01/10/2009

O que é Desejo para Gilles Deleuze

Achávamos que as pessoas antes de nós não tinham entendido bem o que era o desejo, ou seja, fazíamos nossa tarefa de filósofo, pretendíamos propor um novo conceito de desejo. As pessoas, quando não fazem filosofia, não devem crer que é um conceito muito abstrato, ao contrário, ele remete a coisas bem simples, concretas. Veremos isso. Não há conceito filosófico que não remeta a determinações não filosóficas, é simples, é bem concreto. Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto. Não é complicado. Nossa questão era: qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis? Quero dizer, não desejo uma mulher, tenho vergonha de dizer uma coisa dessas. Proust disse, e é bonito em Proust: não desejo uma mulher, desejo também uma paisagem envolta nessa mulher, paisagem que posso não conhecer, que pressinto e enquanto não tiver desenrolado a paisagem que a envolve, não ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará, ficará insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos, mulher, paisagem, mas é algo bem diferente. Quando uma mulher diz: desejo um vestido, desejo tal vestido, tal chemisier, é evidente que não deseja tal vestido em abstrato. Ela o deseja em um contexto de vida dela, que ela vai organizar o desejo em relação não apenas com uma paisagem, mas com pessoas que são suas amigas, ou que não são suas amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto. Podemos voltar, são fatos, ao que dizíamos há pouco sobre o álcool, beber. Beber nunca quis dizer: desejo beber e pronto. Quer dizer: ou desejo beber sozinho, trabalhando, ou beber sozinho, repousando, ou ir encontrar os amigos para beber, ir a um certo bar. Não há desejo que não corra para um agenciamento. O desejo sempre foi, para mim, se procuro o termo abstrato que corresponde a desejo, diria: é construtivismo. Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol…


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27/09/2009

Lilith - Duas pequenas notas sobre a primeira mulher de Adão

Nota 1:
Quem se debruça atentamente sobre o texto do Gênesis para ler o mito hebraico da criação do Homem, há de perceber a presença de duas narrativas distintas.
No capítulo 1 do livro, Deus cria, no "último dia da Criação", o primeiro casal de humanos: homem e mulher são criados juntos, num mesmo momento, da mesma maneira.
No capítulo 2, o homem é criado primeiro, enquanto a mulher só nasce posteriormente, a partir de uma costela do macho.
Alguns estudiosos judeus tentaram explicar a contradição sugerindo que o Gênesis mostra ter havido duas criações: na primeira, Deus criou os seres humanos em geral; na segunda, criou um homem especial, seu predileto, do qual derivou a "raça adâmica" (descendentes de Adão), ou seja, os hebreus.(1)
Mas os historiadores que pesquisam a chamada História Bíblica, preferem identificar nessa incongruência a presença de duas fontes diferentes, que se teriam amalgamado no Livro do Gênesis.
Essa é uma explicação razoável e muito se poderá dizer em seu favor.


Nota 2:
Lilith é referida na Cabala como a primeira mulher do bíblico Adão, sendo que em uma passagem (Patai81:455f) ela é acusada de ser a serpente que levou Eva a comer o fruto proibido. No folclore popular hebreu medieval, ela é tida como a primeira esposa de Adão, que o abandonou, partindo do Jardim do Éden por causa de uma disputa sobre igualdade dos sexos, chegando depois a ser descrita como um demônio.
De acordo com certas interpretações da criação humana em Gênesis, no Antigo Testamento, reconhecendo que havia sido criada por Deus com a mesma matéria prima, Lilith rebelou-se, recusando-se a ficar sempre em baixo durante as suas relações sexuais. Na modernidade, isso levou a popularização da noção de que Lilith foi a primeira mulher a rebelar-se contra o sistema patriarcal.
Assim dizia Lilith: ‘‘Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo? Por que ser dominada por ti? Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.’’ Quando reclamou de sua condição a Deus, ele retrucou que essa era a ordem natural, o domínio do homem sobre a mulher, dessa forma abandonou o Éden.
Três anjos foram enviados em seu encalço, porém ela se recusou a voltar. Juntou-se aos anjos caídos onde se casou com Samael que tentou Eva ao passo que Lilith Tentou a Adão os fazendo cometer adultério. Desde então o homem foi expulso do paraíso e Lilith tentaria destruir a humanidade, filhos do adultério de Adão com Eva, pois mesmo abandonando seu marido ela não aceitava sua segunda mulher. Ela então perseguiria os homens, principalmente os adúlteros, crianças e recém casados para se vingar.
Após os hebreus terem deixado a Babilônia Lilith perdeu aos poucos sua representatividade e foi limada do velho testamento. Eva é criada no sexto dia, e depois da solidão de Adão ela é criada novamente, sendo a primeira criação referente na verdade a Lilith no Gênesis.

