07/10/2010

Perto do Coração Selvagem

- O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
- Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
- Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? - repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a com surpresa.
- Que idéia! Acho que não sei o que você quer dizer, que idéia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
- Ser feliz é para se conseguir o quê?


Clarice Lispector

Mensagens de auto-ajuda

Aqueles que não se suportam culpam os outros pelo mal do mundo.

Já disse, para um idiota não existe argumento.

Qual o motivo de muitos não me entenderem? Entender seria descobrir-se errado e isso configuraria seu próprio inferno.


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Eu sou a minha queixa

É habitual que a expressão da queixa exagere em muito a dor, até o ponto em que a dor acaba se conformando ao exagero da queixa, aumentando o sofrimento. É comum as pessoas acreditarem tanto em suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A causa primordial de toda queixa é a preguiça de viver. Viver dá trabalho, uma vez que a cada minuto surge um fato novo, uma surpresa, um inesperado que exige correção de rota na vida.
oda queixa é narcísica.
Todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do tempo: um dia do calor, outro dia do frio. Do trabalho: porque é muito ou porque é pouco. Do carinho: "que frieza" ou "que melação". Da prova: "dificílima" ou "fácil demais", E dos políticos, e da mulher, e do marido, e dos filhos, e dos tios, avós, primos; do pai e da mãe, enfim, de ter nascido. A queixa é solidária, serve como motivo de conversa, desde o espremido elevador até o vasto salão. A queixa é o motor da união dos grupos, é sopa de cultura social - quem tem uma queixa sempre encontra um parceiro. A queixa chega a ser a própria pessoa, seu carimbo, sua identidade: "Eu sou a minha queixa".
Jorge Forbes
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Sobre a decisão

Não podemos esperar que nossa decisão seja compreendida. Porque, se fosse compreendida, ela seria razoável, e aquilo que é razoável não é decidido no risco. Normalmente, aquilo que é razoável é chato. E aquilo que é decidido é apaixonante. A decisão se decide na paixão. Decisão e paixão estão juntas.
E aqueles que não conseguem se decidir ficam deprimidos. Nesse caso, a depressão é uma covardia diante da decisão. Por isso Lacan diz que, quando a pessoa cede em seu desejo, fica deprimida. A pior coisa que alguém pode fazer é estender um lenço de papel a um deprimido. Isso o solidifica em sua posição narcísica, de autopiedade.
A felicidade é uma responsabilidade humana. Não é para os covardes.
Para tomar a decisão, é necessário que a pessoa se pense. Só podem ter dúvida os sujeitos divididos. Assim, o primeiro aspecto sobre a decisão é que ela é vinculada à dúvida. O segundo aspecto é: gostamos ou não da decisão? Se fôssemos fazer uma pesquisa sobre o assunto, provavelmente mais de 90% das pessoas diriam que não querem tomar decisões. A linguagem é cheia de expressões para poupar alguém de decidir. A mais famosa é "seja o que Deus quiser", maneira clássica de não tomar decisões.
Temos horror da decisão porque toda decisão implica risco.

Nem todo mundo evita a decisão. Há quem goste dela. Os artistas e os poetas, por exemplo, gostam.

Jorge Forbes
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02/10/2010

“Professor, por que o senhor só fala de sexo?”

Procure visualizar a seguinte cena. Um professor qualquer passar dois meses falando cerca de 4 horas por semana, o que conta mais ou menos 32 horas, sobre coisa do tipo: a cristandade com sua sociedade homogênea e com uma cosmovisão estática e fechada devido a uma razão limitada por verdades teocêntricas. Depois engrossa o caldo com um pouco de renascimento, humanismo moderno, ciência moderna e segue apresentando os fundamentos filosóficos e políticos da modernidade - o sujeito e sua razão autônoma, o pensamento racionalista e individualista. Depois René Descartes e o tal do Cogito: “penso logo existo”. Empirismo inglês, Thomas Hobbes (o homem é o lobo do homem). Isaac Newton, Galileu, para tentar entender os motivos que nos levaram a tratar a natureza não mais objeto de medo e contemplação, mas como algo a mercê das nossas vontades. Nicolau Maquiavel, O Príncipe, o estado monárquico centralizado. Reforma protestante. Revolução Francesa. Os novos processos de produção que vão gerar a acumulação de capital. A revolução industrial. O pensamento liberal. Os processos que culminaram nas diferenciações presentes nas esferas sociais, políticas e econômicas da sociedade de mercado. A secularização das artes e das ciências. O aparecimento da cultura de massa. A crise da modernidade, a razão instrumental, a indústria cultural, o mercado, o ser humano transformado em objeto, a crise ambiental, miséria, fome, violência, guerra, solidão, depressão, império do lucro e do mercado. A razão moderna e as promessas não cumpridas de felicidade e prosperidade. A perda da fé na razão e vazio de sentido. O desencanto (tendo Weber como referência). Os mitos modernos, o progresso, a diversão, o consumo. A perda das referências históricas. A esquizofrênica busca do novo. A modernidade líquida de Bauman. A sociedade disciplinar de Foucault. Lyotard e a decomposição dos grandes relatos. A sociedade de consumo... Ai, no meio dessa salada de idéias e conceitos, o tal professor, em certo momento, cita Freud e seu conceito de desejo, com tudo que ele implica, para, em seguida, citar também Deleuze e como este conceituou o desejo de maneira diferente do de Freud. Não é que, para sua surpresa, de repente, sem a menor cerimônia, uma pergunta ecoa no ar da sala: “Professor, por que o senhor só fala de sexo?”


