09/09/2010

A 'Politeia' e a 'Idioteia'

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Idiota
A palavra idiota deriva da antiga Grécia e nominava aquelas pessoas que não estavam integradas na vida pública grega. Referia-se aqueles que não se interessavam ou não participavam dos assuntos públicos. Devemos ter em mente que a vida pública era de grande importância para os gregos e alguém que dela não participava não era visto com bons olhos. Neste sentido, o termo acabou assumindo um significado pejorativo.
A raiz da palavra se encontra em ἴδιος (ídios), que significava o que era privado, particular, pessoal, aquilo que é próprio.
Com a mesma raiz encontramos termos como “idiossincrasia” que diz do temperamento, do caráter, daquilo que nos distingue dos demais, o que é próprio de um individuo ou de uma coletividade.
Temos ainda “idioma” (em grego ἰδίωμα , propriedade privada), fazendo referência a língua própria de um povo ou comum a vários.
Assim, idiota era alguém que se preocupava apenas consigo e com seus interesses privados ou particulares, sem dar atenção aos assuntos públicos ou políticos. Devemos ter em mente que na vida greco-romana a política assumiu um grande significado para os homens livres. Não é sem motivos que a palavra idiota assumiu uma conotação pejorativa, se tornando um insulto devido ao fato de que ser um idiota, ou seja, ser alguém que só se preocupa com suas próprias coisas, passou a ser alguém que trazia em si a insígnia da desonra de não participar da vida pública.

Um pouco mais

Desde os gregos, a referência inicial para pensarmos o intrincado da experiência humana se encontra nos conceitos de família (oikos) e de cidade (polis).
A fronteira entre a família e a cidade tinha como referencia a fronteira entre aquilo considerado privado e aquilo considerado público. O chão político (politeia) possuía conotação diferente do chão privado (idioteia). O espaço da "politeia" era reservado ao homem livre, que se definia por dois princípios: senhor da sua casa (superior aos demais que dele dependiam), mas, não mais que um igual entre os homens livres na comunidade política. Este espaço era também entendido como o espaço lingüístico, o espaço da palavra. Por sua vez, mulheres, crianças, escravos, enfim, os que não eram considerados livres, circulavam no espaço da "idioteia", delineavam seus movimentos no espaço privado, que era entendido como o espaço da não-palavra.
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28/08/2010

Apontamentos sobre os ciganos: a diferença causando repúdio







1. A palavra cigano é uma denominação vulgar para “rom” (ou “roma”, no plural). Constituem um povo de tradição nômade. Algumas interpretações mais aceitas indicam que são de origem indiana. Seja como for, o que os caracterizam atualmente é, sobretudo, a ausência de uma referencia histórica a algum país de origem. O problema que esse fato causa para eles é a falta de uma identidade de Estado ou cidadã que lhes possibilitem o reconhecimento como grupo étnico.

2. O preconceito contra os ciganos estimulou o surgimento de uma série de lendas contra eles: chegou-se a buscar na Bíblia elementos para aparentá-los a Caim e considerá-los amaldiçoados. Outra lenda aponta-os como aqueles que teriam fabricado os pregos da crucificação de Jesus de Nazaré.

3. Porajmos - Significa "devorar", é um termo cunhado pelo povo cigano Rom para descrever a tentativa do regime Nazista de exterminá-los. O fenômeno tem sido pouco estudado se comparado ao Holocausto judeu. Uma explicação para o esquecimento do extermínio cigano pelos nazistas se encontra no fato das comunidades ciganas serem menos estruturadas e organizadas do que outras que também sofreram com o regime nazista.

