus elementos componentes dentro de uma elaboração de visão de mundo extremamente centrada em um conteúdo moral. A incapacidade de compreender e de conceber a pátria como uma invenção, como uma construção, pode levar a geração de um conteúdo moral que busca evitar qualquer esforço reflexivo, qualquer análise sobre as implicações de se viver sob um regime patriótico. Esse conteúdo moral pode chegar às raias da crueldade, da brutalidade, do totalitarismo e do fascismo. Tal conteúdo moral quase sempre desqualifica os esforços do pensamento criterioso e analítico. Assim, a incapacidade de autocrítica, somada a condenação a qualquer tipo de crítica, fazem do “patriocentrismo” uma atitude arrogante, fundada em idéias preconcebidas, tendo seus discursos calcados em pressupostos arbitrários, caprichosos e injustos.


Alexsandro

15/11/2010

Uma lição foucaultiana

Se for verdade que há sempre algum poder presente em qualquer empreendimento de saber e que não é possível desfazer essa relação, então qual a saída? Como tirar o poder do saber? Como deixar o saber apenas nele mesmo? Cairemos sempre nessa teia? Não sei. Talvez isso não seja possível. E se ao invés de lutarmos para acabar com a relação saber-poder fizéssemos exatamente o contrário, ou seja, disseminássemos o máximo possível a informação (o saber) que o poder encontra-se presente em todas as relações? Que o trabalho de produção do saber é também um trabalho de produção de poder?
Se o trabalho de produção do saber nunca estará completo, logo, o poder nunca terá uma forma definida. Se a produção do saber, e junto com ela a arte de pensar e a arte de escrever, sempre estarão em curso, também estaremos sempre no meio do labirinto do poder, um inelutável labirinto de paredes móveis, mas sem saída.
Se o saber é sempre algo em produção (uma produção infinita) e se o poder é um labirinto, como então se mover nesse labirinto sem ser esmagado por suas paredes móveis?
Talvez a resposta seja: continuar pensando. E junto com o pensar, escrever. Ou dito de outra forma: construir. Construir frases. Ir do início ao fim de uma página. Trabalho braçal. O trabalho de escrita deve atravessar o escritor pelo meio, desmontá-lo e reconstruí-lo em cada frase, tornando-o sempre outro. Outro sempre fugidio, sempre de difícil compreensão para o poder, sempre buscando ser “incapturável”. Ensinando-lhe não apenas novas maneiras de compreensão e entendimento, mas também produzir formas de confundir. Como? Produzindo um saber para outro poder na medida em que este faça ruir a base daquele saber que é imprescindível a manutenção do poder estabelecido.

Resumindo: aceitar que não tem como fugir da relação saber-poder e fazer uso dela, tramando uma produção de saber-poder sempre contestatória.


Alexsandro
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A leitura como arte do silêncio



Há pouco chegou em minhas mãos um livro que, entre outras qualidades, possui uma poesia e delicadeza fenomenal, mas não menos áspero e cortante. Refiro-me à "Nietzsche e a Educação" de Jorge Larrosa . Nele Larrosa dança, canta, pulsa, grita Nietzsche por todas as páginas. É uma escrita invejável. E é com esse sentimento de inveja que escrevo agora.
Em um dos capítulos do livro, intitulado “Ler em direção ao desconhecido. Para além da hermenêutica”, Larrosa descreve a experiência da leitura em Nietzsche: que tipo de leitor o Nietzsche espera para seus livros, como se devia lê-los, como usar todo o corpo na leitura, como dançar com os seus livros. Citando trechos de livros de Nietzsche, Larrosa aponta que este “exige para si mesmo ‘leitores perfeitos, filólogos rigorosos’, pessoas capazes de ler devagar, com profundidade, com intenção profunda, abertamente e com olhos delicados”. Claro que não é minha intenção tentar aqui interpretar ou discutir as implicações dessas exigências de Nietzsche apontadas por Larrosa. Desejo apenas apontar quão diferentes leitores seriamos se fossemos o tipo de leitor que Nietzsche esperava para seus livros.
Larrosa escreve dizendo que Nietzsche

"Sabe que a arte da leitura é rara nesta época de trabalho e de precipitação, na qual temos que acabar tudo rapidamente. Os “leitores modernos” já não têm tempo para esbanjar em atividades que demorem, cujos fins não se vêem com clareza, e das quais não podem colher imediatamente os resultados. Para eles, profissionais da leitura, o trato com os livros é, quando muito, um meio ‘para escrever uma resenha ou outro livro’, isto é, uma atividade na qual o que se lê é meramente apropriado em função de sua utilização apressada para a elaboração de um outro que deverá, por sua vez se consumir rapidamente."