Qual a resposta mais adequada que se pode oferecer a uma criatura numa situação assim configurada? Não sei vocês, mas eu tomo o partido da filosofia do palavrão cunhada por Olavo de Carvalho.


A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A sociedade da decepção é o título de um dos livros de Gilles Lipovetsky e o tema central é o que o próprio título indica: como a decepção se tornou uma das marcas distintiva da nossa experiência.
Abaixo segue uma citação do livro no qual ele surpreende ao afirmar que nos decepcionamos nem tanto por desejamos os bens materiais que os outros possuem e não podemos ter. Superamos essa fase ou estamos em vias de superar, no entanto, ainda continuamos a desejar (ou invejar) bens não-comercializados (aquilo que o dinheiro não compra). "A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável".


"Ao fim e ao cabo, o mau uso dos bens públicos desperta mais indignação do que o uso de bens particulares. Com efeito, de que os consumidores se queixam mais freqüentemente? Dos engarrafamentos de trânsito, das praias superlotadas, do processo de descaracterização da paisagem natural por obra das construtoras de edifícios ou da invasão de turistas, da repugnante promiscuidade nos transportes coletivos, do barulho dos vizinhos, etc. Em outras palavras, o que gera decepção não é tanto a falta de conforto pessoal, mas a desagradável sensação de desconforto público e a constatação do conforto alheio.
Não surpreende, portanto, que seja no âmbito dos serviços, baseado no relacionamento entre as pessoas, que a decepção é mais freqüente. Manifestações de crítica são muito comuns contra o corpo docente das instituições de ensino, contra o mau funcionamento da Internet, contra o despreparo da classe médica...
Mas, em outra perspectiva, entretanto, convém não esquecer que, diferentemente do que ocorria no passado, os elos entre as pessoas e a esfera do consumo estão cada vez mais entranhados. Muito daquilo que compramos, não o fazemos com a finalidade de granjear a estima deste ou daquele, mas sobretudo visando a nós mesmos, isto é, tendo como objetivo aperfeiçoar os nossos meios de comunicação com o semelhante, melhorar o desempenho físico e a saúde do corpo, buscar sensações vibrantes e variadas formas de emoção, vivenciando experiências sensitivas ou estéticas. É nessa acepção que o espírito de consumo em benefício do outro, típico das antigas sociedades de classe, retrocede, dando lugar ao consumo para si. Em resumo, o consumo individualista emocional assume agora a dianteira em relação ao consumismo ostentador de classe. Simultaneamente, a tendência dominante é aceitar com maior naturalidade que outros possuam algo que não temos, porque a atenção de cada indivíduo está hoje mais voltada para a sua própria experiência íntima do que para o desempenho dos demais. Ao contrário dos primórdios da era democrática, que muito contribuiu para a disseminação do sentimento de inveja, na atual fase do hiperindividualismo consumista, muito mais raramente nos deparamos com aquele indivíduo que se dilacera interiormente por falta de poder aquisitivo para comprar o mesmo automóvel de alta qualidade do vizinho. A inveja provocada pelos bens não-comercializáveis (amor, beleza, prestígio, êxito, poder) permanece inalterável, mas aquela provocada pelos bens materiais diminui."
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A sociedade da decepção - Gilles Lipovetsky