4. Atualmente o povo ciganos é o mais discriminado da Europa. (Sim, mais do que judeus e mulçumanos)
"O preconceito contra eles sempre existiu na Europa ocidental, sobretudo porque eles levam um modo de vida diferenciado, não tolerado pelo europeu. É uma cultura que o europeu não consegue apreender, porque baseada no oposto do que estamos acostumados, ou seja, em um máximo de estabilidade possível."
(Jean-Yves Camus, especialista em extrema-direita do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas - IRIS)


5. Situação dos Ciganos na Europa ( o que segue são apenas exemplos de medidas tomadas contra os ciganos em alguns paises)

França
Parabéns a França por ser o berço da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, sistematizados em dezessete artigos e um preâmbulo, nos quais os ideais libertários e liberais da Revolução Francesa estão inscritos e por dar prova do seu valor na forma das ações do seu atual presidente Nicolas Sarkozy e seus ataques contra os ciganos, no caso, aqueles que vivem na França.

Itália
O governo italiano é outro que se coloca contra os ciganos. O governo passou a registrá-los, recolhendo impressões digitais, e a propor indenizações para a saída voluntária dos ciganos em situação ilegal do país. O "incentivo" compreendia 400 euros e uma passagem de avião para o país de origem. O ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, membro da Liga do Norte, o principal partido de extrema-direita, pretende expulsar qualquer cigano que não seja domiciliado ou que dependa do sistema social do país.

Alemanha
A Alemanha incentiva a partida voluntária e promove expulsões regulares de ciganos tidos como ilegais.

Reino Unido
Nas últimas eleições para primeiro-ministro, uma das promessas de campanha do candidato conservador David Cameron, vencedor do pleito, foi a de reforçar a legislação contra a ocupação ilegal de terrenos vazios, visando, nas entrelinhas, à comunidade cigana. O projeto prevê a criação de um novo delito através do qual os policiais serão autorizados a prender pessoas que se recusam a deixar um terreno ocupado ilegalmente.

República Checa
As violências com ciganos fazem parte do cotidiano, inclusive por parte do governo. O Estado checo chegou a obrigar crianças ciganas a freqüentar centros para doentes mentais.
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Notícia da Rádio e Televisão de Portugal (RTP) sobre os ciganos
-Apenas aúdio-




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15/08/2010

Custo de oportunidade

Em economia o "Custo de Oportunidade" representa o custo associado a uma determinada escolha medido em termos da melhor oportunidade perdida. Explicando. Representa o valor que atribuímos à melhor alternativa entre outras possíveis - se escolho "a" ao invés de "b" é por considerar a primeira alternativa mais "vantajosa" que a segunda dentro de determinada situação. Mas, ao fazer tal escolha, perco aquilo que adviria caso tivesse escolhido a segunda alternativa.
Para além do seu sentido econômico e no sentido que aqui empregamos, o custo de oportunidade está diretamente relacionado com o fato das nossas escolhas estarem sempre entre alternativas possíveis. Ou melhor, sempre que escolhemos o fazemos por termos mais de uma alternativa, caso contrário não seria escolha, seria determinação ou algo parecido. Como somos levados a escolher o tempo todo, essas escolhas implicam em abrirmos mãos de determinadas oportunidades ou possibilidades em detrimento de outras, o que traz como conseqüência a existência de um custo de oportunidade sempre que tomamos uma decisão, sempre que escolhemos. Enfim, escolhas implicam em ganhos e perdas. Resta-nos avaliar se o que perdemos compensa o que ganhamos e vice e versa, se aquilo que ganhamos compensa o que perdemos.
Mais um ponto. O custo de oportunidade representa o valor associado à melhor alternativa não escolhida. O que significa? Significa que há de se levar em consideração também o fato de que a alternativa escolhida pode não trazer os benefícios que a alternativa não escolhida traria - quando escolho "a" posso estar deixando de lado benefícios que seriam mais vantajosos casa tivesse escolhido "b". O que temos é que o custo de oportunidade diz respeito também ao maior benefício que não foi obtido na escolha, ou seja, a escolha não trouxe o beneficio esperado e pior, a outra alternativa seria de fato a melhor.
Por que escolhemos algumas coisas e não outras? Por que atribuímos valor a isso e não aquilo? O que me leva a viver de uma maneira e não de outra? São questões que levam em consideração critérios de valor. Tais critérios que usamos para valorar algo estão relacionados de alguma maneira com o custa de oportunidade que vislumbramos ao escolhermos algo. O ponto central da questão se encontra exatamente nos critérios que usamos para escolher. Serão eles critérios que me possibilitarão a melhor escolha? E mais, o que seria uma boa escolha? Estamos realmente capacitados para avaliarmos entre alternativas possíveis? Será que estamos sobretudo prontos para avaliações críticas?
Alexsandro
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14/08/2010

