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02/09/2012

São eles que morrem, e não eu


O jornalismo de consumo faz do sensacionalismo seu modo de expressão. Dele nada escapa. Nada deixa de parecer “sensacional”: do bonito ao horrível, do legal ao ilegal, da merda do cachorro ao bolo de aniversário da vovó. Faz da banalidade um artigo metafísico. Faz da vergonha alheia o escândalo da moral. Ética é apenas uma abstração onírica. Priorizando o consumo, não a informação, mergulha numa sanha de atenção que não poupa nada, nem ninguém. Seu efeito no cotidiano é sentido na transformação do trágico em refresco de groselha: vemos o trágico, mas ele não nos afeta, não o sentimos, não pensamos sobre ele.

A presença no sensacionalismo, do horrível, do ilícito, do destino e da morte na vida quotidiana, é atenuada pelo modo de consumo jornalístico; o sensacionalismo é consumado, não segundo o rito cerimonial da tragédia, mas à mesa, no metrô, com café com leite. Os mortos das notícias sensacionalistas ainda que bem reais, enquanto os mortos de teatro são simulados, estão afinal mais longe do leitor do que os mortos shakespearianos o estão do espectador. As vítimas do sensacionalismo como da tragédia são projetivas, isto é, são ofertadas em sacrifício à infelicidade e à morte. A catarse é como que digerida no quotidiano, isto quer dizer que o grande tema de sacrifício “eles morrem em meu lugar”, se atenua num “são eles que morrem, e não eu". (Edgar Morin)


Alexsandro

06/05/2012

Deus e a moral

¿O que entendemos por moralidade? ¿O que a moral deve proteger? ¿E no nosso caso que vivemos sob a influência da moral cristã, o que tal moral protege? A moral cristã visa proteger (e salvar) a alma. Visa protegê-la da condenação eterna no inferno. Se assumirmos que a moral cristã parte desse princípio, as questões que se seguem são: ¿Existe alguma evidência de que o inferno cristão existe? ¿Quais as consequências de acreditar em algo assim?
Milhões de pessoas estão doentes neste momento. Milhões de pessoas estão rezando para Deus neste momento para que essas pessoas sejam curadas. Milhões de pessoas não vão ficar curadas. Milhões de pessoas estão morrendo neste momento. Milhões de pessoas estão rezando neste momento por elas (¿qual a finalidade de rezar por alguém que morreu? Não sei). Penso nos pais, nas mães, nos irmãos, esposos e esposas, avôs e avós que estão rezando neste momento por seus parentes queridos e que não serão ouvidos. O argumento que muitos vão usar é que tudo isso faz parte dos planos de Deus. Mas eu cito aqui o argumento de Epicuro:

Deus, ou quer impedir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente: o que é impossível em Deus. Se pode e não quer, é invejoso: o que, do mesmo modo, é contrário a Deus. Se nem quer nem pode, é invejoso e impotente: portanto nem sequer é Deus. Se pode e quer, que é a única coisa compatível com Deus, donde provém então existência dos males? Por que razão é que não os impede?

Em outras palavras:

Se Deus é omnipotente, omnisciente e benevolente. Então o mal não poderia continuar existindo. Se for omnipotente e omnisciente, então tem conhecimento de todo o mal e poder parar e acabar com ele, ainda assim não o faz. Então, Ele não é bom. Se for omnipotente e benevolente, então tem poder para extinguir o mal e quer fazê-lo, pois é bom. Mas não o faz, pois não sabe quanto mal existe, e onde o mal está. Então, Ele não é omnisciente. Se for omnisciente e bom, então sabe de todo o mal que existe e quer mudá-lo. Mas isso elimina a possibilidade de ser omnipotente, pois se o fosse erradicava o mal. E se Ele não for omnipotente, omnisciente e bom, então por que chama-lo de Deus?