MENSAGENS DE AUTO-AJUDA

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Se você se considera com uns quilinhos a mais, provavelmente estar.

Apenas ‘Sim‘ ou ‘Não‘ são respostas perfeitamente aceitáveis para a maioria das perguntas. Não se complique querendo explicar.

Se pinicar, coce.

Sempre que possível diga o que precisa dizer durante os comerciais.

Se algo que você diz pode ser interpretado de duas formas, e se uma delas deixar alguém triste ou magoado, diga que falou com o significado da outra forma.




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MENSAGENS DE AUTO-AJUDA

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Palavra de burro é coice.

Em tempos de sujeição, mais vale burro vivo do que sábio morto.


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26/09/2009

As relações são apostas no escuro



Em uma relação, seja de qual tipo for, é impossível determinar que ali se encontrará estabilidade e segurança eterna, tal garantia nunca houve. As relações se dão como uma aposta no escuro. Não há como prometer satisfação plena e quem espera por ela se arrisca a passar uma vida de procura. Não existe formulas para se manter uma relação ou para manter-se nela. Toda relação é única naquilo que ela pode, positiva ou negativamente, possibilitar. Não há relação perfeita, não há um encontro perfeito. O que há são imagens e modelos ideais de relações que são veiculadas de diversas formas e por vários motivos ao longo da sociedade.
Para entender tal fato devemos ter em mente que as sociedades estabelecem papeis que devem ser vividos pelos sujeitos e passa a cobrar a vivência destes papeis em toda sua expressão. Mas o fato de serem exigidos socialmente não significa que os sujeitos sejam capazes de seguir fielmente a ditaduras dos papeis sociais. De fato, esta impossibilidade acaba sendo a responsável pelo desequilíbrio presente entre aquilo que o papel define como correto e aquilo que de fato os sujeitos são capazes de viver. É nessa distância entre aquilo que foi estabelecido pelo papel e aquilo que é vivido que se encontra a fonte de grande parte dos conflitos presentes em uma relação.
Ainda nos é estranho constatar que em uma relação não se pode esperar que um entenda completamente quem o outro é, que um saiba exatamente o que o outro pensa e o que deseja. Esse fato talvez seja o mais difícil de ser vivido por duas pessoas que se sentiram atraídas. Também nos é estranho constatar que é inútil esperar que um adivinhe o pensamento do outro - vale a sentença: o pensamento não comunica. A coisa se complica quando se considera que estão implicadas duas maneiras de entender a própria relação e o sentido dela. De fato, numa relação temos duas relações: a que é vivida por um e a que é vivida pelo outro, o sentido que um e o sentido que o outro dá aquilo que experimentam juntos. Apesar de partilharem experiências, entendem essas experiências de modos diferentes, assim como entendem de modos diferentes os sentimentos envolvidos na manutenção do sentido que cada um dá aquilo que experimentam.
Diante do exposto, podemos supor que grande parte dos conflitos presente em uma relação surge em decorrência dessas dessimetrias. Quando um percebe que o outro não está em perfeita sintonia com os seus ditames cria-se um estado de insatisfação pela falta de cuidado do outro e pelo fato de um não corresponder ao modelo ideal do outro. A partir daí surgem as desavenças, as crises, as brigas, a violência e o desconforto. O vinculo afetivo está ameaçado.
Diante de tal situação, por que não pensar que as relações são perfeitas pelo simples fato das pessoas não serem perfeitas. Pelo simples fato de que não é a perfeição de um ou do outro que importa, mas a relação, não no sentido dela ser perfeita, mas dela ser ou não produtiva. A pergunta que ambos deveria fazer a relação então seria: “o que esta relação produz?” Em seguida, dependendo da resposta, decidirem que caminho seguir.
Por outro lado há o perigo de não se perceber que se embarcou em um navio cujo destino é a contínua anulação dos envolvidos. Os dois se tornaram náufragos da relação, já não tendo forças para remar, vão afundando com a relação. Os dois se tornam ínfimos e o mar em volta tende a afogá-los. Um se tornou refém do outro. Não se pode deixar de constatar que é isto que acontece em muitas relações. A dificuldade presente em ambos ou em um deles em romper o vínculo, ou mesmo de entender este vinculo de uma outra perspectiva, torna a experiência mais difícil ainda de ser superada.
É estranho perceber como é difícil por fim a infelicidade. O caminho mais seguido é aquele no qual se busca um culpado. Ninguém quer assumir a responsabilidade pelo fracasso. O “bom” é aquele que quer ficar, o “mau” é aquele que quer sair. Mas, se pensarmos bem, entenderemos quão cruel é manter alguém em uma relação que já não produz nada de bom. Os rompimentos, mesmo sendo dolorosos, são úteis e necessários.