Gente que enche o saco

Gente que lê livro de auto-ajuda e acha que está lendo filosofia.
Gente que acha que sabe do sentido da vida.
Gente que acha que escuta a melhor música do mundo.
Gente que acha que a regra vale mais que a vida.
Gente que vive em busca da "cara-metade".
Gente que acha que pagar é de fato ter direito.
Gente que acha que futebol é coisa de todo brasileiro.
Gente que acha que ser brasileiro é a melhor identidade do mundo.
Gente que acha que ter identidade é a melhor coisa do mundo.
Gente que coloca a aparência acima de tudo.
Gente que aparenta o que não sabe o que é.
Gente que despreza o que simplesmente não entende e por não entender acha que não deve possuir valor algum.
Gente que gera expectativas que não levam a nada.
Gente que ensina o que não entende e que ao invés de libertar o pensamento o torna algo difícil de funcionar.
Gente que espera por milagres.
Gente que venera a deuses mortos.
Gente que revela o pior do mundo em suas ações.

Alexsandro
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Qual o perigo que corremos diante de tanta mediocridade advinda do mundo artistico?

A vida humana é uma experiência que em grande parte dela estamos em busca de respostas para os mais diversos dilemas e problemas. É uma vida em busca de respostas para que ela própria possa ser experimentada da maneira mais plena possível, ou seja, buscamos respostas para tentar expandir a vida, renovando-a e fortalecendo-a cada instante.
A par deste fato devemos procura entender o perigo que corremos ao sermos seduzidos por obras de arte medíocres, qual seja, o de perdemos a dimensão criativa da arte em nossas próprias vidas, essa característica que a torna tão necessária para todos nós, sobretudo a uma vida que deseja a todo instante superar o momento, as forças que a constrange, as adversidade ambientes. Devemos entender que a arte, em suas diversas formas de expressão é o laboratório das experimentações para novas possibilidades de sermos outros e outras para além daquilo que se encontra determinado pela média do ambiente no qual circulamos.
Alexsandro
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26/07/2010

Pastores à beira de um ataque de nervos




Pode parecer que estamos tirando uma com a cara dos pastores evangélicos, mas o pior é que não estamos (pelo menos não dessa vez). A quem o assunto interessar é só fazer uma busca na net e verificar que o assunto é sério e verdadeiro, ou seja, muitos pastores estão surtando. Os motivos apontados são vários:
- descuido com a saúde mental;
- solidão;
- falta de acompanhamento para compartilhar seus problemas;
- ativismo ministerial;
- falta de repouso adequado;
- pressão institucional por resultados em termos de número de membros e ofertas.
Este último ponto acaba sendo o mais que mais provoca problemas. O motivo? O desencontro entre o chamado de Deus e a prática pastoral revelado no conflito interior de ser um homem de Deus, mas que vive sendo cobrado por uma organização (muitas com sentido empresarial) que os afeta com freqüentes cobranças por resultados contábeis: dízimos, ofertas, de batismos, etc. Um dia sonharam servindo a Deus e hoje se vêem como apenas mais um funcionários da OASD - Organização Arrecadadora do Sagrado Dízimo.
A coisa se complica quando os fieis confrontam seus pastores em busca de posturas mais condizentes com o cargo que ocupam, esses se vêem em conflito por serem constrangidos a agirem incoerentemente, ou melhor, de forma oposta aos princípios bíblicos e tendo certeza que os fieis notarão.
Não podemos informar com certeza até que ponto os números a seguir são coerentes, mas se forem a coisa se revela assustadora, sobretudo por saber que essas pessoas são vistas como referência em vários quesitos.
47% dos pastores evangélicos sofrem de transtornos mentais
16% têm depressão
13% Não conseguem dormir normalmente