Conclusão, um Deus que diante do mal não faz nada, ou é impotente ou malévolo.
De outra parte tiramos de Deus todo ônus pelo mau presente no mundo. Se algo bom acontece é por obra e graça de Deus. Afirmamos que Deus é bom, justo e amável. Todavia quando algo de ruim acontece, quando algo cruel e injusto acontece, algo que provoca sofrimento, ainda pior quando acontece com pessoas inocentes, afirmamos que é vontade de Deus, que ele é misterioso, que não cabe a nós questionar sua vontade, que não somos capazes de entender toda sua vontade. Que devemos nos conformar por não compreendê-Lo e que devemos confiar. E se não sabemos lidar com isso é por conta da nossa racionalidade absoluta que luta contra a maravilha e o fascínio do mistério. Enfim, Deus é insondável e devemos nos conformar, pois se nem mesmo Moisés conseguiu arrancar de deus uma resposta clara a seu respeito, ¿quem somos nós para ousarmos fazer isso? (Quando perguntado sobre qual seu nome, Deus fez questão de deixar tudo mais nebuloso do que dia de chuva forte, dizendo apenas: “Eu sou o que sou” (Êxodo 3:14)).
Em outros momentos falamos da sua sabedoria e da nossa loucura, na qual a sabedoria humana é loucura perante Deus. Os pensamentos de Deus são mais altos do que podemos atingir através de nossas faculdades humanas. Conclusão: Ele sabe certamente o que será melhor, nós é que não entendemos.


I CORINTIOS [3]
18  Ninguém se engane a si mesmo; se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se tornar sábio.
19 Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia;
20 e outra vez: O Senhor conhece as cogitações dos sábios, que são vãs.
21 Portanto ninguém se glorie nos homens; porque tudo é vosso;
22 seja Paulo, ou Apolo, ou Cefas; seja o mundo, ou a vida, ou a morte; sejam as coisas presentes, ou as vindouras, tudo é vosso,
23 e vós de Cristo, e Cristo de Deus.

O que assistimos é um jogo retórico. Em um momento entendemos Deus porque ele é amor, em outro não o entendemos porque ele é misterioso. Quando é conveniente compreender Deus, assim o fazemos, mas quando estamos diante de evidências contrárias aquelas que apresentam Deus como um ser bondoso, nos recusamos a ver. O que representa uma ação totalmente desonesta e do ponto de vista moral, repugnante.


Alexsandro

Fé e narcisismo

Frases típicas de uma fé narcisista:
Deus me ama!
Deus me fez vencedor!
Deus quer o melhor para mim!
Deus operou milagres em minha vida!
Tudo que tenho agradeço a Deus.
O Senhor é meu pastor e nada me faltará.
Em adesivos de carros lemos: Guiado por Deus. Presente de Deus. Propriedade de Deus.
¿Mas como ficam aquelas milhões de pessoas cujas vidas são qualquer coisa menos uma benção? Vidas cujo único presente foi a miséria. Vidas cujo único milagre foi o abandono. Vidas que olham e levantam as mãos para o céu e a única resposta que recebem é o brilho do sol ou a escuridão da noite, nada mais.
Pensando em tudo de bom que Deus não realiza na vida de milhões de pessoas (nem quero lembrar as crianças indefesas diante da vida e do mundo), uma fé que se alimenta de narcisismo é uma fé monstruosa. Pensar e acreditar que tudo isso é normal, viver sob tal lógica e não dar a mínima para o sofrimento dos outros seres humanos, é assumir uma perspectiva de vida das mais nefastas.


Alexsandro


Deus e a moral (II)

¿Deus possui obrigações morais ou Deus não possui obrigações morais? ¿Tudo que ele faz, ordena ou permite é bom e justo? ¿Quais as conclusões que devemos tirar das ações de Deus? ¿Quando ele manda um povo (os judeus) massacrar outro povo (os amalequitas) – matando homens, violentando e escravizando mulheres e crianças – devo ver na sua atitude um gesto bom só porque foi ele que ordenou? ¿Como encarar o massacre de crianças de forma racional e ver ai um ato de amor ou de justiça? ¿Não seria exatamente o contrário: um total descaso pelo bem-estar humano?
¿Realmente devemos acreditar que existe um ser superpoderoso, que nos ama, que é nosso pai, mas que permite a escravidão de um de seus filhos para com outro? ¿Realmente devemos acreditar que esse ser superpoderoso é superinteligente, mas que nos deixou como guia um livro confuso, antiquado, cujos preceitos morais nos mandam de volta a um tempo no qual as mulheres são seres humanos que devem obediência irrestrita a outros seres humanos (os homens) sem justificativa alguma a não ser sua divina vontade?