Em outro momento Larrrosa (Nietzsche) diz:

"O leitor moderno está tão crente de “sua pessoa e sua cultura” que se supõe a si mesmo “como uma medida segura e um critério de todas as coisas”; é tal sua arrogância que se sente capaz de julgar – isso sim, criticamente – todos os livros; ele é constitutivamente incapaz de suspender o juízo, de guardar silêncio, de manter-se retirado, de escutar. Será que é isso que se ensina nas escolas? Em nossas escolas, incluindo as universidades, já não se ensina a estudar. O estudo, a humildade e o silêncio do estudo, é algo que nem sequer se permite. Hoje, já ninguém estuda. Mas todo mundo tem que ter opiniões próprias e pessoais. Os jovens pitagóricos tinham que guardar silêncio durante cinco anos. Mas nós, leitores modernos, parecemos incapazes de permanecer calados sequer durante cinco quartos de hora.”

Assim, como falei acima, quero intencionalmente plagiar Nietzsche (Larrrosa) no sentido de apontar as qualidades de um leitor ideal:
- deve possuir um espírito de profundidade, abertura e delicadeza;
- deve conhecer o segredo de ler nas entrelinhas;
- não deve permanecer na literalidade do texto, e
- que, sobretudo, pratique a arte venerável da leitura, o saber tornar-se silencioso e pausado.
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Alexsandro
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04/11/2010

Coerência

Um amigo professor contou-me que em uma de suas aulas começou uma discussão sobre aborto. A grande maioria optou, em meio a um debate acalorado, por ser contra. Colocado contra a parede, foi questionado sobre como era possível que ele, um professor universitário, fosse a favor de algo tão bárbaro. Os argumentos usados foram de todos os tipos, a maioria deles conhecidos por todos. Lá pelas tantas, uma das alunas fez a seguinte proposta: "Professor, pergunta sobre quantas aqui já usaram a pílula do dia seguinte". Silêncio geral. Constrangimento geral.

Moral da história? Como é triste não sabermos avaliar as coisas corretamente. Como é triste acreditarmos que só pelo fato de usarmos as mesmas palavras, crermos que estamos falando da mesma coisa. Como é triste avaliarmos os outros pelo limite do nosso entendimento.

Entre outras coisas, é chegada a hora de possibilitarmos que a coerência faça parte integrante de nossas práticas.
Alexsandro

A queda do Muro de Berlin e a queda dos pêlos pubianos




Em muitos momentos do século XX os filmes pornográficos estavam ligados não apenas às práticas libidinosas como também às criticas a repressão, sobretudo a repressão da própria libido como expoente de uma repressão geral da sociedade. Larry Flint foi um dos personagens símbolo dessa postura anarco-porno dos anos de 1970. Em muitos roteiros, por trás de muita sacanagem sexual, existiam também sacanagens políticas. Enrabar uma loira peituda, o grande símbolo da cultura americana, era um ato simbólico de enrabar os Estados Unidos. Estávamos em meio à guerra fria. Mas, como todos sabem, os Estados Unidos venceram a guerra. E a grande imagem dessa vitória, que é também uma vitória do capitalismo, é a queda do muro de Berlin. No campo da sexualidade, o equivalente pornografico da hegemonia capitalista e americana é a queda dos pêlos pubianos. Tais quedas representaram o avanço da hegemonia americana e capitalista sobre as práticas políticas cotidianos. Assim como a queda do muro de Berlin representou um golpe nas utopias políticas do século XX, a queda dos pêlos pubianos aparece como o novo símbolo desse controle sobre o corpo e suas práticas.
Se nos anos de 1950 os filmes com a “família feliz” era o sonho dourado que saia dos cinemas e invadia os projetos pessoais, hoje percebemos que os filmes pornôs deixaram de ser lixo cinematográfico e viraram referências para muitas das práticas cotidianas. É curioso perceber que sua influência vai desde seios siliconados, pêlos depilados, práticas, posturas e posições sexuais, até a invasão do imagético cotidiano de todos em termos de relações (afetivas e sexuais) possíveis.
Alexsandro
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30/10/2010

Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores)