Alexsandro A. O.


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22/09/2009

Do macaco à vergonha de ser um homem


É Mário Quintana que diz: “O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.” Pensando nessa frase faço referência a uma outra dita por Primo Levi diante do holocausto nazista e como se sentiu frente a tamanho horror: "A vergonha de ser um homem". Duas frases extremamente graves naquilo que afirmam. 
A primeira me leva a pensar sobre aquilo que estamos nos tornando, ou mesmo que já somos. Mas o que estamos nos tornando ou já somos à vista de um macaco? Claro que a referência ao animal macaco é apenas um recurso poético, uma expressão que visa criar um efeito e gerar uma sensação. Ao ler Mario Quintana penso, sobretudo, no presente particularmente estreito a que estamos submetidos. Um estreitamento tal que pode, se já não o fez, representar a morte do porvir, a nossa própria morte como humano – entendendo a relação do humano com o porvir como sendo o da nossa abertura com aquilo que se abre ao tempo, da nossa relação com aquilo que não tem medida prescrita, como aquilo que nos faz assumir nossa finitude, com aquilo que nos pode levar para além daquilo que somos, com aquilo que pode nos tornar melhores. Daí às questões: o que estamos fazendo de nós estar nos tornando melhores? O que ainda podemos fazer para nos tornarmos melhores?
Diante destas questões aparece a segunda frase, não como resposta, mas como condição básica na apresentação de uma resposta. Ou seja, qualquer resposta que venhamos a dar deve trazer a seguinte condição, qual seja, a de não nos fazer sentir a vergonha de ser um homem (ou mulher).
Tal vergonha não pode ser confundida com o sentir-se culpado ou o sentir-se vítima. Com “a vergonha de ser um homem” antevejo outras questões: como posso me tornar melhor mantendo-me em silêncio diante do mundo? Como posso me tornar melhor ficando quieto diante do mundo? Como posso tornar o mundo melhor se me resigno aos outros? Como eu, que não me sinto um culpado ou uma vítima, posso pactuar tanto para fazer sobreviver tantas coisas que são repugnantes para condição humana? Como disse Deleuze: “Nós não paramos de aprisionar a vida, de matar a vida...” Isto deveria nos enlouquecer, isto deveria nos envergonhar de sermos homens (e mulheres).