O quadro que constatamos lendo algumas reportagens na net é o seguinte:
- pastores estressados, a ponto de explodir;
- pastores em tratamento psicológico e psiquiátrico;
- pastores com crises de depressão profunda;
- pastores tendo crises emocionais durante os sermões;
- pastores dependentes de remédios de tarja preta;
- pastores que apresentam tendências suicidas;
- pastores cujas famílias viraram a válvula de escape de seus problemas e se tornam vitimas dos seus ataques físicos e emocionais.


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13/07/2010

Um conto atemporal

Lançada como primeiro single do álbum Breakfast in America em 1979, "The Logical Song" (A canção lógica) é uma música da banda britânica Supertramp. Foi escrita e interpretada por Roger Hodgson.

A letra fala da perda da inocência. Critica o sistema educacional que não é centrado no conhecimento nem na sensibilidade, mas sobretudo na "lógica", no "bom senso" e na "coerência". A música fala de um homem que é retirado do ambiente encantado da infância e colocado na escola com o intuito de ser preparado para um futuro promissor, embora desprovido de qualquer espontaneidade. Enfim, um mundo que o preciona a ser um conformista. Perdido nesse mundo ela já não sabe quem é.





Quando eu era jovem,
Parecia que a vida era tão maravilhosa,
Um milagre,oh ela era tão bonita,mágica.
E todos os pássaros nas árvores,
Eles cantavam tão felizes,
Alegres,brincalhões,me olhando.
Mas aí eles me mandaram embora,
Para me ensinar a ser sensato,
Lógico,responsável,prático.
E mostraram um mundo
Onde eu poderia ser dependente,
Doente,intelectual,cínico.

Tem vezes,quando todo mundo dorme,
As questões correm profundas demais
Para um homem tão simples.
Por favor,me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo,
Mas por favor me diga quem eu sou.

Eu digo :
Agora cuidado com o que você diz,
Ou eles estarão te chamando de radical,
Liberal,fanático,criminoso
Você não vai assinar seu nome,
Gostaríamos de sentir que você é
Aceitável,respeitável,aprensentável,um vegetal !

À noite,quando todo mundo dorme,
As questões correm tão profundas
Para um homem tão simples.
Por favor,me diga o que aprendemos
Eu sei que soa absurdo,Mas por favor me diga quem eu sou.
Quem eu sou...


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09/07/2010

Só uma palavra me devora



A música Jura Secreta foi gravada primeiramente por Fagner.
Aqui numa versão nas vozes de Simone e Zélia Duncan.
A composição é de Sueli Costa e Abel Silva.

Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que eu não causei

Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
Do que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que eu não sofrí


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07/07/2010

Três lições copernicanas

Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo polonês,
conhecido pela teoria heliocêntrica que havia sido descrita
por Aristarco de Samos, segundo a qual o Sol se encontrava
no centro do Universo e a Terra girava em torno deste.


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Parece fácil afirmar hoje que o Sol está no centro do Sistema Solar e que os planetas giram à sua volta em órbitas elípticas. Como poderíamos pensar diferentemente, visto que este é o arranjo mais óbvio de nossa vizinhança cósmica? Na verdade a coisa não é bem assim. O que vemos é o Sol girar em torno da Terra e não o oposto. Afinal, não é o sol que nasce no leste e se põe no oeste? Fazer a Terra girar em torno do Sol é, no mínimo, contra-intuitivo. Não é à toa que apenas em 1543, com a publicação do livro de Nicolau Copérnico, onde ele descreve o Sistema Solar com o Sol no centro, é que começou – lentamente – a ficar claro que nem sempre o que vemos ou percebemos do mundo é o que corresponde à realidade. Estranha essa idéia de que o arranjo do cosmo pode ser tão distinto daquilo que o bom senso ditaria.