A decepção é uma experiência humana universal desde sempre. Nas sociedades antigas, ela era restrita. Primeiro porque o desejo era mais limitado, existia uma cultura da resignação, resumida na expressão “é a vida”. E, depois, havia a religião, que limitava a decepção. A sociedade moderna fez explodir o sentimento da decepção. A democracia abriu o desejo das pessoas. Ela cria frustrações porque não suporta a desigualdade. E a era hipermoderna, que vivemos hoje, acelerou mais ainda a decepção, que agora está em todos os lugares, em todos os níveis sociais. Na política, por exemplo. As pessoas, em todos os países, estão sempre decepcionadas com a política. Com a globalização, não há mais a esperança revolucionária. É a era do direito do homem, e este é sempre inferior ao desejo. A escola. Antes ela tinha a virtude de permitir a ascensão social. Mas hoje temos jovens muito qualificados que trabalham em coisas que não correspondem a essa qualificação – e isso gera decepção.
As pessoas podem até se declarar felizes, mas isso não significa grande coisa. Há outros indicadores como a ansiedade no trabalho e com os filhos, taxas de suicídio e casos de depressão e dependência, que mostram como a sociedade de bem-estar é uma sociedade de frustrações. Depois dos anos 60, desenvolveu- se a idéia de que o consumismo cria a decepção porque mostra o que você não vai ter. Ou que você seria forçosamente frustrado porque, quando tem uma coisa, já sonha com outra, como se isso levasse a pessoa a uma decepção permanente.
O consumo de bens materiais não é tão produtor de decepções. Os objetos têm um valor pela novidade. Não é porque você não tem um Jaguar que o seu carro modesto não o satisfaz. Você pode gostar da sua casa, sem que ela seja um castelo. O consumo cultural é o que decepciona. Veja, por exemplo, a televisão. Ela é feita para ser um espetáculo, mas se você fica zapeando é porque o espetáculo não o satisfaz. O zapping é uma permanente decepção. A decepção mais forte, mais intensa, a mais cruel é a que você tem com outras pessoas. Então se engana quem culpa o consumo pela infelicidade. O que dá frustração é a individualização do mundo, é a relação com os outros e consigo mesmo.
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09/09/2010

Simples assim

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A palavra "Candidato" deriva do latim "Candidus" que significa branco, brilhante, alvo, puro.
A história é mais ou menos assim. Quem desejasse ser eleito a algum posto público, na Roma clássica, tinha de provar que era puro de alma para merecer os votos dos concidadãos. Neste sentido, os pretendentes apresentravam-se em público sempre vestidos de branco, a cor da pureza. Daí o "Candidatus", de "Candidus, que em latim quer dizer branco. Ou seja, o "Candidatus" era o pretendente a cargo público que se vestia de branco para provar pureza de intenções.
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A 'Politeia' e a 'Idioteia'

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Idiota
A palavra idiota deriva da antiga Grécia e nominava aquelas pessoas que não estavam integradas na vida pública grega. Referia-se aqueles que não se interessavam ou não participavam dos assuntos públicos. Devemos ter em mente que a vida pública era de grande importância para os gregos e alguém que dela não participava não era visto com bons olhos. Neste sentido, o termo acabou assumindo um significado pejorativo.
A raiz da palavra se encontra em ἴδιος (ídios), que significava o que era privado, particular, pessoal, aquilo que é próprio.
Com a mesma raiz encontramos termos como “idiossincrasia” que diz do temperamento, do caráter, daquilo que nos distingue dos demais, o que é próprio de um individuo ou de uma coletividade.
Temos ainda “idioma” (em grego ἰδίωμα , propriedade privada), fazendo referência a língua própria de um povo ou comum a vários.
Assim, idiota era alguém que se preocupava apenas consigo e com seus interesses privados ou particulares, sem dar atenção aos assuntos públicos ou políticos. Devemos ter em mente que na vida greco-romana a política assumiu um grande significado para os homens livres. Não é sem motivos que a palavra idiota assumiu uma conotação pejorativa, se tornando um insulto devido ao fato de que ser um idiota, ou seja, ser alguém que só se preocupa com suas próprias coisas, passou a ser alguém que trazia em si a insígnia da desonra de não participar da vida pública.

Um pouco mais

Desde os gregos, a referência inicial para pensarmos o intrincado da experiência humana se encontra nos conceitos de família (oikos) e de cidade (polis).
A fronteira entre a família e a cidade tinha como referencia a fronteira entre aquilo considerado privado e aquilo considerado público. O chão político (politeia) possuía conotação diferente do chão privado (idioteia). O espaço da "politeia" era reservado ao homem livre, que se definia por dois princípios: senhor da sua casa (superior aos demais que dele dependiam), mas, não mais que um igual entre os homens livres na comunidade política. Este espaço era também entendido como o espaço lingüístico, o espaço da palavra. Por sua vez, mulheres, crianças, escravos, enfim, os que não eram considerados livres, circulavam no espaço da "idioteia", delineavam seus movimentos no espaço privado, que era entendido como o espaço da não-palavra.
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