Alexsandro


O sacrifício de Jesus


A imagem de um homem sendo supliciado e depois crucificado para que eu e ninguém soframos no inferno é uma imagem séria e delicada quando pensada em termos de amor ou qualquer moral que vise o bem. Sacrificar um ser humano para que outro se salve é uma atitude imoral e, no seu limite, de uma selvageria desnecessária. Um sacrifício ritual que utiliza qualquer animal como oferenda para um deus já é moralmente duvidoso, ¿o que devemos pensar de um ritual que se utiliza de um ser humano?
O cristianismo é uma religião que cultua o sacrifício. Um sacrifício humano. Tirar qualquer conclusão moral positiva de algo assim requer uma ginástica mental olímpica, principalmente quando vemos pessoas boas e honestas acreditando que estão compactuando com uma moral do bem. Felizmente muitas pessoas já perceberam que deve haver algo muito estranho no fato de um deus amoroso fazer a salvação da humanidade depender de algo tão cruel e desumano.


Alexsandro

31/05/2011

A corrosiva arte de amar e ser amado

¿Você quer ser amada por qual tipo de homem? ¿Ser amada por um homem esperto, gostoso e charmoso ou por um idiota, feio e sem graça, qual você prefere? ¿Está disposta a deixar sua vida nas mãos de qualquer um? ¿Qual o melhor elogio: um vindo de um gênio ou vindo de alguém sem inteligência alguma? ¿Ser chamada de gostosa por um feioso um por um bonitão? A lógica é simples: para que a gente se sinta especial é preciso que quem esteja do nosso lado seja especial.
Não é a toa que procuramos inventar e colocar algo de especial em alguém que está do nosso lado, principalmente quando este alguém não tem nada de especial. É assim, precisamos encontrar algum motivo para nos sentirmos especiais, precisamos encontrar algum motivo no outro para que ele seja especial porque isso me torna especial. Se for feio, digo, mas é simpático, inteligente. Se for gordo, digo, mas é gostoso, faz coisas maravilhosas na cama. Se for pobre, digo, mas cuida de mim como ninguém e é tão esforçado. Mas para que meu jogo mental funcione tenho que ficar o tempo todo procurando e inventando motivos para me convencer e não fazer a cruel pergunta: ¿por que não tenho alguém especial do meu lado? ¿Onde errei? ¿Por que não escolhi melhor? ¿E se ele fosse bonito, inteligente e gostoso minha vida não seria melhor?
¿Já tentou imaginar o que é ser alguém especial para alguém especial? ¿Ser única para alguém que é único? ¿Ser a escolhida? ¿Quanto vale ser admirada por alguém que ninguém admira? Precisamos do outro para nos sentir vivos. Queremos que nossa vida faça sentido, melhor ainda se for uma vida especial proporcionada por alguém especial.
¿Qual é esse homem especial que poderia fazer de uma mulher qualquer alguém especial? A resposta pode ser corrosiva, mas pense por um minuto antes de tirar qualquer conclusão: seria um homem que pudesse ter qualquer mulher, ter todas. Afinal, se for alguém especial tenha certeza que não só você notou isso. Mas muitas, muitas outras pessoas.
¿E quais são os fatores de atração? Vários. Mas os principais são: dinheiro, inteligência e beleza. ¿Por quê? Simples também: eles aumentam as possibilidades da conquista. Vale também qualquer outro substituto, qualquer coisa que torne o homem especial. Qualquer outro atributo que faça o mesmo o papel do dinheiro, da inteligência ou da beleza.


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14/01/2010

Uma lição nietzscheana: considerar de modo diferente do desejável


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A filosofia, tal como até agora a entendi e vivi, é a vida voluntária no gelo e nos cumes - a busca de tudo o que é estranho e questionável no existir, de tudo que a moral até agora baniu.

Uma longa experiência, trazida por tais andanças pelo proíbido, ensinou-me a considerar de modo bem diferente do desejável as razões pelas quais até agora se moralizou e se idealizou.


Nietzsche


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