Esta é a primeira lição copernicana: os sentidos podem construir uma realidade falsa se não tiverem a razão ao seu lado.

Por que Copérnico resolveu desafiar dois milênios de sabedoria, baseada na filosofia de Aristóteles? A igreja havia já adotado a descrição aristotélica do cosmo, onde a Terra ocupava o centro, sendo circundada pela Lua, Sol, planetas e estrelas. A parte mais oportuna deste arranjo cósmico para a igreja era a separação que Aristóteles fazia entre o mundo sublunar, onde as mudanças e transformações materiais podiam ocorrer, e o resto do cosmo, onde tudo era eternamente igual. A decadência humana era então associada a mudanças materiais (e carnais) perto da Terra, enquanto a perfeição ficava longe, na morada de Deus. Pôr o sol no centro era destruir este arranjo, pois transformava a Terra em mais um planeta e não no centro de mudanças e transformações. E o Sol, sendo perfeito e eterno não podia pertencer à subesfera da decadência. Para pôr o Sol no centro, era necessário criar uma nova física, em que a Terra e os planetas obedecessem os mesmos princípios. Dois motivos levaram Copérnico a dar esse passo, ambos baseados em um impulso estético. O primeiro, que os movimentos celestes deveriam ser em órbitas circulares e com velocidades constantes. Essa idéia era quase que sagrada, um princípio criado por Platão, o mestre de Aristóteles. Por que o círculo? Pois ele, sendo a figura geométrica mais perfeita, onde todos os pontos são equivalentes, deveria, sem dúvida, ter sido a escolha do Demiurgo, a divindade grega que arquitetou o cosmo e suas estruturas. O segundo princípio estético usado por Copérnico era, claro, o arranjo dos planetas em torno do Sol. Conhecia-se já, na época, o período orbital dos planetas, o tempo que eles demoravam para dar uma volta completa em torno do Sol. Portanto, raciocinou Copérnico, basta arranjá-los em ordem crescente, de modo que Mercúrio, de período mais curto, fique mais perto do Sol e Saturno de período mais longo, fique mais longe (não se conheciam ainda os outros planetas Urano, Netuno e Plutão, invisíveis a olho nu). Com estes princípios estéticos, Copérnico criou um novo arranjo do Sistema Solar, desafiando o pensamento aristotélico, mesmo sem ter qualquer prova de que suas idéias estavam certas.

Esta é a segunda lição copernicana: a inspiração para a ciência muitas vezes é guiada por princípios estéticos.

Mas estética não garante precisão. Apenas através de uma confirmação direta, baseada em medidas e sua análise quantitativa, é que podemos julgar ou não a validade de uma hipótese sobre a natureza, por mais atraente ou elegante que ela seja. A estética é uma sedutora ambígua, fundamental e traiçoeira. Passaram-se mais de 50 anos até que as idéias copernicanas começaram a ser aceitas. Por que toda a demora? Será que os astrônomos da época eram incompetentes? A virada começou com Galileu e Kepler no início do século 17, ambos grandes defensores de Copérnico, por motivos diferentes. A razão foi a falta de confirmação observacional dessas idéias, aliada a um número relativamente pequeno de pessoas trabalhando em astronomia na época. Mais ainda, a posição da igreja e dos luteranos também não ajudava muito. Os seguidores de Copérnico tiveram um trabalho muito maior do o próprio, pois eles tiveram de testar as idéias e aprimorá-las, como foi o caso de Kepler com as órbitas elípticas, que seriam extremamente "feias" para Copérnico.

Esta é a terceira lição copernicana: em ciência, como em qualquer outra atividade criativa, ninguém pode trabalhar sozinho. O conhecimento é como uma corrente em que cada idéia é um elo, uns mais fracos, outros mais fortes, forjados todos pela nossa curiosidade.

Marcelo Gleiser


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