Alexsandro

Milonga Del Moro Judio (Jorge Drexler)

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A canção vale pela lição de respeito as diferenças.
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Em cada muro um lamento
Em Jerusalém, a dourada
E mil vidas mal vividas
Por causa de cada mandamento
Eu sou o pó de teu vento
Ainda que sangre de tua ferida
E cada pedra querida
Guarda meu amor mais profundo
Não existe pedra no mundo
Que valha uma vida

Eu sou um mouro judeu
Que vive com os cristãos
Não sei quem é meu deus
Nem quem são meus irmãos

Não há morte que não doa
Não há um lado ganhador
Não há mais que dor
Em outra vida que se foi
A guerra é uma terrível escola
Não importa a interpretação que viste
Perdoem-me, mas eu não me alisto
Sob nenhuma bandeira
Vale mais qualquer bobagem
Que uma (bandeira) pedaço de pano triste

Eu não dou permissão
Para matar em meu nome
Um homem não é mais que um homem
E se há deus, assim o quis
O mesmo solo em que piso
Seguirá, eu também terei ido
Rumo também ao esquecimento
Não há doutrina que não passe
E não há povo que não se ache
Crendo ser o povo escolhido


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A difícil relação entre a forma e o conteúdo

O sr. K. observava uma pintura na qual alguns objetos tinham uma forma bem arbitrária. Ele disse:
- A alguns artistas acontece, quando observam o mundo, o mesmo que aos filósofos. Na preocupação com a forma se perde o conteúdo. Certa vez trabalhei com um jardineiro. Ele me passou uma tesoura e me disse para cortar um loureiro. A árvore ficava num vaso e era alugada para festas. Por isso tinha que ter a forma de uma bola. Comecei imediatamente a cortar os brotos selvagens, mas não conseguia atingir a forma de uma bola, por mais que me esforçasse. Uma vez tirava demais de um lado, outra vez de outro. Quando finalmente ela havia se tornado uma bola, esta era pequena demais. O jardineiro falou, decepcionado: ‘Certo, isto é uma bola, mas onde está o loureiro?’
Bertolt Brecht


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20/09/2009

É muito chato ser sempre o mesmo

A identidade é apenas um jogo (não um fato determinado), apenas um procedimento para favorecer relações, relações sociais e as relações de prazer sexual que criem novas amizades, então ela é útil. Mas se a identidade se torna o problema mais importante da existência (sexual ou qualquer outra), se as pessoas pensam que elas devem “desvendar” sua “identidade própria” e que esta identidade deva tornar-se a lei, o princípio, o código de sua existência (eu sou assim, sempre fui assim, nasci assim, assim serei para todo sempre),  se a questão que se coloca continuamente é: “Isso está de acordo com minha identidade?” (com aquilo que eu sou), então eu penso que fizeram um retorno a uma forma de ética muito próxima à da heterossexualidade tradicional. Se devemos nos posicionar em relação à questão da identidade, temos que partir do fato de que somos seres únicos. Mas as relações que devemos estabelecer conosco mesmos não são relações de identidade (no sentido de já estarem determinada de forma definitiva para todo sempre), elas devem ser antes relações de diferenciação, de criação, de inovação. É muito chato ser sempre o mesmo. Nós não devemos excluir a identidade se é pelo viés desta identidade que as pessoas encontram seu prazer, mas não devemos considerar essa identidade como uma regra ética universal. (Existe sempre a possibilidade de ser outro, de me transformar em outro).

Michel Foucault


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16/09/2009

Em uma bela fábula Nietzsche explica o surgimento do conhecimento

Em algum ponto do universo, inundado por cintilações de inúmeros sistemas solares, houve, um dia, um planeta em que os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o momento de maior arrogância e mentira da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta se congelou e os animais inteligentes tiveram que morrer.


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