A família infantiliza a criança de uma maneira monstruosa. Quando não é o bibelozinho da casa ou o xodozinho, é o reverso disso, o monstrinho, o idiota bobão que não sabe nada, que não tem nada a dizer, que não presta para nada. Em outro extremo nós encontramos crianças de 5 anos sobrevivendo pelas ruas na companhia de outras crianças. Em tribos indígenas meninas de 12 anos possuem as mesmas responsabilidades dos adultos. Não entendam que desejo que esses exemplos sejam nosso parâmetro, não se trata disso, trata-se de outra coisa. Trata-se de entender que nós paralisamos as crianças. Elas poderiam estar rendendo mil vezes mais do que estão rendendo, mas não estão. E a culpa é da família. É da F-A-M-Í-L-I-A! ! !
A criança responde a educação que recebe: se for tratada como bobona, ela vai agir como bobona, se for tratada como alguém cheia de potenciais, ela responderá como tal. Os pais são os parâmetros. E, ao contrário do que se imagina ou se fala, pais e mães brasileiros são uma lastima: um número absurdo de pais são alcoólatras, outros tantos são ausentes. As mães são as maiores propagadoras de preconceitos, dos mais variados tipos. A família é a primeira e maior inimiga à qual as crianças têm de sobreviver.
Vencemos muitos momentos ruins. Talvez é chegada a hora de começarmos a maior batalha enfrentada por homens e mulheres: vencer pai e mãe.
Alexsandro
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26/10/2010

A inteligente arte de não ler

Gosto muito de um pequeno artigo que li já faz um tempo - "Os cinco livros que mais me influenciaram". Ele é de fato uma entrevista na qual Derrick Jensen falar sobre livros e leituras. Interrogado sobre qual livro o fez perceber que alguma coisa estava errada com o planeta, o sistema político, o sistema econômico, etc. Assim respondeu ele:

Não foi um livro. Foi a destruição de lugar após lugar que eu amava. E foi a completa insanidade de uma cultura onde tantas pessoas trabalham em trabalhos que elas odeiam... A própria cultura me convenceu de que alguma coisa estava errada, ao ser tão extraordinariamente destrutiva da felicidade humana, e, muito mais importante, do próprio mundo.

O que ele quis dizer? Na continuação de sua argumentação ele nos faz entender, entre outras coisas, que não é qualquer leitura que faz bem ou que vale a pena. Fazer todo mundo ler pode parecer uma atitude correta, mas depende muito daquilo que será lido, caso contrário, não vai fazer muito diferença. Enfim, de nada adianta trocar o analfabetismo por outra visão estreita do mundo. Uma “boa formação” (e eu não tenho certo o que isso significa) depende também do que se lê. Por exemplo, citar um livro como "O Código Da Vinci" como referência de boa leitura não me parece uma boa postura. Tal questão já nos remete a uma arte muito estranha e pouco falada: a arte de não ler. É o filósofo Schopenhauer quem dirá:

"... no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público, o tempo todo, com panfletos políticos ou literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para tolos sempre encontra um grande público..."

Após fazer essa dura crítica, ele sugere que por conta do nosso pouco tempo, devemos voltar nosso interesse

"para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e de todos os povos, para os homens que se destacaram em relação ao resto da humanidade e que são apontados pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais."

A preocupação aqui é com o fato simples que muitas vezes esquecemos, qual seja, ler livros ruins emburrece. Sobretudo quando temos claro que muitos daqueles livros só foram escritos para serem vendidos, pouco importando seus conteúdos. Ou como ele diz em forma de crítica a esse mercado editorial: “Nove décimos de toda a nossa literatura atual não possui outro objetivo senão o de extrair algum dinheiro do bolso do público.” Dizendo de outra forma, o fato de ter sido impresso não significa que seja de boa qualidade ou que mereça ser lido. O interesse financeiro, independente da qualidade, acontece abertamente.
O gesto da leitura não é um gesto fácil. O gesto da escrita não é um gesto fácil. E em um contexto que é regido pela máxima de que uma “imagem vale mais do que mil palavras”, não é fácil competir com isso, sobretudo quando ela gera o engano de se achar que "imagem" e "palavra" competem entre si, quando, de fato, uma completa a outra. Neste sentido, uma leitura se torna significativa quando temos capacidade de refletirmos sobre o que foi lido. Além do mais, há leituras que precisam de uma preparação, precisamos das chaves para abrir e fechar cada página. Assim, a crítica em forma de conselho de Schopenhauer ainda possui a mesma vitalidade de quando foi escrita a mais ou menos uns 150 anos:

“Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.”

A experiência da leitura tem a ver com o sentido que damos a essa leitura. Cada linha que lemos deveria nos remeter a linhas de vida. Deveriam funcionar como um mecanismo de desentrave – um mecanismo que vai abrindo novos territórios, nos desalojando, nos tirando da zona de conformo e nos fazendo pensar e ver de uma maneira totalmente outra. Se assim não for, digo, é uma leitura inútil.
Alexsandro
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Há uma gereção do conhecimento?

1. Será que se as crianças tivessem consciência do que os seus pais estão fazendo com elas hoje, elas aceitariam de bom grado? Será que elas ficariam felizes se tivesse consciência de que estão sendo educadas para se tornarem apenas alguém capaz de ser explorado pelo mercado?

2. Toda nossa educação tem como meta o mercado? É isso? Filas e filas de educadores enchem salas de aulas para fazer essa meta ser alcançada? Será que é desse tipo de educador que realmente precisamos?

3. A decadência da nossa cultura não é exatamente porque faltam educadores ou uma educação que vislumbre outras preocupações para além do mercado?

4. O que nossas escolas conseguiram fazer conosco até hoje não foi senão um adestramento violento, tornando um crescente número de homens e mulheres apenas qualificados para serem explorados pelo mercado. É mais disso que precisamos que nossas escolas façam com as crianças? Se for, não é a nossa visão realmente muito estreita?

5. Há no Brasil alguma escola que ofereça uma educação "nobre" para as crianças? Quando falo em educação nobre quero dizer, uma educação que não seja dirigida pela mediocridade do estado ou de um empresário. Nossas escolas estão entupidas, nossos professores sobrecarregados e tornados estúpidos. Por que isso não é um escândalo?
Alexsandro
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20/10/2010

Pode parecer estranho, mas professor tem que estudar

A crença na afirmação de que ser professor é um dom, não faz mais sentido. O magistério é uma profissão e, como todas as outras, requer empenho. Isso significa que professor não funciona por inspiração, professor tem que estudar e estudar muito. Professor que não estuda, que não lê, e quando digo ler, estou falando de boas leituras, leituras teóricas dos conteúdos, deveria comprar uma corda e se enforcar (opa! escapou), digo, deveria procurar fazer outra coisa.
No momento em que escrevo esse texto ( pouco depois da meia noite), um vizinho idiota passa com o som do carro a toda altura, fazendo todos nós ouvirmos uma música também idiota, provando para todo nós o quão idiota ele é, e eu fico me perguntando, quem educou esse idiota? Esse homem obrigatoriamente passou por uma escola, pode até ter feito um curso superior, e eu pergunto: o que saiu errado? Não sei. Podemos pensar em mil respostas, inventar mil desculpas, mas uma delas infelizmente tem a ver com o nosso tipo de educação escolar e com a formação dos professores que se encontram nessas mesmas escolas.
Somos parte de uma sociedade violenta, corrupta, ignorante e infeliz. As provas estão por todos os lados, basta abrir os olhos e olhar. Nossa cultura é um desastre. Nosso sistema de ensino é medíocre. Nossa política é suja. Nossa economia é um crime. O nosso modelo de família é um poço de neuroses. E a educação escolar que deveria servir para nos tornar melhores, pessoas melhores, não está fazendo isso. De fato, o que estamos testemunhando é um roubo. As escolas estão roubando a vida das crianças e dos adolescentes. A maior parte do tempo gasto na escola é puro desperdício. Troca-se a infância pelo que? Por algo muito ruim. Milhões de crianças têm gastado milhões de horas nas escolas para se tornarem o que? Um neurótico com diploma é a mesma coisa que um neurótico sem diploma. O estudo, no modelo como ele se apresenta hoje, é puro desperdício de tempo. O que nossos anos de estudos nos fizeram compreender? Quais as coisas realmente significativas que aprendemos, a ponto de mudarmos nossa forma de ver o mundo e sua complexidade? Ou, como dirá José Ângelo Gaiarsa: “O que restou em você depois de quinze anos de perda de tempo, sentado em uma cadeira, fazendo sabe-se lá o quê? Quinze anos de tortura e tédio, cujo conteúdo poderia ser aprendido em um ano, se alguém estivesse interessado nesse sentido.”
Alexsandro
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